Como Iris Rezende vai “vestir” sua nova gestão como prefeito de Goiânia?

Com um dilema a resolver — ter sido eleito por ser o Iris “de sempre” e precisar se adaptar à nova dinâmica da política —, o prefeito tem pela frente a administração mais desafiadora de sua vida pública

O prefeito de São Paulo, João Doria, se “fantasia” de gari no primeiro dia de mandato; em Goiânia, Iris Rezende apresenta sua equipe com novidades surpreendentes e também nomes contestáveis | Fotos: Reprodução / Facebook

Não se sabe de quem foi a ideia, mas a cena do magnata e apresentador de TV João Doria (PSDB) iniciando seu mandato como prefeito de São Paulo vestido de gari, como que para ajudar na limpeza de uma praça – previamente varrida e higienizada – no Centro da capital paulista já é histórica. É a prova de que o “novo”, na política, pode envelhecer instantaneamente. Ou, mais razoavelmente de ser tido, nunca ter sido de fato novo.

Mas o fato também serviu para trazer à tona uma cena de 16 de outubro de 1983. O então governador Iris Rezende lançava mão de seu carisma natural e de sua imensa popularidade à época para fazer surgir mil casas em um dia. Era o início do “Mutirão da Moradia”, no qual ele recuperava, de uma forma mais ampla, uma prática de governo de que tinha se utilizado quando prefeito de Goiânia, entre 1966 e 1969: convocar o povo para fazer ele mesmo as obras de que a cidade necessitava. E lá estava Iris no meio da multidão pegando na colher de pedreiro e assentando tijolos na presença de repórteres e fotógrafos.

A diferença entre os dois gestos é evidente: enquanto Iris sempre teve como prática política recorrente o contato direto com as pessoas em campanhas eleitorais e atividades – de onde vem seu “brilho especial” em relação a outros da mesma carreira –, João Doria nunca teve perfil para posar de gari ou qualquer outra sinalização popularesca. Sua origem abastada serve apenas para tornar ainda mais inusitada a cena da praça.

Não interessa aqui João Doria e sua vestimenta inusitada. O ponto será o segundo personagem citado: Iris Rezende e a maneira com que pretende “vestir” sua quarta administração da capital goiana.

É difícil avaliar como será, de fato, um mandato inteiro pela primeira semana de trabalho. Mas os sinais foram menos positivos do que poderiam ser. A começar da escolha do secretariado. Iris Rezende merece crédito por ter escolhido pessoas como a médica oncologista Fátima Mrue, referência nacional em sua área de atuação profissional. É um nome novo que pode acrescentar muito à Secretaria Municipal de Saúde por sua qualificação técnica, mas é preciso lembrar que, por mais técnica que seja uma pasta na administração pública, ela continua sendo mais política que qualquer outra coisa. Ou seja, Fátima terá de saber jogar esse jogo, além de “fazer rodar” um setor chave (e complicadíssimo) para o sucesso do mandato do prefeito.

Por outro lado, dois nomes foram altamente decepcionantes. Em meio a uma Operação Lava Jato que desvela o lado mais sombrio da política, Iris Rezende repetiu Michel Temer e nomeou como secretários dois nomes totalmente questionáveis. Kleber Adorno (Cultura) e o ex-deputado Samuel Almeida (Governo) estão na mira da Justiça. O segundo já foi até condenado, em primeira instância, a sete anos de reclusão em regime semiaberto, por fraude em licitação quando era deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa. A sentença, do juiz Oscar de Oliveira Sá Neto, da 7ª Vara Criminal, foi proferida em agosto do ano passado. Esse é apenas um dos escândalos que envolvem Samuel, que teve seu nome relatado também em denúncias de funcionários fantasmas da Casa.

Kleber Adorno, por sua vez, sofre ações penais do Ministério Público Estadual (MP-GO) por estelionato, formação de quadrilha e fraude em licitações quando foi secretário da mesma pasta que voltou a ocupar em 2010 e 2011. O rombo para o erário foi avaliado em cerca de R$ 1,3 milhão.

Ficam as mesmas perguntas que foram feitas a Michel Temer (PMDB) quando nomeou Geddel Vieira Lima, Romero Jucá e outros com ficha suja na Justiça: por que arriscar a credibilidade de um governo que só se inicia com auxiliares diretos e do primeiro time tão controversos? O que leva políticos tão vividos, diante dos fatos atuais, do sentimento anticorrupção e da vigilância facilitada e acelerada pelas redes sociais, a acharem “normal” privilegiar o aspecto político e a aceitar a imposição de indicações duvidosas e potencialmente perniciosas de líderes de partidos e igrejas? Por que resistir a fazer diferente?

“Fazer diferente” é algo, no entanto, que não se pode cobrar de Iris Rezende como se cobraria de outros no lugar dele. Afinal, se ele está de volta à Prefeitura, velho conhecido da população goianiense como é, isso se dá exatamente porque os eleitores optaram por uma administração conservadora. Escolhido pelo que já foi no passado, Iris tem, portanto, o aval para repetir-se.

Ter esse aval não significa necessariamente fazer uso dele. E se Iris for mesmo uma raposa política visionária – não há nada que descredencie a pensar que ele seja –, é exatamente isso que vai deixar de fazer: repetir-se. Porém, não é para já: será necessário que a turma mais antenada interfira (ou talvez “interceda” fosse uma palavra mais adequada) diante das figuras chave que o cercam, especialmente a mulher, a ex-senadora e ex-deputada Iris Araújo (PMDB), e a filha Ana Paula Rezende – embora o prefeito escute também amigos como o ex-senador Mauro Miranda e seu chefe de Gabinete, Paulo Ortegal.

Exatamente por esse dilema – ter sido eleito por ser “aquele Iris” e, ao mesmo tempo, precisar se adaptar à nova dinâmica da política e da cidade –, o prefeito tem, provavelmente, a administração mais desafiadora de sua vida pública. Acrescente-se a isso o fator idade: aos 83 anos, apesar da impressionante vitalidade que demonstra, é mais do que natural que Iris demonstre menos ímpeto e mais cansaço. Com os cofres esvaziados (talvez menos por algum rombo herdado do que pela crise econômica que reduz as receitas dos chefes do Executivo em todas as esferas) e precisando mostrar serviço imediatamente para manter sua fama de trabalhador, o velho peemedebista pode sentir o baque. Não é o que o goianiense gostaria: seja seu eleitor ou não, é hora de lhe desejar sucesso, pelo bem da cidade.

Prioridades do mandato

Desafios como as falhas na limpeza urbana (no alto) e os alagamentos (centro) são pontos a enfrentar pela nova gestão, assim como é dever dela a manutenção e a extensão das conquistas da mobilidade urbana, como as bikes compartilhadas (acima) Foto: Bruna Aidar/ Jornal Opção

Como Iris vai conseguir conciliar o que tem de melhor de suas administrações anteriores com as necessidades que a modernização da cidade impõe a qualquer prefeito? A mais valiosa das características do político Iris Rezende sempre foi sua doação ao trabalho e sua mão pesada diante do que almeja como gestor. Ele é um trator para fazer o que quer deixar como marca – é bem verdade que ousou demais em 2004, ao prometer resolver o problema do transporte público em seis meses. Mais fácil teria sido, como se viu depois, ter virado presidente de seu Atlético Goianiense e firmar o compromisso de levar o clube à Série A.

Desta vez, nesta eleição, não houve promessas mirabolantes. O que não significa que não haja medidas a tomar para não se descaracterizar e passar a ser visto como candidato “estelionatário”, palavrinha da moda para colar em quem implementa outra prática em relação ao discurso de campanha. É o caso da implantação das subprefeituras, uma proposta tanto dele como de Vanderlan Cardoso (PSB), seu rival no segundo turno de 2016. Uma cidade como Goiânia precisa ter uma administração mais próxima da população em todas as suas regiões e a ideia de dividir o município em regiões administrativas vai ao encontro disso. Mas, porém, vai de encontro a interesses menores, de muitos vereadores que querem manter seus currais eleitorais e veem no futuro administrador (subprefeito) uma ameaça a seu poderio e controle. Da mesma forma, descentralizar é o prefeito colocar nas mãos de outrem um poder que é seu – e isso sempre foi uma dificuldade para o próprio Iris.

No que diz respeito às políticas públicas, quatro questões têm de tomar corpo desde agora na administração: segurança, saúde, mobilidade urbana e drenagem urbana. Não necessariamente nessa ordem, e cada qual com sua urgência e importância.

De fato, o item que mais atormenta o goianiense nos últimos tempos é o avanço da criminalidade. É o preço que se paga por se tornar uma metrópole e receber um contingente imenso de novos cidadãos a cada ano? Sim, mas a curva da violência tem sido bem mais acentuada do que a da migração. Mesmo que seja um dever constitucional do Estado, não dá para a Prefeitura sair pela tangente do problema. E como Iris deve encará-lo dentro do que lhe cabe, então? Não há segredo: a Guarda Municipal precisa realmente fazer as vezes de braço auxiliar da polícia, ainda que temporariamente; e os equipamentos públicos devem estar a serviço do cidadão – 100% das lâmpadas funcionando pelas ruas da cidade, mato aparado, lixo recolhido. Tudo de modo com que seja levada em consideração a já conhecida “teoria das janelas quebradas” – dos criminalistas James Wilson e George Kelling, de Harvard –, segundo a qual é preciso resolver os problemas quando eles ainda são pequenos. Se a assistência social, agora nas mãos da ex-secretária da Educação Márcia Carvalho, também cumprir bem seu papel, será outra mão na roda da Prefeitura para o combate ao problema. E tudo isso fazendo seu dever de casa, sem entrar na esfera de atribuição do governo estadual.

Um problema que mistura aspectos agudos e crônicos é a saúde. Os Cais, os Ciams, as unidades de pronto atendimento (UPAs), unidades básicas de saúde (UBSs) e outros equipamentos municipais da área estão sempre na berlinda das críticas. Um choque de gestão não é simples. Mas algo que pode ser almejado e efetivo, nesse caso, é mesmo buscar a ajuda da população. O incremento do trabalho preventivo, tanto na saúde da família como em campanhas específicas, como no combate ao mosquito Aedes aegypti, é o grande trunfo.

Por outro lado, a mobilidade urbana é algo mais amplo e que talvez necessite de maior demanda de gastos. Envolve transporte público, novos modais e atenção às calçadas. Foi o único setor em que Paulo Garcia (PT) se mostrou um pouco mais desenvolto, com a abertura de corredores para ônibus, ciclovias, o início da obra do BRT e a implantação das bicicletas compartilhadas. Um traço de Iris é retroagir em certas ações de seu antecessor. Porém, será o primeiro passo para o fracasso total se o prefeito resolver não dar sequência a qualquer dessas iniciativas – simplesmente porque elas já deveriam ter ocorrido há tempos e o que a última gestão fez foi quitar parte desse débito com os conceitos prementes de mobilidade nas grandes cidades.

O transporte público é um capítulo à parte dentro dessa seara. Pode-se dizer que os usuários dos coletivos passam por dificuldades que, além da mobilidade, atingem outras áreas de sua cidadania, como a falta de acesso à segurança e os riscos à saúde (seja física ou psicológica) pelo modo com que é tratado no sistema. Não adianta trazer frota nova, como prometeu Iris, se não mudarem os paradigmas dos empresários. O que a Prefeitura precisa fazer? Bastaria cobrar, mesmo que judicialmente, o cumprimento do que prevê o contrato de concessão. Mas há realmente vontade de fazer isso? A conferir.

Por fim, drenagem urbana. Em outras palavras, a prevenção às enxurradas e aos alagamentos e a restrição à impermeabilização do solo. Principalmente nas regiões de fundos de vale de maior densidade populacional, essas medidas podem salvar vidas. No fim da tarde de 29 de outubro – exatamente o dia da vitória de Iris Rezende no segundo turno –, um temporal por pouco não transformou a Marginal Botafogo em cenário de tragédia. Um plano de drenagem urbana precisa ser uma das principais medidas a serem desenvolvidas nesta gestão, sob pena da piora do quadro já crítico da cidade, com consequências graves.

Iris tem qualidades e defeitos, como qualquer político, mas não chegou aonde chegou à toa. Entre seus pontos positivos estão a proatividade, o carisma e a liderança inata. Ele pode e deve usá-los a serviço da população. Já sobre os defeitos – sua falta de sintonia com as novidades tecnológicas, seu centralismo administrativo, sua dificuldade em ouvir opiniões – só os fatos concretos (ou alguns poucos sujeitos privilegiados) podem fazer alguma interferência. Um samba antigo tinha como refrão “com que roupa eu vou?”. É essa a dúvida que os goianienses têm sobre a “vestimenta” da gestão de Iris Rezende. O tempo, em breve, revelará o figurino.