As duas saídas para o drama das inundações em Goiânia: ou agir ou rezar

Temporal na capital virou sinônimo de apreensão, com alagamentos cada vez mais frequentes. Próxima gestão terá de priorizar o ataque ao problema para evitar tragédias

Pista da Marginal Botafogo após o temporal de 30 de outubro: deficiência na drenagem urbnana faz a via se tornar um dos pontos mais vulneráveis quando há tempestades | Foto: Arsênio Neiva

Pista da Marginal Botafogo após o temporal de 30 de outubro: deficiência na drenagem urbnana faz a via se tornar um dos pontos mais vulneráveis quando há tempestades | Foto: Arsênio Neiva

Elder Dias

A Marginal Botafogo é certamente a via mais importante para o tráfego entre as regiões sul e nor­te/noroeste de Goiânia. Exa­tamente por isso tem sempre um fluxo constante, mesmo aos fins de semana. Nesses dias, entretanto, o movimento é sempre mais tranquilo do que no meio de semana, em que os congestionamentos são rotina e um acidente de pequena monta causa filas quilométricas, mesmo fora dos horários de rush. Com seu formato “caixote”, de poucas saídas, quem entra na marginal sabe que pode ficar imobilizado com alguma eventualidade, sem o que fazer a não ser esperar.

Por isso mesmo, os céus foram misericordiosos ao mandar o maior temporal da estação para aquele domingo, 30 de outubro. Era fim da tarde de dia de eleição e as urnas do segundo turno na capital ainda caminhavam para a base de apuração no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), onde revelariam a vitória de Iris Rezende (PMDB) para administrar Goiânia pela quarta vez. Se a mesma tempestade ocorresse 24 horas depois, no tráfego da saída do trabalho de uma segunda-feira, o volume de água somado ao volume de carros resultaria em uma probabilidade considerável de as manchetes dos jornais de terça nada terem a ver com algum “day after” da eleição, mas com a concretização de uma tragédia anunciada.

O trecho da Marginal Botafogo compreendido entre a ponte da Avenida Fued José Sebba (antiga Avenida B), no Jardim Goiás, e a da Avenida Independência, no Centro, é o mais antigo e também geralmente é o mais afetado. Não foi diferente desta vez. Das paredes de concreto embaixo das estruturas desciam cascatas aterrorizantes. Alguns, mais corajosos, fizeram filmagens do próprio drama. Outros fotografaram os estragos pós-temporal, que interditaram por três dias o trecho próximo ao Parque Mutirama, no sentido norte-sul.

Não é de hoje que são dados os avisos de que os transtornos hidrológicos naquele local, assim como em Goiânia toda, podem se transformar em tragédias. E tragédias anunciadas não são tragédias, mas crimes de responsabilidade. Não por outro motivo, as autoridades competentes deveriam se preocupar: uma morte pode gerar transtornos penais, mais que eleitorais.

O problema tem nome: chama-se drenagem urbana. E, na recente campanha eleitoral de que elegeu Iris prefeito, provavelmente o eleitor não ouviu sequer uma vez nada relacionado diretamente a esse tema, nem do candidato vencedor nem dos vencidos. É que, assim como o saneamento básico, a drenagem também é algo que não “aparece”. Então, em termos de voto, falar em reformar toda a estrutura hidráulica da capital rende muito menos do que prometer asfaltar e reasfaltar toda a cidade.

Ocorre que, como se pode ver quando chove, parece – e é algo real – cada vez mais urgente encontrar solução para os alagamentos, que se intensificam. E por que o quadro está se agravando? Aqui, ao contrário da expressão consagrada, o problema “é mais em cima”: a impermeabilização do solo tem causado a deficiência de absorção das precipitações pluviométricas e essa água das chuvas cai praticamente já formando grandes enxurradas.

Com os bueiros tradicionalmente entupidos – e isso é tema para outra matéria, que falaria sobre falta de estrutura para depósito de resíduos e falta de cultura de higiene da população –, o que acontece é a água formar rapidamente uma lâmina sobre o asfalto. Lâmina que vira córrego ou riacho e que, por vezes, leva motos e carros consigo. Ou pelo menos mesas e cadeiras, como ocorreu com o Bar Glória, no Setor Oeste, no mesmo temporal que parou a marginal. É que embaixo da Rua 101, que passa em frente ao estabelecimento, está o Córrego Buritis, há décadas totalmente oculto da paisagem urbana, mas que nasce no Clube dos Oficiais e forma, mais abaixo, o lago do Bosque dos Buritis.

Agrônomo Henrique Costa, da Saneago: “Drenagem deficiente causa impacto na qualidade da água” | Fernando Leite/Jornal Opção

Agrônomo Henrique Costa, da Saneago: “Drenagem deficiente causa impacto na qualidade da água” | Fernando Leite/Jornal Opção

O que tem havido, por enquanto, são apenas perdas materiais. Para evitar danos mais graves e minimizar esses prejuízos, é preciso vontade política. Daí novamente vem a figura de Iris. Prefeito pela quarta vez, é um especialista em abrir caminho para empreendimentos imobiliários e pavimentações. Por outro lado, até hoje o mesmo empenho não foi observado em relação à redução do impacto das águas das chuvas.

O prefeito eleito tem falado em rever a concessão da Saneago no município. Alega que o custo tem sido alto em vista do serviço oferecido. Mal sabe a população que parte da limitação da estatal se dá por conta da falta de drenagem urbana. Uma das missões da empresa é cuidar da qualidade da água. A falta de planejamento urbano, com a ocupação irregular de áreas – ou regular, mas inadequada, quando acima do ponto de captação das águas –, faz com que os gastos se multipliquem. Servidor de carreira da Saneago, o engenheiro agrônomo Henrique Luiz de Araújo Costa é também vice-presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Meia Ponte. Ele confirma que qualquer tempestade em uma área urbana a montante da captação causa preocupação ao sistema. “A Saneago tem o desafio de entregar água potável, mas não tem o controle sobre a bacia. Imagine, então, o que uma chuva dessas pode trazer de resíduos para os cursos d’água.”

Para sua próxima gestão, o prefeito eleito promete mais asfalto e mais conjuntos habitacionais, como não poderia deixar de ser. Obviamente, além de políticas “boas de voto”, são também necessidades da população, embora a forma de conduzi-las nem sempre seja a mais condizente com a sustentabilidade. Por exemplo, será que sua opção para dar mais moradias será com a expansão da área urbana no município, mesmo tendo mais de 120 mil lotes vagos no perímetro atual?

Ironicamente, a impermeabilização, além de causar inundações, tem sido responsável pelo sumiço das águas, porque acaba com as áreas de nascente. É o que tem acontecido no Jardim Goiás, cuja expansão em redor do Parque Flamboyant gerou um “paliteiro” que impactou de forma acentuada na intensidade das inundações “abaixo”, na Marginal Botafogo; é o que ocorreu na área ao redor do complexo da Cargill, onde chácaras deram lugar a pátios para caminhões de empresas de logística, sepultando centenas de olhos d’água a centenas de metros do Rio Meia Ponte, nas Chácaras Retiro. Coincidência ou não, ambas as empreitadas se iniciaram com sinal verde de Iris: a Cargill um dia foi a Arisco, que recebeu incentivos privilegiados para ali se instalar durante a primeira gestão do peemedebista como governador; da mesma forma, foi com Iris Rezende prefeito que o Automóvel Clube de Goiânia deu lugar ao conjunto de prédios de alto padrão no alto do Jardim Goiás.

Assim como promoveu esse tipo de desenvolvimento, causando grande impacto ambiental, Iris pode conseguir reverter ou minimizar o quadro. Basta que dê atenção à questão da drenagem urbana. Pode começar buscando soluções com os grupos organizados da sociedade como os conselhos regionais de engenheiros (Crea) e urbanistas (CAU) e as instituições acadêmicas e científicas.

“A drenagem urbana sempre foi o “patinho feio”, somente é lembrada quando há uma tragédia”

Professor Joel Goldenfum, da UFRGS, doutor em Hidrologia: “Nosso modelo de urbanização é inadequado para a drenagem urbana” | Foto: Divulgação

Professor Joel Goldenfum, da UFRGS, doutor em Hidrologia: “Nosso modelo de urbanização é inadequado para a drenagem urbana” | Foto: Divulgação

Uma das grandes referências do assunto no País, o engenheiro e professor Joel Avruch Goldenfum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esteve em Goiânia na quarta-feira, 9, para ministrar palestra no Workshop sobre Drenagem Urbana, promovido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO). Formado em Engenharia Civil pela instituição, ele fez doutorado em Hidrologia pelo Imperial College (Universidade de Londres) e tem pós-doutorado em Drenagem Urbana pelo Instituto Nacional de Ciências Aplicadas de Lyon, na França.

Em entrevista ao Jornal Opção, Joel ressaltou que a drenagem urbana ainda é negligenciada pelo poder público no Brasil, de forma geral, mas acredita que o aumento dos eventos extremos nos últimos anos – que, por sua vez, em ambientes urbanos, resultam também da grande impermeabilização do solo. “É um problema que está cada vez mais urgente”, avalia.

A inundação de marginais é um problema comum das grandes cidades e não é diferente em Goiânia, no caso da Marginal Botafogo. É uma situação crônica e que demandará um trabalho em longo prazo para ser solucionada. Mas existe uma alternativa para remediá-la, alguma medida que possa ser tomada de forma mais imediata para mitigar esse drama?
É preciso tomar uma decisão sobre o que precisa ser feito. Há áreas que ainda não foram ocupadas, ou pelo menos que não estão ocupadas de forma regular. Então, talvez fosse adequado pensar na relocação dessas ocupações em áreas de risco e fazer ações de saneamento para melhorar a qualidade do curso d’água.

A canalização do Córrego Botafogo é a obra mais antiga desse tipo em Goiânia.
Sim, e devemos repensar as obras. Mas melhoria de canal geralmente não resolve o problema, apenas o transfere para outro lugar.

Seria como os viadutos são para o tráfego urbano, que apenas repassam o congestionamento para o cruzamento seguinte?
Em uma comparação simples, seria isso. Dependendo do caso, é possível fazer essa transferência com sucesso; em outros, não. Isso exige um estudo detalhado, mas que não deve ser feito só para o córrego, no caso o Botafogo, mas para todo o sistema. É um sistema único, que deve ser pensado em seu todo, porque, se pensarmos só em uma parte, acabamos criando problemas nas outras partes.

É sempre viável ter soluções de remediação, de curto prazo, mas o foco maior tem de ser em planejamento do uso do espaço, em sua alocação, no que fazer e onde fazer. É possível haver a mesma inundação, mas com redução de danos, se houver uma ocupação adequada. Basta para isso que haja equipamentos urbanos que possam conviver com inundações – como, por exemplo, uma quadra de futebol de várzea, uma jardim, uma praça. Qualquer coisa assim pode ser um reservatório do tipo, ainda que de forma “disfarçada”.

Em Goiânia, a região da Marginal Botafogo é praticamente o fundo de vale de toda a região central, ou seja, já haveria esse transtorno de qualquer forma. Mas a impermeabilização, mais recente, de grande parte do Jardim Goiás parece ter agravado o quadro.
É preciso ressaltar que o asfalto das marginais, em si, não causa tanto impacto. Não é por causa daquela via, mas por conta de toda a urbanização que está ocorrendo na região, por causa do aumento da intensidade das águas que vêm das áreas altas. Nosso modelo de urbanização tem sido totalmente inadequado quando se pensa em impactos na drenagem urbana.

Goiânia tem alguma característica específica em relação a outras metrópoles?
De uma forma geral, todas as grandes cidades brasileiras têm problemas semelhantes, cada uma com suas particularidades, nunca existem problemas exatamente iguais. Já participei de planos diretores de cidades de 8 mil até 3 milhões habitantes. Trabalhei em Caxias do Sul (RS), Curitiba, Porto Alegre, Eldorado do Sul e Tubarão (SC), onde estou prestando serviços agora. Cada cidade tem sua característica – Tubarão é plana e tem efeitos da maré, Caxias é muito inclinada e com rochas aflorantes, por exemplo. Uma solução preconizada para Goiânia, de infiltração, que poderia ser aplicada aqui, não vale para Caxias do Sul, então.

A Carta de Risco de Goiânia mostra que o município possui vários tipos de solo. Até que ponto isso deve ser levado em conta?
É preciso que haja um plano diretor de drenagem urbana tem de fazer parte do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental da cidade e estar alinhado com os planos de manejo de resíduos sólidos, de tráfego e todos os demais. Esse plano para a drenagem, se elaborado, pode até cumprir uma parte – a sua, especificamente. Mas a cidade não vai funcionar apenas com ele sozinho. Se, por exemplo, há resíduos sólidos entrando na rede (pluvial), a rede vai ficar entupida e não adianta.

Vivemos um cenário de crise econômica, e as prefeituras em geral estão com pouquíssimo ou nenhum caixa. Nesse contexto, que posição passa a ocupar uma política pública como a drenagem urbana?
A drenagem urbana sempre foi o “patinho feio” da engenharia, principalmente no setor público. Ela só é lembrada, geralmente, quando há uma tragédia. Mas, como esses eventos estão cada vez mais frequentes – e estão mais frequentes porque há cada vez mais ocupações inadequadas –, todos nós temos a impressão de que a questão piora a cada ano piora. Não é impressão, está ocorrendo de verdade, e isso porque se impermeabiliza cada vez mais “para cima” (nas partes altas da cidade). A cidade aumenta e isso traz o resultado mais grave “para baixo” (os fundos de vale). Por isso, o problema está mais urgente. A questão é que há tantos problemas a resolver numa cidade que o gestor é que precisa saber a prioridade.

Em Goiânia temos pelo menos 100 mil lotes vagos na área urbana já existente e fala-se em expansão urbana. A localidade mais intocada – ou menos ocupada – é a região norte, que está a montante das águas do Rio Meia Ponte. É uma área que deve ser preservada no que ainda resta ou pode ser ocupada?
Toda região pode ser ocupada, não vejo problema. Não sou contra a ocupação, mas sim contra uma ocupação não regulamentada. É preciso que a urbanização seja controlada, e assim a ocupação se dará de maneira extremamente agradável, onde seja bom para morar e sem causar efeitos. Temos um princípio muito usado na parte de drenagem urbana, que é o impacto zero: nenhum novo empreendimento deve geral maior impacto do que o já existente quando de sua implantação. Só que isso deve ser regulamento por leis, a partir do Plano Diretor.

Goiânia é uma cidade relativamente nova. Já não poderia ter enfrentado esses desafios de drenagem em seu planejamento inicial?
Os primeiros conceitos de drenagem urbana, para controle do problema, surgiram na década de 70, e os dispositivos que agregaram a sustentabilidade vieram já nos anos 90. Ou seja, quando Goiânia foi criada não havia como ter acesso isso, a não ser na cabeça de pessoas como Saturnino de Brito [1864-1929, pioneiro da engenharia sanitária e ambiental no País, área da qual é considerado “patrono”]. Muito à frente de seu tempo, ele fez sistemas para João Pessoa, Pelotas, Santos e outras cidades no início do século 20. l

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Elder Dias, mais uma vez, demonstra talento e preparo. A título de contribuição lembro que faltou abordar a ação – penso eu, equivocada – do então prefeito Nion Albernaz, primeiro construtor da ‘Marginal Botafogo’. Desde 1990 engenheiros, ambientalistas e o MP alertavam que o local não era apropriado para construção de uma via daquele porte. A maioria reprovava, no mínimo, a concepção da obra conforme proposta. Muito antes, o Córrego Botafogo não tinha o curso que hoje vemos canalizado. No início de Goiânia, era cheio de curvas, região de brejo que alagava no período chuvoso. Ocorre que ele foi alinhado… Leia mais
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