Apesar da bagunça política, atividade econômica melhora

Enquanto Dilma Rousseff esteve na Presidência, qualquer tranco na política em Brasília refletia negativamente na economia. Agora, apesar da incerteza ter aumentado, o país começa a retomar crescimento

O Brasil não se explica. Não tem como. Entre 2015 e 2016, ainda sob a Presidência de Dilma Roussef, crises políticas atrapalhavam as atividades econômicas. Com Michel Temer, o que era ruim no campo da política bagunçou de vez. Não há nenhum parâmetro de comparação sobre os trancos políticos com Dilma e o caos absoluto com Temer. A começar pelo próprio presidente, acusado de corrupção passiva. Pelo menos nesse aspecto, Dilma não sofreu nenhuma acusação direta nesse nível.

Embora a política viva uma das piores crises da história do Brasil, as atividades econômicas vão sendo retomadas lentamente. Muito lentamente, diga-se. Há analistas de mercado que acreditam que na realidade o país ainda não se desgarrou da crise. Somente parou de piorar. A maioria, no entanto, vê com olhar mais otimista, e prevê um leve crescimento este ano, entre 0,5% e 0,3%, e mais substancial em 2018, ano da eleição.

FGTS

Michel Temer carrega no ufanismo ao se referir à profusão de indicadores positivos, como se tudo fosse obra do governo. Não é. Tudo, não, mas alguma coisa, sim. O discurso em relação ao rigor fiscal, que remete ao esteio da matriz econômica que balizou o plano real, a estabilização do dólar em níveis aceitáveis e a queda vertiginosa da inflação de certa forma criam um ambiente econômico muito melhor e mais agradável do que havia antes, sob o comando da presidente Dilma.

Ainda assim, vale destacar que a liberação do saldo inativo do FGTS para milhões de trabalhadores durante o primeiro semestre, contribuiu muitíssimo para margens mínimas de crescimento em alguns setores, e ótimo desempenho em outros, como o das montadoras de veículos e indústria de embalagens – o que é sempre um termômetro de expectativa futura. É possível que ainda surja um ou outro mês com queda, mas a tendência parece ser mesmo a de que 2017 será marcado como o início do fim da recessão que dizimou a economia brasileira durante dois anos seguidos, além de 2014, que só ficou no zero a zero por causa de providencial mudança no sistema de medição oficial.

Mas por que a crise política com Dilma massacrava a economia e a bagunça total com Temer não provoca efeito colateral igual ou pior? Aqui entra um pouco aquela história de que não há como explicar o Brasil. Há, obviamente, elementos e argumentações que tentam justificar o momento melhor na economia diante da piora na política. No fundo, o que existe é, segundo analistas ligados aos grandes bancos de investimento, uma crença generalizada de que não interessa muito o que acontece ou vai acontecer politicamente com o governo, desde que não se perca o fio da condução da política econômica implantada pelo ministro Henrique Meirelles e sua equipe. Enquanto houver esse tipo de certeza, e aparentemente isso deve mesmo continuar como está, nem o impressionante déficit de quase 140 bilhões de reais previstos oficialmente, está atrapalhando a perspectiva geral de melhoria.

O grande problema é, e vai continuar sendo, a massa desempregada ou subempregada. Somando tudo, a força de trabalho ociosa no Brasil alcança cerca de 25 milhões de brasileiros. Todo esse contingente não está consumindo, o que naturalmente impede uma retomada mais rápida. E mesmo com a reforma da lei trabalhista, o ritmo de novas vagas continuará lento e bastante baixo. Aqui entra um outro fator que também é ressaltado pelos economistas: as fábricas tem uma incrível ociosidade. Então, seria necessário mais, muito mais, atividade econômica para acabar com esse problema e começar então a gerar mais demanda de mão de obra.

O curioso disso tudo, e aqui mais uma vez entra o Brasil inexplicável, é que, sim, há motivos para ser otimista. Afinal, se politicamente o país está atolado até o último fio de cabelo num mar de lama, pelo menos houve um descolamento total entre a economia e a política. O resto virá com o tempo.

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