28/08/13
Mercado Negro
Tráfico de órgãos: o horror do crime "invisível"
Pouco investigado e altamente lucrativo, ele começa a ser cada dia mais explícito. Na China, os presidiários são os que mais sofrem com a prática

Sarah Teófilo

Quem nunca ouviu falar sobre a lenda urbana da banheira de gelo? Um jovem vai para uma festa, conhece uma garota, que o leva para um hotel. Lá, ele é sedado e quando acorda está com uma parte do corpo costurada, dentro de uma banheira cheia de gelo. Esta história vem sendo contada, mas ninguém sequer pensar sobre o assunto. No entanto, o relato caracteriza um crime grave, recorrente no século XXI: o tráfico de órgãos.

A fila para transplantes de fígado no Rio de Janeiro tem entre 400 e 500 pessoas, sendo que, de acordo com o coordenador do Centro Estadual de Transplantes, o médico Lúcio Pacheco, a meta é que sejam realizados 100 transplantes até o final de 2013. Ou seja, de 300 a 400 pessoas não receberão o órgão. E é claro que, por este motivo, o negócio se tornou bastante lucrativo. Pessoas pagam uma fortuna para salvarem suas vidas e de seus familiares.

Na última terça-feira (28/8), uma criança chinesa de apenas seis anos teve os olhos extirpados. O crime contra o menino, que mora com os pais em uma região rural e pobre da China, chocou o mundo e causou indignação. Isto em um país que institui um drástico controle de natalidade, o qual influencia em outro crime, que é o tráfico de crianças, além do assassinato de recém-nascidos.

Quase 300 mil pacientes precisam de transplante na China, de acordo com organizações de defesa dos direitos humanos. Mas apenas 10 mil conseguem doadores. Em 2005, no Centro de Assistência da Rede de Transplante Internacional da China havia uma lista com os preços de alguns órgãos. Um rim custava US$ 62 mil, um fígado entre US$ 98 e US$ 130 mil, e um pulmão entre US$ 150 e US$ 170 mil. Muitas destas informações foram removidas dos sites de centros de transplante da China após surgirem alegações, em 2006, sobre a coleta de órgãos ilegal e em massa no país.

Muitos estrangeiros ricos vão à China na certeza de que irão conseguir obter um transplante. A maior fonte de órgãos na China são os prisioneiros condenados à pena de morte. Os condenados à morte tem seus órgãos retirados, sem que suas famílias sejam consultadas. Apenas em 2012 a China começou a discutir a proibição desta prática, que de acordo com o governo, será extinta até 2015.

O diretor do Instituto de Convergência de Ciências Avançadas dos EUA, Ashok Vaseashta, afirma que cerca de US$ 50 bilhões são arrecadados anualmente por traficantes de órgãos todos os anos. O documentário “Entre a Vida e a Morte” denuncia como ocorre o tráfico de órgãos na China. Um crime pouco pensado pelos governantes, mas muito recorrente.

O terceiro crime mais lucrativo do mundo é tema de diversos filmes. “Coisas belas e sujas”, protagonizado pela atriz francesa Audrey Tautou, aborda o crime de uma forma nua. O longa mostra a vida dos imigrantes em Londres; pessoas que servem de várias formas ao país, com longas jornadas de trabalho e mão-de-obra barata. Além desta exploração, são alvos do tráfico de órgãos e exploração sexual.

De acordo com estatísticas da Central de Notificações, Distribuição e Captação de Órgão do Estado de Goiás (CNCDO/GO), divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado de Goiás, no primeiro semestre de 2010 foram realizados 258 transplantes, sendo que a lista de espera era de 3.250 pessoas. Já em 2013, apenas no 1º semestre, foram contabilizados pela secretaria 5.319 pessoas na lista de espera por um órgão. Deste número, apenas 350 transplantes foram feitos.

O alarmante no fato deste ser o 3º crime mais lucrativo no mundo é pensar que para estar neste patamar, muitas figuras que deviam dar assistência à população estejam envolvidas ou que ele não seja considerado um crime tão grave assim. Em maio deste ano, uma menina de oito anos foi supostamente vítima deste mercado. Segundo o jornal estadunidense, New York Daily News, a criança estava passando as férias na Índia com a família, e teria ido ao hospital com um caso leve de desidratação. No entanto, morreu supostamente após ter sido aplicada uma injeção com líquido não identificado.  Quando seu corpo foi levado de volta para a Inglaterra, onde morava com os pais, descobriu-se que todos os seus órgãos haviam sido retirados sem autorização da família

Esses e alguns outros casos aparecem, de tempos em tempos e assustam a população em geral. Pela quantidade de pessoas em filas de transplantes, pode-se entender como o tráfico é tão lucrativo. Diferentemente do tráfico de drogas, este é um crime invisível, pouco investigado.  Ele viola os direitos humanos fundamentais, e mesmo assim permanece fora do foco de autoridades e governos. Talvez se houvesse uma melhor conscientização para que as pessoas doem seus órgãos o número de pacientes na fila diminuiria. Mas o mercado negro é sempre mais lucrativo para alguns.