22/07/13
Artigo
O glamour do terrorista Tsarnaev e do pequizeiro Leonardo Pareja
Uma análise sobre a capa de agosto da revista norte-americana Rolling Stone, as fotografias da perseguição ao terrorista de Boston e o popstar do pequi, que comandou o maior motim da história brasileira, em Goiânia
Sean Murphy/Boston Magazine
Henrie-Cartir Bresson disse que fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração. Foi assim que Tsarnaev foi congelado nas imagens: com a mira vermelha de uma arma brilhando em sua cabeça

Marcello Dantas

A divulgação

Na última sexta-feira (19/7) um sargento da polícia de Massachusetts, nos Estados Unidos, divulgou algumas fotografias feitas por ele durante a caçada a um dos irmãos responsáveis pelos ataques terroristas de Boston. O autor das fotos foi o sargento Sean Murphy e o fotografado era Dzhokhar Tsarnaev, de 19 anos. Com o irmão mais velho, Tamerlan (morto em tiroteio com policiais), foi responsável pelo ataque terrorista em abril passado que voltou a assombrar os norte-americanos após o fatídico 11 de setembro de 2001.

Fotografar e atirar: é só mirar

Ao analisar as imagens feitas pelo militar, é possível lembrar de uma inteligente frase do fotógrafo francês Henrie-Cartir Bresson. Ele disse que fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração. Pois foi bem assim que Dzhokhar Tsarnaev foi congelado nas imagens. Com cabelos bagunçados, sangrando e, “principalmente”, com a mira vermelha de uma arma brilhando em sua cabeça. Nas imagens, o ponto vermelho se destaca bem mais que as manchas sanguíneas espalhadas pelo rosto.

A verdadeira face do terror

A divulgação da sequência de fotografias do terrorista – encontrado em um barco quatro dias depois das explosões, nos arredores de Boston – foi uma resposta de Sean Murphy à edição do mês de agosto da revista norte-americana Rolling Stone. A publicação trouxe em sua capa um retrato de Tsarnaev com o título “O Homem-Bomba”, que o descreveu como um estudante popular que se tornou um monstro ao aderir ao radicalismo do Islã. Indignado, o sargento-fotógrafo disse ter entregue as fotos para a “Boston Magazine” para que todos soubessem a verdadeira face do jovem.

O policial disse que a capa da “Rolling Stone” foi “um insulto” e completou: a fotografia da revista “glamoriza o terror”. Sean Murphy disse que já sabia que seria punido pela atitude, mas, antes de tudo, precisava prestar esse “serviço” à sociedade americana e mundial. E é aí que podemos resgatar o tema ao Brasil, à região Centro-Oeste e, principalmente, para Goiânia.

Tsarnaev que comeu pequi sem morder os espinhos

Preocupados em publicar rapidamente as notícias, os furos, aquela instantaneidade intrínseca aos fatos – como a rapidez de uma foto digital, que é capturada, visualizada e muitas vezes apagada em seguida – muitos veículos de comunicação esqueceram de analisar uma questão interessante, que foi lembrada pelo policial Sean Murphy. Realmente é necessário divulgar daquela maneira a imagem de um jovem terrorista que matou três pessoas, entre elas uma criança de três anos, e deixou mais de 260 feridos?

A comparação

A experiente jornalista Eliane Cantanhêde disse em um programa de televisão de canal fechado que, nos EUA, compararam a capa de Dzhokhar Tsarnaev a outra, publicada quando o terrorista ainda nem pensava em nascer. E nem eu. Nela, estava estampado simplesmente Jim Morrison, o lendário vocalista da banda norte-americana The Doors. Para alguns, Morrison não é lá um exemplo para que o filho siga, mas com certeza a genialidade registrada em suas composições teve uma recepção mais positiva que o ato dos irmãos Tsarnaev.

A lembrança

No mesmo programa, foi o jornalista Gerson Camarotti que, ao analisar a polêmica capa da Rolling Stone e a divulgação das fotos do sargento, lembrou de Leonardo Pareja, um dos bandidos mais badalados pela mídia brasileira. Como Tsarnaev e Morrison, Pareja foi estampado na capa da revista Veja em abril de 1996 (mesmo mês dos ataques de Boston) com o título “O Bandido e os Otários – Como Leonardo Pareja fez a polícia de boba”. A “Veja” é conhecida pelos espetáculos, o "shownarlismo", como dizem na universidade.

Um detalhe: na fotografia publicada na capa, ele aparece com um boné preto com uma propaganda do Posto Uruaçu, que hoje não existe mais na cidade. Isso, porque na sua fuga para a Bahia após a rebelião ele passou pela cidade do Norte goiano.



A Vida bandida

Mas independente do caminho dado pelo veículo de comunicação, Leonardo Pareja foi também objeto de documentário. “Vida Bandida”, com direção de Régis Farias, foi feito no mesmo ano de 1996 e já foi exibido até por uma emissora de televisão pública, a TV Brasil. A produção mostra um recorte da trajetória do “bandido de classe média” de “ações espetaculares” que o levaram a morte “prematura e covarde”.

Leonardo Pareja foi o responsável por assombrar o então governador Maguito Vilela (PMDB) e, como disse a própria “Veja”, por que não o então ministro da Justiça Nelson Jobim? O criminoso-popstar de Goiás, com 22 anos, sem falar dos outros crimes, foi o protagonista do mais longo motim da história policial brasileira, ocorrido em Goiânia.

E foi Pareja, condenado a nove anos por roubo e assalto a mão armada, quem promoveu as negociações entre presos e a Segurança Pública do governo de Goiás. Por dias, ele estampou capas dos diários da capital e manipulou aqueles que são costumados a manipular.

Interpretar até o fim

Em seu documentário, Leonardo Pareja diz que ele interpretou até o fim, melhor que os atores de filme e novela: “Eu tenho que representar 24 horas por dia, tenho que representar e não falhar”. Em momentos de tensão em um assalto em Minas Gerais, “o cara” tocou violão para acalmar as vítimas, com a calma de assustar até o Papa Francisco. Isso aconteceu igualmente durante a rebelião, ao tocar a música Rei do Gado, de Zé Ramalho, adornado por uma bandeira do Brasil. Também no vídeo, o então diretor geral da Polícia Civil goiana, Hitler Mussolini, disse desconhecer qualquer tipo de violência nos crimes cometidos por Pareja.

Outro que aparece no documentário é o atual deputado Marcos Martins (PSDB), que no tempo dos fatos era titular da Delegacia Especializada em Investigações Criminais (Deic). Referindo-se às supostas torturas sofridas por Leonardo Pareja, ele disse que após a ditadura militar, não mais foi praticado esse tipo de ação por parte dos policiais. “O que existe, às vezes, é o abuso ou excesso de um policial”.

Remake sertanejo

O caso Pareja, de Fernandinho Beira-Mar (tão bem tratado pela “Veja”) e de tantos outros criminosos parecem até um sonho, um remake de uma música sertaneja que fez sucesso nos anos setentas e foram regravados por uma dupla goiana. Eles nos fazem pensar que a história se repete a cada década. Ou talvez são as nossas autoridades, as de Goiás, que não são ou não foram competentes o bastante – até hoje – para resolver o problema da criminalidade no Estado? O que tem a ver os ataques de Boston, a Rolling Stone, as fotos do sargento que perseguiu o jovem terrorista e o Leonardo Pareja?

Com talento de sobra para se comunicar, fica a pergunta: como Leonardo Pareja reagiria ao ser preso dentro do presídio comandando o tráfico de drogas e o roubo de carros de dentro das cadeias consideradas de segurança mínima... digo, máxima? Pensemos nós, não é exigir muito do Estado em manter um preso isolado da sociedade. Com a ressalva que ele deve ser reeducado e ressocializado.

O Leonardo, adotado ainda bebê pelo casal Luzia Rodrigues dos Santos e Pedro Pareja – ela, ex-garçonete que não podia ter filho e ele, empresário que teve como destino a falência – foi uma semente plantada, dentre outras mudas, que só reforça a incapacidade das autoridades brasileiras e, neste caso, as goianas, em não conseguir conter a onda de criminalidade em Goiás. Talvez, seja pelo fato de Pareja ter tido a oportunidade de ir à escola particular em um carro, talvez roubado, que era dirigido por um motorista, talvez traficante.