01/05/13
Comportamento
Lola Benvenutti, a prostituta que fez certo em não ser professora
Formada em Letras, ela ganha dinheiro com o corpo, mas diz que até daria aula por diversão. Com certeza, precisaria de ter muito mais tesão para encarar uma sala de 40 alunos
Lola Benvenutti, que poderia ter sido a professora Gabriela, mas não foi: escolha de uma hedonista pragmática

Elder Dias

 “Também quero dar aula, mas por hobby, e além disso também tem a questão financeira, porque dando aula hoje você quase não se sustenta.”

A frase acima, extraída de reportagem do Portal G1, é sintomática por si. Percebe-se que quem a diz está colocando a atividade de professor abaixo de tantas outras em termos de renda. O que, diga-se, infelizmente é uma realidade: tem muito professor ganhando menos do que soldados e garis, sem menosprezo por nenhuma dessas ou outras funções. Pelo contrário, o que está colocado na comparação é contrário: a falta de apreço pela implantação de políticas públicas que beneficiem o ofício da sala de aula.

Saber que a frase que abre o texto tem uma prostituta como autora poderá deixar alguns perplexos. Quando terminava a faculdade de Letras na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Gabriela Natália da Silva, uma paulista de Pirassununga (SP) decidiu seguir uma nova carreira que era um sonho antigo: se tornar garota de programa. E assim nasceu Lola Benvenutti, nome de uma personagem do escritor russo Vladimir Nabokov e o alter ego da ex-universitária, que conta em um blog detalhes íntimos de suas aventuras sexuais.

Não é nenhuma novidade. Raquel Pacheco, vulga Bruna Surfistinha, já até ganhou filme por abordar em livro aquilo que praticava na cama. E é bom deixar claro que a transformação de Gabriela  em Lola tem muito pouco a ver com falta de opção. Ela mesma afirma que vê a prostituição quase que como uma vocação: começou a fazer programas ainda menor, aos 17 anos, interrompeu para “preservar a família” e retomou a atividade aos 20, um ano atrás. Ganha mais fazendo o que gosta mais, sem falso moralismo.

Mas a frase inicial deixa um grito preso na garganta: até quando “dar aula” (uma expressão que por si só já diz muita coisa, se levarmos em conta uma análise do discurso mais profunda) será considerada uma atividade menor? Quando será resgatado o verdadeiro apreço à atividade “professor”, mãe de todas as profissões?

 

Não há ranço moralista – até porque cada um tem a liberdade de escolher o que quer da própria vida – ao dizer que a escolha pela segunda opção entre “lecionar” e “receber para transar” deixa a classe docente em saia justa: é que se estabelece, na verdade, a oposição entre “vender os pensamentos” e “vender o corpo”.

O professor “vende” o que tem na cabeça. A prostituta negocia o que consegue por seu corpo. A primeira escolha, culturalmente considerada mais digna, é mal remunerada. A segunda, pelo menos no caso de Lola, dá rendimentos bem melhores.

Para “dar aula”, é preciso formação, trabalho, planejamento. Mais do que isso tudo, vocação. Não é fácil. Gabriela provavelmente seria apenas uma professora medíocre. Para “dar o corpo”, é preciso apenas coragem de passar por cima dos pudores. Para a maioria das pessoas, isso é uma barreira intransponível. Para as que são como Lola, é uma oportunidade. E oportunidade que ela soube capitalizar muito bem (as reportagens e os 2 mil acessos a seu blog resumem isso).

Lola Benvenutti não pode ser nenhum exemplo de vida. Mas também não é nenhum anti-exemplo. É apenas uma hedonista pragmática: resolveu ganhar dinheiro fazendo o que mais gosta.

Soa até escandaloso dizer isso, mas para dar conta de uma sala de aula de 40 alunos é preciso ter mais tesão do que para encarar uma orgia. Por isso foi melhor Gabriela ter virado Lola, e não professora. São minoria os mestres de verdade. Mas quem é mestre de verdade ganha dinheiro, pouco dinheiro, fazendo o que gosta.