21/03/13
Entrevista | Nicolas Behr
“Acho que a poesia atual brasileira está em crise. E essa é a melhor coisa que pode acontecer”
Poeta lança às 19 horas desta quinta-feira o livro "Meio Seio", em noite de autógrafos no Restaurante Cateretê
Fernando Leite/Jornal Opção

Ketllyn Fernandes

Uma noite de autógrafos, poemas, “muito sexo/pouco texto” nesta quinta-feira (21/3) marcará, no restaurante Cateretê, Setor Bueno, o lançamento do livro "Meio Seio" (Editora Língua Geral), de Nicolas Behr. Poeta mato-grossense nascido em Cuiabá, ele escolheu Brasília como "musa inspiradora". Aos 54 anos, casado há 26 — exceção à regra dos poetas — e esbanjando a energia típica de jovens inquietos, o escritor tem 28 obras publicadas e mais tantas por vir, como revelou em entrevista  ao Opção Online na tarde chuvosa desta quarta-feira.

Divagante, como convém aos poetas, ele tratou das expectativas do lançamento de mais um livro, do cenário da poesia brasileira atual, da “obsessão” pela capital do País e das marcas que traz de Goiás, Estado que o recebeu de braços abertos em meados da década de 70 e pelo qual demonstra admiração por meio de seu hobby: plantas típicas do Cerrado. Assunto que não poderia faltar, ele tratou ainda da polêmica lista de escritores brasileiros selecionados pelo governo — da qual faz parte —– para participar da Feira do Livro de Frankfurt, que acontece em outubro próximo. “Bem, poetas foram muito poucos né? Menos de 10%.”

"Meio Seio" intercala pequenos textos luxuriosos e humorados, com o melhor do romance e do amor, mesclados a desenhos do conceituado artista plástico Evandro Salles, que junto às palavras em caixa baixa usadas em todo o livro, tomam conta da atmosfera erótica da leitura. Como sintetizou o músico Chico César, que assina a apresentação de "Meio Seio": “Nicolas Behr deve comer a cidade inteira para escrever deste jeito sobre ela, fantasiávamos chauvinistas. A gente admirava o cara à distância, recitando seus poemas no meio da rua.”

Qual a expectativa para o lançamento de “Meio Seio” em Goiânia?
Por tratar de erotismo, é um tema que desperta muito interesse. Então, a editora do livro [Língua Geral] fez um lançamento, esgotou. Esse foi o meu livro que vendeu mais rápido. Livro que pode ser lido rápido, pelo estilo que eu adotei. Tem as ilustrações. Espero um resultado positivo, porque aqui têm muitos poetas. Goiás é uma terra de poetas, apesar de que nós não podemos dizer que algum lugar seja o lugar da poesia. Todos os lugares são da poesia. Mas aqui em Goiás existe uma tradição literária. Terra da Cora [Coralina], terra daquele outro grande poeta, José Godoy Garcia. Quer dizer, tem uma cultura literária. Acho que há um interesse aqui. Eu espero que venda tudo (risos). Minha expectativa é a maior possível. O livro custa 25 reais, mas o autografo é grátis. O lugar é bom. Vou levar outros livros meus. O carro-chefe é esse aqui, mas vou fazer o lançamento de outros trabalhos.

Quais são os outros livros que o público vai encontrar no lançamento?
Tem, por exemplo, "Laranja Seleta" [finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2008], uma antologia; e "Beije-me", livro de fotos. 

E “Meio Seio”, surgiu como?
Ele é todo dedicado à dona Alcina [Ramalho]. Sou casado com ela há 26 anos. Isso para um poeta é imperdoável. O poeta dos poetas é o Vinícius [de Moraes], né? Um poeta tem de ser totalmente incorreto, é imperdoável não ser. Isso é politicamente incorreto, mas eu sou assim. Tenho três filhos com ela.

Como você avalia a lista de escritores selecionados pelo governo brasileiro para participar da Feira do Livro de Frankfurt que será realizada entre 9 e 13 de outubro?
Bem, poetas foram muito poucos. De 70, somente 8 são poetas. Menos de 10%. Mas é fato que a poesia tem espaço menor que a prosa. Isso aí está bem claro para os poetas. Toda seleção é injusta. Muita gente boa ficou de fora. Uma lista completa é impossível. Faltou Arnaldo Antunes, parece que o Ferreira Gullar não quis ou não pôde participar. Tem o Manoel de Barros, que está com a idade muito avançada, o Augusto de Campos. Lista dos que faltam é mais extensa do que a de selecionados. E se fizesse uma lista só de poetas ainda ia ficar gente de fora, sabe? Esse é o mal das seleções. Acabou que a maioria foi para o Sudeste mesmo.

E o que significa a participação nessa feira para a sua obra?
Essa feira literária é sem dúvida a maior vitrine literária que o Brasil já teve. O Brasil nunca teve uma vitrine assim para a literatura. Vai ser uma grande chance. O Brasil, nesse sentido, nunca teve tanta visibilidade assim no exterior, porque é uma feira de livro, mas é também de negócios. Acho que ela é uma feira que vai repercutir bastante no mercado literário e editorial brasileiro. E isso vai ser muito bom para os escritores brasileiros, porque o grande lance da feira é que vai dar visibilidade pra muita gente nova que está chegando e que está produzindo. É uma chance que o Brasil vai ter de se mostrar. É muito organizado.  Acho que o governo está fazendo um investimento e eu fiquei feliz de se chamado, óbvio. Quem não ficaria?  



Quais as referências que o sr. traz da cultura goiana, com a qual desde a década de 1970 tem uma ligação forte?
Gosto de três autores, mas tem quatro para citar. São básicos. Eu gosto muito da Cora Coralina, tem gente que não gosta, mas eu gosto muito. José Godoy Garcia, Bernardo Élis e  José J. Veiga, que eu li no ginásio. Esses eu li e conheço. Essas são minhas referências mais fortes. E olha, no caso da Cora é interessante que ela é popular. Ela é uma das poetas mais populares do Brasil... Ela é lida e citada. De convivência, tive aqui o Itamar Correia, na música. Tinha o Leonardo do Carmo, na poesia, que agora é professor de História lá em São Paulo. Mas na época tinha o Julinho Pimentel, que era músico e tinha um restaurante natural. Eu conheci a Cora, troquei uns livrinhos com ela. Tenho livro autografado dela. Mas tem um goiano que eu gosto muito que é o Paulo Betran, que é meu amigo, é um historiador. Cadê o [Nars] Chaul? Quero falar com ele.

E como você vê a poesia produzida atualmente no Brasil?
Está uma coisa boa, porque está uma coisa indefinida, bagunçada. E isso é bom. Bagunçada no sentido de que, para você nominar um movimento, uma história, você tem de ter um certo distanciamento. E as pessoas ficam forçando, querendo saber, mas eu não me preocupo com isso não, não ligo para rotulagem. Teve um movimento de poesia marginal, depois um contraponto à poesia marginal, mais erudito. Mas eu acho que a poesia atual brasileira está em crise. E essa é a melhor coisa que pode acontecer, a poesia estar em crise. Porque estar em crise é bom, traz elementos novos. Um exemplo bom é a internet. A internet é uma coisa nova na poesia. Mas só que com a internet dizem que tem de se criar uma linguagem, eu acho que não, acho que vale o que está escrito. No guardanapo, no papel jornal, no papel de ouro. Vale o que está escrito. O blog acho positivo. O que está acontecendo hoje na poesia é uma explosão e implosão de público. Acho que a internet realmente facilitou muito o acesso a qualquer poeta, vivo ou morto. Você vai ali, acha obras do Chacal [pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte], do Leminski [Paulo Leminski Filho], enfim, de todo mundo. Quer dizer, o acesso à poesia, por meio da internet, realmente nunca foi tão fácil. Quero achar um poema da Cora, por exemplo, é em segundos. Antes ou você tinha o livro ou tinha de ir numa biblioteca. É essa a grande novidade na poesia de um modo geral. E é bom porque tem muita gente publicando em blog, muita gente escrevendo. E daqui 20, 30 anos? O tempo é a melhor peneira. O tempo vai peneirando isso e vai dizer daqui 30 anos o que que ficou do que está sendo produzido.

O problema todo é que, ao contrário do que creem os modernistas, que acham que já se acabou com tudo, já se construiu tudo, não tem um limite para a criação poética. Dizem que tudo já foi criado, tudo já foi desconstruído, tudo tentado, tudo, tudo. Acho que não, Não existe um limite para a criação poética. Ainda vem muita coisa por aí. Porque todo poeta que vem tem sua história, teve uma vivência. Mas é claro que não pode ficar repetindo o que outros artistas já fizeram. Existe alguma coisa muito interessante dos poetas que estão chegando, eles vão pegando essas modas que os caras trouxeram e vão criando a partir dos grandes ímãs, grandes sóis, Manoel de Barros, aí não vale, que nem Arnaldo Antunes, aí não vale. Tem de achar o seu estilo, seu filão. Porque de tal jeito Mário Quintana já falou, daquele jeito lá a Coralina já fez. A Cora Coralina inclusive tem uma originalidade, uma coisa simples, de falar das coisas simples de Goiás, da vida mesmo.

Sua poesia foi imortalizada pela banda Legião Urbana, que musicou o poema “Nossa Senhora do Cerrado – música Travessia do Eixão”. Qual o reflexo disso na época e atualmente?
Foi uma coisa boa. Porque muitas pessoas que não me conhecem pessoalmente, conhecem a Nossa Senhora do Cerrado. Eu não desenvolvi o lado letrista, não sei por quais razões. Uma pena, porque dá muito dinheiro (risos). Esse poema foi musicado por um cara que cantava lá em Brasília e o Renato [Russo] gostava dessa música, a ouvia muito e a cantava no estúdio para afinar os instrumentos, a voz. E aí aproveitaram essa música num CD póstumo chamado “Uma Outra Estação”. Foi uma honra, o segundo grande mito de Brasília, porque o primeiro foi JK [Juscelino Kubitschek). O Renato Russo se consumiu no próprio fogo. Eu fico observando... Por que tem de se consumir? Por que tem de se matar, aliás? Ele [Renato Russo], Raul Seixas, Cássia Eller. Eu acho que eles se consomem no próprio fogo. Têm uma pressa de virar mito e pagam um preço. Tem de morrer. Tudo bem, você vai virar mito, mas você vai ter de morrer para isso. Eu não quero morrer, não. Olha, eu quero viver muito, eu gosto muito da vida. Mas eu não posso falar muito disso não, sou poeta, né? Se não tiver um "fio-terra" para distrair, num dá outra, Vai mesmo. Eu tenho o meu, que é o meu trabalho com plantas do Cerrado. Tenho um viveiro de plantas, tenho uns meninos meus para ajudar a cuidar.

E como estão os projetos para o futuro?
Cheio [de projetos]. Nossa Senhora! Já tenho programados cinco livros para os próximos anos. Tem um em alemão que eu vou levar para a feira de Frankfurt, que é de poesias sobre Brasília. Esse está pronto. Falta uma editora alemã para produzir esse, chama “Ja Brasília Nein”, complicado assim mesmo. Vamos ver se sai. Tem um outro, meio dicionário, que fala o que é Brasília, o que é Cerrado. Um projeto já para a feira, porque tem de chegar com alguma coisa lá, um livro. E outros livros também. Tem muito livro. Um que está pronto também chama “Brasífra-me”, de "decifra-me". São cem poemas enigmas de Brasília. Faço um poema pro Renato Russo, pôr-do-sol, Eixinho, Eixão, para o bloco. E o leitor tem de descobrir de que lugar e de quem eu estou falando. Só que, no final, tem o resultado em ordem alfabética. Aí tem poema para as periferias, para Taguatinga, pra Ceilândia, pra Samambaia. Todas as cidades-satélite têm um poema. Só que esse é só para brasiliense também, né? Esse está pronto, mas ainda não tenho previsão para publicação não. Tem o drama das editoras.

Eu gosto de eu mesmo produzir os meus livros. Eu mexo no InDesign [programa de editoração eletrônica], mas eu tenho um designer gráfico que me ajuda, arruma os detalhes. Esse livro em alemão eu que fiz, tem outros... Tem um outro para a Copa do Brasil. Esse foi encomendado. Fala só sobre Brasília. Uma espécie de manual para turista. “Brasília, Modos de usar.” Esse é uma coisa ainda muito inicial. Mas ainda tem coisa demais. Ando escrevendo muito. Tem outro sobre Brasília que chama “A teus pilotis”, a teus pés. Brasília é uma obsessão. É inesgotável. Uma página em branco. Pouco se escreveu sobre Brasília. Eu já escrevi um bocado, mas não tem essa tradição [sobre Brasília] como acontece com outras cidades, tipo Recife. Eu gosto de escrever sobre Brasília. Para esse livro de cem poemas, eu fui a cada um dos lugares.