Edição 1845 de 14 a 20 de novembro de 2010
Siqueira receberá governo melhor do que deixou
Por pior que seja a situação financeira do Estado, o governador eleito receberá um quadro melhor e mais organizado do que quando entregou para o seu sucessor em 2002
Ruy Bucar
 
Siqueira Campos (PSDB), em sua quarta oportunidade de comandar o Estado, tem todas as condições de fazer um governo para ficar na história. Superar as marcas das gestões anteriores e consolidar a sua biografia como o maior líder político do Estado. Tem experiência, necessidade e obrigação. Mas vai ter que trabalhar muito para se reinventar, apresentar nova forma de governar e implementar novidades que possam empolgar o eleitorado, que espera muito do seu governo. 
 
Siqueira chegou ao governo meio por acaso, depois de uma intensa disputa política que já tinha dado por perdida. Obteve menos de 8 mil votos de vantagem num colégio eleitoral de quase 1 milhão de eleitores. E perdeu na maioria dos municípios, mas ganhou nas grandes cidades. Outro dado importante: Siqueira teve 349 mil votos, 11 mil a menos que na eleição passada, quando perdeu para Marcelo Miranda, e o colégio eleitoral era muito menor. Isso quer dizer que Siqueira, quatro anos depois, reduziu o número de eleitores enquanto o colégio eleitoral do Estado cresceu. 
 
Siqueira ainda tem outro entrave importante que o obriga a realizar um governo diferente dos anteriores. Não tem maioria na Assembleia Legislativa e vai ter que negociar com a oposição. O prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), observa que pela primeira vez o governador não tem tudo a favor como nos outros governos. O prefeito prevê que Siqueira não vai poder impor, pelo contrário vai ter que fazer concessões. 
 
Siqueira ainda não deu pista de como pretende governar. Desde que venceu as eleições não aparece em público e determinou ao filho Eduardo a responsabilidade pela condução dos trabalhos da transição. O governador Carlos Henrique Gaguim está fazendo parte para facilitar o planejamento do novo governo. Determinou, por decreto, um processo de transição transparente e colaborativo com a equipe do governador eleito. Gaguim aceitou inclusive a participação da equipe do novo governo na elaboração do orçamento do Estado para o exercício de 2011. 
 
No plenário da Assembleia e da Câmara de Vereadores de Palmas o debate é um só: o que vai acontecer a partir do dia 1º de janeiro de 2011, quando Siqueira tomar posse. Os tocantinenses conhecem a sua forma de governar. Mas todos esperam mudanças. A oposição exagera nos dados ao traçar quadro de descontrole do governo. Fala em déficit orçamentário de R$ 1 bilhão. Exagero. Tudo porque o governo conseguiu aprovar a LDO com aumento de recursos para os poderes Legislativo e Judiciário, contrariando a bancada siqueirista que não queria assumir postura contrária ao aumento, mas também não queria ver a matéria aprovada.  
 
Há oito anos fora do poder, Siqueira vai encontrar um Estado bem diferente do que deixou. Vai encontrar um Estado em pleno desenvolvimento, com grandes investimentos e novas perspectivas de crescimento. Num processo de industrialização que mostra a pujança da iniciativa privada. Terá obrigatoriamente que ter um bom diálogo com o governo federal, que tem despejado recursos no Estado em volume jamais visto. Siqueira sabe disso. Não foi à toa que lançou dois candidatos ao Senado da base do presidente Lula. O senador João Ribeiro será o abridor de portas para Siqueira no governo Dilma. A senadora Kátia Abreu (DEM) acha que o governador eleito não precisa de intermediários para chegar ao Palácio do Planalto. Será? 
 
Por pior que seja a situação financeira do Estado — e não há dado que prove esse desgoverno que a oposição está vendo — o governador vai receber uma máquina administrativa mais organizada e mais eficiente do que quando entregou. Vai encontrar servidores mais motivados pelas últimas conquistas, mas também temerosos de perdê-las. 
Siqueira tem uma obra inquestionável no Estado, mas foi feita à custa da supressão de direitos conquistados dos servidores, por isso o temor com a volta do governador.
 
Siqueira também vai encontrar problemas crônicos que vêm desde o início da implantação do Estado, como a deficiência no atendimento à saúde e crise no sistema prisional, com superlotação das cadeias e aumento da violência. Alguns problemas, é preciso reconhecer, são inerentes ao próprio crescimento do Estado, como aumento das despesas de custeio com a realização de concursos públicos, concessão de benefícios pendentes de servidores, reajuste salarial e outras conquistas; outros criados pela oposição para prejudicar o governo, a exemplo da exoneração de 21 mil servidores que exercem cargos em comissão, considerados ilegais, que foram extintos pelo Supremo Tribunal Federal e terão o prazo até junho para serem desligados do Estado. A ação foi protocolada pelo PSDB do governador eleito.      
 
Siqueira sabe que desta vez não adianta ter muito poder, é preciso antes de tudo mostrar resultado. Terá que cumprir promessas de campanha e fazer mudanças que possibilitem o governo avançar, como prometeu. Há oito anos fora do poder, o governador eleito Siqueira Campos deve enfrentar algumas dificuldades para organizar a equipe administrativa e fazer o governo produzir resultado, mas tem todas as condições de se superar e surpreender o Tocantins com uma administração, democrática, participativa e eficiente. Ele sabe os caminhos e não tem nada que o possa impedir. Se não mexer nas conquistas dos seus antecessores e não atrapalhar o desenvolvimento do Estado já terá feito muito. E seguramente vai fazer.