Edição 1996 de 6 a 12 de outubro de 2013
Salomão Wenceslau
O filho do Gongomé que ajudou a contar a história do Tocantins
Um dos jornalistas mais influentes da imprensa regional, que soube explorar como ninguém o imaginário do povo nortense e contribuiu de forma indelével para a formação do novo Estado
Jornalista Salomão Wenceslau, morto no dia 25 de setembro:
legado de dignidade e profissionalismo

Ruy Bucar

Na sua coluna Dois Dedos de Prosa pu­bli­ca­da no se­ma­nário “O Jor­nal”, de sua propriedade, Sa­lomão Wenceslau destilava o seu veneno de observador atento da cena política tocantinense e de jornalista inconformado. Era ali que ele exercitava o seu talento de cronista político que como ninguém soube explorar o imaginário do povo nortense e ajudou a contar a história no novo Estado. Ajudou não só contar a história, mas torná-la mais humana. A interpretá-la pela ótica do cidadão. Pela visão da gente simples, como o sertanejo de Gongomé.
 
Salomão era um duro crítico do costume político local, do paternalismo, do patrimonialismo e da familiocracia que do­mina a política local. Im­pie­doso, às vezes sarcástico. Quem não se lembra da histórica edição em que se propôs a divulgar o currículo do empresário Benedito Faria, o Dito do Posto, que pretende disputar o governo do Estado. Dedicou a página inteira em branco para divulgar currículo do açougueiro Dito do Açougue, de Guaraí, o Dito do Posto.
 
Salomão era implacável. Denun­cia­va negociatas, revelava acordos de bastidores, cobrava postura dos mandatários de poder, passava a po­lítica a limpo. Dois Dedos de Prosa, que no dizer do jornalista Santa Cruz Serra Dourada era dois dedos de pólvora, era o registro semanal dos conchavos, ajeitamentos, dos acordos e desacordos da política local.
 
Sempre com bom humor, tiradas inteligentes e coerência. Bom conselheiro, Salomão era acima de tudo um bom ouvinte. Fazia-se de surdo para colher informações preciosas que de uma forma ou de outra iam parar nas páginas de “O Jornal”. 
 
E havia sempre o questionamento, de onde o Salomão tira estas ideias? Da conversa com os políticos. Salomão sabia muito porque não conversava apenas com um ou outro. Conversava com todos, indistintamente. 
 
Jornalista, radialista, cronista esportivo e analista político. Goia­niense que adotou o povoado do Gongomé (Itaberaí) como sua terra natal. Boleiro, começou a trabalhar cedo, no clube do coração, o Atlético Clube Goia­niense. Fez carreira no rádio e foi editor de economia do “Diário da Manhã”. 
 
Em 1989 abandonou a carreira em Goiânia para empreender no Tocantins. Montou o semanário “O Jornal” que era mais conhecido como o Jornal do Salomão, e fez história. Nos últimos anos se dedicou ao rádio, a velha paixão que o perseguia desde os tempos de garoto. Na direção de uma emissora de sua propriedade realizou campanhas, conseguiu incluir Palmas entre as cidades selecionadas para sediar a Copa do Mundo e fazia mil projetos.    
 
Salomão era um caso raro de talento para a comunicação. Dono de um estilo próprio. Texto limpo, claro e vigoroso. Direto, sem rodeios, sem meias palavras. Jornalismo, simplesmente, sem adjetivos. O amigo Darci Coelho observa que Salomão era um cronista esportivo talentoso que compreendia o que acontecia nas quatro linhas, mas também era um analista político competente e corajoso que ia além das evidências dos fatos e revelava os meandros da política. 
 
Tinha fontes privilegiadas porque sabia circular com desenvoltura no meio político. Tinha credibilidade para dizer, porque tinha independência, embora mantivesse relações de amizade com meio mundo de políticos. Muitos o cortejavam porque temiam o peso da sua pena. 
 
Desnecessário dizer que o jornalista tinha perfeito discernimento do seu ofício de analista e comentarista político, do papel de empresário, e às vezes, quando convidado, de conselheiro político.
 
Salomão Wenceslau era um jornalista visceral. Que não se contentava apenas em narrar os fatos ou interpretá-los. Ele sempre queria mais e sempre fez mais do que a atividade jornalística lhe permitia. Era o que se poderia chamar de jornalista engajado. 
 
Muitas vezes assumiu posição de protagonista e tentou mudar o curso da história. De eleição de governador a eleição de presidente de bairro ele buscava participar, dar palpite, assumir posição e de alguma forma influenciar.
 
Foi pensando assim que se engajou na política, foi conselheiro de gestores, ajudou muitos líderes a iniciar a carreira, assim como combateu duramente outros. Montou bloco de carnaval, produziu livros, discos, projetos culturais, realizou campanhas de utilidade pública e nunca deixou de participar de nada que pudesse contribuir com o desenvolvimento de Palmas ou do Tocantins. Foi um visionário. 
 
Pioneiro das primeiras horas que acompanhou a implantação do Estado e participou ativamente da construção de Palmas, Salomão Wenceslau tem passagens interessantíssimas. Pouca gente sabe e muitos não acreditam, por exemplo, que foi ele quem criou ou desenvolveu o gosto do palmense pela feira noturna. Pelos idos de 98, se não me engano, convidou a Baixinha (famosa cozinheira da cozinha tradicional) para fazer nas tardes de sexta-feira os pratos que ela vendia na Feira da 304 Sul, que acontecia aos sábado, e começou a levar os amigos para apreciar.
 
A notícia foi se espalhando e mais gente começa a frequentar o local. No começo jornalistas, ar­tistas e amigos do velho Salomão. Depois, trabalhadores, operários que buscavam uma comida apetitosa e barata. Cardápio variado que agradava todos os gostos, galinha caipira, chambari e buchada de bode, panelada. 
 
O costume pegou. Pegou tanto que a Baixinha teve que convidar mais cozinheiras para atender a clientela. Já não era mais preciso Salomão incentivar o negócio que avançava rapidamente.
 
Não pense que foi fácil tornar este hábito um grande atrativo das nossas feiras. Houve conflitos difíceis de serem superados. Como a feira a noite começou com a praça de alimentação a tendência foi atrair um público consumidor de comida e bebidas. Feirantes que chegavam de madrugada para vender seus produtos encontrava o local ocupado com carro de som em alto volume e espaços das bancas ocupados por mesas. Foi só com a intervenção do poder público que a feira ganhou a conformação que vemos hoje. Começou na 307 e se espalhou para a outras. A iniciativa do jornalista virou uma característica de Palmas que orgulha a todos os palmenses.
 
Com Salomão eu vivi outra experiência marcante na construção de Palmas. Em 98, no comando do bloco da imprensa Filhos da Pauta, eu, ele e o colega Luiz Pires, movidos pelo impulso de aventureiros, decidimos fazer o carnaval de Palmas, num momento em que a prefeitura julgava desnecessário o poder público gastar dinheiro com este tipo de promoção. 
 
Com a cara e coragem botamos o bloco na rua e conseguimos juntar mais de 10 mil pessoas em plena avenida Teotônio Segurado, numa atitude de desprendimento que foi saudada por empresários e filões que apoiaram a iniciativa, que serviu de lição para o poder público.
 
Em sua coluna escreveu: “a prefeitura esqueceu 10 mil pessoas na avenida e o bloco Filhos da Pauta acudiu essa gente com uma festa memorável”. E sugeriu que a prefeitura deveria contratar o bloco para realizar o carnaval da cidade. E ironizou “prefeito que esquece o seu povo, pode ser esquecido por ele”. 
 
Era o prenúncio da grande transformação do carnaval de Palmas que nos próximos anos iria se tornar a maior festa popular da região norte do País. Não durou muito, mas teve um começo. A ousadia de três jornalistas liderados por Salomão Wenceslau.        
 
Salomão Wenceslau partiu antes de realizar o que parecia ser o seu maior sonho. Partici­par da transmissão da Copa do Mundo no Brasil. Tinha conseguido o mais difícil. Autori­zação para fazer transmissão de rádio. Havia  participado da Copa da África e desde lá vinha se preparando para a missão. Mas partiu deixando um legado que orgulha a todos que compartilharam a utopia da construção de uma cidade diferente, mais humana, mais alegre e boa para se viver e envelhecer. 
 
Era assim que ele via Palmas, a cidade que escolheu para viver e ser feliz. Viveu intensamente esta cidade e o Estado que exerceu papel fundamental na sua formação. 
 
Deixa um legado admirável de profissionalismo, de cidadania, de dignidade, dedicação ao trabalho, aos amigos e um profundo gosto pela vida. Não vai ser fácil esquecer o filho do Gongomé, que se tornou uma referência de jornalismo no Tocantins. Pois é, é isso aí.