Edição 1953 de 9 a 15 de dezembro de 2012
Segurança Pública
Universitários usam mais drogas
Pesquisas revelam que alunos de curso superior consomem muito mais drogas do que a população em geral — o que derruba por terra o mito acadêmico de que a informação é o melhor método de prevenção
Os universitários superam a população em geral no uso de drogas lícitas e ilícitas,
qualquer que seja o critério de medida do consumo — na vida, nos últimos 12
meses ou nos últimos 30 dias

José Maria e Silva

Um “drogaduto” ligando a Universidade de São Paulo a uma favela dominada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) remete a uma histórica ligação entre drogas pesadas e intelectuais, que remonta a Freud e sua dependência da cocaína. O túnel foi descoberto casualmente pela polícia em 31 de outubro último, na favela São Remo, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. Os policiais cumpriam sete mandados de prisão contra suspeitos de matarem um policial militar quando depararam com um túnel de 15 metros de extensão que chegava aos limites da Cidade Uni­versitária da USP. E, no muro que separa o campus da favela, os policiais encontraram um buraco por onde era possível a venda de drogas para estudantes e frequentadores da USP. “Além de servir para transportar a droga até o usuário, o túnel era utilizado como rota de fuga pelos criminosos”, diz a “Folha de S. Paulo” de 1º de novembro último, que noticiou o achado.

A notícia frequentou por um ou dois dias alguns portais de notícia do país, mas logo caiu no esquecimento. A ocupação do prédio da reitoria da USP, que ocorreu exatamente um ano antes, de 2 a 8 de novembro de 2011, mobilizou muito mais a imprensa. Na época, os grandes jornais e as redes de televisão deram ampla cobertura à ocupação promovida pelos estudantes, não faltando a manifestação pública de diversos intelectuais renomados, que escreveram artigos defendendo os alunos. Ironicamente, aquela ocupação da reitoria da USP foi motivada justamente pelo uso de drogas dentro do campus, quando três estudantes que portavam maconha foram abordados pela polícia. O fato gerou protestos dos estudantes de passeata, que tentaram impedir a ação da polícia (acusada de truculência dentro do campus) e resolveram invadir a reitoria.
 
É incompreensível (ou sintomático?) o silêncio dos intelectuais a respeito do “drogaduto” da USP, que, segundo a “Folha de S. Paulo”, ligava a universidade à casa do chefe do tráfico, um imóvel onde funcionava uma refinaria de cocaína e um ponto de venda de drogas. Ainda mais que esse túnel entre o campus e a favela foi descoberto justamente quando São Paulo vivia o período mais trágico dos assassinatos de soldados da PM, mas diversos intelectuais, inclusive da USP, se revezavam nos jornais praticamente culpando as vítimas (no caso, a polícia) pelos ataques. A tese recorrente — que acabou encampada pelo governo paulista — é que a repressão policial é a maior responsável pelos ataques promovidos pelos bandidos. Essa tese esconsa, que inverte valores e transforma a sociedade em refém, foi exportada para Santa Catarina, onde a polícia também foi vítima de ataques dos criminosos.
 
Utopia da ciência
 
Quando o assunto é o combate ao crime, as universidades brasileiras apostam numa receita salvadora que se compõe de apenas dois ingredientes mentais: “prevenção” e “inteligência”. Para os intelectuais universitários, a palavra “repressão” é radicalmente proibida, seja para intimidar o consumidor de drogas que alimenta o tráfico, seja para combater o traficante que fomenta a criminalidade. E, especificamente em relação às drogas, a recomendação das universidades é uma só: é preciso prevenir o uso de entorpecentes, ou minimizar seus danos, exclusivamente por meio de campanhas educativas com crianças, adolescentes e jovens, informando sobre os aspectos históricos, sociais e médicos das drogas, inclusive seus efeitos prazerosos e suas ligações estéticas. Já a ação da polícia — pregam com veemência os intelectuais universitários — deve restringir-se ao trabalho de inteligência. É como se a elucidação mental de um crime não exigisse a prisão do criminoso, o que só é possível passando do neurônio à unha, do chip à algema, do computador ao revólver.
 
 Em relação às drogas, o poder das universidades se tornou hegemônico até nas estruturas de segurança pública, privilegiando a utopia da ciência em detrimento da experiência da polícia. É o que se percebe no próprio Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, instituído pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva por meio do Decreto 7.179, de 20 de maio de 2010 e que tem prosseguimento no governo Dilma Rousseff. O título do plano já revela uma ideologia: “enfrentamento” (palavra muito querida dos petistas, começando por José Dirceu) é um eufemismo quando comparada a “combate”, substantivo mais associado à guerra e à ação da polícia. Da mesma forma, o que antes era “Política Nacional de Combate às Drogas” passou a ser “Política Nacional sobre Drogas”. A intenção é essa mesmo: tratar as drogas apenas como questão social e de saúde pública sem associá-las aos danos que inevitavelmente causam à segurança da população. Tanto que a menção às corporações policiais no referido plano é absolutamente lateral, quase que circunscrita à vigilância de fronteiras.
 
O que salta aos olhos no Plano de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas é a forte presença do Estado-babá por intermédio de seus múltiplos agentes (menos a polícia, claro), que vão desde a assistente social até o educador de rua, passando pelo ongueiro profissional e pelo intelectual universitário. Como está escrito em seu artigo 2º, o plano “tem como fundamento a integração e a articulação permanente entre as políticas e ações de saúde, assistência social, segurança pública, educação, desporto, cultura, direitos humanos, juventude, entre outras”. A prevenção do uso de drogas, bem com o tratamento e reinserção social dos usuários de crack, é um mantra que se repete ao longo do decreto que instituiu o plano. Ele prevê, inclusive, “a criação de programa de especialização e mestrado profissional em gestão do tratamento de usuários de crack e outras drogas”. São os engenheiros sociais brincando de deuses, arautos do emplastro Brás Cubas da ciência, imaginando-se capazes de curar dependentes químicos unilateralmente, sem apelar para a moral, a vontade, o livre-arbítrio deles.
 
Mito acadêmico
 
Se o conhecimento afastasse o mal e a ciência tivesse a solução para o combate às drogas, os intelectuais não seriam os maiores consumidores de entorpecentes de todos os tempos. Todas as pesquisas já realizadas entre universitários revelam que eles consomem muito mais drogas do que a população em geral — o que derruba por terra o mito acadêmico de que a informação é o melhor método de prevenção do uso de drogas. Em 2010, a Se­cretaria Nacional de Políticas sobre Drogas da Presidência da República, em parceria com a Faculdade de Medicina da USP e outras instituições de pesquisa, realizou o primeiro levantamento nacional sobre o uso de álcool, tabaco e outras drogas entre universitários de 27 capitais brasileiras. E os resultados são desabonadores para essas instituições que acreditam ter o monopólio das soluções para todos os problemas da humanidade. Apenas 11,2% dos universitários disseram não ter experimentado substâncias psicotrópicas na vida e, dos 88,8% que experimentaram, 49% fizeram uso de pelo menos uma droga ilícita.
 
Os universitários superam a população em geral no uso de drogas lícitas e ilícitas qualquer que seja o critério de medida do consumo: uso na vida, uso nos últimos 12 meses ou uso nos últimos 30 dias. Eles bebem mais, fumam mais e usam mais drogas ilícitas do que o restante da população brasileira, segundo o levantamento do governo federal que corrobora diversas pesquisas do gênero, não só no Brasil, mas em vários países do mundo. Nesse levantamento, 86,2% dos universitários relataram uso de álcool na vida contra 76,4% da população em geral, enquanto, nos últimos 12 meses, os percentuais são, respectivamente, 72% contra 49,8% e 60,5% contra 38,3%. Só em relação ao tabaco as diferenças não chegam a ser tão acentuadas, mesmo assim, os universitários fumam mais: 46,7% contra 44% (uso na vida), 27,8% contra 19,2% (últimos 12 meses) e 21,6% contra 18,4% (últimos 30 dias). De acordo com o levantamento, mesmo quando se compara o consumo de drogas dos universitários apenas com a faixa etária da população em geral correspondente, entre 18 e 24 anos, eles continuam como maiores usuários de drogas lícitas e ilícitas nas três categorias de consumo.
 
A maior diferença de uso foi detectada em relação aos alucinógenos (LSD, chá de cogumelo e mescalina), em que o consumo pelos universitários chega a ser sete vezes maior do que o da população em geral quando se leva em conta o uso na vida, aumentando para 15 vezes nos últimos 12 meses e 14 meses nos últimos 30 dias. O consumo de cocaína entre universitários foi 2,6 maior na vida, 4,2 vezes maior nos últimos 12 meses e 4,5 vezes maior nos últimos 30 dias do que o do restante da população. A maconha, o haxixe o skank seguem as mesmas diferenças expressivas nas três situações de uso: 4,2 vezes (uso na vida), 5,3 (últimos 12 meses) e 4,7 (últimos 30 dias). Os inalantes e solventes também são mais consumidos por universitários com as respectivas diferenças: 3,3 vezes (uso na vida), 5,4 vezes (últimos 12 meses) e 7,25 vezes (últimos 30 dias). Até o crack — uma droga barata, que forja legiões de zumbis nas ruas das grandes cidades — é 1,7 vez mais consumido entre universitários na vida, duas vezes mais nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias em comparação com a população em geral.
 
Boca-de-fumo
 
No levantamento bancado pelo governo federal, as universidades privadas aparecem como maiores consumidoras de entorpecentes, mas as universidades públicas não ficam muito atrás e também superam o resto da população no uso de drogas. É o caso da Universidade de São Paulo (USP), que já foi objeto de três grandes pesquisas sobre consumo de drogas entre seus alunos. O primeiro estudo, realizado em 1996, mostrou o uso na vida de drogas ilícitas por parte de 38,1% dos alunos da USP, enquanto nos últimos 12 meses o percentual foi de 26,3% e nos últimos 30 dias, 18,9%. Em 2001, o segundo estudo mostrou que os uspianos estavam se drogando mais. Houve um aumento significativo no consumo de bebidas alcoólicas (88,5% para 91,9%), maconha (31,3% para 35,3%) e alucinógenos (6,1% para 11,4%) em relação ao consumo na vida.
 
A pesquisa de 2001 constatou que as alunos da USP passaram a consumir mais maconha, tabaco, anticolinérgicos e inalantes. O consumo de cocaína e crack se manteve estável no período analisado, mas houve um aumento da aprovação do consumo de cocaína, crack, maconha, anfetaminas e inalantes. Em 2009, foi realizado o terceiro estudo do gênero, relatado na tese “Álcool e Drogas: Terceira Pesquisa sobre Atitudes e Uso entre Alunos na Universidade de São Paulo”, defendida em 2011 por Gabriela Arantes Wagner no Programa de Doutorado em Psiquiatra da Faculdade de Medicina da USP. Essa última pesquisa mostra novamente percentuais expressivos de consumo de entorpecentes na USP, bem acima dos percentuais encontrados para o restante da população em relação a todas as drogas, como se pode ver a seguir: álcool (92,5% na USP contra 74,6% da população em geral), maconha (36,6% contra 8,8%), inalantes (18,8% contra 6,1%), cocaína (7,3% contra 2,9%), crack (1,2% contra 0,7%), tabaco (52,1% contra 44%).
 
Esses dados mostram que, se prevenção baseada apenas em informação servisse para alguma coisa, as universidades não seriam as maiores bocas-de-fumo do mundo quando se compara seu consumo de drogas com o consumo do restante da população. Parafraseando o poeta Gregório de Matos, a universidade, ao menos na questão das drogas, não sabe governar sua cozinha, mas insiste em governar cabana e vinha, impondo-se ao país inteiro. Pois as políticas públicas que tratam das drogas no país são alicerçadas exclusivamente na visão dos acadêmicos, sem levar em conta o que pensa o restante da população. Por ser muito complexa, envolvendo fatores de toda ordem, desde biológicos até sociais, a questão das drogas é quase infensa ao consenso, pois a prioridade varia conforme cada segmento social envolvido. 
 
Para o viciado em drogas, a prioridade é manter o uso minimizando os danos. Para a família, conseguir tratamento. Para os professores, reduzir a violência entre os jovens relacionada às drogas, que gangrena o ambiente escolar. Para os policiais, garantir a segurança pública, comprometida não só pelo traficante, mas pelo próprio viciado, que recorre ao crime para manter o vício. Para os profissionais de saúde, preservar o poder da ciência, que, no caso do drogado, significa mantê-lo como objeto do discurso científico. Já o Estado — que no Brasil sempre se confunde com o governo de plantão — tem como prioridade fazer de conta que encontrou a solução definitiva para o problema. Governos de todos os níveis procuram dar a impressão de que sua política em relação às drogas está funcionando e, para que essa propaganda seja eficaz, costumam priorizar as demandas dos segmentos sociais com maior influência na opinião pública.
 
Avaliação distorcida
 
E quem tem maior influência na sociedade hoje é a intelectualidade universitária, cujo pensamento hegemônico reproduz-se em toda a imprensa de forma direta ou indireta. Quando o acadêmico não está assinando artigos sobre variados assuntos, está participando de debates, concedendo entrevistas ou dando declarações em matérias factuais, o que naturaliza a sua ideologia como se ela estivesse entranhada nos fatos. Na questão das drogas, isso é recorrente. Quase toda matéria sobre o assunto traz a opinião de um especialista. E ela nunca foge do mantra “prevenção-tratamento-reinserção”. Como os acadêmicos abominam qualquer forma de repressão, por mais danoso que seja determinado comportamento, a política de combate às drogas deixou de ser um problema de segurança pública para se tornar mera questão de educação e saúde, como se o drogado, mesmo quando rouba e mata para sustentar o vício, merecesse tratamento vip na escola e no posto de saúde. E essa visão distorce a própria avaliação das políticas públicas sobre drogas. Exemplo disso é a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), que, mesmo não passando de um jeitinho carioca para a Copa do Mundo, é vista como um modelo bem-sucedido de segurança pública.
 
O uso de drogas interessa a todos, não só aos usuários e suas famílias, mas, sobretudo, às vítimas inocentes, que são roubadas, assaltadas, agredidas ou mortas por drogados e traficantes em busca da manutenção do vício. Essas é que precisam da proteção do Estado e não o usuário. Mas, nas duas últimas décadas, a vítima inocente das drogas — aquela que nunca teve envolvimento com elas, mas sofre na carne ou no patrimônio seus efeitos — foi praticamente silenciada pelas autoridades constituídas, que se renderam definitivamente à política de redução de danos, hegemônica nos meios universitários e preferida pelos meios de comunicação. Com isso, a prioridade absoluta passou a ser o bem-estar do usuário, inclusive na legislação. 
 
Uma lei paulista sobre drogas de 2006, que inspirou a própria lei federal, estabelece  que “são direitos fundamentais dos usuários de drogas”, entre outros, “a garantia de não exclusão de escolas, centros esportivos e outros próprios no Estado de São Paulo, pela sua condição de usuário de drogas”. Ou seja, não adianta mais o pai ou o professor aconselhar o filho ou o aluno a se afastar das más companhias: o próprio Estado obriga a criança a conviver à força com usuários de drogas. Na periferia, claro, pois o intelectual que inspira esse tipo de lei não a prescreveria para o próprio filho.