Edição 1979 de 9 a 15 de junho de 2013
Medicina
Sim, sexo oral pode causar câncer
O ator Michael Douglas lançou a polêmica, o Jornal Opção ouviu especialistas a respeito do tema e a conclusão é de que a prática pode provocar a doença, mas existem fatores com maior incidência

Marcos Nunes Carreiro

Durante a semana passada, a declaração do ator e produtor estadunidense Michael Douglas de que seu câncer de garganta foi causado pela prática de sexo oral causou alvoroço na mídia mundial. A afirmação aconteceu durante entrevista ao diário britânico “The Guardian”, enquanto Michael falava sobre a doença que foi diagnosticada em 2010.

As falas do ator em relação a sexo não são novidade, pois mesmo antes de se casar com a atriz Catherine Zeta-Jones, a quem se uniu em 2002, o ator já havia admitido publicamente ser viciado em sexo. Pelo menos, essa foi a justificativa para os escândalos de traição para com sua ex-mulher Diandra Luker.

Assim, a repercussão das declarações de Michael Douglas não foram por causa do sexo em si, mas devido ao medo de muitos diante da possibilidade de contrair um câncer provocado pela prática de sexo oral. E, segundo especialistas, mesmo que seja uma afirmação quase pitoresca, de fato é considerável a possibilidade de se contrair a doença por meio do ato. Motivo: HPV.

HPV é a sigla para o papiloma vírus humano, uma substância presente em grande parte das pessoas. Existem mais de 100 tipos do vírus, mas somente cerca de 40 têm grande relevância médica, pois podem causar danos ao corpo, como lesões e câncer, caso dos tipos 16 e 18. E não são poucos os casos de câncer ligados ao vírus.

Estudo publicado pela Revista Europeia de Prevenção ao Câncer mostra que entre 1996 e 2010 ocorreram quase 100 mil mortes por câncer ligadas ao HPV somente no Brasil. No mundo foram estimados mais de 600 mil casos. A maioria dessas mortes é de homens com menos de 50 anos.

A epidemiologista goiana Maria Paula Curado, PHD e pesquisadora sênior no Instituto de Pesquisa e Prevenção Internacional na França, diz que as ocorrências de câncer ligado ao papiloma vírus humano acontecem em pessoas jovens por causa da maior velocidade na duplicação de células, uma vez que as células infectadas se duplicam até que a lesão se torne um câncer.

“A lesão é causada por uma infecção, uma irritação da mucosa. Assim, existe uma interação desse vírus com a mucosa. O vírus agride e destrói essa mucosa. Com o tempo o HPV começa a aparecer e desaparecer e se a infecção não for tratada há o risco do desenvolvimento de um câncer. É como qualquer outra infecção e, por isso, deve ser tratada”, explica.

Maria Paula Curado é uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, que aponta que a infecção por HPV também acontece em outras partes do corpo, como o ânus. “A mucosa do ânus é semelhante à da vagina da mulher e o HPV gosta desse tipo de mucosa. Então, no ato sexual, seja ele oral, anal ou qualquer outro tipo, o importante é se prevenir para que não haja contaminação.”

A pesquisadora diz que mesmo que os números de cânceres ligados ao HPV sejam significativos no Brasil, o porcentual dentro do número total de casos da doença pelo mundo ainda é pequeno e que em relação à garganta a maioria das ocorrências é causada pelo consumo de tabaco e bebidas alcoólicas. Ela afirma que esses dois fatores continuam sendo os grandes vilões dessa área do corpo humano. Ela acredita que, muito provavelmente, o câncer de Michael Douglas — o ator tem 69 anos — foi gerado pelo consumo de cigarro e bebidas alcoólicas.

De fato, Michael Douglas é um conhecido apreciador de cigarros e bebidas alcoólicas, o que — mesmo que ele tenha dito o contrário — fez com que seus médicos não descartassem esses vícios como possíveis causadores de seu câncer, cujo tamanho se aproximava ao de uma noz. Porém, a possibilidade de contaminação por meio do sexo oral foi levada em consideração, mesmo porque ele pode ter praticado o ato com muitas parceiras.

Aliás, a prática de sexo com parceiros múltiplos também é um fator de risco de contaminação por HPV seja na vagina, no pênis, cabeça, pescoço ou ânus, como explica Maria Paula Curado. “Se tiver contaminação por HPV há risco de câncer, principalmente quando há muitos parceiros e promiscuidade sexual. Quem tem parceiro único está mais protegido.”

O mesmo afirma o oncologista de cabeça e pescoço Antô­nio Paulo Machado Gontijo, dos Hospitais Araújo Jorge, Geral de Goiânia (HGG) e Centro Bra­si­leiro de Radioterapia, Oncologia e Mastologia (Cebrom). Segundo ele, o risco para quem tem muitos parceiros sexuais é muito maior do que para quem tem um único parceiro, principalmente para a mulher, por causa do câncer de colo de útero.

“Praticamente 100% dos cânceres de colo de útero estão associados ao HPV. Entretanto, isso não é verdade em relação aos cânceres de cabeça e pescoço. Em orofaringe [região atrás da língua, o palato e as amígdalas], por exemplo, ele está presente em até 30%, assim como na laringe e boca. Mas é difícil generalizar, pois existem muitas pessoas que fumam e bebem, mas não desenvolvem câncer, assim como nem todo fumante contrai câncer de laringe e faringe. Então, existem outras causas. Uma delas é o HPV”, diz.

Mas em muitos casos o câncer provocado pela contaminação por HPV pode estar associada também ao consumo de álcool. Gontijo conta que o álcool limpa toda a mucosa da boca e da garganta, logo, na prática de sexo oral, a pessoa fica mais exposta a contrair uma infecção de seu parceiro, visto que o vírus se fixa de forma mais intensa. “Quando queremos aplicar um veneno em algum lugar, primeiro passamos álcool, exatamente para limpar o local e o veneno agir de forma mais eficaz. Com o corpo humano é a mesma coisa.”

Especialistas apontam, en­tre­tanto, que até 2020 alguns tipos de câncer causados pela infecção do vírus poderá superar a ocorrência por álcool e cigarro, sobretudo entre pessoas com menos de 50 anos.

Vírus está presente em quase todas as pessoas

O HPV é um vírus presente em todos os seres humanos e está associado a algumas doenças. Alguns subtipos do vírus são ligados a lesões benignas, como o 6 e o 7. Mas outros, principalmente o 16 e o 18, estão associados a lesões malignas. Isso é bem estabelecido em câncer de colo de útero, em grande parte transmitido pela relação sexual. Esse tipo de câncer tem uma evolução clássica, bem parecida com o câncer de cabeça e pescoço. Por isso, segundo o oncologista Antônio Paulo Gontijo, começou-se a estudar o papel do HPV nessas regiões.

Mas por que apenas algumas pessoas desenvolvem uma infecção do vírus HPV, se todos têm a substância em seus corpos? Segundo Gontijo, a explicação para isso está na formação celular das pessoas. Ele diz que as células têm mecanismos que podem corrigir defeitos que levem a um câncer. O fato de uma pessoa ter HPV, mas não ter câncer, pode significar que ela possui um sistema de correção da duplicação celular geneticamente melhor do que indivíduo que tem o HPV e desenvolveu o câncer, mas isso não significa que ela não possa ser contaminada.

Os cânceres causados pela infecção desse vírus, geralmente, demonstram feridas e lesões em seu estado inicial. Como conta Gontijo, as marcas aparecem como uma lesão esbranquiçada e depois evoluem para uma ferida ulcerada e pouco infiltrativa. Às vezes, são um pouco doloridas, no caso de boca e garganta, principalmente quando a pessoa tenta se alimentar. “Aí é a hora de procurar um especialista para verificar se se trata de uma lesão maligna.”

As lesões provocadas por HPV também podem aparecer na boca e na garganta. Mas a infecção pelo HPV causa normalmente verrugas de tamanhos e em locais variáveis. No homem, por exemplo, é comum que surjam feridas na cabeça do pênis e na região do ânus. Na mulher, os sintomas mais comuns são na vagina, vulva, ânus e colo do útero.

Porém, é preciso ficar atento, uma vez que tanto o homem quanto a mulher podem estar infectados pelo vírus sem apresentar um sintoma sequer. Assim, a forma mais eficaz de ter ciência sobre uma possível contaminação é consultar o médico regularmente, como orienta a doutora Maria Paula Curado:

“Existem exames para verificar se uma pessoa está ou não contaminada pelo vírus. A genotipagem do HPV, por exemplo, pode ser feita por qualquer ginecologista, que faz a coleta, analisa laboratorialmente e identifica o vírus. É muito simples, mas a pessoa tem que ir ao médico e não só a mulher, como também o homem deve ir ao urologista. Nas meninas, o objetivo principal é prevenir o câncer de colo uterino.”

Ir ao médico quando marcas, lesões e feridas aparecem em qualquer lugar do corpo continua sendo, inclusive, a melhor forma de prevenir doenças mais graves, como o câncer. Fora isso, há também a possibilidade da vacinação contra a contaminação pelo HPV. Foram desenvolvidas duas vacinas contra os tipos do vírus mais presentes no câncer de colo do útero. Mas o impacto real da vacinação contra o câncer de colo de útero só poderá ser visto depois de algumas décadas, pois o efeito atual, segundo especialistas, ainda é pequeno.

Uma dessas vacinas é quadrivalente, isto é, previne contra quatro tipos de HPV: os 16 e 18, presentes em 70% dos casos de câncer de colo do útero, e os 6 e 11, presentes em 90% dos casos de verrugas genitais. A outra é específica para os subtipos 16 e 18. Entretanto, segundo Maria Paula, a vacina só funciona em pessoas jovens e que ainda não começaram sua atividade sexual. “Para as pessoas que já iniciaram sua vida sexual a solução é fazer exames ginecológicos regularmente. Mas o mais importante é a higiene na hora do ato sexual, evitar múltiplos parceiros e usar os métodos de proteção”, pontua Maria Paula.

No último mês de março o governo federal lançou uma campanha de vacinação destinada a meninas entre 11 e 13 anos. A imunização começou em 1º de abril e as vacinas estão disponíveis na rede privada de saúde para mulheres com mais de 14 anos. Em setembro de 2012 um projeto de lei aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado prevê que o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça continuamente a vacina contra o HPV para meninas entre 9 e 13 anos. Mas a matéria ainda deverá passar pela Câmara Federal.

O uso da camisinha durante a relação sexual não só impede a transmissão do papiloma vírus como também muitos outros, como o HIV, vírus da aids, que assim como o HPV, também pode ser transmitido para o bebê durante o parto.