34 anos
Paralisação na educação
Professores justificam necessidade de preservar titularidade

A paralisação dos professores do Estado possivelmente marca a primeira vez que um movimento grevista em Goiás alcançou uma repercussão de peso nas redes sociais. O grupo Mobilização dos Professores de Goiás (MPG) é o principal responsável por esse novo veículo e tem feito um papel importante de agregação fora da esfera sindical, representada pelo Sindicato dos Trabalhadores da Educação em Goiás (Sintego), que sofre desgaste em relação a parte da categoria.

A página criada pelo grupo no Facebook já reúne mais de 4,5 mil pessoas. É, certamente, a mais movimentada em Goiás nas últimas semanas. Os post variam entre sarcasmos variados — principalmente com deputados que votaram pelo novo plano de carreira e com o governador Marconi Perillo, além de charges com os temas educação e professor —, vídeos das manifestações e o acompanhamento da greve na imprensa. Os posts formam praticamente um “clipping” (nome dado à publicação que reúne notícias sobre determinado assunto ou instituição).

No intuito de saber diretamente de professores envolvidos no movimento, o Jornal Opção fez três questionamentos aos participantes do fórum virtual a respeito de um dos temas centrais da disputa entre governo e categoria: a titularidade. Uma característica que fica latente em meio às respostas é a desconfiança de muitos em relação à cobertura da imprensa e ao “direcionamento” dado aos textos. Por outro lado, muitos também mostram satisfação em ter a voz “ouvida”.

Abaixo, seguem os questionamentos sobre um dos temas que puxam a atual greve do setor da educação.

A titularidade em si já merece uma premiação (gratificação)?
“O título [especialização, mestrado ou doutorado] só vem depois de uma jornada de estudos e aperfeiçoamentos que vão se reverter em benefícios para os alunos. Afinal, quanto mais se estuda melhores são os resultados em sala, portanto seria justo premiar por título alcançado. Vale resultar que a busca pelo conhecimento fica por conta de cada profissional — o Estado não oferece esse tipo de oportunidade.”
Celso Pacheco

“A titularidade merece gratificação porque é um estímulo à formação continuada. Porém, se a remuneração fosse digna do trabalho do­cente poderíamos discutir sua extinção. É bom lembrar que todas as instituições federais têm gratificação por atividade docente e de titularidade.”
José Marcondes Alves Santana

“Titularidade significa investimento, tempo e conhecimento avançado em sua área de atuação. Obviamente, se há investimento em sua própria carreira, algo que vi­sa o melhor desempenho de suas funções, é imprescindível a valorização do profissional.”
Paula Violette

“A titularidade merece uma gratificação, porque o ingresso em um curso de especialização, mestrado ou doutorado permite o aprofundamento dos conhecimentos e a atualização do conteúdo, que, sem sombra de dúvidas, refletirá na qualidade da educação.”
Tatiele Pereira de Souza

“O professor em formação continuada deve ter seu salário acrescido de algum valor pecuniário, sim, porque ele precisa recuperar o tempo e o dinheiro que dispendeu para se aperfeiçoar em sua área de conhecimento.”
Neide Domingues da Silva

Os professores topariam ser avaliados, de alguma forma, em relação à verificação de melhoria de desempenho em sala de aula após retornarem de uma pós-graduação?
“Eu até aceitaria ser avaliada, mas não acho que exista em nosso cenário alguém (uma instituição) que tenha bases e fundamentos para isso. E ainda insisto vamos começar a avaliar policiais, delegados, políticos e basear o salário deles nisso por acaso?”
Marianne Almeida

“Não há pessoas melhores para avaliar os professores do que os alunos.”
Jéssica Calaça

“Não estamos com medo da avaliação. Eu perdi muito, pois foram 30 anos de serviço a duras penas para conseguir minha gratificação. Estou com processo de aposentadoria em tramitação. Sou P-4, meu salário se igualou ao de um iniciante. Não tenho como recuperar mais a titularidade, e agora? Isso me deixa muito triste.”
Delmaci Vieira

“Acho importante a avaliação, mas gostaria que ela fosse estendida a todas as categorias, inclusive a dos políticos, que deveriam ser avaliados durante todo o período do mandato.”
Dorothy Clara de Santanna

“A avaliação é desnecessária, pois os cursos de especialização, como o próprio nome diz, são uma continuação da formação. Se para ser professor você precisa ter licenciatura, quando receber o diploma já estará qualificado.”
Ana Paula Franchi

“Na verdade a secretaria de educação só quer saber de papel. Todos podem mentir no que vai escrito em um papel. A maioria dos portfólios é só enganação, a avaliação de desempenho é mais uma enganação.”
Lucí Meire Santana

Há professores apenas graduados que os alunos consideram muito mais "mestres" do que quem passou por uma ou até duas pós-graduações. Não seria uma prova de que o mestrado ou doutorado não necessariamente qualifica o professor para a docência (trabalho em sala de aula)?
“No mestrado nos aprofundamos em métodos de pesquisa que, sem dúvida, nos auxiliam no momento de tornar nossas aulas dinâmicas e adequadas; nos tornamos aptos a até mesmo produzir reflexões teóricas na área de educação, somando nossa experiência prática aos conhecimentos teóricos adquiridos. O mestrado nos capacita, ainda, a produzir materiais didáticos — sobretudo textos que complementem o livro, tendo em vista que nos tornamos ainda mais capacitados no sentido da produção escrita — e nos induz a forçar os próprios limites, nos tornando pessoas mais maduras para lidar com dificuldades, que são muitas em se tratando, em boa parte das vezes, de alunos com problemas familiares e limitações das mais diversas. Sou mestre em história e percebo que minhas aulas melhoraram após o término do meu mestrado.”
Clarissa Ulhoa

“O questionamento da validade dos títulos deve ser pensado, mas me parece estranho fazê-la desestimulando a qualificação de pós-graduação. Se é regra que nenhuma pós-graduação seja válida, fechemos todas; ou talvez, no limite, acabemos com a escola, se formação não importa para o exercício de qualquer função.”
Marcelo Brice Assis Noronha

“Sem dúvida, há professores maravilhosos com títulos e sem títulos. Mas, qualquer instituição de excelência exige títulos. Eu pergunto: por quê? Algum valor eles devem ter.”
Fabiana Sotini

“De fato temos muitos colegas que têm um grande volume de cursos e/ou diplomas, mas não têm um bom desempenho dentro da sala de aula (controle da disciplina dos alunos, clareza no conteúdo, criatividade etc., sem falar na apatia que desperta nos alunos). Precisamos, sim, re­novar nossas atitudes dentro da sala, desenvolver um trabalho com mais qualidade. Quem não concorda comigo que me desculpe, mas temos, sim, profissionais muito acomodados na educação.”
Maria de Lourdes Chaves

“No Brasil temos uma vi­são simplista do papel do professor. Devemos compreender que, além de ensinar, o professor é um pesquisador. De­vemos recuperar (ou criar) uma nova compreensão de formação continuada.”
José Neto

“Não possuo especialização stricto sensu (mestrado/doutorado). Mas, suponhamos que eu possa ser um dos melhores professores do Estado. Uma coisa é certa, eu não seria bom/ótimo/o melhor não fos­se devido a colegas que fizeram mestrado, doutorado e capacitaram a eles e a outros, elaborando, desenvolvendo, aprimorando o conhecimento.”
Pablo Jaime

“Professor deve ser pesquisador. Ele deve refletir sempre sobre sua própria prática e ter acesso a novas teorias e pesquisas sobre a educação, além de ele próprio poder produzir esse material.”
Elza Melo

“A pergunta não tem o mínimo sentido. Um professor fica ‘bom’ ou alcança uma eficiência com os anos de docência, ou seja, é um aprendizado conquistado ao longo dos anos. Noventa e nove por cento dos professores tremem em suas bases na primeira aula.”
Maurício Machado