34 anos
Setores de atividades
O serviço está com a força
Setor terciário responde por 59% da economia goiana, conforme os dados consolidados mais recentes; concentração de serviços em Goiânia, principalmente do setor financeiro, puxa o índice
Fotos: Fernando Leite
Ramo de alimentação para as famílias é um dos mais fortes no setor de serviços e comércio em Goiás: aumento de renda possibilitou maior consumo, principalmente na capital

Cezar Santos

Enquanto a agropecuária respondeu por apenas 14% da economia goiana em 2009, a indústria com 27%, o setor de serviços ficou com 59%. Os números constam de levantamento da Secretaria de Estado de Gestão e Planejamento de Goiás (Segplan), por meio da Superintendência de Estatísticas, Pesquisa e Informações Socio­econômicas (Sepin), em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre o Produto Interno Bruto (PIB) dos Municípios do Estado de Goiás de 2009. Esses números, é bom lembrar, são os consolidados mais recentes.

Conforme o relatório Sepin-IBGE: “O setor de serviços apresentou o segundo melhor resultado em termos de variação real, entre os três grandes setores no ano de 2009, quando cresceu 1,3%, atingindo 59,0% da economia estadual, ante 61,0% no ano anterior, observa-se uma perda de participação neste indicador. O valor adicionado foi de R$ 44,549 bilhões, contra R$ 40,139 bilhões no ano de 2008, com acréscimo de R$ 4,410 bi­lhões. Os melhores resultados, no que se refere ao crescimento em 2009 foram encontrados nas atividades de: intermediação financeira, seguros e previdência complementar e serviços relacionados (9,9%); serviços domésticos (8,4%); serviços de informação (7,1%); serviços prestados às empresas (3,6%); serviços de alojamento e alimentação (2,8%); administração saúde e educação pública e seguridade social (2,4%); atividades imobiliárias e aluguel (1,1%) e serviços prestados às famílias e associativos (0,3%). As variações negativas ocorreram nas atividades de: transportes armazenagem e correio (-4,7%); comércio e serviços de manutenção e reparação (-2,0%) e saúde e educação mercantis (-0,7%).”

Veja o quadro com evolução da estutura e taxa de crecimento dos setores de atividades.

Razões

As razões da pujança do setor de serviços em Goiás não são difíceis de explicar. Esse setor engloba 11 atividades, o que o torna naturalmente mais robusto na economia. Dentre estas atividades, estão comércio, transportes, serviços de alojamento e alimentação, informação, intermediação financeira, administração pública, entre outros.  Crescimento do consumo das famílias, resultante dos au­mentos da renda e do crédito. As­sim resume assim o fortalecimento do setor de serviços de 20­08 para 2009 a superintendente da Sepin, Lilian Maria Silva Prado. Ela lembra que à exceção de administração pública, que se refere à prestação de serviços de natureza gratuita à coletividade, financiados através dos impostos pagos pela sociedade, as demais atividades dão a dimensão da importância do setor de serviços como um reagente ao dinamismo da demanda interna estimulada pelo crescimento do consumo das famílias.

E Goiás é diferente de outros Estados nesse contexto? Segundo Lilian, com a participação em 59% do setor de serviços no total da economia, em 2009 (último ano com estatísticas consolidadas), na comparação aos outros Estados bra­­­sileiros, essa participação não é tão elevada, pois fica abaixo da média nacional, de 67,5%. A título de exemplos, no Estado de São Paulo a participação do setor de serviços na economia foi de 69,3%, no Rio de Janeiro de 73,2% e no Paraná 64,1%. Esse fato pode ser explicado pela elevada participação da agropecuária em Goiás, de 14%, enquanto a média brasileira é de 5,6%. Goiás é o sexto Estado brasileiro na geração de renda na agropecuária.

Segundo Lilian do Prado, mes­mo em ano de crise, como foi 2009, o setor de serviços em Goiás cresceu 1,3% (a média brasileira foi de 2,1%), chegando a um montante de R$ 44,5 bilhões seu valor adicionado, com acréscimo de R$ 4,4 bilhões em relação ao ano de 2008. A superintendente diz que o bom desempenho, considerando o cenário de crise, foi puxado principalmente pelos serviços de intermediação financeira (9,9%), impulsionados pelo aumento do volume de crédito injetado na economia nos últimos anos; serviços de informação (7,1%), devido à demanda cada vez maior por mais tecnologia; e serviços domésticos, cujo crescimento em 8,4% foi devido à ex­pansão da ocupação com vínculo formal de trabalho.

O município de Goiânia ocupou a primeira colocação entre os municípios goianos com maior participação do setor de serviços, com 33,5% do Valor Agregado (V­A) estadual em 2009. E este setor participou em 81,9% na produção de riquezas do município. Lilian lembra que Goiânia tem a maior população do Estado, portanto tem um grande mercado consumidor, e combina as funções de sede administrativa estadual com a de grande mercado distribuidor de mercadorias e serviços.

Outros destaques

Aparecida de Goiânia ficou em segundo lugar, participando com 6,9% do VA estadual de serviços em 2009, sendo que a atividade tinha peso de 75,2% na estrutura municipal. Aparecida é polo dinâmico e importante na transformação de matérias-primas e distribuição de produtos para os grandes centros consumidores do País.

Em terceiro lugar ficou Aná­polis, com 6,8% do VA estadual, a atividade de serviços representou 51,2% na estrutura municipal em 2009. O município concentra o segundo polo atacadista do Es­tado, que é o polo farmoquímico; empresas de logística e atacadistas, diversas agências bancárias, grandes redes de supermercados e hipermercados.

Em quarto lugar ficou Senador Canedo, que participou com 4,5% do setor de serviços do Estado, sendo que a atividade participava com 90,8% na estrutura municipal em 2009. Destaque para o comércio atacadista de combustíveis.

Rio Verde, na quinta posição, participou com 4,0% do VA estadual em 2009, tendo peso de 46,3% na estrutura municipal. Os destaques ficaram por conta de serviços de informação, alojamento e alimentação, comércio e serviços prestados às famílias.

Goiânia é o “motor da economia”

O economista Eber Vaz, da ACL Consultoria, professor da PUC Goiás e ex-presidente do Conselho de Economia de Goiás, lembra que Goiás é um Estado ainda pobre e de fraca industrialização. E a agricultura é forte, mas concentrada em alguns poucos municípios. Então, nesse contexto, o setor de serviços acaba sendo preponderante. Ele lembra ainda que Goiânia tem praticamente um quarto da população e 50% do PIB do Estado. “Por aí, vê-se que a representatividade da Capital é muito grande na riqueza goiana e passa a ser o parâmetro na análise do setor de serviços.”

Eber Vaz diz que Goiânia não tem área rural, então não poderia nunca ter uma produção rural de peso, daria no máximo para produção de hortifrutigranjeiros, criação de pequenos animais, etc., Não se geraria muita riqueza por aí. Já na indústria, Goiânia até poderia ter uma significação elevada, mas como os municípios ao redor da Grande Goiânia têm muitos espaços, as indústrias se instalam neles.

O economista dá uma rápida aula de história, lembrando que há cerca de 40 anos o Estado iniciou o processamento de zoneamento industrial, quando criou o Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia) e distritos industriais em vários outros municípios, fez uma espécie de direcionamento industrial. “Aí Goiânia passou a não ser uma cidade industrializada, diferente de Belo Horizonte, por exemplo, uma capital que tem muitas indústrias. Goiânia tem perdido indústrias, por sinal, porque municípios vizinhos como Anápolis, Apa­recida, Senador Canedo, Go­ianira, Trindade, que agora também entrou na rota de empresas, têm áreas para abrigar indústrias, que podem utilizar essas áreas por um tempo longo e depois fazer expansão.”

E nesse processo de expulsão de indústrias de Goiânia, conta também a questão do meio am­biente. Cada vez mais, nos últimos anos, as empresas têm evitado ficar em locais de grande aglomeração humana, porque na medida em que as residências são afetadas, as pessoas começam a denunciar problemas ambientais. “Em função de todos esses fatores, resta praticamente só o setor de serviços para Goiânia”, analisa Eber Vaz. E como se sabe, com 50% do PIB goiano, a Capital é o motor da economia de Goiás.


O economista enumera as razões da força terciária na economia do Estado ser alavancada pela Capital. Goiânia tem um setor financeiro muito grande, maior que em grande parte das capitais brasileiras. E o setor financeiro tem agregação muito grande de valor na produção do Estado.

“E temos um setor de saúde altamente concentrado em Go­iânia. Além do setor de saúde pública concentrado na Capital, Goiânia tem vários serviços de referência em saúde, como no caso de oftalmologia. Aliado a isso, temos outros serviços profissionais, como advogados, economistas, engenheiros administradores, psicólogos e outros, um contingente enorme de profissionais liberais, o que não tem nos outros municípios, ou quando tem, em cidades maiores, como Anápolis e Rio Verde, não se compara a Goiânia”, diz Eber Vaz.

Outro fator, aponta o economista, é que nos últimos anos cresceu muito o setor de informática no Brasil e Goiânia é muito rica nessa área, tanto na parte comercial quanto na assistência técnica, formação de mão de obra, treinamentos, cursos. etc. São várias áreas com prestadores de serviços concentrados em Go­iânia. “Em função disso, nosso setor de serviço é muito importante na formação do Produto Interno Bruto do Estado.”

Sem estímulo

O economista Eber Vaz afirma que o setor de serviços não recebe o estímulo que poderia significar ainda mais geração de empregos e de riqueza para o Estado. Segundo ele, nem a Prefeitura de Goiânia nem o governo do Estado tem essa preocupação. “A Prefeitura de Goiânia não tem dado o devido valor a esse setor. Para começar o ISS [Imposto sobre Serviços] de Goiânia é mais caro. Muitas empresas que atuam na Capital co­locaram sedes em cidades vizinhas para fugir dessa tributação mais elevada, isso mostra que o município não tido preocupação. Nunca vi em Goiânia nenhum programa voltado para o setor de serviço.”

A situação é a mesa em relação ao governo estadual. “Também não vejo essa preocupação por parte do governo do Estado, a não ser quando ele investe na área educacional, na saúde, mas não está exatamente preocupado em dar mais fôlego para o setor de serviços. O governo tem benefícios dentro do Produzir, que é para todo o Estado. A preocupação é mais em atender necessidades que são de obrigação, em locais de maior densidade porque tem também maior capilaridade eleitoral. O governo, por exemplo, prefere construir um hospital em Goiânia e não em um município longe, onde há poucos eleitores.”

Segundo Eber Vaz, os poderes públicos tanto do Estado quanto da Capital poderiam criar mecanismos para fortalecer os serviços. “Dou um exemplo, em Pal­mas recentemente foi criado um programa de incentivo fiscal com baixíssimas taxas para estimular o i-commerce [comércio eletrônico]. Eles estão pegando um nicho de mercado do setor de serviços. Nós em Goiás não temos absolutamente nada dessa forma.”

Foco no micro e no pequeno empreendedor

Gerente setorial de serviços do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em Goiás, João Bosco Gouthier diz que o trabalho do Sebrae para o setor de serviço ataca aquelas atividades ligadas à informática, prestação de serviços às empresas, às famílias, imobiliárias, técnicos, locação de pessoal, transporte, educação, saúde, turismo, etc. Do foco dos serviços, o Sebrae dá especial atenção a duas áreas que cresceram demais, que é a economia criativa (a cultura) e ao turismo. “Damos uma ênfase muito gran­de para esses segmentos. Nosso papel é levar informação e capacitação ao pequeno e microempresário, tornando-o apto a tocar seu negócio de forma lucrativa e ambientalmente e socialmente correta.”

O gerente diz que ultimamente tem havido expressivo aumento na procura por mão de obra qualificada na área de serviços em Goiás. “Exa­ta­mente, o crescimento de serviços nessas áreas está trazendo isso. Alguns dados mostram essa realidade. O setor primário, o agronegócio, ocupa 20% de mão de obra do País; indústria, o secundário, ocupa 21%; e comércio e serviços juntos ocupam 59%. E isso vem num crescente muito grande.”

João Bosco Gouthier informa que em relação ao empreendedor individual no setor serviços, os corredores do Sebrae Goiás estão lotados de pessoas querendo abrir suas empresas, porque hoje é mais fácil e mais barato. “Cada consultor nosso atende média de 25 pessoas por dia, é uma loucura.” Ele mostra dados atualizados, do dia 31 de janeiro, do Sebrae Goiás, que constam que 34% das empresas individuais são de serviços; comércio ocupa 41%, indústria 19% e construção civil 5,8%.

Segundo o gerente, dentro do porcentual de procura por abrir a empresa individual de serviços, 7,8% são de cabelereiros, 4% lanchonetes em geral, 3,1% bares e outros estabelecimentos de alimentação, e 1,9% para reparação e manutenção de computadores. Esses são os destaques e depois vem mais uma gama de serviços como encanador, eletricista, pintor, técnico de informática, técnico de reparos telefônicos, marceneiro e outros.

“Outro dado interessante é que hoje, em Goiás, temos re­gistrados 30.113 empreendedores individuais. No Brasil, são 1.923. O empreendedor individual em Goiás representa 4% do Brasil, ou seja, somos destaque em termos nacionais e mais ainda na região Centro-Oeste. Goiás está acima da média na­cional e vamos aumentar esse porcentual porque o número de pessoas que procuram o balcão do Sebrae Goiás para abrir sua empresa individual é cada dia maior”, observa João Bosco.

Além do empreendedor in­dividual, que é uma faixa dos serviços, o gerente lembra que há o turismo e a cultura, áreas de destaque. “E atendemos candidatos para clínicas de sa­úde, de estética, para área de beleza, temos atendimento para programas específicos de sa­úde. São vários núcleos nos projetos que tocamos. No projeto Em­pre­ender, estamos em 37 municípios goianos e em cada um são 5 núcleos de co­mércio ou serviço.”

Nesse quadro, diz João Bos­co, a perspectiva é que esse contingente aumente muito no futuro próximo, principalmente por causa da Copa de 2014. Goiânia não é subsede, mas Brasília é está dentro de Goiás, sendo assim, muitos negócios serão gerados principalmente nas cidades turísticas, porque o torcedor que estiver em Brasília não vai ficar o tempo todo na Capital Federal.