Edição 1963 de 17 a 23 de fevereiro de 2013
Bento XVI
O mundo se apequena sem a voz de um gigante
Mais do que uma tentativa de confrontar a Igreja com seus próprios problemas, a renúncia do papa é um sacrifício para salvar o homem e o Ocidente que o criou
Vaticano

José Maria e Silva 

“Stalin tinha razão ao dizer que o Papa não tem divisões nem pode comandar.”
Papa Bento XVI

Entre o chão informe e um céu sem estrelas, uma confusa multidão de corpos nus se movia aos gritos. Uma nuvem de vespas acompanhava a desesperada vaga humana e dos rostos contorcidos, cortados por ferrões, rolava o sangue misturado às lágrimas, que servia de repasto aos vermes. À entrada daquele mundo de treva e dor, pendia, feito sentença, a inscrição: “Deixai toda esperança, o vós que entrais”. Foi assim que Dante Alighieri descreveu as portas do Inferno, no Canto III da “Divina Comédia”, onde chegara acompanhado pelo poeta latino Virgílio, seu guia pagão da Antiguidade Clássica. E, entre a multidão de almas penadas, contou ter reconhecido Celestino V, o papa “que fez, por covardia, a grã recusa”, isto é, renunciou ao papado. Dante se assombra com o desespero daquelas almas e Virgílio lhe explica que se trata de covardes, entre eles o papa renunciante, que viveram sem infâmia, mas também sem louvor. O céu não os queria e o inferno os rechaçava; não mereciam lembrança nem misericórdia: “Non ragioniam di lor, ma guarda e passa” (“Deles não cuideis, mas olha e passa”) – aconselha Virgílio.

É assim que o Papa Bento XVI será lembrado, como o Celestino V de Dante Alighieri, lançado às portas do Inferno como covarde, entre o escárnio do demônio e a indiferença divina? Provavelmente, não. Começando pelo fato de que o grande poeta florentino foi um tanto duro com Pietro da Morrone, eleito papa em 5 de julho de 1294, que, ao renunciar cinco meses depois, em 13 de dezembro do mesmo ano, abriu caminho para o ambicioso Bonifácio VIII, inimigo de Dante, daí a injusta raiva do poeta, imortalizada na “Divina Comédia”. O efêmero pontificado de Celestino V se deu numa época de profunda crise da Igreja, convulsionada pelas guerras de poder da Europa medieval. A Igreja vive novamente uma crise (que instituição de seu tamanho não as vive de forma recorrente?), mas Bento XVI está muito distante de Celestino V, não só no tempo, mas também no caráter. Se o século XXI fosse capaz de uma “Divina Comédia”, Joseph Ratzinger estaria entre os eleitos, ao lado de Pedro Hispano, o sábio português (médico, matemático e filósofo), que se tornou o papa João XXI e foi homenageado por Dante, que o pôs no Paraíso, a “luzir em seus 12 livros”.

Pietro da Morrone era um eremita de rigorosa vida ascética, que pouco conhecia do mundo e sabia menos ainda das intrigas dos nobres. Na época, a Igreja estava dividida entre duas históricas famílias de cardeais, os Orsini e os Colonna, e acossada pelo poder secular dos imperadores, especialmente o rei Carlos II de Anjou, que governava Nápoles e a Sicília. Diante do impasse de dois longos anos na escolha do novo papa, após a morte de Nicolau IV, em 1292, havia um anseio da cristandade para que fosse eleito um “Papa Angelicus”, nos moldes de São Francisco de Assis, que havia impressionado o mundo medieval com sua santidade. Esse anseio por um papa humilde, santo e apolítico interessava sobretudo ao poder secular. Tanto que Carlos II soube influir no pontificado de Celestino V, ampliando sobremaneira a influência francesa na Igreja, resultando no grande cisma da Idade Média, que dividiu o papado entre Roma e Avignon durante a maior parte do século XIV. A inapetência de Celestino V pelo poder levou-o a constituir uma comissão de cardeais para decidir se era possível a um papa renunciar. A comissão disse que sim e seu líder, o enérgico cardeal Bene­detto Gaetano, foi eleito papa aos 78 anos, com o nome de Bonifácio VIII.

“Helder Câmara” alemão

Bento XVI, também eleito papa aos 78 anos, se não chega a ser um político como Bonifácio VIII está longe de ser um ingênuo como Celestino V. Ao contrário do eremita medieval Pietro da Morrone, o cardeal Joseph Ratzinger — um intelectual e poliglota que fala dez línguas — já conhecia os meandros do poder em Roma muito antes de se tornar papa. Considerado dentro da Igreja uma espécie de “menino-prodígio” da teologia, o padre Ratzinger, com apenas 35 anos, tornou-se o principal conselheiro teológico do célebre cardeal Joseph Frings, arcebispo de Colônia e presidente da Conferência Episcopal Alemã durante 20 anos, entre 1945 e 1965. No livro “Meu Irmão, o Papa” (Editora Europa, 2011), depoimento do monsenhor e prestigiado maestro Georg Ratzinger ao jornalista Michael Hesemann, o cardeal Frings aparece como uma espécie de Dom Helder Câmara alemão. Na passagem do Ano Novo de 1946, quando a Alemanha padecia um inverno rigoroso, em meio às ruínas da Segunda Guerra Mundial, ele saiu em defesa dos pobres que haviam saqueado um trem de carvão: “Vivemos tempos em que um indivíduo, em seu desespero e necessidade, terá permissão para levar o que precisa para preservar saúde e sobrevivência, caso não possa obter de outra maneira, por meio de seu trabalho ou solicitação” — disse no seu sermão de São Silvestre.

No Concílio Vaticano II, Frings liderou um grupo de bispos e teólogos alemães e austríacos, entre os quais se encontrava Ratzinger, que propugnou profundas mudanças na Igreja, defendendo decisões menos hierárquicas e mais colegiadas, inclusive no antigo Santo Ofício, o temido instrumento da antiga Inquisição, comandado, na época pelo cardeal Alfredo Ottaviani, que se opunha às reformas. O que talvez nem Frings nem Ratzinger imaginavam é que, como diz o provérbio, quando se dá o pé, os incautos querem a mão, e as reformas do Concílio Vaticano II serviriam para que alguns teólogos radicais – mais marxistas do que cristãos – tentassem transformar a Igreja numa sucursal do Partido Comunista. É o caso da Teologia da Libertação, que tem entre seus líderes na América Latina justamente um ex-aluno de Joseph Ratzinger — o brasileiro Leo­nardo Boff. Em entrevista à Rádio França Internacional, Boff comentou a renúncia de seu antigo professor e disse que Ratzinger, “como teólogo, era extremamente gentil, uma pessoa fina”, mas que teria se tornado “uma pessoa muito dura em termos de conceitos e doutrinas” ao assumir o comando da Congregação para a Doutrina da Fé.

Nada mais errôneo do que essa afirmação do teólogo brasileiro, hoje casado e fora do clero. Assim como Frei Betto, que chegou a integrar o primeiro governo Lula, teólogos como Boff usam os evangelhos como panfletos, transformados em dogmas de ideologias estranhas à fé cristã. E o que é mais grave: sua teologia não se limita a agir no mundo através de uma aliança meramente estratégica com uma ideologia de ocasião, o que seria aceitável, à direita ou à esquerda, dependendo das circunstâncias, afinal a Igreja integra a realidade terrena e precisa interagir com ela; não, a Teologia da Libertação vai além da ação política e procura instaurar sua própria metafísica, reescrevendo Deus à imagem e semelhança de Marx. Foi isso que a Santa Sé — mesmo com toda a sua liberalidade, reforçada pelo Concílio Vaticano II — não podia tolerar. Na prática, a Teologia da Libertação decreta a morte de Deus, que tem de se submeter aos ditames do relativismo secular. Boff condena a Igreja até por não aceitar a teologia de gênero, como se Deus não passasse de um personagem literário passível de ser reescrito ao sabor da idiossincrasia de seus críticos. Pode até ser, e há grandes intelectuais que o tratam dessa forma, com reflexões esteticamente muito ricas, mas obviamente elas não condizem com religião e igreja, que são outra coisa.

Liberdade de pensamento

O jornalista francês Bernard Lecomte, em sua biografia homônima sobre João Paulo II (Editora Record, 2005), conta que o carismático papa tinha grande respeito pelos teólogos. “Não é por acaso que ele chama para junto de si já em 1980 um teólogo alemão dos mais brilhantes, conhecido durante o Vaticano II, com o qual nunca mais deixaria de trocar ideias: o bispo Joseph Ratzinger”, relata Lecomte. E a posição de João Paulo II seria praticamente a mesma de seu prefeito na Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, Papa Bento XVI. João Paulo II era tolerante com os teólogos, respeitando seu livre pensamento e até suas discordâncias em relação à doutrina oficial da Igreja. Quando o teólogo alemão Hans Küng negou o princípio da infalibilidade papal e, em 1995, depois da encíclica “Evan­gelium Vitae”, acusou João Paulo II de ser um “ditador espiritual”, o Vaticano se limitou a não mais considerá-lo como um teólogo católico, sem no entanto excomungá-lo ou destituí-lo do sacerdócio. “O mesmo aconteceria com a maioria dos teólogos que aos olhos de João Paulo II falharam em sua missão eclesiástica”, conta Lecomte.

E cita outro exemplo: “Charles Curran, professor na Universidade Católica da América, em Washin­gton, fora a certa altura, aos 34 anos, uma das pontas de lança da oposição à encíclica Humanae Vitae, o famoso texto de Paulo VI que proibia a pílula anticoncepcional. Também ele, mesmo mantendo sua cátedra, enrijeceu-se na contestação, livro após livro, artigo após artigo, especialmente sobre as questões sexuais. No dia 25 de julho de 1986, depois de várias advertências, Ratzinger — com o aval de João Paulo II — comunica-lhe que já não estava mais ‘apto a exercer a função de professor de teologia católica’. Como Küng, Curran conservava sua condição de padre, não era incluído no Índex e podia ensinar livremente onde mais quisesse. Finalmente suspenso em seu ensino em Washington, ele moveu ação por rompimento abusivo de contrato, perdeu o processo em fevereiro de 1989 e foi ensinar para protestantes metodistas”. Por fim, Lecomte trata do teólogo alemão Eugen Drewermann, “que de tanto passar o Evangelho pelo crivo da psicanálise, acabou também numa posição que falseia a doutrina da Igreja, especialmente em relação à virgindade de Maria e a ressurreição de Cristo”. Esse teólogo também foi destituído de suas funções de ensino em instituição católica.

Bernard Lecomte também aborda o caso de Leonardo Boff, o “franciscano brasileiro” que “encarnou os desvios da teologia da libertação” e “tanta tinta fez correr dos dois lados do Atlântico”. Para o biógrafo, o “ex-aluno de Ratzinger aplicou uma análise deliberadamente ‘marxista’ a uma Igreja que a seus olhos representava uma estrutura hierárquica nociva” e, depois de advertido, com um pedido do Vaticano para que se abstivesse de declarações públicas durante um ano, Boff acabou abandonando o sacerdócio e se casando. Mas, ao contrário do que faz crer em suas inúmeras entrevistas, não pode acusar a Igreja de censurá-lo, afinal, Boff sempre teve amplo espaço na mídia, até maior do que o próprio papa, levando em conta que sempre fala o que quer, enquanto a cúpula do Vaticano geralmente aparece na imprensa como alvo de ataques. A rigor, todos esses casos, inclusive o do próprio Boff, revelam apenas uma legítima ação da Igreja no sentido de manter sua unidade doutrinária, o que, repito, é um direito — e mesmo um dever — até de partido político, que dirá de uma instituição religiosa. Afinal, a liberdade de culto é uma conquista do mundo ocidental forjado pelo cristianismo: quem não está contente com a Igreja não é obrigado a permanecer nela.

Patologias da razão

Bernard Lecomte explica a posição de João Paulo II em relação à liberdade de pensamento, o que vale para Joseph Ratzinger, seu escudeiro nas questões doutrinárias e, depois, sucessor: “Para o papa, um teólogo não ocupa a mesma posição de um filósofo ou de um sociólogo leigo, cujas investigações comprometem apenas a ele mesmo”, explica Lecomte. “O teólogo deve servir à Igreja e saber dar mostra de obediência ao magistério — caso não queira simplesmente deixar de ser um ‘teólogo católico’. Aqueles que não querem submeter-se têm toda liberdade de dar prosseguimento às suas pesquisas, mas não sob a égide da Igreja”. Essa visão de João Paulo II em relação aos teólogos tem sido a mesma de Bento XVI, desde os tempos em que era o guardião da doutrina e presidente da comissão que elaborou o “Catecismo da Igreja Católica”, obra publicada em 1992 sob o Pontificado de João Paulo II. Ao contrário do que dizem seus detratores, Ratzinger sempre foi um homem aberto ao diálogo com as mais diversas correntes de pensamento, inclusive com aquelas que se opõem à Igreja. Tanto que, em 19 de janeiro de 2004, quando ainda era prefeito da Congregação para a Dou­trina da Fé, protagonizou um debate com o filósofo Jürgen Habermas, partidário do laicismo, na Academia Ca­tólica da Baviera, em Munique, na Ale­manha.

Publicado no Brasil com o título de “Dialética da Secu­la­rização: Sobre Razão e Re­ligião” (Editora Ideias & Letras, 2007), o debate com Habermas mostra um Ratzinger que não hesita em citar pensadores criticados pelo Vaticano, como o próprio Hans Küng, propositor de uma “ética mundial”, tema que também preocuparia o futuro Bento XVI. Na conversa com Ha­bermas, Ratzinger sustenta que a ciência sozinha não poder gerar uma ética e é preciso que a filosofia (ele diz “filosofia” e não “teologia”) acompanhe de perto o desenvolvimento científico, “analisando de maneira crítica conclusões apressadas e falsas certezas sobre o que é o homem, de onde vem e porque existe”, ou seja, “depurando os resultados científicos do elemento não científico que amiúde se mescla com eles”. E ao refletir sobre o fanatismo religioso que se associa ao terror, ele se pergunta se a religião não deveria se pôr sob o comando da razão, já que pode ser tão perigosa. E indaga se superar a religião não seria a única forma de se alcançar o “caminho de liberdade e tolerância universal”. Mas sua própria resposta, como não poderia deixar de ser numa mente lúcida, é negativa. Não porque Ben­to XVI acredite na infalibilidade da religião, mas porque está consciente da falibilidade da razão.

Joseph Ratzinger observa que a ciência deu ao homem a capacidade de produzir ho­mens: “O homem se converte em um produto, de sorte que a relação do homem consigo mesmo se transforma radicalmente. Não é mais um dom da natureza ou do Deus criador; é um produto fa­bricado por ele mesmo”. E co­mo o homem desceu às fontes mais profundas do poder, as fontes de sua própria existência, o ele se vê tentado a ir além de todos os limites: “Agora, a tentação de construir o homem perfeito, a tentação de fazer experimentos com ho­mens, a tentação de considerar os homens como resíduos e desfazer-se deles já não são fantasias de moralistas hostis ao progresso”. Diante disso, Ra­tzin­ger sustenta que, assim como a religião deve ser questionada em face do fanatismo, também deve “surgir a dúvida sobre a fiabilidade da razão”. E pondera aristotelicamente: “Não deveria quiçá circunscrever-se reciprocamente a religião e a razão, mostrar-se uma à outra os respectivos limites e ajudar-se a encontrar o caminho?”. Ratzin­ger enfatiza claramente que, “na religião há patologias perigosas que precisam ser consideradas à luz divina da razão”, mas também lembra que “há patologias da razão que não são menos perigosas”. O sociólogo Dur­kheim — um ateu — subscreveria integralmente essa frase do cardeal Ratzinger.

Combate ao relativismo

A grande missão que Joseph Ratzinger se impôs, primeiro no comando da Congregação pela Doutrina da Fé e depois como Papa, foi o combate ao relativismo. A imprensa laica, especialmente a brasileira, exige que a Igreja subscreva as demandas dos gays de passeata, reduza o sexo a uma questão de preservativo e transforme o aborto em direito humano, além de abrir o sacerdócio para as mulheres. Ora, nem partido político que se preze deve proceder como um caniço, vergando-se ao vento de ocasião. O PT, por exemplo, só conquistou a República porque, ao contrário dos demais partidos, soube ter uma doutrina coerente para oferecer aos militantes, expurgando filiados que discordavam de sua ideologia e rejeitando alianças que pudessem desvirtuá-la. Só depois de formar essa estrutura sólida, forjada na rara capacidade de dizer não, é que o PT se abriu às alianças, pois aí já não corria o risco de se tornar indiscernível das demais siglas fisiológicas. Portanto, se um partido político precisa ser coerente com sua história de algumas décadas, por que a Igreja Católica, com quase 2 mil anos de existência, deveria ceder às demandas cambiantes dos profissionais de passeata? Elas mudam a cada verão, como as demandas do movimento gay, que começou se identificando como “GLT” e, hoje, já caminha para ser GLBTTXYZ...

Ao contrário do que pensam os relativistas que dominam universidades e redações, a natureza oferece fatos irretorquíveis, que a Igreja — hoje portadora da razão até mais do que a ciência — é praticamente a única a reconhecer. Quando a Igreja se recusa a trocar a dualidade do sexo biológico pela subjetividade da orientação sexual, está apenas reconhecendo os impérios da razão. Algo a que a medicina abdicou, empenhada que está em satisfazer a voracidade de poder da militância gay. Mas por mais que essa militância — de mãos dadas com as feministas dos estudos de gênero — inventem sexos virtualmente configuráveis, nas maternidades os obstetras continuam definindo binariamente para as mães a identidade sexual de seus bebês: é menino ou menina — não existe outra alternativa, salvo nos raros casos de hermafroditismo. Logo, por que seria um avanço a Igreja colocar em pé de igualdade com os casais heterossexuais os casais de mesmo sexo? É óbvio que esses casais devem ser aceitos — e são, inclusive pela Igreja, que não os persegue — mas daí a transformá-los em ideal a ser estimulado nas escolas, como se tem feito, vai uma grande distância. O próprio Bento XVI, em sua defesa dos valores morais, sabe que eles são um farol. Pelo fato de navios naufragarem, os faróis devem ser apagados?

Todo excruciante pontificado de Bento XVI foi uma luta ingente em defesa da verdade. Não como dogma de uma Igreja avara, mas como anseio universal no coração do homem, como sabia Santo Agostinho. Justamente por isso, o papa se viu atacado de todos os lados. A imprensa de todo o mundo, além de tentar transformá-lo num pontífice retrógrado, omitiu todos os seus esforços no sentido de dar resposta para a crise da Igreja — que ele sempre foi o primeiro a reconhecer. Bento XVI enfrentou com muita coragem o problema dos padres pedófilos (por sinal exagerado pela mídia), determinando ao clero que colaborasse com a Justiça e amparasse as vítimas, mas a imprensa faz de conta que ele nada fez a respeito. No livro “Benedicto XVI: Luz del Mundo” (Barcelona: Editora Herder, 2010), uma longa, franca e inusitada entrevista concedida pelo papa ao jornalista alemão Peter Seewald, Bento XVI discorre sobre esse e outros problemas da Igreja, abordando, inclusive, a possibilidade da renúncia papal. Mas deixa claro que ela só pode ocorrer depois de afastado o perigo que corre a Igreja. Resta saber se esse perigo foi afastado.

O diálogo como legado

A renúncia de Bento XVI não foi motivada apenas por sua saúde. Ela, sem dúvida, é frágil, mas se a cúria estivesse unida ele poderia definhar no trono de São Pedro, como fez João Paulo II, amparando-se na confiança que depositava no próprio Ratzinger. Mas o tímido, gentil e lúcido teólogo alemão talvez já não tenha em quem confiar num cardinalato que o elegeu contando os seus dias. Como ele próprio disse na entrevista ao jornalista Peter Seewald, “Stalin tinha razão ao dizer que o Papa não tem divisões nem pode comandar”.

Prosseguindo a obra de João Paulo II, Bento XVI procurou fortalecer os setores da Igreja que tinha sido amordaçados pelas vanguardas radicais do Concílio Vaticano II e, vencendo a própria timidez, conseguiu dialogar com a juventude. Não para fazer a vontade dos jovens, mas para ensinar a eles que existe a verdade. Sem ela, até o amor “torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente”, como escreveu na encíclica “Caritas in Veritate” (“Caridade na Verdade”). Para Bento XVI, “a verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas”. Por isso, sua renúncia talvez seja uma tentativa de confrontar não só a Igreja, mas o Ocidente com a verdade. No fundo, Bento XVI, ao renunciar, não quer salvar a Igreja — quer salvar o homem. Pois sem valores perenes ele não se sustenta e não difere dos vermes da terra.

Como se vê, o pensamento de Joseph Ratzinger nada tem de obscurantista, como insistem em dizer seus adversários em todo o mundo, especialmente no Brasil do hedonismo empírico, movido a carnavais. Sua razão é a da imorredoura filosofia clássica, filha da lucidez de Aristóteles. O que sua teologia busca não é o Jeová caricato do Antigo Testa­mento, pintado canhestramente pela exegese de gênero das feministas, mas o homem moderno da tradição judaico-cristã, que fundamenta a civilização ocidental. E esse homem só é possível na verticalidade do espírito que ousa ir além da matéria, reconhecendo na ciência um instrumento de saber, não um altar de adoração. Para isso é preciso que a ciência respeite a religião — não porque ela detenha a verdade, mas porque dialoga com o desconhecido. Não é assim que a ciência também progride, ousando ir além do que já conhece? Quando o cientista se arvora a ser Deus — e munido de Marx, Darwin e Freud — acredita-se capaz de explicar a história, a natureza e a mente, ele mata a dúvida que move a ciência. Mas, como o legado de Bento XVI nos dá a entender, a dúvida não se confunde com a mera negação do relativismo: ela é o anseio insatisfeito pela verdade e, dessa forma, não apenas aguça o saber que move a ciência — mas alicerça a própria ética que fundamenta o humano.