37 anos
Edição 1850 de 19 a 25 de dezembro de 2010
Riqueza
O boom do minério e a nova ordem econômica em Goiás
Imenso potencial goiano na área mineral vai ser deslanchado com a Ferrovia Norte-Sul, que possibilitará o barateamento do custo de transporte
Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção
Especialistas avaliam que a inauguração da Ferrovia Norte-Sul vai marcar um novo tempo para a economia goiana ao facilitar o transporte das nossas pedras minerais para o mercado internacional
Luana Borges
 
A chegada dos trilhos da Ferrovia Norte-Sul a Goiás gera novo impulso ao ramo de mineração no Estado. Se o boom da atividade mineral foi em grande parte estimulado pelo “efeito China” do início da década, pela voracidade do gigante asiático em adquirir recursos naturais essenciais à indústria de base e à construção civil, os empresários hoje têm ainda mais motivos para comemorar e, claro, apresentam mais exigências no que se refere à atuação governamental. A nova malha ferroviária cortará regiões estratégicas para a produção de minério em Goiás: esse é o motivo de comemoração que, logo, leva às cobranças. Como apontam representantes do setor, o soar do apito do trem deve despertar a vontade política de garantir estruturas necessárias para o bom aproveitamento do fluxo de minérios, que será maior a partir das operações na ferrovia. A estimativa é que a FNS, plenamente em funcionamento, leve em seus vagões 12,4 milhões de toneladas ao ano, a um custo médio de 15 dólares por mil toneladas transportadas em um quilômetro, valor equivalente à metade do frete rodoviário. 
 
Ao longo do trecho goiano da Norte-Sul, serão cinco pontos de transposição de mercadorias: Anápolis, Jaraguá, Santa Isabel, Uruaçu e Porangatu. Assim, haverá a convergência de infraestrutura no Meio-norte do Estado, justamente uma das principais áreas mineradoras do País, com o níquel vindo de Barro Alto e Niquelândia, o amianto de Minaçu e o ouro de Alto Horizonte e Crixás. E é com o intuito de aproveitar o entroncamento ferroviário e a convergência logística que os empresários do ramo, representados pela Câmara Setorial de Mineração da Fieg (Casmin), já negociam com a equipe de transição do próximo governo de Marconi Perillo: com os 570 km de linha férrea que vão cortar, a partir do próximo ano, o Norte de Goiás e chegarão até Anápolis, não há motivos para não se consolidar, em terras goianas, uma política de agregação de valor ao minério bruto, em particular na região de Campinorte. 
 
“O governo tem duas opções: ou ele monta um polo mínero-industrial nessa cidade ou pode montar uma arquibancada na beira da ferrovia. Caso ele opte pela segunda, quando a locomotiva passar repleta de minérios, aos goianos só restará gritar: ‘ê trem bão’! Esse é o espírito. O polo é fundamental”, comenta o presidente da Câmara de Mineração, Luiz Antônio Vessani, em tom de chiste, mas de alerta sério.
 
Aos políticos, as principais cobranças do empresariado referem-se ao suprimento de energia; ao estímulo de pesquisas e aquisição de tecnologias que incrementem a descoberta de jazidas, a exploração e o beneficiamento de minérios; à consolidação de fundos exclusivos destinados à mineração; e, por fim, à adequação de uma política fiscal eficiente. São solicitações de empreendedores que veem o minério despontar como principal produto de exportação na balança comercial goiana, a despeito de o senso comum e a cultura agropecuarista do Estado ainda creditarem esse feito  à soja e à carne. A produção de cobre, ferroligas, ouro e amianto foi responsável por 30,5% dos mais de US$ 3,8 bilhões exportados neste ano no Estado (os dados vão até novembro). Em contrapartida, os complexos carne e soja representaram, respectivamente, 24,2% e 18,1% do total exportado por Goiás, montante que deve atingir a marca de US$ 4 bilhões até o final do ano.
 
Nesse contexto de importância do setor, a instauração de um polo mínero-industrial na região de Campinorte seria ardilosa não somente pela coincidência de a riqueza mineral e as linhas férreas existirem em um mesmo local, mas também pelos recursos hídricos abundantes na área — que garantiriam a geração de energia — e pela localização estratégica em relação a Mato Grosso. “Há uma convergência de logística porque a ferrovia, além de viabilizar a mineração no Mato Grosso, vai trazer todo o minério daquele Estado. Nós devemos, sutilmente, propor uma política que facilite a comercialização desse produto no polo de Campinorte”, explica Vessani.
 
Nessa seara, a descoberta de depósitos minerais em terras mato-grossenses, anunciada em setembro, deve estimular ainda mais o empresariado a cobrar a instauração de um polo. Os depósitos minerais descobertos contêm, provavelmente, 11 bilhões de toneladas de ferro. Para se ter uma ideia da magnitude da reserva, a possibilidade é de que haja, ali, o triplo do encontrado em Carajás (PA), maior mina a ceú aberto do mundo. É certo também que o nível de pureza do minério de ferro encontrado no Pará (67%) é maior do que aquele encontrado na reserva de Mato Grosso (41%), mas se a tecnologia de exploração for implantada e se houver possibilidades de minerar, novas commodities chegarão, pelos trilhos, a Goiás. E deverão ser aproveitadas.
 
Gás essencial
 
No que se refere à questão energética em Goiás, houve recentes investimentos do governo federal, oriundos do PAC, no setor hidrelétrico. A inauguração, em outubro, de seis usinas — que, juntas, custaram R$ 2,9 bilhões — nas regiões de Catalão, Divinópolis, Cachoeira Alta, Caçu, São Simão e Itarumã garantirá o abastecimento energético a uma demanda populacional de 1 milhão de habitantes. Contudo, no que concerne aos empreendimentos minerários, a pouca diversificação da matriz energética é um problema. “Também precisamos de energia térmica e temos de levar o gasoduto a Campinorte. Essa é uma política inquestionável que tem de ser claramente definida como objetivo de qualquer político de Goiás, pois o gás, não somente para o setor mineral, é a energia moderna do Brasil. E nós já o temos sobrando: hoje 30% do gás é jogado fora por equívocos de uma política anterior”, lamenta o presidente da Câmara de Mineração.
 
Luiz Vessani aponta que as descobertas de gás no Maranhão e em Minas Gerais, na região do São Francisco, bem como o gás oriundo do pré-sal, devem ser melhor aproveitadas pela União. “São descobertas enormes de gás que dão para dobrar a produção nacional. No âmbito local, o governo Marconi tem de fazer o gás chegar a Campinorte. Não há conversa. Vamos lutar. Sem o gás, nós não teremos condições de competição com outros projetos industriais do Brasil.” Segundo ele, se o custo de energia continuar alto, a tendência é que os produtos minerais sejam beneficiados em São Paulo ou nos portos do Espírito Santo.
 
Entretanto, a Secretaria de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia (MME) ainda não prevê gasodutos para o Norte goiano. Hoje, a única iniciativa existente, junto ao ministério, não chega ao polo mineiro e consiste na concessão de uma licença prévia, por parte do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováeis (Ibama), para que a Transportadora de Gás do Brasil Central construa um gasoduto que ligará São Carlos (SP) a Brasília (DF). A licença foi concedida em abril e o gasoduto Brasil Central contemplaria, além da Capital, cidades como Itumbiara, Morrinhos e Anápolis. “Trata-se de uma obra de aproximadamente 900 km, ainda em fase de planejamento, cuja viabilidade econômica ainda não foi demonstrada”, diz o MME por intermédio de sua assessoria de imprensa.
 
Com relação aos recursos hidroelétricos, os empresários reivindicam o projeto de uma central elétrica para a distribuição de energia em Campinorte. “A região abriga grandes usinas e projetos de usinas. Isso não é um grande problema. Contudo, os consumos são vorazes. Uma metalurgia de alumínio, por exemplo, consome mais energia elétrica do que Goiânia”, explica Vessani, que também é diretor- presidente da Companhia de Mineração Santo Expedito, empresa detentora de jazidas de minério de alumínio. “O governo quer forçar o minerador a verticalizar, mas não se preocupa com as condições necessárias para a verticalização: a energia e a logística. Por exemplo, a energia elétrica no Brasil custa o dobro da norte-americana. Não dá. Se o empresário quiser montar uma metalurgia de alumínio, ele vai fazer lá.”
 
O presidente do Sindicato das Indústrias Extrativas de Pedreiras de Goiás, Tocantins e Distrito Federal (Sindibrita), Fábio Rassi, trabalhou com Vessani para apresentar as propostas do setor de mineração à equipe do futuro governador Marconi Perillo (PSDB). Segundo ele, uma das ideias propostas ao tucano foi a criação de um órgão governamental que desvincule a mineração do setor de energia. Rassi pondera que, a despeito de a atividade mineral ter sido fundadora do Estado, há ainda muitos preconceitos contra o ramo e que a criação de uma secretaria própria seria um dos fatores que levaria à mudança de concepções. “O enfoque na nossa cultura ainda não é a mineração. Na memória de nossos governantes, o foco esteve sempre na agropecuária e na agroindústria. Além disso, o imaginário popular é o da riqueza fácil e da poluição”, explica.  
 
Órgão específico
 
Para o presidente do Sindibrita, a relevância da província mineral goiana justificaria a criação de um órgão específico. “Quando se junta minas e energia em um organismo só, há a tendência de a energia ganhar relevância. O foco governamental tem se de voltar às questões da mineração.” Fábio Rassi explica ainda que o projeto apresentado ao próximo governo extrapola as fronteiras de Campinorte. Segundo ele, como a mineração fornece insumos ao artesanato, à indústria de base, à construção civil e à agricultura, articulando os vários setores produtivos, os investimentos na área seriam estratégicos. “O que fizemos foi alertar o Estado sobre a necessidade do progresso da mineração. Se nós soubermos aproveitar a oportunidade logística das ferrovias, podemos dar um salto na industrialização de Goiás e desenvolver uma cadeia industrial completa.”
 
No que se refere às exigências do setor, o plano de governo apresentado por Marconi Perillo durante a campanha eleitoral não prevê a criação de um órgão específico para área. Procurada pela reportagem, a equipe de transição do futuro governador, que tem a coordenação técnica do tucano Giuseppe Vecci, não quis falar sobre as medidas para contemplar a mineração. De acordo com membros da equipe, o projeto para o setor ainda está sendo concluído, daí a opção por não apresentá-lo agora. Mas o que se sabe é que, nas rodas de conversa, os empresários demonstraram confiança no novo governo. “Nós fomos convidados pela equipe de Marconi, várias vezes, para discutir as questões. Nesse processo de finalização da transição, eles ainda recorreram a nós, quando tiveram dúvidas. Conversamos facilmente com eles”, aponta Vessani.
 
Pouco investimento, muita riqueza
 
O superintendente de Geologia e Mineração da Secretaria Estadual de Indústria e Comércio (SIC), Luiz Fernando Magalhães, explica que, a partir de 2009, os recursos destinados aos investimentos no setor mineral foram menos expressivos em Goiás. De acordo com ele, o fomento do artesanato e da pequena e média mineração, feito a partir do Funmineral, sofreu reduções devido ao fato de a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) não ser, desde o ano passado, destinada diretamente ao setor de minérios. 
 
De acordo com o superintendente, os recursos do Funmineral são provenientes dos royalties da extinta Metago (Metais Goiás S/A), empresa estatal de exploração de minério, e vinham também da CFEM. “Contudo, a compensação foi transferida ao Tesouro Estadual. Nesse sentido, o setor perdeu”, pondera Luiz Fernando. Ele estima que, em Goiás, a arrecadação expressa pela CFEM chegue a uma média de R$ 1 milhão por mês.  “Pela primeira vez na história de Goiás, uma receita dessa natureza não é colocada diretamente na mineração”, lamenta.
 
No que concerne à pesquisa reivindicada pelo setor privado, Magalhães dá destaque a dois estudos realizados pelo governo estadual a fim de que os empresários definam riscos, nível de investimentos e probabilidade de sucesso ao minerarem. O primeiro deles é o levantamento aerogeofísico de Goiás, iniciado em 2003 e interrompido em 2007.  O segundo é o mapa geológico, concluído em 2009. “O levantamento aerogeofísico cobre de 50 a 60% do território goiano. Temos, até em nível nacional, conhecimentos geológicos e aerofísicos muito importantes. Mas a pesquisa parou por problemas de investimentos. É necessário retomá-la. Contudo, não obstante à falta de recursos, concluímos o mapa geológico.” Outra reivindicação da superintendência é a ausência de pesquisadores na área. O órgão apresenta um quadro de efetivos de três geólogos e seis técnicos de mineração. “É extremamente reduzido”, frisa Luiz Fernando.
 
Primazia de bens
 
Mesmo com a ausência de um planejamento estratégico do governo para propiciar energia e pesquisa para a exploração mineral, Goiás está em pleno desenvolvimento de sua produção de commodities minerais. Segundo dados da Secretaria Estadual de Planejamento e Desenvolvimento (Seplan), o solo goiano é o terceiro produtor de minério do País. “Temos as maiores jazidas e produções brasileiras de níquel, cobalto, amianto-crisotila e vermiculita e a segunda posição brasileira na produção de fosfato, ouro e nióbio”, explica o geólogo Nassri Bittar, presidente da Associação de Geólogos do Estado de Goiás (Ageco). 
 
Dentre esses metais, alguns são tão estratégicos que colocam o solo goiano sob mira internacional. É o caso do nióbio, que pode oferecer, mesmo em baixíssimas quantidades, características impressionantes ao aço (como resistência, poder de antioxidação e anticorrosão). Bittar ressalta que, justamente por isso, o nióbio é conhecido como “elemento de perfumaria do aço”. Por suas propriedades, o setor armamentista e industrial se interessa pelo metal, que também pode melhorar a qualidade dos dutos utilizados no transporte de petróleo e gás.  
 
De acordo com o presidente da Ageco, Alemanha, Japão e Estados Unidos são os principais países que detêm a tecnologia de transformação do nióbio. “Esse material é vendido em porções pequenas e muito caras. Nosso potencial é tão grande que o Brasil concentra 83% das reservas de nióbio do mundo e parte delas está nas regiões goianas de Catalão e Ouvidor”, informa Bittar.
 
Para exemplificar o ânimo dos investidores com relação às possibilidades de Goiás, vale citar também o projeto Barro Alto, que prevê a produção anual de cerca de 36 mil toneladas de níquel, contido em ferroníquel. É que 98% das obras já estão concluídas e a previsão é de que as primeiras operações ocorram depois do carnaval, com a geração de 700 novos postos de trabalho durante a fase de operação. Foram investidos no empreendimento, da mineradora Anglo American, US$ 1,8 bilhão. “Nós não fizemos o projeto contando com a ferrovia. Mas ela é essencial. Acredito que muitos outros projetos do mesmo tipo ainda não foram montados em terras goianas porque o custo do transporte acaba os inviabilizando. Mas, quando a ferrovia sair, haverá toda a estrutura para que venham empresas internacionais, vez que a capacidade de distribuição de um Estado central é muito grande”, garante Rodolfo Luis Vergílio, um dos representantes da Anglo American em Goiás.