
Renato Dias
Especial para o Jornal Opção
Abril de 1972, Pará: — Abre a boca, terrorista f.d.p.. Identifique essas pessoas!
Submetido a choques e a socos e pontapés nas frágeis costelas, Otacílio Alves de Miranda, então com 33 anos de idade, não aguentava mais as sessões de espancamentos. Aliás, nem sabia o motivo da selvageria. Barqueiro, ele fazia a linha Marabá-Santa Isabel, região Norte do Brasil. Atrás de uns trocados para garantir a sobrevivência da família [mulher e cinco filhas], adquiria e revendia mercadorias: alimentos e medicamentos.
Até que, durante a sessão de tortura, lhe apresentaram fotos de seis pessoas. Eram de moradores locais. Pela relação, Dona Maria; Alice; Regina; Joca; Zé Carlos; e Beto. Conhecidos: os “paulistas”. Baiano, como era chamado — ele nasceu em Brotas de Macaúbas, Bahia, onde morreu no mês de setembro de 1971, o capitão da guerrilha Carlos Lamarca, ex-VPR, VAR-Palmares e MR-8 —, já tinha feito viagens para eles. Nem imaginava que isso lhe traria sérios problemas e marcaria sua vida para sempre.
As Forças Armadas haviam descoberto os preparativos do PCdoB, um racha do Partidão de janeiro de 1962, para deflagrar a guerrilha no Brasil. Dona Maria era Elza Monerat. Alice, Criméia Schmmidt. Zé Carlos, André Grabois. Joca, Gian Carlo Castiglia. Regina, Jana Moroni. Beto, Lúcio Petit. Os seis eram quadros da legenda da foice e do martelo e queriam derrubar os militares que depuseram Jango e implantar a “ditadura do proletariado”.
A guerrilha do Araguaia começou a ser preparada em 1966. Ela ocorreu no Norte de Goiás, atual Estado do Tocantins, e no Sul do Pará entre os anos de 1972 a 1975. Inspirada nas táticas e estratégias formuladas por Mao-Tsé-Tung, que liderou a revolução socialista na China, em 1949, ela foi dirigida pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), queria cercar as cidades pelo campo e derrubar a ditadura civil e militar.
O PCdoB deslocou para a região do Araguaia 69 guerrilheiros. Mais: 18 camponeses teriam sido incorporados ao movimento. O Exército calcula que o número de colaboradores populares da guerrilha teria sido de 30. O número de mortos, segundo o historiador Hugo Studart, chegou a 95. Dos três lados do conflito: PCdoB, camponeses e Forças Armadas. Entre presos e desertores, 14 sobreviveram, relata o também jornalista.
As Forças Armadas executaram, para acabar com a guerrilha, três campanhas — Papagaio, Sucuri e Marajoara. Na terceira, a ordem era não fazer prisioneiros. Duas equipes de execuções de guerrilheiros foram montadas: a Zebra e Jibóia. A repressão teria ainda terceirizado a guerra com a contratação de jagunços e de índios que viviam na região. Chegou a ser criada uma tabela de preço por cabeça. Trinta guerrilheiros acabaram executados.
Violência
Preso no dia 4 de abril de 1972, em Jatobá, à beira do Rio Tocantins, depois da queda do camponês Eduardo, Baiano se constituiu no segundo homem do Araguaia a cair por ligações com os guerrilheiros, diz Zezinho do Araguaia. Lá ele ficou três dias detido. Depois, embarcou para Marabá. De barco e escoltado pelo Cabo Domingos. Atônito, passou cinco dias no Tiro de Guerra. Mais cinco dias e vai para Belém. Em um avião da FAB.
Em uma cela, unidade do Exército, Baiano ficou nu, com um capuz na cabeça. Insistiram em chamar-lhe de “terrorista”. Ele reagiu:
— Terrorista é quem me chama.
Não sabia o que era isso. Violento, major Otonn, relata ele, não admitiu o atrevimento. Baiano conta ter virado um “saco de pancadas”. “Apanhei durante três horas seguidas”, recorda-se o ex-camponês. A repressão política queria saber codinomes, idade aproximada, altura e suposto peso dos guerrilheiros. O barqueiro, sem saber o que os “paulistas” faziam de errado lhe informou os dados que supunha estar corretos.
Em 7 de maio do mesmo ano, de madrugada, cabo Henrique lhe mandou arrumar a trouxa de roupa para nova viagem. Baiano, com medo, temeu pela sua vida. “Fui para Araguatins, à época Goiás, atual Tocantins. Algemado e com fome. Muita fome. De lá para Carolina, Estado do Maranhão. Em Araguatins ficou amarrado. Quase o tempo todo. A sua mulher, Maria Felicidade Miranda Alves, descobriu o seu paradeiro e apelou aos homens de farda.
Emocionada, ela contou que Baiano apenas trabalhava transportando pessoas e mercadorias. Não sabia nada de política, muito menos era um “subversivo de alta periculosidade”. “Prometeram soltá-lo em quatro dias. Depois de 16 dias, voltei lá. Ele foi libertado”, registra. O barqueiro começou ainda sob dependência do Estado a sofrer convulsões, teria ficado com um coágulo na cabeça e teve o lado direito do corpo paralisado.
Anos depois
“Nunca mais trabalhei. Depois, em 1973, fui fazer tratamento de saúde em São Paulo”, revela com exclusividade ao Jornal Opção. Em março de 2007, a União lhe indenizou como vítima do regime militar. Baiano ganhou R$ 100 mil, em parcela única. “Dinheiro nenhum do mundo paga o que sofri nas mãos de agentes do Estado, pagos pelo contribuinte para zelar pela segurança da população”, denuncia ele. Até hoje a sua saúde inspira cuidados, diz a filha Osilene Miranda, que mora em Goiânia.