Edição 1951 de 25 de novembro a 1º de dezembro de 2012
Pesquisa DataFolha/CNA
Índios brasileiros querem mais cidadania do que terras
Encomendada pela CNA ao instituto Datafolha, uma das mais completas pesquisas de opinião já realizadas no Brasil revela o que a população indígena almeja para o futuro. Mesmo dependente do governo, ela busca progredir socialmente por meio da educação
Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção
Dos cerca de 720 mil índios brasileiros, apenas 29% têm acesso à saúde e apenas 12% à educação; assim como a nova classe média brasileira, os povos indígenas querem progredir socialmente

Frederico Vitor

O que querem os índios? A mais ampla pesquisa de opinião já feita, encomendada pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) ao Instituto Datafolha, mostra a fundo como vivem, o que pensam e o que almejam para o futuro. As respostas mostram que o pensamento dos indígenas não é unidimensional. Na realidade os 750 mil brasileiros nativos — na época do descobrimento a estimativa era de 6 milhões — que habitam as centenas de aldeias querem o básico, ou seja, exercer a cidadania. Acesso à saúde, educação, emprego, renda, e,  não diferentemente da nova classe média brasileira, possuir bens de consumo. Entretanto, a principal queixa dos índios é mesma de milhares de outros cidadãos: mais investimento e melhor qualidade no atendimento à saúde.

Foram realizadas 1.222 entrevistas em 32 aldeias — com mais de 100 habitantes — em todas as regiões do Brasil. O levantamento ocorreu entre 7 de junho e 11 de julho de 2012. Do total das entrevistas, 41% foram realizadas na região Norte do País. No Nordeste foram 28% e no Centro-Oeste, 19%. Na região Sul foram coletadas 8% das entrevistas, e no Sudeste, 4%. Outro aspecto que a pesquisa abrangue foi o perfil das tribos, isto é, como são e o que possuem. Treze por cento do território nacional é ocupado por reservas indígenas. Cerca de 70% delas contam com posto de saúde, 88% têm escolas e 59% possuem uma ou mais igrejas.

Estabelecimentos típicos de urbanidades também foram notados pelo levantamento. Cerca de 20% possuem mercado, 6% contam com farmácia e em 16% das aldeias existem bares. O comparativo dos índios com o restante da população brasileira deixa claro que há disparidades. Os não índios estudam mais, frequentam, proporcionalmente, em maior número as escolas e ocupam  mais as vagas nas universidades.

A renda dos que não são nativos é quase três vezes maior. As maiores etnias indígenas do Brasil são a Terena (10%), seguida pela Karajá (7%) e pela Wapixana (6%). Saúde e situação territorial são os principais problemas dos índios brasileiros. Apenas 29% afirmaram ter acesso à saúde. Para outros 79% faltam remédios e profissionais disponíveis para atender nas aldeias. O emprego e a renda também são temas que preocupam, pois 70% não exercem trabalhos remunerados e 64% recebem auxílio do Bolsa-Família. Outros 46% ganham cestas básicas do governo. Melhoria das condições de saneamento básico e investimentos em agricultura também são demandas dos indígenas.

A questão fundiária preocupa 24% dos ouvidos. Eles defendem a demarcação das terras pertencentes às reservas e querem mais áreas para produzir. A ajuda do poder público, na avaliação dos índios consultados, é considerada escassa. A atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão responsável pela promoção e proteção aos direitos dos nativos brasileiros é reprovada por 39% desta parcela da população. Outra constatação levantada pela pesquisa e que chama a atenção é o fato de que, mesmo representando uma minoria da parcela da população do País, os índios também têm os mesmos desejos, hábitos e posses semelhantes aos brasileiros urbanos.

Segundo a pesquisa, 67% gostariam de ter formação universitária. Em relação ao hábito da leitura, o levantamento apontou que 46% já leram algum livro. A pesquisa registrou, também, que 66% dos índios leem português e 67% escrevem na língua portuguesa. As respostas aos questionários da pesquisa revela também que os índios têm as mesmas aspirações da nova classe média nacional, ou seja, querem progredir socialmente por meio do trabalho e dos estudos. Eles almejam os mesmos bens de consumo e não abrem mão da vida moderna, embora não deixem de valorizar sua cultura.

Outra constatação é de que 63% dos indígenas possuem televisão colorida em suas residências, 51% têm geladeira, 66% dispõem de fogão a gás, 40% têm rádio, 37% têm aparelhos de DVD e 36% utilizam telefones celulares. Noventa por cento preferem morar em casas de alvenaria a ocas ou malocas. Outros 80% acham importante ter um banheiro, conforto desfrutado por uma minoria. O grupo de índios donos de automóveis é seis vezes a média dos brasileiros de classes C e D. Por outro lado, o computador ainda é uma realidade distante desta parcela de brasileiros, pois apenas 6% dos entrevistados afirmaram ter o equipamento.

A internet também está em proporção muito inferior ao do restante da sociedade, pois apenas 11% dos  ouvidos disseram que têm acesso à rede mundial de computadores.  Apenas 6% dos entrevistados possuem chuveiro elétrico, desejo de 47% dos entrevistados. O levantamento também apontou que apenas 4% dos índios possuem rede de esgoto e 73% consideram este item fundamental.

Anticoncepção e aids

A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como preservativos e pílula. Mais de 80% ouviram falar de aids. A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado item muito importante para quatro de cada cinco entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Do total de entrevistados, 64% são beneficiários do Programa Bolsa Família, recebendo em média R$ 153 por mês. A região Nordeste é a campeã do benefício: 76% dos índios nordestinos recebem o programa social do governo. O Sul aparece em 2º, com 71%, seguido do Centro-Oeste (63%), do Norte (56%) e do Sudeste (52%). Mesmo com os benefícios, 36% os índios consideram  insuficiente a quantidade de comida que consomem. A maioria deles (76%) bebem água nem filtrada nem fervida. As doenças infectocontagiosas atingem 68% e os problemas estomacais, como diarreia e vômito, 45%. Como não poderia ser diferente, já que a pesquisa revela que os nativos querem vida similar a quem vive nas cidades, a maioria entende que luz elétrica, água encanada, rede de esgoto são importantes para uma vida de qualidade nas aldeias. 

Parcela significativa dos povos indígenas é miserável 

A pesquisa encomendada pela  Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também revelou um triste dado da situação dos índios brasileiros. Cerca de 285 mil — ou 38% dos povos indígenas — vivem em situação de extrema pobreza. O dado contrasta com o nível de satisfação com o poder público. Mais de 70% dos ouvidos atribuem muita relevância à atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai) nas aldeia. No entanto, 39% reprovam o desempenho do órgão, avaliando-o como ruim ou péssimo. A agricultura é exercida por 94%, e 85% praticam a caça. Outros 57% consideram que o tamanho das terras onde vivem é menor do que o necessário.

Os índios também citaram algumas medidas governamentais que poderiam melhorar suas vidas, como mais intervenções na área da saúde, seriedade e respeito nas demarcação de terras, reconhecimento dos direitos indígenas e mais investimentos na Educação. A violência ainda continua sendo um problema crônico na vida desses brasileiros. A situação mais grave é vivida pelos que estão no Mato Grosso do Sul. Naquele Estado os conflitos são frequentes e violentos, em decorrência da discórdia nas demarcações e delimitações das reservas com as propriedades privadas. As tensões entre produtores e índios são potencializadas pela expansão da fronteira agrícola na unidade federativa do Centro-Oeste. 

Para a senadora e presidente da CNA, Kátia Abreu (PSD-TO), o pleito dos índios pela ampliação de suas áreas é legítimo, contudo, ela enfatiza que reduzir a questão indígena à falta de terras é uma simplificação irreal, que tira o foco da realidade. “As reclamações dos índios vão muito além de um pedaço de chão. Eles querem cidadania, respeito, assistência médica, uma educação melhor, instrumentos que lhes possibilitem obter mais renda e o sustento de suas famílias com dignidade.”