37 anos
Edição 1880 de 17 a 23 de julho de 2011
Meio Ambiente
Goiânia, a cidade seca
Eliminação da cobertura vegetal de nascentes e margens, poluição e ocupação inadequada de seus entornos ameaçam os mananciais goianienses
Nascente do Córrego da Onça, na Vila Santa Isabel, em Goiânia, foi aterrada para construção de garagem: crime ecológico foi denunciado, mas a obra continua

Cezar Santos

O título acima não se refere à baixa umidade do ar na Capital, que nesta época do ano pode chegar a níveis desérticos. O “seca” do título é verbo, denotando uma ação, com pronúncia aberta do “e”. Esse verbo poderia estar no gerúndio: Goiânia, a cidade que está secando. E está secando por um motivo muito simples e óbvio: os cursos d'água goianienses estão em franco processo de minguamento, em alguns casos desaparecimento mesmo.

Talvez o mais recente exemplo seja o Córrego da Onça, cuja nascente fica na Vila Santa Isabel, nos fundos do Centro Senac de Educação Profissional Cora Coralina (perto da Praça da Bíblia). A nascente do Onça já era, está aterrada. Aterrar nascente é crime e como tal foi denunciado. As denúncias estão no Ministério Público de Goiás e em órgãos dos governos municipal e estadual. Em que pese isso, a obra continua. Entre as pessoas que puseram a boca no trombone está a síndica Selma da Conceição Borges, há 30 anos moradora no 10º andar de um prédio no início da Avenida Independência.

Ela conta que obteve de um dos funcionários que trabalham no local a informação de que a empresa Sete Engenharia está construindo no local, em cima da nascente do Córrego Onça, que desemboca no Meia Ponte, um galpão onde vai funcionar garagem e dormitório para funcionários. Esse funcionário disse que o córrego foi canalizado. Selma Borges tem visão privilegiada do local e pôde ver quando começou o crime contra o curso d'água. Da janela de sua sala, a visão é direta e sem obstáculos. Ela conta: “Não vi obra de canalização. O que vi foi eles colocando lonas pretas e aterrando com trator em várias camadas”.

De cima dá para ver um filete d'água brilhando entre a pouca vegetação que foi deixada, como sinal de que o riozinho procura resistir, tentando fluir no pouco espaço que ainda lhe resta. Selma Borges denunciou o crime ecológico; como não viu resultado, apelou ao Comitê da Bacia do Meia Ponte como último recurso, na esperança que a representatividade do grupo, que conta com órgãos oficiais, ajude.


Corriqueiro
O que está acontecendo (ou já aconteceu) com o Córrego da Onça tem sido corriqueiro com outros cursos d'água em Goiânia. A degradação e destruição dos mananciais goianienses é o preço que toda a população paga pela especulação imobiliária - que dá lucros milionários para poucos -, pelos desmatamentos de margens, lançamento clandestino de esgoto e de entulho nas águas, assoreamento e a ocupação irregular de faixa de Zona de Proteção Ambiental (ZPA-I).

Trocando em miúdos, falta conscientização da população e sobram descaso e ineficiência do poder público em todas as suas instâncias (municipal, estadual e federal), seja no Executivo seja no Judiciário. Não se está aqui acusando o poder público de não fazer nada; até faz, mas o que tem sido feito é insuficiente. E a continuar no ritmo atual, dizem especialistas, em um futuro muito breve mais da metade dos nossos mananciais terá desaparecido.

Diante dessa realidade, se o curso d'água não some, ele fica perdido pela poluição. Quem passa pelo Córrego Botafogo sente o drama no nariz. E, acredite o leitor, o Botafogo já teve água limpa, “banhável e pescável”: o autor dessa reportagem, que foi criança um dia, usufruiu disso nos anos 1960. Goiânia possui 85 cursos d'água: 1 rio (Meia Ponte), 4 ribeirões (Anicuns, João Leite, Capivara e Dourados) e 80 córregos. São essas as fontes que abastecem a cidade.  Elas estão sob risco. O abastecimento de Goiânia está ameaçado. A cidade seca.

Exemplos de ocorrências estranhas com nossos cursos d'água não faltam. Não é preciso ser especialista para perceber que é ilegal a construção de prédios em áreas alagadas, como no Setor Goiânia 2 com o Crimeia Leste, em uma  zona em que o João Leite desemboca no Meia Ponte - há alguns meses, na iminência de embargo, uma construtora suspendeu as obras em um grande empreendimento no local, ao lado de outro - mais próximo ao Meia Ponte - que já está de pé.

Pressão

Também não precisa ser ambientalista ou cientista para antecipar que a ocupação do entorno da represa do João Leite, que servirá para o abastecimento da Capital até o ano 2025, será prejudicial à população. O mercado imobiliário está fazendo pressão nesse sentido. O entorno da represa pode virar uma área de clube de esportes náuticos e/ou de casas de campo para endinheirados. E sabe-se que o segmento imobiliário é poderoso, tem recursos para influenciar a boa vontade de gente do Legislativo e Executivo.

Por sinal, no mês passado, o secretário de Planejamento de Goiânia, o engenheiro civil Roberto Elias Fernandes, disse a um programa na internet que acha pertinente a preocupação da Saneago com a ocupação urbana do entorno da barragem. No trecho final de sua fala ele registra: “Vamos propor à Saneago que sejam utilizados 200 metros de reflorestamento às margens da barragem do João Leite e que seja feita ocupação ordenada, com condomínios fechados, lotes grandes, tratamento de esgoto, coleta de lixo e áreas verdes para assim preservar.” Em tempo: Fernandes foi, até o ano passado, presidente do Sindicato da Indústria da Construção em Goiás (Sinduscon).

A seguir, o Jornal Opção abre espaço para três profissionais que vivem a problemática dos cursos d'água de Goiânia de forma diuturna. As opiniões são explanadas de forma livre e também em cima de temas pontuais e coincidem em praticamente tudo, iluminando a questão para o leitor.

“As nascentes vêm sofrendo agressão”

Engenheiro eletricista Marcos Correntino, especialista em hidrologia e recursos hídricos, ex-presidente (hoje vice) do Comitê da Bacia do Meia Ponte e representante em Goiás da Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH)

As nascentes em Goiânia vêm sofrendo agressão pelo desmatamento e ocupação urbana ao seu redor, em claro desrespeito à legislação ambiental municipal, estadual e federal. Os pequenos cursos d'água, as nascentes de córregos como o Vaca Brava e o Buritis também sofrem com a impermeabilização de suas áreas de recarga. As áreas mais altas, normalmente de topo, estão sendo cimentadas para asfaltamento, construções de imóveis e de estacionamentos. Assim, a água não infiltra nas áreas altas e consequentemente as nascentes vão secando. Cada nascente representa um curso d'água, acabando com ela, o volume d'água vai diminuindo, o que leva à extinção do córrego.

O volume de água reduzido não consegue diluir a grande quantidade de esgoto que é lançada nos córregos, na rede fluvial; por isso o mau cheiro terrível em vários locais em Goiânia. É o caso de praticamente toda a extensão do Meia Ponte, do Anicuns, do Cascavel, principalmente nesta época de seca.

Os esgotos clandestinos são um problema sério. Ao longo do Meia Ponte, há dezenas de pontos de descarga de esgoto. No Anicuns, nas imediações do Matingo, há descarga de uma água azul; parece que é de lavagem de jeans e a empresa não faz tratamento. Joga diretamente no ribeirão, que cai no Meia Ponte. Perto da Vila São José, o pessoal tira areia do leito do Anicuns. Prejudica o curso d'água, além de essas pessoas poderem pegar doenças de transmissão hídrica, porque trabalham sem proteção, em contato com a água poluída. 

Nas nascentes do Anicuns, pelos Setores Vera Cruz e Parque Oeste, no Morro do Mendanha, se veem vários pontos de canalização clandestina de esgoto.

O Córrego Palmito, depois do Jardim Novo Mundo, que desagua no Meia Ponte, nas imediações do Leite Itambé, recebe as descargas dos vasos sanitários das casas da região. Isso pode ser visto nos barrancos.

Tudo isso polui os córregos e, consequentemente, o Meia Ponte, que abastece mais de 50% da população goianiense. Temos muito exemplos dessa situação lamentável.

Abastecimento

Uma bacia razoavelmente bem cuidada acima da área de captação barateia várias vezes o custo de tratamento do metro cúbico de água. Uma bacia degradada, como temos em Goiânia, eleva esse custo em até 200 vezes.   

Na região da Fazenda São Domingos, de onde se tira a água para o Meia Ponte, há um verdadeiro lixo que entra na área de captação. Há criação de porcos e os resíduos descem para a água; várias fazendas que utilizam agrotóxicos que também descem para o rio, bem como os dejetos de animais.

O mesmo acontece na Bacia do João Leite, mais próximo da sua nascente, onde se veem  cerâmicas e uso de agrotóxicos. E agora estão querendo fazer urbanização acima da bacia ou da captação de água. O Comitê da Bacia do Meia Ponte fez uma moção para diversos órgãos e entidades ligadas ao meio ambiente e também para o presidente da Comissão de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Assembleia,  deputado Wagner Siqueira (PMDB), e para a Prefeitura de Goiânia, falando dessa expansão que estão querendo fazer acima das áreas de abastecimento da Saneago. Isso será extremamente prejudicial.

Outro problema: 70% das hortaliças comercializadas em Goiânia nas feiras livres e em alguns supermercados são irrigadas com água dos Córregos Cascavel, Vaca Brava, Anicuns e outros córregos poluídos. Então é muito provável que se fizer um exame de amostragem na população, se detecte uma grande incidência de hepatite A por causa do consumo dessas verduras. No limite do Parque Amazonas com o Jardim Atlântico, é possível ver que vários chacareiros irrigam as hortaliças com as águas totalmente poluídas do Cascavel, uma água de esgoto.

Em 1961, eu aprendi a nadar no Córrego Botafogo, numa área perto de onde hoje é a rodoviária. Havia uma árvore que teve sua raiz aflorada e o lugar era chamado poço da raiz, onde tinha mais de um metro de fundura e a meninada tomava banho.

A população da região do Setor Norte Ferroviário pegava água das minas do Botafogo para beber, água cristalina. A saúde pública fazia exames e constatava que a água era pura. Isso tem 50 anos. Hoje o Botafogo naquele local é puro esgoto, aliás, em praticamente toda sua extensão. Em termos de qualidade, estamos em fator altamente crítico e creio que em dez anos esses córregos não prestarão mais.

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Engenheiro agrônomo Henrique Luíz de Araújo Costa, gerente de Proteção de Mananciais da Saneago

A Gerência de Proteção de Mananciais tem a atribuição de acompanhar o uso e ocupação do solo nas bacias hidrográficas. O uso e a ocupação do solo é o que afeta os mananciais. Se tivéssemos uma bacia preservada teríamos água de primeira qualidade, segundo a qualificação do Conama [Conselho Nacional das Águas, do Ministério do Meio Ambiente], que poderia ser distribuída in natura, precisando apenas clorá-la, como exige o Ministério da Saúde. Mas não temos mais esse ambiente, à exceção dos parques estaduais, que são áreas fechadas para preservação.

O que degrada nossos mananciais são os desmatamentos, que lhe tira a proteção natural. Desmata-se para ocupar o local, seja para construir habitações, seja para desenvolver atividades produtivas.

Com isso vem a poluição, porque todo processo produtivo gera resíduos. É preciso, portanto, conciliar a produção de alimentos, as atividades produtivas, com a proteção das águas.

Perímetros urbanos são altamente impactantes sobre qualquer curso hídrico, principalmente os da cidade. Onde se concentram as maiores populações concentram-se os maiores problemas. Isso porque todos os resíduos que se veem nas ruas e nos terrenos baldios - como lixo, entulhos, papéis e tantas coisas em quantidades imensas - acabam nos rios e riachos quando chegam as chuvas.

Então, imagine a quantidade de resíduos que chega na captação pública de água. A Saneago tem de entregar a água ao consumidor tratada, uma água potável. E quanto mais a água estiver poluída, mais difícil e caro fica esse tratamento. Aumentam-se custos de mão-de-obra, de energia, de produtos químicos, etc. E chega-se a certo ponto que se extrapola a capacidade de tratamento. O resultado é que temos de parar o tratamento da água, o que tem ocorrido às vezes nos últimos anos.

A gerência acompanha o uso e ocupação do solo. Acompanha o que está acontecendo, mas a Saneago não tem poder de polícia. Só tem de pedir providências aos órgãos competentes, como secretarias de Estado, secretarias municipais, Ministério Público etc. E aí esperamos a ação.

No Estado, são 186 mananciais de abastecimento. É um grande desafio, porque temos problemas em todos eles. Não existe uma só bacia preservada. Em Goiânia são três captações de água: João Leite, Meia Ponte e Samambaia. João Leite e Meia Ponte representam praticamente 100% do abastecimento de Goiânia, visto que a captação Samambaia é de apenas 1%.

ETE

Antes da ETE Helio Seixo de Brito havia duas estações de tratamento em Goiânia, que foi planejada para 50 mil habitantes. Chegou a um ponto que essas estações não suportavam a demanda. A população começou a cobrar solução para o esgoto. As casas tinham duas ou três fossas. O problema ficou por anos e nenhum governo resolvia. O Rio Meia Ponte já era referência nacional de poluição. Aí chegou um governo que construiu a ETE. E tinha-se a consciência que ela seria construída e o Meia Ponte continuaria fedendo, porque a estação era projetada para tratar cerca de 75% do esgoto. Havia até então tratamento de apenas 7% do esgoto, ninguém nem percebia. Quando a ETE começou a operar, chegando a mais ou menos 50% de eficiência, as pessoas começaram a pescar peixe dourado próximo a Goiânia. Aí já melhorou substancialmente a qualidade do Rio Meia Ponte. 

Mas acontece que os córregos urbanos de Goiânia são poluídos, há muitos esgotos clandestinos ligados diretamente neles. É um problema de difícil solução para a cidade. Voltamos à questão da influência da malha urbana nos cursos hídricos.

Hoje há perspectiva de tratamento de esgoto secundário na ETE, assim como estão sendo ampliado o tratamento em outras estações em nível terciário. Estão sendo ampliados os sistemas. Goiânia vai ficar com 100% de tratamento de esgoto. Alguns pequenos pontos de lançamento de esgoto in natura já têm prazo acordado com o Ministério Público para resolver.

Então brevemente teremos, por parte da Saneago, 100% de coleta e 100% de tratamento de esgoto em Goiânia. Nossa capital será privilegiada com esse nível.

Mas, apesar disso, vamos continuar vendo o Meia Ponte sujo, por causa da influência urbana. A Secretaria de Meio Ambiente faz o monitoramento da poluição no Meia Ponte e mostra claramente que a situação é sempre pior nos maiores aglomerados urbanos, como Goiânia. Depois há uma autodepuração e a condição da água melhora sensivelmente.

Hoje se fala que construir pequenas estações ao longo do rio seria mais eficiente. Agora, que está pronto, é fácil falar. Mas na época a realidade era outra. A cidade tinha duas estações que atendiam as necessidades de Goiânia. A cidade explodiu em crescimento. Naquele momento era o melhor, era a solução que se vislumbrava para o problema naquela época. Comparar com outros países não vale, são situações diferentes. Hoje nem há espaço para fazer esses sistemas individuais para bairros, por exemplo.

João Leite

Quando se fala num prazo para planejamento, normalmente de 20 anos, leva-se em conta o crescimento populacional. Depois desse prazo, não significa que essa fonte de abastecimento vai deixar de existir. Ele vai existir a vida toda, se não for degradada, porque se houver degradação, os rios vão diminuir sua vida útil, obviamente sem poder dizer em quantos anos. Ao final desse prazo, já se tem de pensar em outra fonte para suprir a população que vai crescer. Então, o pessoal de projeto tem de estar acompanhando, para ir suprindo a demanda.

Na Saneago há o Plano Diretor de Águas, o qual tem estudos de onde se poderá fazer abastecimento para atender Goiânia no futuro. Isso poderá ser feito no Ribeirão Caldas. No noroeste de Goiânia, a montante da captação do Meia Ponte, há quatro alternativas para manter o Meia Ponte como manancial de abastecimento, entre elas o Ribeirão Capivara, o Ribeirão Gonçalves e o Ribeirão Inhumas.

O Ribeirão Capivara é o mais próximo e o que está em maior risco, por se situar em área urbana: o crescimento de Goiânia está chegando nele. E se Goiânia crescer mais a montante da captação, vai comprometer o abastecimento da cidade. É esse o maior risco para a nossa cidade, a ocupação populacional a montante da captação da água para abastecimento.

O sistema João Leite para todos os anos por várias horas por causa da poluição na água.

Na barragem do João Leite, esperamos que a ocupação urbana não avance para perto dali. Há um grande risco e será um desafio para toda a sociedade tentar modelar isso. Se lotearem abaixo da barragem, tudo, bem, mas acima seria um grande problema.

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Professor doutor Leandro Gonçalves Oliveira, do Instituto de Ciências Biológicas, Departamento de Ecologia, da Universidade Federal de Goiás (UFG)

Os recursos hídricos em Goiás nunca foram tratados de forma sistêmica, mas sim de acordo com a disponibilidade que existe. A classe da água que consumimos é 2 ou 3. Para entendimento mais fácil, a classificação da água vai de especial, que é aquela pura que pode ser bebida diretamente da natureza; a classe 1, que precisa de pouco tratamento para ser disponibilizada à população; a classe 2 e 3, que têm mais poluição e contaminâncias; e vai subindo o número de acordo com a poluição. Até as classes 2 e 3 as companhias de saneamento ainda têm condições de reverter, tratar e distribuir para consumo. É o caso de Goiânia.

A maioria das microbacias que cortam a nossa Capital, quase sem exceção, tem um elevado grau de ação antrópica [ação do homem]. O problema maior é o desrespeito à legislação no que se refere à área de construção próxima aos rios. Dependendo da formação vegetal, tem de deixar pelo menos de 10 a 50 metros sem construir nada. E isso não ocorre. Não precisamos ir longe: basta olhar a Marginal Botafogo como exemplo do que está construído perto do curso d'água.

Outro exemplo é o Córrego Mingau, no Setor Serrinha. Na nascente dele existe um clube e, se não me falha a memória, de funcionários do setor público do Estado. Numa nascente tem isso, o que ocorre indiscriminadamente e o poder público tem suas dificuldades para tratar do problema. Ora é um setor ora é outro que ficam demandando isso; o Ministério Público diz que é o Estado; o Estado diz que é a Saneago. É um jogo de empurra.

O segundo ponto muito importante é a falta de monitoramento do sistema hídrico da capital. Cadê esse monitoramento? Cadê os dados que a Amma [Agência Municipal do Meio Ambiente de Goiânia] tem de nos mostrar? Não os conhecemos. Sabemos que alguns parques são monitorados, mas não há divulgação contínua e sistemática dessas informações, de forma que a população possa ser co-partícipe da gestão, como é o princípio da lei 4.933, a Lei das Águas, que coloca em partes iguais a gestão das águas. Nossos cidadãos não sabem de onde vêm a água que eles bebem.

Outro problema sério que Goiânia tem é que até há uns cinco anos não havia controle dos poços artesianos. Muitos condomínios construíram poços e ficava por isso mesmo. Hoje, a Saneago tem feito esse monitoramento e taxado o consumo dessa água, que em última instância é água coletiva, de todos.

E nossos córregos estão assoreados. Recentemente houve um remanejamento no Meia Ponte, perto da BR-153, na antiga usina do Jaó, e impressionou a quantidade de lixo e sedimentos no leito do rio. Aquilo reduz a quantidade e degrada a qualidade da água. Se o lixo se acumula na calha do rio, a água transborda, por isso temos pontos de enchentes nos períodos chuvosos.

Infelizmente, falta conscientização da população, que joga na água tudo o que não quer mais. Parece que a água tem uma mágica que limpa tudo.

A água do Meia Ponte, quando chega a Goiânia, já não chega tão limpa como deveria. De Itauçu, onde nasce, até chegar à capital, passa por algumas cidades que não têm tratamento de esgoto. E se pode constatar em imagens aéreas, que praticamente toda a margem do Meia Ponte é desmatada. Sem vegetação não tem como a água infiltrar. Sem vegetação, o solo removido por tratores vai cair no rio e assoreá-lo, é inevitável. Então quando a água chega a Goiânia é uma catástrofe. O fato é que até a usina do Rochedo, a cerca de 70 quilômetros, a água não é boa. Ou seja, a água percorre 70 quilômetros para começar a se depurar. E só vamos ter um retorno em termos de biodiversidade aquática do Rochedo [usina próxima a Professor Jamil, no Meia Ponte] para baixo.

Há alguns anos, havia em Goiânia 114 indústrias que lançavam seus efluentes sem tratamento diretamente no Meia Ponte. A Agência Ambiental e o Ministério Público sempre tiveram essa informação e não sei o que foi feito em relação a isso.

Barragem do João Leite

A represa do João Leite é uma água para abastecimento da capital. É como se fosse a caixa d'água da nossa residência. E ninguém vai querer em volta da sua caixa d'água nada que a coloque em risco. E o que me chama mais a atenção é que há setores que defendem empreendimentos no entorno da represa, com justificativa imobiliária de que se se pode proporcionar um plano diretor de ocupação, então há como controlar as fontes de poluição. Se isso fosse verdade, não haveria contaminação de água, e falta de água, em vários bairros de Goiânia. Então isso é uma falácia se não temos demonstrações tácitas do contrário.

A Saneago é responsável pela gestão disso e a UFG tem colaborado gradativamente com estudos de monitoramento da qualidade dessa água, mas vemos com muita preocupação essa pressão que se faz na mídia para ocupação do entorno dessa área. Não será uma ocupação coletiva; vai ser um acesso a um segmento muito restrito da sociedade. E atividades esportivas náuticas e pesca no lago vão poluir a água, não tenha dúvidas.

Mas se deixar como está, também fica margem para ocupação. A região norte de Goiânia, onde estamos aqui no câmpus da UFG, Pedro Ludovico Teixeira já tinha deixado como reserva. O João Leite e o Meia Ponte vêm da região norte da cidade, que está sofrendo uma elevada pressão para ocupação imobiliária, é o adensamento, que é preocupante. Por exemplo, há estudos da UFG que mostram que a área do Goiânia 2 não poderia ter sido ocupada por empreendimentos imobiliários. São áreas de preservação permanentes, áreas alagadas, com um tipo de solo não adequado para construção.

ETE

Sobre a ETE, o fato é que é melhor tê-la do que não ter. A forma de gerenciamento é que é importante. Como ela ainda não entrou em pleno funcionamento, não temos uma estimativa de como se dará a questão de seu saturamento. O fato é que nós que habitamos temporariamente a região norte e vamos em direção ao centro, todo fim de tarde, quando passamos pela ponte ali perto do Hospital Santa Genoveva, percebemos que o cheiro de ureia tem diminuído. Isso significa que a Saneago tem conseguido fazer um tipo de malabarismo para resolver a situação. Mas isso ainda é provisório, uma vez que a ETE não está em pleno funcionamento.