Edição 1918 de 8 a 14 de abril de 2012
Sucessão Municipal
Escândalo deixa turvo o cenário político em Goiânia
Eleitor goianiense está abalado com as constantes notícias envolvendo políticos de Goiás em escândalos; implicações podem ser percebidas nas urnas na campanha de outubro
Edilson Pelikano/Instituto Verus

Márcia Abreu

Os escândalos da O­peração Monte Carlo, de­flagrada em Go­iânia há exatamente um mês e dez dias, tiveram impacto direto no cenário político da Capital. A avaliação é de consultores ouvidos pelo Jornal Opção. As novas denúncias que surgiram nas últimas semanas contribuíram com a formação de nuvens negras sobre o quadro pré-eleitoral da cidade.
“Neste momento, o cenário político encontra-se turvo. O que se observa é uma grande quantidade de cidadãos desiludidos. A onda é percebida em alguns setores da sociedade organizada e muitos pregam o voto nulo, que nada mais é que uma resposta, um troco do eleitor nas urnas”, avalia o diretor-geral do Instituto Verus, Luiz Felipe Gabriel, profissional com mais de 15 anos de experiência em pesquisa de mercado e de opinião pública.

O consultor diz que é difícil prever por quanto tempo as pessoas ficarão desiludidas, mas avalia que os escândalos podem alterar o desempenho dos concorrentes. O prefeito Paulo Garcia (PT), candidato à reeleição, pode ser beneficiado em detrimento do pré-candidato do PSDB, Leonardo Vilela. Por quê?  “Primeiro porque o centro do escândalo [Demóstenes Torres] está na base estadual e isso deve impor algum tipo de prejuízo a Leonardo. Depois, o prefeito está com uma série de obras e serviços que realça sua figura.”

Na opinião do especialista em pesquisa, o aumento de votos nulos não deve atrapalhar o bom desempenho de Paulo Garcia. Pelo contrário, os desdobramentos das denúncias podem resultar numa definição já no primeiro turno, favorecendo o petista. “Paulo tende a avançar nesse cenário turvo.”

Para registro: o chefe de gabinete de Paulo Garcia, Cairo de Freitas, caiu em meio ao escândalo Carlos Cachoeira, flagrado em reunião com uma suposta bancada do bicheiro na Câmara de Vereadores, os chamados “cachoeirinhas”.
Luiz Felipe Gabriel acredita que pesará mais ao prefeito as obras que tem feito e a identidade que imprimiu ao seu governo do que uma influência do PT nacional. Pregar um estilo de governar parecido com o presidencial não deve contar pontos, analisa. “Existe um estilo pessoal de cada político e, assim sendo, a questão partidária acaba por ser irrelevante. Paulo Garcia tem um estilo: é discreto, mas operacional. Algo de falar pouco e fazer muito, o que pode ser interessante.”

Na tarde de terça-feira, 3, o presidente do Grupom (instituto de pesquisa conceituado em Goiás), Mário Rodrigues Filho, atendeu a repórter por telefone, dizendo: “O momento é de crise em Goiânia”, em referência ao envolvimento de políticos goianos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Mário Filho diz que a população goianiense está completamente reticente a responder e votar pesquisas. O quadro, emenda, não é favorável a nenhum pré-candidato. “A população está descrente e não quer opinar.”

A saída é deixar as pesquisas para depois. De acordo com o diretor do Grupom, dois meses serão necessários para que as pessoas esqueçam as últimas denúncias. Ele é taxativo ao falar sobre a abstenção de eleitores e votos nulos na disputa de 3 de outubro. “Devem aumentar. O momento é de crise, decepção, descrença. Está difícil de conseguir a opinião da população porque a imprensa e os eleitores nas redes sociais, twitter e facebook, não falam em outra coisa”.

Ficha Suja

Para Mário Rodrigues Filho,  não há dúvidas: será favorecido na campanha eleitoral o candidato que não tiver a pecha de ficha suja. Mas a avaliação, diz, será feita pela própria população e não pelo candidato. “São os eleitores quem avaliarão quem é ou não ficha suja. Não valerá pegar uma certidão na Justiça Eleitoral.”

Os goianienses estão fugindo quando questionados sobre quem votarão. De acordo com Mário Filho, eles não estão sendo mal-educados nem contestando a ética dos pré-candidatos, mas se abstém de dar  a reposta. Na opinião dele, é muito cedo para afirmar se os escândalos vão respingar nos aspirantes.

A sequência de notícias negativas relacionadas à política goiana e publicadas na imprensa nacional é constrangedora para Goiás, avalia o cientista político Itami Campos. “Eu não sei qual será a reação dos eleitores nas urnas diante desse quadro que se coloca, mas há que se enfatizar que o senador Demóstenes Torres, que ainda não foi acusado, é aliado do candidato do PSDB [Leonardo Vilela].” Itami não leva em consideração o episódio Cairo de Freitas e diz acreditar que o prefeito Paulo Garcia está imune às denúncias da Operação Monte Carlo e, por isso, não deve ter problemas. “O Mutirama também não deve lhe causar desconforto na disputa”, opina.

O desinteresse do brasileiro por política está diretamente ligado à crença de que tudo que a cerca envolve corrupção. Quanto mais escândalos mais as pessoas se distanciam do setor que deveria ser monitorado por todos e permanentemente. Apesar disso, o cientista político Wilson Ferreira da Cunha, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), avalia que os últimos escândalos em Goiás não devem ser determinantes no resultado eleitoral deste ano. 

“A corrupção recente no Brasil começou com o mensalão do PT e o senador Demóstenes Torres [sem partido] não é o único corrupto do Brasil. O eleitor brasileiro está desconfiado porque os partidos políticos, que antes criavam ideias, agora criam negócios”, afirma o cientista.

Para Wilson Cunha, Goiânia está órfã de candidatos e o que vai prevalecer são as ideias e os projetos. O pro­fessor faz crítica a Paulo Garcia e Marconi Perillo.

Sobre o petista diz: “Con­sidero que a eleição à prefeitura é um marco importante na mentalidade da política brasileira e, nesse sentido, o petismo lulista já entra em desvantagem. O PT está em Goiânia e em Anápolis e isso não isenta a postura de bom mocinho do prefeito, como se ele fosse um anjo no inferno”.

A respeito do tucano, pontuou: “O governo Marconi Perillo está muito calado, passivo, tem de ser ativo. Em política não existe imparcialidade, é preciso tomar lado. O PSDB precisa se atentar a isso”, disse, completando que eleição municipal é um preparatório para as campanhas estaduais.

Quadro eleitoral está aberto

O cenário eleitoral em Goiânia está aberto, diz o terapeuta em marketing Marcus Vinícius Queiroz. De acordo com ele, fazia muito tempo que não se via um quadro sem polariza­ção na cidade. “Em 2004, Pedro Wilson (PT) polarizou com Iris Rezende (PMDB) e, em 2008, não houve espaço para Sandes Júnior, PP [o pepista foi candidato]. Pela primeira vez há um cenário com várias pré-candidaturas.”

O terapeuta também avalia como surpresa a colocação do vereador Elias Vaz (PSol) que, segundo ele, aparece em segundo lugar nas in­tenções de voto variando entre 14% e 18%, seguido por Leo­nardo Vilela (6% e 9%). Paulo Garcia, diz, aparece no topo (28% e 32%). “Pela primeira vez em Goiânia um candidato do PSol aparece em segundo lugar e com mais de 14% de intenções de votos. É histórico. Temos um cenário completamente aberto.”

Cabeça do eleitor

Marcus Vinicius considera baixa (cerca de 30%) a aprovação de Paulo Garcia. Isto porque, explica ele, o petista sucede um prefeito (Iris Rezende) que tinha mais de 70% de avaliação positiva. O terapeuta cita o livro “Cabeça do Eleitor”, de Alberto Carlos de Al­meida, para se justificar. “Este livro comprova por meio de estatísticas que o pre­feito que tem aprovação acima dos 50% raramente perde eleição.”

Paulo Garcia e Leonardo Vi­lela integram duas das maiores le­gendas em Goiás e têm apoios de pe­so. O primeiro é abençoado pe­lo ex-prefeito Iris Rezende; o segundo conta com o apoio do go­ver­nador Marconi Perillo, o maior líder político da atualidade em Go­iás. “São dois nomes de peso”, diz Marcus Vinícius. No entanto, na opinião dele, o que vai pesar é o sentimento da po­­pulação. São os eleitores “que vivem de per­to a administração” que avaliarão.

Marqueteiros levantam dados e esboçam projetos 


Os trabalhos de pré-campanha no PT têm girado em torno de levantamento de dados, mapeamento, construção de discursos e esboços de projetos. “São questões estratégicas; quais temas os  concorrentes podem abordar, quais as repostas, como serão os discursos, quais os focos deles e busca de dados”, afirma o marqueteiro de Paulo Garcia, Renato Monteiro, da Agência Cantagalo.

A equipe também encomendou pesquisas qualitativas e quantitativas e prepara cronograma. Trabalha em sintonia com a coordenação de campanha. “É importante que saibamos quantos partidos comporão a aliança, que tenhamos noção de tempo de televisão e de rádio e assim esboçar alguns projetos”, adianta Renato Monteiro.

Paulo Garcia assumiu o Executivo municipal em abril de 2010, quando Iris Rezende (PMDB) desincompatibilizou para disputar o governo do Estado. No início de seu governo era visto pelos adversários como um nome fraco. Hoje, cresceu nas pesquisas de intenção de votos e é conhecido das classes média e alta. Mas ainda tem muito o que conquistar nos bairros pobres

Cientistas avaliam que os problemas enfrentando com a reforma do Parque Mutirama (suspeita de superfaturamento) não devem impactar na campanha já que nenhum desvio foi comprovado.

Paulo Garcia não tem desgaste e é político ficha limpa. A seu favor pesa o apoio de Iris Rezende e do PMDB, e de José Batista Júnior (PSB), o Júnior Friboi. O petista deve receber amparo do PT nacional. Comenta-se numa possível vinda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Goiânia durante a campanha.

Paulo Garcia vai enfrentar Leonardo Vilela (PSDB), que, apesar de aparecer em 3º lugar, é um candidato de peso. De acordo com o coordenador de campanha do tucano, Carlos Maranhão, os trabalhos já iniciaram, mas é preciso cuidado para não ter problemas com a Justiça Eleitoral. “A equipe de marketing atua internamente. Enquanto o pré-candidato capta alianças a gente faz o planejamento. Também estamos buscando um local para nos instalarmos.” Segundo Maranhão, o foco agora são as alianças a fim de que se tenha tempo robusto de televisão. Os outros trabalhos são esboços.

Leonardo Vilela é ex-deputado federal e ex-secretário de Meio Ambiente. Desincompatibilizou no dia 28 do mês passado. O tucano conta com o apoio do governador Marconi Perillo (PSDB) e do ex-prefeito de Goiânia Nion Albernaz (PSDB). Não possui desgastes políticos, mas é desconhecido do eleitorado goianiense.

Os deputados Jovair Arantes (federal), do PTB, e Isaura Lemos (estadual), do PCdoB, e o vereador Elias Vaz (PSol) também aspiram a principal cadeira do Paço Municipal.

Jovair Arantes, que já foi vice-prefeito de Goiânia e candidato em outras disputas, garante que irá até o fim. Mas, nos bastidores, comenta-se que ele deve recuar e apoiar Paulo Garcia ou Leonardo Vilela, dependendo do que for negociado.

O vereador Elias Vaz integra um partido de esquerda e é conhecido pela postura firme de oposição ao governo municipal. Ele aparece em segundo lugar nas pesquisas de intenções de votos. De qualquer forma, não tem muitos recursos e enfrentará candidatos de duas grandes legendas: PSDB e PT.

Isaura Lemos cumpre o quarto mandato de deputada estadual. É popular nos bairros periféricos de Goiânia e defende a conquista da casa própria. São projetos da deputada melhorar o transporte coletivo e a saúde pública.

O deputado federal Sandes Júnior (PP), que foi candidato a prefeito nas últimas disputas e se autoavaliava um concorrente forte na campanha deste ano, retirou o seu nome depois de ter tido o seu envolvido com a Operação Monte Carlo.

Votos nulos e abstenções nas últimas eleições em Goiás

- Eleições 2008 - 1º Turno – Goiânia
Aptos: 3.873.536
Comparecimento: 3.327.299
Abstenção: 546.237
- Eleições 2010 - 1º Turno
Aptos: 4.058.912
Comparecimento: 3.329.636
Abstenção: 729.276
- Eleições 2010 - 2º Turno
Aptos: 4.059.028
Comparecimento: 3.158.104
Abstenção: 900.924

* Dados do Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO)