Tratamento de imagem se torna obrigatório para confecção do material de campanha dos candidatos. Uma foto “photoshopada” pode custar até R$ 3 mil para majoritários
Divulgação
Retoques nas fotos dos três governadoriáveis mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto transmitem mais polidez e vigor
Sarah Mohn
Pele sem manchas, brilho, marcas de expressão, rugas ou olheiras. Bochechas e pescoço afinados. Cabelo alinhado, sorriso digno de propaganda para pasta de dente e nenhum defeito aparente no formato do rosto. Não é assim que o cidadão comum vê, na vida real, o político que entrega panfleto, folder, adesivo ou santinho com imagens nesse formato a possíveis eleitores. Mas, não importa, o primordial é ficar bem na foto. Mesmo que se pareça alguém que não si mesmo.
Foi-se o tempo em que usar e abusar de recursos para tratamento de imagens fotográficas era coisa do universo da moda. Hoje em dia, candidatos a cargos eletivos deixam modelos, artistas e manequins com o ego no chão quando o assunto é tecnologia fotográfica. São tantas e cada vez mais especializadas as ferramentas para garantir a perfeição da imagem no papel, que virou caminho obrigatório para políticos a adesão à supremacia de qualidade garantida pelo semideus Adobe Photoshop.
O resultado que gera rostos tão impecáveis nos leva, por exagero de um breve momento, a questionar se seria o fim do boom das cirurgias plásticas, dos peelings ou tratamentos com botox. Pelo menos durante o período de campanha eleitoral, não seria de espantar que uma pesquisa quantitativa apresentasse um cenário com decréscimo de procura por atendimento estético em clínicas especializadas. Afinal, os cirurgiões plásticos da fotografia são hoje tão requisitados quanto os cirurgiões plásticos da medicina.
Ironia à parte, há trabalhos excepcionais e, o melhor, sem risco à saúde de quem passa pelo “tratamento”. Adobe Photoshop se transformou no elixir da juventude para políticos, e ficar fora do processo parece não ser bom negócio.
Profissionalismo
Atualmente, não tratar pelo menos o mínimo uma fotografia é o mesmo que deixar o candidato ser exposto ao ridículo. A sentença é do proprietário da Clic Digital — empresa no mercado desde 1995 e conceituada no trabalho com campanhas políticas —, Célio Chavier. Fotógrafo há mais de 25 anos, Chavier é uma das referências em clicar políticos. Neste ano, afirma que fotografou mais de 120 candidatos e boa parte deles do PMDB, como o próprio governadoriável Iris Rezende e sua mulher, a deputada federal candidata à reeleição Iris Araújo.
Célio diz que, em sua agência, o critério imprescindível é lidar com limites de bom senso para cuidar da imagem de clientes, sem desconfigurá-los. “O trabalho é sempre melhorado, mas temos limites para não desconfigurar o candidato. Não podemos transformar, por exemplo, uma pessoa de 70 anos numa de 40.” Mas nem sempre a orientação do especialista é acatada, Célio explica que, muitas vezes, o marqueteiro ou o próprio candidato insistem em utilizar ao máximo os recursos que garantem a imagem aparentemente perfeita. E aí mora o perigo. “Quando há desconfiguração, foi a pedido do candidato ou do marqueteiro do candidato”, diz.
No entanto, Célio ressalta a importância do avanço tecnológico na área fotográfica. “A fotografia de candidatos está ficando menos formal e mais moderna. Estamos sofisticando, usando nuances de luzes e sombras que antes não utilizávamos. Se existe a tecnologia, é para ser usada, mas sem exagero. A expressão e a naturalidade do candidato são o que contam na foto”, salienta. Cada foto com tratamento, segundo Célio, é vendida em média por 700 reais.
Milton Cury, proprietário do estúdio que leva o mesmo nome do fotógrafo, foi o responsável pela fotografia e tratamento de imagem de políticos como Neyde Aparecida (PT), candidata à deputada federal (sequência no alto da página). Milton também explica que sugere o limite que garanta a manutenção da identidade visual do fotografado, mas é mais ousado: opta sempre pela melhor aparência dos clientes nas imagens.
“Já temos um padrão de trabalho. Podemos amenizar algumas distorções, mas não podemos, por exemplo, retirar pé de galinha. A gente faz o básico, se não reclamarem a gente não mexe mais do que o necessário.” Milton afirma que cobrou em média R$ 1 mil de candidatos à vaga de deputado e R$ 3 mil de candidatos a cargos majoritários.
Exagero é a piada do negócio

A busca pela perfeição na foto é extensão da mesma tendência que banalizou a procura por cirurgias plásticas ou utilização de métodos clínicos para tratamento corporal. Em suma, a ambição pelo corpo perfeito recebeu a adesão da exigência do cartão de visitas impecável — no caso de candidatos, a imagem de campanha. É o que constata o publicitário Léo Pereira, da Verbo Cerrado.
“Penso que isso é uma coisa do nosso tempo. Da mesma forma que existem exageros com cirurgia plástica, existem exageros com o Photoshop. Técnicas existem para serem usadas dentro de limites ou até mesmo para não serem utilizadas. O resultado do exagero é que muitas pessoas ficam desconfiguradas, assim como quando fazem cirurgia plástica.”
O publicitário é preciso ao considerar que exageros assustam eleitores. “Quando a sociedade se depara com esses exageros, imediatamente percebe que há na imagem impressões estranhas. É aí que vemos piadas do tipo ‘essa pessoa está do avesso’”. Léo dá a dica: retocar uma foto significa corrigir pequenas distorções de luz, aspectos técnicos da própria foto, melhorar o foco da imagem e algum sinal que possa atrapalhar o bom resultado da foto, sem interferências exageradas.”
Na contramão da tendência do exagero, a candidata a deputada federal Marina Sant’Anna (PT) disse que se preocupou no cuidado com a imagem oficial de campanha em cair no excesso. Assessorada pela Agência Cantagalo, do marqueteiro Renato Monteiro, Marina foi preparada por profissionais, recebeu corte de cabelo e boa dose de maquiagem, além de enfrentar a sessão fotográfica em estúdio especializado e com iluminação adequada.
Marina assegura que desde o início deixou claro à equipe seu posicionamento: entende a preocupação com a qualidade da imagem apresentada no material do candidato, mas defende que o retrato seja real. O resultado é uma que ela acredita ser bonita, mas na qual — afirma — podem ser vistas rugas, marcas de expressão e, mantendo a naturalidade do cabelo, alguns fios esvoaçantes na própria foto.
“A questão é que observo, nas campanhas, a distância real que existe entre uma foto realizada com maquiagem, em estúdio, com especialistas e o nosso encontro de panfleto na mão com as pessoas, às 6 horas da manhã em uma feira ou ponto de ônibus, apenas com a aparência normal, sem maquiagem, cabelo comum, transparecendo a exaustão de uma agenda exigente. E a pergunta simples: “Esta é você? Não parece!’. Por isso, procuro ter a foto com a minha melhor versão, mas na real, sem montagens e modificações.”