34 anos
Crise Econômica
Brasil prescreve veneno ao mundo
Se o estatismo que o governo petista receita para a crise econômica mundial fosse bom como se diz, o País não desperdiçaria R$ 85 bilhões por ano em corrupção, hoje sua indústria mais próspera
Na montagem, Barack Obama entr e Muammar Kadafi e Osama bin Laden: presidente dos EUA, o Lula ianque, acredita que pode reformar o Oriente Médio passando por cima dos cadáveres dos dois terroristas islâmicos

José Maria e Silva 

Com cerca de 200 mil habitantes e uma área que não chega a 20 quilômetros quadrados, a pequena cidade de Cannes, no sul da França, é mais conhecida como capital mundial do cinema de arte, por realizar anualmente, no mês de maio, o Festival de Cannes, que, além de reunir grandes gênios do cinema mundial, também dá amplo espaço aos bichos-grilos da Sétima Arte. Mas neste mês de novembro, a cidade francesa foi palco de um encontro bem mais prosaico: a reunião do G-20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, incluindo a União Europeia e os países emergentes, que discutiram a crise econômica que se arrasta desde 2008 e, agora, tem na Grécia seu epicentro.

O encontro teve início na quinta-feira, 3, e se encerrou na sexta-feira, 4, com a presença dos principais líderes mundiais, entre eles o presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama, o Lula ianque, que fez de sua cor um dividendo político (ainda que disfarçadamente), assim como Lula fez de sua efêmera passagem pelo torno mecânico uma arma eleitoral. O amante e depois marido da cantora e ex-modelo italiana Carla Bruni, Nicolas Sarkozy, por acaso presidente da França, foi o anfitrião do encontro, que também contou com uma fauna terceiro-mundista, na qual se inclui a viúva de Néstor Kirchner, Cristina Kirchner, por acaso presidente da Argentina, e o poste que Lula elegeu no Brasil, a ex-guerrilheira e atual presidente Dilma Rousseff. Como se vê, o mundo nunca esteve tão bem de líderes. Ai de nós!
E a situação é ainda mais grave porque esses líderes estão sendo chamados a lidar com um mundo à beira do fim.

Durante o governo de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, o economista norte-americano Francis Fukuyama, de origem japonesa, havia previsto o “fim da história” com base na queda do Muro de Berlim. Em 1992, com a derrocada da União Soviética, ele reforçou sua tese, transformando em livro o artigo originalmente publicado em 1989 e que desencadeou a polêmica que iria se arrastar por um bom tempo. A tese central de Fukuyama era a de que o capitalismo e a democracia liberal venceram a batalha contra os regimes totalitários, pondo fim à luta de classes, vista por Karl Marx como motor da história. Dizia isso, obviamente, por não perceber que o marxismo nunca morreu — está cada vez mais vivo no plano da cultura, que, de certo modo, é o que conta.

Fim do mundo

Fukuyama observou que as revoluções de 1989 no Leste Europeu e a dissolução da União Soviética puseram fim ao embate ideológico entre capitalismo e socialismo, com a vitória do capitalismo e da democracia liberal. No seu entender, o comunismo se tornara uma ideia insustentável, a exemplo do fascismo e da monarquia, que, quando muito subsiste como tradição, sem poder efetivo. Em síntese, o economista norte-americano promoveu o enterro precoce de Marx, afirmando que a luta de classes preconizada pelo barbudo alemão fora vencida definitivamente pela democracia ocidental. Para Fukuyama, o mundo havia chegado ao “ponto final da evolução ideológica da humanidade” com a “universalização da democracia ocidental como forma última de governo humano”.

O tempo mostrou que Francis Fukuyama estava errado: estamos vivemos não o “fim da história”, mas o próprio fim do mundo. A mitologia maia, ainda que por linhas tortas, vai acabar confirmando sua profecia de que o mundo acaba em 2012. Ao menos o mundo que conhecemos e que começou a ser forjado no final da Idade Média, com a expansão da civilização europeia. A reunião de cúpula do G-20 mostra um mundo de ponta-cabeça, em que o Velho Mundo pede socorro ao Novo Mundo, representado pelos países emergentes, como China e Brasil. O consultor do Banco do Povo da China (Banco Central do país) afirmou que a China pode dar um apoio de US$ 100 bilhões  (R$ 172 bilhões) à União Europeia. E a presidente Dilma Rousseff, confirmando o que já havia prometido em Bruxelas, no mês passado, reiterou em Cannes que o Brasil irá ajudar a Europa.

O problema é que o governo brasileiro parece não compreender as raízes da crise que afeta a Europa. Prognósticos históricos quase sempre são profecias não cumpridas, mas é provável que o mundo esteja passando por uma nova mu-dança substancial, como a que marcou a transferência do eixo de poder da Europa para os Estados Unidos, após a Segunda Grande Guerra. Os Estados Unidos, ao contrário do que pensam seus inimigos, ainda serão uma potência por muito tempo, talvez por séculos, mas a Europa parece condenada a viver um período de convulsões, semelhantes às que enfrentou no passado. O que resultará disso é difícil saber, mas o receituário que saiu da reunião de cúpula do G-20, especialmente a cantilena assistencialista francesa e brasileira, tende a agravar os males da Europa, sem trazer dividendos para os países emergentes, a não ser para a China.

Bolsa-família mundial

Repetindo em Cannes os números equivocados do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, a presidente Dilma Rousseff quis dar lição ao mundo. Afirmou que o Brasil promoveu a inclusão de 40 milhões de pessoas na classe média e propôs a implantação de um programa de renda mí,nima global, nos moldes do Programa Bolsa-Família, que, segundo ela, é um sucesso de inclusão social. É bem verdade que a proposta não é exclusiva da presidente Dilma, sendo defendida também pela Organização Internacional do Trabalho. Mas esses órgãos internacionais de reformadores do mundo vivem na ponte área entre os grandes centros culturais e econômicos do planeta e não fazem ideia de como funciona o mundo real.

Se todo programa de renda mínima já apresenta insanáveis irregularidades no âmbito de um só país, o que dizer de um Bolsa-Família global? É óbvio que só iria funcionar onde nem seria tão necessário, como num Japão, por exemplo. Em regiões conflagradas da África, Ásia e América Latina, ele jamais chegaria a quem precisa e seria convertido em fonte de poder de grupos rivais, como já ocorre hoje com a ajuda humanitária destinada aos povos de regiões em conflito. Aliás, se não falta gente para roubar nem donativos de flagelados de inundações e terremotos, é ilusão pensar numa renda mínima global como solução para os males do mundo. Coisa de Eduardo Suplicy e dos burocratas da governança global, encastelados na ONU.

Da mesma forma, deve fracassar a tese de se criar um imposto mundial sobre as operações financeiras, abraçada pela França de Nicolas Sarkozy e a Alemanha de Angela Merckel. Começando pelo fato de que Estados Unidos e Inglaterra não concordam com a medida. A ideia foi lançada em 1972 pelo economista norte-americano Jean Tobin (1918-2002), Prêmio Nobel de Economia e discípulo de John Maynard Keynes, e retomada pelo jornalista Ignacio Ramonet, no “Le Monde Diplomatique” em 1997. A proposta de Tobin tinha o objetivo de financiar os países do Terceiro Mundo, carreando o capital da especulação monetária para o investimento humano. Mas, na prática, quem pode garantir que esse imposto seria usado em benefício dos mais pobres? Por acaso, a CPMF brasileira foi integralmente destinada à saúde?

Posição utópica

A posição do Brasil diante da crise é calcada na utopia. O governo petista acredita numa espécie de emplastro Brás Cubas econômico, em que os governos mundiais, agindo de modo concertado, resolveriam todos os problemas da economia global. Em 2008, quando estourou a atual crise e o Brasil sediou a reunião preparatória para a Cúpula do G-20, o Ministério da Fazenda preparou a proposta brasileira de “governança financeira global”, em que o coletivismo esquerdista se faz presente a cada linha. “Devemos priorizar ações coletivas e formular respostas conjuntas e coordenadas”, diz a proposta tupiniquin diante do que considera a mais grave crise financeira mundial desde 1929, como se os agentes do mercado financeiro agissem como o Bom Samaritano da parábola de Jesus Cristo.

A proposta brasileira parece ter saído de algum grêmio livre de faculdade de economia. Vejam o que diz: “Faz-se necessário rever os marcos de regulação, supervisão e avaliação de riscos nacionais e desenvolver marcos normativos e regulatórios multilaterais, a serem adotados por todos os países, nacionalmente, e nas transações internacionais, de modo a disciplinar a atuação de agentes financeiros, sobretudo aqueles cuja atuação possa comprometer a estabilidade do sistema financeiro internacional”. Não é preciso ter qualquer formação em economia para perceber que essa proposta é uma arrematada bobagem. Se nem dentro do Brasil o governo consegue controlar a guerra fiscal entre Estados irmãos, como espera alcançar uma pitagórica harmonia das esferas econômicas em escala global, quando as nações precisam competir entre si para que seus respectivos povos melhorem de vida?

Além da ingenuidade utópica, a proposta do governo brasileiro peca pelo ufanismo verde-amarelo de sempre. Um dos ápices da linguagem de grêmio livre é quando o Ministério da Fazenda afirma que os  organismos e foros internacionais existentes, bem como as regras e práticas internacionais vigentes em matéria financeira, “foram reprovados no teste da História” (com “H” maiúsculo). Diante desse grau zero da ciência econômica, qual a solução? Ora, diz o documento, “devem ser atribuídas aos países emergentes e em desenvolvimento como o Brasil maior voz e representação e maiores responsabilidades na elaboração de regras e nas deliberações no âmbito das instituições financeiras internacionais”.

Como é que uma republiqueta corrupta até a medula pode se julgar apta a colocar o mundo inteiro no “Tribunal da História” e ainda oferecer a receita de salvação da economia mundial? Um país como o Brasil, que perde para a corrupção R$ 85 bilhões por ano (segundo reportagem da revista “Veja” de 26 de outubro), devia ter vergonha de fazer uso da palavra em fóruns internacionais. Hoje, a corrupção é a indústria mais próspera do Brasil e ministérios e partidos inteiros só existem para corromper, para roubar, para desperdiçar dinheiro público. Que solução o Brasil tem a oferecer ao mundo se não consegue ter o mínimo de decência diante de si mesmo? O País é a prova concreta de que, quanto mais Estado, mais burocracia e mais regras, maior é a corrupção. E a famigerada Copa do Mundo de 2014, que tem até salvo-conduto para a corrupção (a tal Lei Geral da Copa), irá mostrar isso ainda com muita clareza.

Receita estatizante

A receita estatizante que o Brasil oferece ao mundo — como se exumasse o caudilho Getúlio Vargas e o economista Celso Furtado — é um dos fatores que está levando a velha Europa para o buraco. O excesso de bem-estar social criou uma geração de adultos infantilizados, incapazes de conviver com as adversidades. Por qualquer motivo, eles saem às ruas, depredando os moinhos de vento de sua imaginação rebelde. É o que se vê no Brasil da USP, a universidade que carrega um cadáver insepulto (o do estudante de medicina morto num trote). Estudantes encapuzados, comportando-se como bandidos de morro, invadiram a reitoria da USP, em protesto contra a presença da PM no campus, apesar dos assaltos, roubos, espancamentos e até morte que estavam ocorrendo na universidade antes da presença da polícia. Estudante da USP é, sem dúvida, privilegiado, mesmo assim se comporta como um excluído que precisasse da proteção do Estado.

Essa é a tendência das novas gerações: acreditarem-se eternas credoras do mundo adulto, representado pelo Estado e pela própria família. E, nesse ponto, não há muita diferença entre a juventude dos cafés de Paris, os milicianos do mundo árabe e os estudantes encapuzados da USP. Nenhuma geração anterior gozou das facilidades que esses jovens desfrutam, entretanto eles já não se limitam a resmungar seu descontentamento – querem subjugar o mundo a seus caprichos. Nem sonhos têm mais. São fogos-fátuos de puro desejo. Mas é com eles, como se fora um chefe de gangue, que Barack Obama acredita poder reformar o Oriente Médio, passando sobre os cadáveres de Osama bin Laden e Muammar Kadhafi. É a democracia plugada às ruas – como a democracia alemã que elegeu Hitler.

As instituições estão frágeis e os líderes mundiais estão agindo com um voluntarismo adolescente. A Líbia é um exemplo. A reunião de cúpula do G-20, que acabou na sexta-feira última, é outro. Tirando o fato de que os líderes mundiais conseguiram impedir o desatino da Grécia (levando-a a descartar o referendo que poria o plano de salvação de sua economia a perder), e também dobraram a Itália, que irá se submeter ao FMI, praticamente nada de concreto saiu da reunião de Cannes. Principal presa do “choque de civilizações”, como vítima potencial do mundo islâmico, a Europa continua com o euro à beira do abismo, e, tirando a China, os emergentes têm pouco a ganhar, de imediato, com a crise. De concreto, há um mundo calcado no trabalho produtivo que está morrendo. E dificilmente será construído outro mundo de forma indolor – como parecem acreditar os líderes do G-20.

O que é o G-20

O Grupo dos Vinte (G-20) foi criado em 1999 e reúne os ministros das Finanças e presidentes dos Bancos Centrais das 20 mais importantes economias industrializadas do planeta. A primeira reunião do grupo teve lugar em Berlim, nos dias 15 e 16 de dezembro de 1999, sob o comando dos ministros das Finanças da Alemanha e do Canadá.

O G-20 é formado pela União Europeia mais 19 países. São eles: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia e Turquia. Além das representações dos países, o G-20 também conta com a participação do FMI e do Banco Mundial.

Juntos, os países-membros do G20 representam cerca de 90% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio interno da União Europeia), bem como dois terços da população mundial. Isso faz com que a influência do grupo seja altamente impactante na economia global e no sistema financeiro mundial.

Além das reuniões ministeriais, que reúne os ministros das Finanças e presidentes de Banco Central, o G-20 também realiza reuniões de cúpula, em que as estrelas são os próprios chefes de governo de cada país, como ocorreu agora em Cannes, na França. O Brasil já sediou uma reunião ministerial do G-20, nos dias 8 e 9 de novembro de 2008, que serviu de preliminar para a reunião de cúpula em Washington, realizada nos dias 14 e 15 de novembro daquele mesmo ano, quando se discutiu a crise mundial, então nascente.