Edição 1851 de 26 de dezembro a 1º de janeiro de 2011
Indústria
A meca do investimento
Especialistas apostam que o Estado tem tudo para atrair novos empreendimentos diversificados, principalmente nas áreas alimentícia, farmacêutica e automobilística
Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção
Sérgio Duarte de Castro, do departamento de
investimentos da SIC: “A cervejeira Ambev estuda
implantar uma nova planta no Estado”
Luana Borges
 
Especialistas e empresários são unânimes ao apontar: um novo perfil de investimentos industriais — mais diversificados e não exclusivamente ligados à agropecuária — se intensifica em Goiás. São economistas, técnicos da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), consultores na área empresarial e investidores que não hesitam ao indicarem o crescimento de novas indústrias e setores no Estado, bem como o surgimento, nas cidades goianas, de hábitos de consumo mais qualificados. De acordo com eles, dentre as áreas que atualmente mais crescem em níveis de investimento, apresentando maior relevância nos valores de transformação industrial (VTI), há destaque para as indústrias alimentícia, farmacêutica e automobilística. 
 
Já quando a atenção deixa os parques fabris e chega às grandes cidades, os empresários apostam na construção civil. De condomínios fechados, altas torres residenciais e comerciais, casas populares aos shoppings centers, a ordem é investir. Para se ter uma ideia da aposta do ramo, o grupo português Sonae deve gastar em Goiânia cerca de R$ 300 milhões na construção de um novo shopping na Avenida Perimetral, região Norte da cidade. Já incorporações como a TCI anunciam, para a Capital, um Valor Geral de Vendas (potencial que os empreendimentos têm para gerarem receitas) superior a R$ 250 milhões em 2011.  
 
No que se refere à produção industrial de alimentos e bebidas, o setor representa 44% do total transformado pela indústria no Estado. Nessa seara, os atomatados surgem com forte evidência. As terras cerradeiras contam com 12 plantas de processamento de tomate em operação — sendo as principais em Morrinhos, Luziânia, Goiânia e Rio Verde — e lideram o ranking nacional da produção de tomate industrial, com 62% da fabricação brasileira vinda de Goiás. E nessa época de franca expansão, novos investimentos são quase corriqueiros. Conforme explica o economista Sérgio Duarte de Castro, para o setor, dois novos empreendimentos serão inaugurados em Cristalina. “Cada um com uma média de aplicações de R$ 90 milhões”, esclarece.  
 
São empresas como a Cristalina Alimentos, do grupo Fugini, que implantará uma linha capaz de processar, ao ano, 110 mil toneladas de atomatados, além de conservas de milho, ervilha, cenoura e batata. Outra iniciativa na cidade, situada a 120 km de Brasília, é a do grupo francês Bonduelle. Com um montante de R$ 120 milhões, a empresa está construindo uma planta com capacidade para produzir 50 mil toneladas em conservas de ervilha fresca e milho doce. Todos esses recursos destinados a Cristalina são atraídos pelas lavouras irrigadas da cidade, que tiveram produtividade de 95 toneladas por hectare em 2008, superior a média de Goiás,  de 87,7 toneladas.
 
Cerveja
 
Outro ramo cada vez mais sólido e crescente no Estado é o de produção de cervejas. Sérgio Duarte, que também comanda o departamento de investimentos da Secretaria de Indústria e Comércio de Goiás (SIC), explica que a AmBev espera destinar R$ 228 milhões para a ampliação de sua fábrica, localizada na região de Anápolis. “Está se discutindo, ainda, a possibilidade de uma nova planta da AmBev no Estado. Mas o local ainda não está definido”, comenta Duarte. Segundo ele, o montante destinado ao parque fabril anapolino é suficiente para duplicar a unidade e os investimentos ocorrerão até o final do próximo ano.
 
Ainda na seara do agronegócio, além dos setores de atomatados e cervejas, há tendências de se aplicar na produção sucroalcooleira. Em Goiás, na safra de 2010, 34 usinas operaram, com média de R$ 300 milhões investidos ao ano. O presidente executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg) e do Sindicato da Indústria de Fabricação de Açúcar (Sifaçucar), André Rocha, explica que a crise de 2008 adiou o início das operações nas usinas de Morrinhos e Mineiros, mas que a tendência é a retomada de investimentos. “De maneira geral, uma usina leva três anos para ficar pronta. Nessas cidades foram quatro ou cinco anos, pois houve coincidência com a recessão mundial. Por isso, o número de R$ 300 milhões está diluído. Para 2011, vai haver maior expressividade.”
 
Dois projetos do setor sucroalcooleiro foram aprovados, neste ano, no Produzir, o programa de incentivos fiscais. A estimativa do programa é de que, se implantados, eles tenham aplicações fixas de cerca de R$ 286 milhões e gerem 1.503 empregos diretos. Atualmente, o setor é forte em cidades como Santa Helena, Quirinópolis, Jataí e Mineiros, no Sudoeste goiano.
 
Da agricultura ao moderno industrial
 
O salto industrial goiano, endossado em coro por gente da área, é merecedor de breve contextualização. Nas décadas de 1970 e 1980, Goiás avançava rumo à modernização agrícola e à agricultura empresarial de altos níveis de produtividade. Esses nichos da economia goiana foram impulsionados, sobretudo, por pesquisas que viabilizaram o uso produtivo dos Cerrados, pela redução dos custos logísticos (decorrente do avanço inicial  em infraestrutura) e pelo preço barato das terras planas, ideais para a mecanização. E foi a partir do crescimento do agronegócio que o parque industrial goiano também começou a se desenvolver. 
 
Desde 1984, com os incentivos fiscais do Fomentar, intensificou-se um processo pelo qual o Estado atraía aquelas primeiras indústrias de processamento de grãos, como a Granol e a Caramuru. Após esses investimentos iniciais, os próximos passos vieram de empresas maiores, em particular dos complexos da indústria alimentícia, como a Mabel ou a Arisco (atual Unilever). Mais tarde — já com os benefícios concedidos, desde o ano 2000, pelo Produzir — o momento foi favorável à diversificação e à consolidação de setores como o sucroalcooleiro, o automobilístico ou farmacêutico.
 
Essa evolução da indústria nas últimas duas décadas culminou com o lançamento, no mês de agosto, de um mapa estratégico para o desenvolvimento do setor em Goiás. Lançado pela Fieg, o mapa prevê saltos de exportações da indústria goiana. Conforme o coordenador técnico da Fieg, Welington da Silva Vieira, atualmente as exportações de produtos industrializados em Goiás representam 0,82% do total de exportações industriais brasileiras. Ele explica que, em dez anos, o mapa de investimentos prevê que esse valor chegue a 1,5%. “No que se refere às riquezas nacionais, nossa indústria é responsável por 2,6% do PIB industrial brasileiro. Queremos que, em 2020, esse valor salte para 4%”, explica. 
 
Contudo, apesar das previsões e dos planejamentos, Vieira argumenta que saltos apenas serão possíveis se as ações governamentais acompanharem o setor produtivo privado. Segundo ele, questões infraestruturais como a duplicação de rodovias (em particular a BR-060 até o Mato Grosso e a BR-153 até o Tocantins), a diversificação do setor energético, a chegada do alcoolduto a Goiás e o estímulo à pesquisa são essenciais. “Se crescer no ritmo que está e a infraestrutura não acompanhar, haverá um momento de pane logística”, alerta.
 
Setor farmoquímico quer expansão do Daia
 
O presidente do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas de Goiás, Marçal Henrique Soares, explica que o setor industrial farmacêutico no Estado cresceu a médias de 20% e que, em 2011, os índices devem fechar no mesmo patamar. De acordo com a Pesquisa Industrial Anual do IBGE, o polo farmoquímico (que inclui, além de remédios, produtos de higiene, limpeza e cosméticos) representou, em 2008, 10% da transformação industrial goiana.   
 
Marçal explica que, ao polo químico-industrial, concentrado fundamentalmente em Anápolis, foram imprescindíveis as desonerações relativas ao ICMS e a isenção de IPTU. “O Produzir, no ramo da indústria farmacêutica, dá um desconto de até 70% do valor do ICMS. Outra política fundamental é a isenção total de IPTU, por cinco anos, concedida pela prefeitura àquelas novas empresas que se instalarem no Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia).” Mas o presidente do sindicato pondera que 99% das terras do Daia já estão ocupadas. “Há um projeto que prevê a liberação de 42 alqueires de terra para que haja a ampliação do distrito. Estamos lutando por ele. O próximo governo nos prometeu aprovação, já que na gestão de Alcides Rodrigues (PP) nada foi feito nesse sentido.”
 
Outra luta do setor refere-se ao estímulo à pesquisa e à tecnologia para a produção de fármacos. Em uma indústria que emprega 10 mil pessoas e que joga mensalmente na economia goiana R$ 13 milhões (somente com a folha de pagamento de seus empregados), apenas 20% dos fármacos utilizados para a produção de remédios vêm de terras brasileiras. “O restante, 80%, nós importamos da China, Índia ou dos Estados Unidos. Precisamos de uma política federal, que reúna os setores produtivo, governamental e universitário, para desenvolvermos pesquisas. Sozinhos, não conseguimos”, cobra Henrique. 
 
 Para o coordenador técnico da Fieg e gerente do Mapa Estratégico da Indústria Goiana, Welington Vieira, é fundamental que a química fina seja feita em Goiás. “O setor farmacêutico é hoje um misturador de remédios. Deve haver desenvolmento equilibrado entre as várias cadeias. Devemos promover a agregação de valor, investindo em pesquisa sobre os princípios ativos.”
 
Hypermarcas
 
Com a aquisição, na semana passada, do laboratório nacional Mantecorp, o grupo Hypermarcas se consolida como o gigante do ramo farmacêutico. Sabe-se que, desde 2009, quando adquiriu a Neoquímica, a empresa se transformou em proprietária de um dos maiores laboratórios de genéricos do País, no Daia. Agora, o que os goianos se perguntam é se a nova aquisição interferirá nos investimentos do complexo goiano. Marçal Henrique responde que interferências só ocorrerão caso haja transferência de logística a Anápolis. “Se isso ocorresse, poderíamos ter um incremento de R$ 700 milhões ao ano. Contudo, não podemos prever nada. Creio que o principal benefício será mesmo a solidificação do grupo.”
 
Novo perfil 
 
As mudanças na economia goiana, decorrentes da modernização e da industrialização, fizeram emergir uma segunda geração de consumidores nas cidades. É o que explica o consultor na área empresarial, Wellington Romanhol. “O arrendamento ou a venda de propriedades rurais geraram, por um lado, maior aproveitamento da terra e, por outro, um crescimento de consumidores de alta renda nas cidades, com a evolução do comércio local”, explica. Segundo ele, nesse contexto, há evidente desenvolvimento de alguns setores do varejo, sobretudo nas áreas alimentícias, de lazer, do setor automobilístico, do vestuário e da área de moradia. 
 
E é nesse sentido que incorporações como a Orca, a TCI ou a portuguesa Sonae preveem investimentos na construção civil do Estado. Muitos podem se perguntar se a previsão de um novo shopping em Goiânia é demais  para a demanda. Wilder Pedro Morais, da Orca Incorporações e responsável pelos investimentos no Bougainville, responde à preocupação. “Nos Estados Unidos, há quase 16 mil centros comerciais. No Brasil, não chega a 600. Nos shoppings há mais segurança, maior facilidade de compras e lazer. Creio então que há tendência real de que o varejo, nesse ramo, só tenda a crescer.”
 
 No que se refere aos centros comerciais, a Orca tem em Goiânia projetos de ampliação do Bougainville, com a construção de três restaurantes e a ampliação das marcas oferecidas, atingindo o mercado de grifes como Armani ou Hugo Boss. “Para os públicos A e B, vamos investir no Bougainville, mas nosso foco é o crescimento do consumo entre as classes C e D. Esse é o segmento que mais cresce. Em 2011, queremos aplicar R$ 50 milhões em casas e apartamentos que atendam essa demanda. Em 2012, almejamos investimentos de R$ 100 milhões”, pondera.