34 anos
Golpe Na USP
A ditadura estudantil
Encabrestada pela esquerda, minoria radical de estudantes golpeia a democracia na USP – com o apoio das autoridades – e mostra que o Estado de Direito no Brasil está correndo risco
Fernando Henrique Cardoso pode passar para a história como o “Pontífice da Maconha”. Lula, em seu governo, repassou R$ 42,8 milhões à UNE, que vive de subsídios oficiais

José Maria e Silva

Depois que seus correligionários tucanos deixaram que Lula lhe surrupiasse até a estabilidade econômica, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perdeu o rumo. Corre o risco de passar para a história não como o pai do Plano Real, que salvou o país do colapso econômico, e, sim, como o “Pontífice da Maconha” — droga que está levando as universidades à falência moral. Em entrevista ao sítio jurídico “Última Instância”, Fernando Henrique voltou a defender a descriminalização da maconha — principal bandeira de sua aposentadoria eleitoral — e criticou a atuação da PM na USP, fazendo-se de advogado dos estudantes predadores.

Na entrevista (logo após participar de um debate sobre a conjuntura internacional na Universidade de São Paulo, na quarta-feira, 23), o ex-presidente afirmou a respeito dos estudantes que invadiram a reitoria da instituição: “Certamente considerá-los maconheiros foi um absurdo e não faz nenhum sentido”. A frase, por si só, já é uma contradição. Se FHC defende a legalização das drogas, especialmente da maconha, então é sinal de que a erva não significa o mal, muito menos crime; logo, alguém ser chamado de “maconheiro” não seria uma ofensa assim tão grave, a ponto de ser tachada de absurda. Quando muito seria uma impropriedade.

Fernando Henrique Cardoso tornou-se uma espécie de Sartre retardatário. Parece que, aos 80 anos, 22 anos depois da queda do Muro de Berlim, ele resolveu se inspirar no vesgo filósofo existencialista, que, com uma corneta nas mãos, liderava a juventude nas barricadas de Paris. Pelo visto, FHC se candidata a porta-voz dos estudantes que vandalizaram a USP. E não é só ele. Desde que ocorreu a invasão da reitoria, não faltaram catedráticos nos jornais apoiando o protesto dos estudantes e penetras (muitos nem são matriculados na USP), mesmo sabendo que essa turba do caos é manipulada por partidos extremistas.

Papo tucano, fala petista

Isso é muito grave. Mostra que o Brasil vive um vazio cognitivo e moral, em que o monopólio da ética de esquerda — sonhado pela filósofa Marilena Chauí — virou realidade. A invasão da reitoria da USP, que numa sociedade normal seria resolvida em poucas horas como um mero caso de polícia, acabou virando uma questão de Estado, com vários catedráticos falando em “crise” da universidade e da democracia. O jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, publicou artigo no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17 de novembro, afirmando que a USP vive uma crise de representatividade.

No artigo, o próprio Bucci reconhece que a minoria radical da USP comportou-se como presidiários do PCC e, afrontando a decisão da assembleia, invadiu a reitoria contra a decisão da maioria. Mesmo assim, ele escreveu: “As maiorias precisam entrar em cena, precisam falar. Só assim poderão desautorizar as minorias que acreditam mandar no grito”. Ora, se as minorias, mesmo sendo reconhecidamente minorias, querem ganhar no grito, então, esse grito deve ser calado à força. Se as maiorias tiverem que falar para se sobrepor ao grito, elas já foram derrotadas de antemão, porque estarão flertando com a instituição da desordem.

Entretanto, diante desse mero caso de polícia, Eugênio Bucci vê uma grande tragédia educacional. E perpetra: “Em síntese, de 2009 a 2011, a USP não deu um passo para a frente nem um passo para trás: deu apenas um passo para baixo, afundou-se no buraco em que se encontra encravada”. Fernando Henrique afirma praticamente o mesmo que Bucci. Depois de observar que a reforma do Estatuto da USP é uma reivindicação antiga, que remonta aos tempos em que dava aula na universidade, na década de 70, o sociólogo e ex-presidente afirma: “Acho que o Estatuto da USP deve ser repensado, bem como toda a educação universitária. Esta é uma boa oportunidade para isso”. Como se vê, no papo do tucano gorjeia a fala de um petista (o jornalista Eugenio Bucci foi presidente da Radiobrás no governo Lula).

A lógica como vítima

O consenso intelectual tucano-petista — que tem seus fundamentos na própria Universidade de São Paulo, mas não se resume a ela — acabou dando imenso fôlego aos amotinados da reitoria. De vândalos movidos a maconha (como são vistos na maioria das cartas e comentários virtuais de leitores), eles passaram a ser tratados como vítimas do arbítrio por uma minoria de intelectuais influentes, como o próprio Fernando Henrique Cardoso. Com isso, sentiram-se no direito de dar um golpe de estado no DCE da USP. Em assembleia realizada no dia 17 de novembro, 3 mil alunos — apenas 3% do contingente estudantil da USP — decidiram adiar por tempo indeterminado as eleições do DCE, que seriam realizadas de 22 a 24 deste mês. Medo de perder para a chapa “Reação”, considerada de direita.

A medida aparece na grande imprensa como algo natural — como se justamente as ciências humanas da USP não liderassem a crítica ao regime militar, apoiando, em sua esmagadora maioria, a revanchista e oportunista Comissão da Verdade. É como se a USP realmente estivesse no buraco (como afirma Bucci) e seu ordenamento institucional fosse todo errado (como acredita FHC). Com isso, até os editoriais e artigos críticos em relação à invasão da reitoria acabam abafados pelo vozerio da malta estudantil, tratada como verdadeira instituição. Só o fato de terem farto espaço na mídia para suas badernas — como se a USP se reduzisse aos protestos de sua Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas — já é motivo suficiente para se considerar que os amotinados da USP saíram vencedores em seu embate contra o Estado de Direito.

E isso se deve ao fato de que a primeira vítima da invasão da USP foi a lógica. A mesma intelectualidade que aceita o discurso de terra arrasada dos estudantes costuma ser a primeira a alardear as virtudes da universidade pública. Eugenio Bucci diz que a USP está no buraco e não consegue sair dele. Fernando Henrique, com outras palavras, diz a mesma coisa. Ora, uma instituição só pode estar no buraco se não estiver conseguindo exercer minimamente sua atividade-fim. Como a atividade-fim da USP é ensino, pesquisa e extensão, então, a se crer em FHC e Bucci, a USP não ensina, não pesquisa e não dá retorno algum à sociedade, ou não estaria no buraco.

Buraco da USP é mais embaixo

Obviamente, eles não pensam assim. A universidade pública, para os intelectuais estatizantes, não tem defeitos. Logo, quando afirma que a USP está no buraco, Eugênio Bucci deixa claro que é por um problema político — os estudantes não estão tendo a devida representação. Para intelectuais de esquerda como ele, estudante não faz matrícula — tem mandato. Se o aluno da USP vai à faculdade para ser ouvido, como defende Fernando Henrique Cardoso, para que universidade então? Eis uma prova de que o ensino brasileiro — da pré-escola à pós-graduação — foi profundamente politizado. E sob esse aspecto (mas por razões diametralmente opostas) sou obrigado a concordar com esses ideólogos de esquerda — a universidade está mesmo no buraco. Ela já não ensina — doutrina.

Não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro. Nem no erro o Brasil é original. Na verdade, a totalitária doutrinação pró-marxista — que sufoca todas as universidades do país — é importada das universidades e cafés parisienses (se é que ambos não são a mesma coisa). Hoje, nem os Estados Unidos está infenso à doutrinação de viés marxista em seu ensino superior, como mostra o jornalista e professor Roger Kimball, no livro “Radicais nas Universidades” (Editora Peixoto Neto, 2009), em que acusa os ideólogos radicais de promoverem “assaltos ideologicamente motivados à substância intelectual e moral da nossa cultura”.

Diz Roger Kimball: “O ‘ethos’ radical dos anos 1960 foi bem-sucedido até demais, tendo indiretamente alcançado na sala de aula, na reunião de colegiado e por decreto administrativo, o que foi incapaz de conseguir com as barricadas”. O autor não tem meias palavras: “Isso atesta o que poderíamos chamar de sovietização da vida intelectual, em que o valor e verdade de um trabalho é determinado não por suas qualidades intrínsecas (muitos negam que qualidades ‘intrinsecas’ possam sequer existir), mas pelo grau em que ele apoia dada linha política”. E é como se falasse da universidade brasileira que denuncio em meus artigos: “A simples descrição do que se passa hoje na academia produz com frequência uma incredulidade perplexa naqueles não familiarizados com o seu desenrolar”.

Policial é mordomo

O absurdo a que chegou o ensino brasileiro é, sem dúvida, o principal obstáculo para se conseguir mudá-lo. E o que é mais grave: ele interfere negativamente em toda a sociedade — muitas vezes de modo ditatorial, sem dar qualquer chance de defesa à vítima. Ou alguém acredita que a universidade não tem nenhuma culpa pelos males do país, mesmo sendo ela quem forma os profissionais que atuam justamente nas áreas vitais do organismo social: educação, justiça, saúde e segurança pública? Só a universidade forma professores, médicos, juízes, promotores, delegados e advogados e seria de espantar  se as ideologias que professa morressem dentro de seus muros, como brincadeira de estudante, não tendo nenhuma influencia na sociedade.

A grande repercussão na imprensa das ações do movimento estudantil já mostram a influência da doutrinação esquerdista. Mesmo que isso não ocorresse sempre, basta analisar a atitude do Ministério Público diante da invasão da USP para se ter uma noção da gravidade problema. Segundo noticiou a imprensa, o Ministério Público do Estado de São Paulo solicitou a abertura de inquérito para investigar abuso de autoridade da PM durante a reintegração de posse na reitoria da USP. O pedido foi feito aos promotores que integram o Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial, do próprio Ministério Público, e também à Corregedoria da PM. Ou seja, a polícia é sempre o mordomo de filme  — qualquer que seja o culpado, ela é sempre a suspeita.

Nunca se viu uma reintegração de posse tão civilizada quanto a que a PM comandou na reitoria da USP. Sem tocar num único fio de cabelo dos estudantes, a polícia conseguiu cumprir a determinação judicial e retomar o prédio que havia sido subtraído do público para abuso privado dos invasores. Não houve cão no calcanhar nem cassetete no lombo — apesar de que os invasores faziam por merecer esse tratamento. A polícia se limitou a gritar com os invasores e a usar algumas bombinhas de efeito moral, muito menos ofensivas do que as drogas (incluindo o álcool) que muitos estudantes usam frequentemente, como mostram pesquisas sobre consumo de entorpecentes nas universidades, incluindo a própria USP.

Elementos estranhos no DCE

O Ministério Público ficou muito preocupado porque cerca de 20 estudantes denunciaram o fechamento dos acessos à reitoria, o uso de bombas de efeito moral e o que consideram intimidações por parte da PM. É espantosa essa atitude do Ministério Público. E é muito grave que ninguém perceba seu absurdo. Significa que a maioria dos formadores de opinião já está anestesiada ideologicamente e se tornou incapaz de perceber os crimes da esquerda. Se havia alguma coisa para o Ministério Público investigar na invasão da USP, podem ter certeza — não é a correta e civilizada ação da polícia e, sim, o próprio vandalismo dos estudantes. Ou invadir e depredar reitoria é um “direito difuso da sociedade” a ser resguardado pelos promotores públicos?

Até os teclados dos computadores das redações estão com suas letras apagadas de tanto saber que os estudantes de passeata que invadiram a reitoria da USP são todos ligados a partidos políticos extremistas. Eles também estão cansados de saber que a polícia não faz nenhuma reintegração de posse por conta da vontade do coronel que a comanda e, sim, por determinação da Justiça, baseada rigorosamente na lei. Portanto, se havia alguma ilegalidade a ser investigada, parece óbvio que não é da parte da polícia, mas dos invasores. Começando pelo fato de haver entre os 73 invasores detidos nada menos do que 18 indivíduos que não eram alunos matriculados na USP. Por que o Ministério Público não abre inquérito para saber o que faziam lá e prefere implicar com a polícia?

Eis um exemplo da completa inversão de valores em que chafurda o País. Ao agir dessa forma, o Ministério Público deixa de defender os direitos difusos da sociedade, como manda a Constituição, e passa a advogar em defesa de criminosos que depredam o patrimônio público. A obrigação legal e moral dos promotores paulistas era abrir inquérito para apurar a conduta de entidades estudantis que convivem com elementos estranhos em seu seio, que nem estudantes são, e ainda convidam esses elementos para invadir e depredar a universidade. É inacreditável que nenhum promotor público perceba isso e, a cada conflito social, culpe inexoravelmente a polícia, esquecendo-se que ela, coitada, apenas cumpre ordens e o faz nas situações mais desfavoráveis possíveis.

Marmanjos inimputáveis

Só um cérebro ideologicamente deformado — como parece ser o cérebro de boa parte das autoridades brasileiras — não consegue perceber onde está o direito difuso da sociedade no caso da invasão da reitoria da USP. É mais do que óbvio que o Ministério Público paulista tem a obrigação de investigar a participação de elementos estranhos, inclusive de partidos políticos, na invasão da reitoria. As entidades estudantis — começando pela União Nacional dos Estudantes, que recebeu R$ 42,8 milhões do governo Lula — são oficialmente reconhecidas pelo Estado brasileiro e vivem de subsídios oficiais. Da mesma forma os partidos políticos. Em 2010, o PSOL, que comanda o DCE da USP, recebeu R$ 1,65 milhão; o PC do B, que sobrevive à custa do movimento estudantil, recebeu R$ 3,58 milhão; e o PT, que também se beneficia da baderna na USP, ainda que finja não apoiá-la, recebeu R$ 23,3 milhões.

Ora, diante de todo esse dinheiro oficial que jorra nos cofres dos que apoiam direta ou indiretamente a invasão da reitoria, por que o Ministério Público tem se ocupar justamente dos corretos e inevitáveis gritos de ordem de uma operação policial determinada pela Justiça, como se policiais, numa reintegração de posse, fossem obrigados pedir licença aos invasores, fazendo mesura e se desculpando?

É lamentável e desesperador ver que, nesta República do Crime em que o Brasil se tornou, o Ministério Público persegue justamente a polícia, mesmo quando ela age com absoluta correção. Imagino o desgaste dos oficiais que comandaram a operação, submetidos a um duplo estresse: o que vivenciaram na hora de enfrentar os vândalos, tendo de tratá-los com firmeza, mas em luvas de pelica, e o que vivenciam agora, tendo de dar explicações de seus atos num inquérito absurdo do Ministério Público.

E o que é mais grave: tenho absoluta certeza que o Ministério Público está agindo dessa forma com base na Constituição antiga, anterior ao “Golpe Etário” de 13 de julho de 2010, que, por meio da Emenda Constitucional 65, transformou marmanjos de 29 anos em crianças. É apenas com base na Constituição anterior a esse verdadeiro AI-5 juvenil que os promotores estão errados e a crítica que fiz está certa. Hoje, à luz do texto constitucional já modificado, o Ministério Público agiu corretamente — qualquer que seja o crime praticado pelos invasores de reitoria, cabe ao Estado protegê-los, pois, na prática, tendo menos de 29 anos, eles se tornaram inimputáveis, segundo a própria Constituição.