Edição 1972 de 21 a 28 de abril de 2013
Poesia
Uma tradução inédita de Richard Blanco

Nina Rizzi
Especial para o Jornal Opção

Em 1961 o presidente John Ken­nedy convidou o poeta Robert Frost para dizer um poema na sessão inaugural do seu mandato, ou seja, na cerimônia que decorre em Washington, na escadaria do Capitólio, onde o presidente eleito faz o seu juramento e toma posse. Frost tinha então 86 anos, e escreveu um poema especialmente para a ocasião, intitulado “De­dication”. No dia da cerimônia, as difíceis condições at­mosféricas e a fragilidade própria da idade impediram-no de ler o poema, e Frost op­tou antes por dizer de cor um poema já antigo, “The Gift Outright”.

Mais de trinta anos depois, em janeiro de 1993, Bill Clin­ton decidiu retomar o gesto de Kennedy e convidou a po­eta e ativista negra Maya An­gelou, que recitou o seu po­ema “On The Pulse of The Mor­ning” na sessão inaugural do primeiro mandato do presidente. Na do segundo, Clin­ton convidou o poeta Miller Williams para ler o seu poema “Of History and Hope” (Mil­ler Williams é pai da cantora folk Lucinda Williams).

Como parece que só os presidentes democratas têm esta iniciativa, a tradição foi retomada por Barack Obama que, em janeiro de 2009, escolheu a poeta e professora universitária Elizabeth Alexander para ler na sua sessão inaugural o poema “Praise Song for the Day”. E para a sessão inaugural do seu segundo mandato, a escolha de Obama recaiu sobre o poeta  Richard Blanco, para ler um poema escrito propositadamente para a cerimônia.

Como não conhecia este escritor, fui à procura de informações sobre ele, e descobri que é de ascendência cubana, apesar de ter nascido na Es­panha, pouco tempo depois de os pais terem se exilado em Madri. Com pouco mais de um mês foi para os Estados Unidos, onde a família se estabeleceu, em Miami. Além dis­so, Blanco é homossexual as­sumido, vivendo no Maine com o seu parceiro. Tem um site pessoal (www.richard-blanco.com), onde, entre muitas outras coisas, como fotos e vídeos, disponibiliza alguns dos seus poemas (inclusivamente com gravações do próprio a recitá-los).

Blanco, de 44 anos, é o primeiro poeta de origem hispânica, e o mais jovem, a participar da cerimônia na escadaria do Capitólio. Durante sua intervenção, recordou os esforços de seus pais, recém-chegados em Miami, a quem citou como inspiração.

Nina Rizzi é escritora e tradutora.


Um hoje
Richard Blanco

Um sol brilhou sobre nós hoje, incendiou sobre nossas costas,
revelando-se sobre as montanhas, saudando os rostos
dos Grandes Lagos, espalhando uma simples verdade
Ao longo das Grandes Planícies, e depois correndo ao longo das Montanhas Rochosas.
Uma luz, despertando dos cumes aos abismos, uma história
contada por nossos gestos silenciosos se movendo atrás das janelas
Meu rosto, seu rosto, milhões de rostos nos espelhos da manhã,
cada um bocejando à vida, crescendo e fazendo em nosso dia:
ônibus escolares amarelo-lápis, o ritmo dos semáforos,
cestos de frutas: mangas, limões e laranjas, sortidas como arco-íris
pedindo nossos elogios. Caminhões prateados pesados com petróleo ou papel -
tijolos ou leite, pululando pelas estradas ao nosso lado,
em nosso caminho a limpar mesas, revisar livros de contabilidade, ou salvar vidas -
ensinar geometria, ou cobrar a comida como o filho à sua mãe
por vinte anos, para que eu possa escrever este poema.
 
Todos nós tão vitais como a única luz através da qual nos movemos,
a mesma luz nas lousas com lições para o dia:
equações para resolver, história para questionar, ou átomos imaginados,
o “Tenho um sonho” que seguimos sonhando,
o impossível vocabulário de tristeza que não explicará
as mesinhas, carteiras vazias de vinte crianças marcadas ausentes
hoje, e para sempre. Muitas orações, mas uma luz
respirando cor nos vitrais,
vida nos rostos das estátuas de bronze, calor
nas galerias de nossos museus e nos bancos e nos parques 
enquanto mães veem seus filhos escapando para o dia.
 
Uma terra. Nossa terra, arraigada em cada raiz
de milho, cada cabeça de trigo semeada por suor
e mãos, mãos recolhendo carvão ou ficando em usinas
em desertos e picos de colinas que nos mantém quentes, mãos
cavando valas, aproveitando tubos e cabos, mãos
gastas como as de meu pai cortando cana-de-açúcar
para que meu irmão e eu pudéssemos ter livros e sapatos.
O povo de fazendas e desertos, cidades e planícies
misturados por um vento-nosso alento. Respira. Escuta-o
através do belo ruído do dia de táxis buzinando
ônibus se lançando por avenidas, a sinfonia
de passos, guitarras e ganidos de metrôs,
o inesperado pássaro de canto em seu varal.
 
Escuta: estridentes balanços nos parques, trens assoviando
ou sussurros cruzando mesas em cafés. Escuta: as portas que abrimos
um para o outro todo dia, dizendo: hello, shalom,
buon giorno, howdy, namaste ou buenos dias
no idioma que minha mãe me ensinou - em cada idioma
falado ao vento levando nossas vidas
sem preconceitos, enquanto estas palavras livram meus lábios.
 
Um céu: desde que os Apalaches e Serras reclamaram 
sua majestade, e o Mississipi e Colorado forjaram
seu caminho até o mar. Dá graças ao trabalho de nossas mãos:
tecendo o aço nos poentes, terminando uma denúncia mais
para o chefe a tempo, costurando outra ferida
o uniforme, a primeira pincelada em um retrato,
o último andar do Freedom Toweer
projetando-se no céu que cede ante à nossa resistência
 
Um céu, para o qual às vezes voltamos nossos olhos
cansados de trabalhar: alguns dias adivinhando o clima
se nossas vidas, alguns dias dando graças por um amor
que também te ama, algumas vezes elogiando uma mãe
que soube dar, ou perdoar um pai
que não soube lhe dar o que queria.
 
Vamos caminhando para casa: através do brilho e da chuva ou o peso
da neve, o rubor ameixa do crepúsculo, para sempre — a casa,
sempre debaixo de um mesmo céu, nosso céu. E sempre uma lua
como tambor silencioso batendo em cada teto
e em cada janela, de um país — todos nós —
vendo as estrelas,
esperança — uma nova constelação
esperando que a cartografemos 
esperando que a nomeamos — juntos