Edição 1980 de 16 a 22 de junho de 2013
Livro
Uma obra demasiadamente humana e criativa
Para ser um grande escritor infanto-juvenil é preciso tentar não repetir pré-conceitos e pregar visões adultas para um público infantil, mas sim trabalhar com as dores, dúvidas, anseios próprios das crianças, visto que elas também são seres humanos — é o que Lygia Bojunga faz

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

O que faz de “A Bolsa A­ma­rela” de Lygia Bojun­ga Nunes, uma grande obra literária? E a autora, quais os requisitos para considerá-la uma grande autora infanto-juvenil?

“A Bolsa Amarela” não é um gran­de livro somente por ser de leitura fluída, fácil, acessível tanto para crianças quanto para adultos, mas também, e sobretudo, por levantar questões de extrema importância, como as frustrações e indagações humanas, a relação familiar, as críticas a sistemas pré-estabelecidos, a alienação e/ou lavagem cerebral, o uso de subterfúgios a fim de não sofrer pelas perdas, dentre outras. E tudo isso de uma forma criativa e muito literária.

Em “A Bolsa Amarela”, as vontades de Raquel (a protagonista) nascem da necessidade de suprir várias mágoas, na maioria das vezes causadas pelos adultos: querer crescer surge da vontade de querer fazer aquilo que uma criança não pode ou, quando pode, é reprimida pelos adultos; querer ser menino surge da vontade de querer realizar coisas que, socialmente, estão reservadas somente para os homens: “Vocês podem um monte de coisas que a gente não pode (diz Raquel para o irmão adulto). Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe pras brincadeiras, ele sempre é um garoto. Que nem chefe de família: é sempre o homem também. Se eu quero jogar uma pelada, que é o tipo do jogo que eu gosto, todo o mundo faz pouco de mim e diz que é coisa pra homem; se eu quero soltar pipa, dizem logo a mesma coisa. É só a gente bobear que fica burra: todo o mundo tá sempre dizendo que vocês é que tem que meter as caras no estudo, que vocês é que vão ser chefe de família, que vocês é que vão ter responsabilidade, que — puxa vida! — vocês é que vão ter tudo. Até para resolver casamento — então eu não vejo? — a gente fica esperando vocês decidirem. A gente tá sempre esperando vocês resolverem as coisas pra gente. Você quer saber de uma coisa? Eu acho fogo ter nascido menina”; querer escrever surge da vontade de expressar o que ela sente e/ou como fuga da solidão (visto que Raquel é uma criança num meio cheio de adultos, e de adultos egoístas e intolerantes). Porém, esta última vontade é suprida quando Raquel decide escrever cartas para alguns amigos inventados — solução do problema que, no final (do capítulo), acaba dando errado, pois ela é ridicularizada pelos pais, irmãos e vizinhos por causa de uma história (boba) que escreveu: uma história de um galo.

A bolsa amarela

Presente, entre outros, dado pela Tia Brunilda, a bolsa amarela é o esconderijo das coisas mais importantes de Raquel: coisas concretas, como alfinete de fralda, retratos do quintal da casa, desenhos próprios, e coisas abstratas, como as vontades (de crescer, de ter nascido menino e de escrever) se juntam dentro da bolsa. Já os sete filhos (bolsos interiores) da bolsa amarela servem para guardar o que ela quer e necessita esconder.

O galo

Exatamente o mesmo galo do romance que Raquel escreveu — e pelo qual foi ridicularizada —, aparece, sem mais nem menos, na bolsa. Sim, de dentro da bolsa, leitor. Lygia Bojunga Nunes abusa da imaginação quando usa de um animal (com características e desejos humanos), criado pela própria protagonista, e o retoma como peça fundamental do romance. E, por meio do Galo Rei, reflete sobre questões fundamentais para entender o nosso meio social: “Ela (as galinhas) achavam que era melhor ter um dono mandando o dia inteiro: faz isso! bota um ovo! pega minhoca! do que ter que resolver qualquer coisa. Diziam que pensar dá muito trabalho” (diz Rei à Raquel). Submissão, conformismo, passividade são alguns dos assuntos tratados — simbolicamente — por meio das personagens das galinhas.

Aventuras

No decorrer da história principal, várias histórias secundárias (mas de suma importância) surgem: História do Alfinete de Fralda (que mora no bolso bebê da bolsa amarela); a história da Guarda-chuva estragada que é colocada no bolso comprido da bolsa, que é a realização do desejo de Raquel de ter um guarda-chuva, com reflexões sobre ser grande e mulher; e a história de Terrível, um galo de briga. Nesta última percebe-se, por meio do personagem do galo brigão, a lavagem cerebral que é feita quando querem determinados objetivos: o galo, desde criança, foi condicionado a brigar por interesses que não eram dele, mas sim de outros, dos seres humanos. “Era o Terrível. Desde pequenininho que resolveram que ele ia ser galo de briga, sabe? Do mesmo jeito que resolveram que eu ia ser galo-tomador-de-conta-de-galinha. Você sabe como é esse pessoal, querem resolver tudo pra gente. E aí começaram a treinar o Terrível. Botaram na cabeça dele que ele tinha que ganhar de todo o mundo. Sempre. Disseram até, não sei se é verdade, é capaz de ser invenção, que costuraram o resto do pensamento dele com uma linha bem forte. Pra não rebentar. E pra ele só pensar: ‘eu tenho que ganhar de todo o mundo’, e mais nada.” (diz Afon­so, outro nome de Rei, à Raquel).

A família

O seio familiar, ao invés de ser um ambiente agradável, é um lugar de intolerância, desrespeito, exploração, interesses — é o que se percebe, por exemplo, no almoço da casa de Tia Brunilda, quando os pais e irmãos de Raquel exigem dela que cante, dance, conte histórias, o que contrasta com o interesse que essas mesmas pessoas nunca demonstraram em relação às coisas de Raquel. Com intuito de bajular a parente rica, Raquel é usada como um bonequinho, única e exclusivamente para fazer a vontade dos adultos, que não levam em consideração, em hora alguma, os anseios da criança.

Subterfúgios

O ser humano em geral (e com a criança não é diferente) cria subterfúgios quando se depara com a dor, a mágoa, a perda, sejam eles a fé, as crenças, a imaginação, a arte. Raquel, ao “saber” que Terrível morrera na briga contra o Crista de Ferro, decidiu fazer-lhe outra história (extremamente criativa e engenhosa), menos triste, com um final feliz: “Quem viu na praia as duas penas que o Terrível perdeu, pensou até que ele tinha morrido. Bobagem. Ele tá agora curtindo a vida no tal lugar bem longe (local inominável). Ele e a Linha Forte. Os dois”. A “História de um Galo de Briga e de um Carretel de Linha Forte”, história de autoria de Raquel, além de servir para mudar o destino de Terrível, serviu também para diminuir/acabar com a vontade de escrever de Raquel, pois só se resolve algo fazendo — e foi o que ela fez.

Luta

A história criada por Raquel deu, sobretudo, a luz de que tanto Afonso (Rei) precisava, a ideia que tanto procurava: sair pelo mundo e lutar “pra não deixarem costurar o pensamento de ninguém”, para não deixar que as pessoas, cegamente, acreditassem e lutassem por algo que não são, nem nunca serão, os seus próprios anseios. Se é para lutar, que seja em batalhas próprias. Mas como Afonso conseguiria realizar o feito se o mundo é tão, mas tão grande? Somente com suas asas jamais poderia voar para os vários cantos do planeta. Juntos, Raquel e Afonso, tiveram uma ideia: consertar a Guarda-chuva, por mais difícil que fosse (“Quase tudo tem conserto”), e usá-la para o objetivo de Afonso: sair pelo mundo para lutar pelas suas ideias.

Liberdade

Já na praia, antes mesmo de viajar para os cantos da Terra, Afonso já “pregava” para os peixes, contando a história de Terrível, “dizendo que se alguém quisesse costurar o pensamento deles, eles não deviam deixar” e dando-lhes algo que ainda não possuíam — nomes: André, Lorelai... E conversavam.

Aí, Raquel foi soltar pipa... Mas pipas diferentes: foi na verdade, simbolicamente, soltar as vontades de ser garoto e de ser grande, visto que já estavam magrinhas, tanto que pediram para ir embora. E foram. Mas... e a vontade de escrever? Essa já não pesava mais: quando tinha vontade, fácil-fácil, ia e escrevia. Simples assim. Tam­bém, como combinado, a Guarda-chuva e Afonso, depois das despedidas, foram embora, voando pelo céu nublado. O Alfinete de Fralda queria ficar. Ficou. Juntos, ele e Raquel, debaixo da chuva, com a bolsa amarela bem mais leve, foram embora para casa.

Para ser um grande escritor é preciso tentar não repetir formas já desgastadas, não abusar dos estereótipos e lugares-comuns, mas sim ser criativo, inventivo. Para ser um grande escritor infanto-juvenil é preciso tentar não repetir (pré) conceitos e pregar visões adultas para um público infantil, mas sim trabalhar com as dores, dúvidas, anseios próprios das crianças, visto que elas também são seres humanos — é o que Lygia Bojunga Nunes, criativa e humanamente, faz. E muitíssimo bem. “A Bolsa Amarela” é, por isso, uma obra-prima.

Sinvaldo Júnior é escritor. Doutorando em Literatura.