Edição 1865 de 3 a 9 de abril de 2011
Livros
Uma novela sobre a arte, sobre o belo, sobre a paixão
“A Morte em Veneza” é a história da paixão de um velho por um adolescente, mas não é uma narrativa sobre a homossexualidade
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Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica” e “A Morte
em Veneza”

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

A novela “A Morte em Veneza”, de Thomas Mann, apesar de não ser sua obra mais famosa (que é, com certeza, “A Montanha Mágica”), é, desde o seu surgimento, considerada uma obra-prima pela tradição literária. Em poucas páginas (de oitenta a noventa, dependendo da edição e editora), o autor consegue discorrer sobre alguns assuntos capitais para a literatura e a arte em geral, se destacando — entre todos — a questão do Belo.

Gustav Aschenbach, o protagonista da novela, um senhor já de idade avançada (embora — pelos padrões atuais — não pudesse ser considerado um idoso ou um velho com suas capacidades físicas e/ou psíquicas comprometidas), literato, famoso na sociedade, decide tirar umas férias. Depois de passar por algumas cidades, se estabelece em Veneza.

Nas primeiras páginas da novela, extremamente descritivas, é construído o perfil do protagonista (ou do protagonista “principal”, porque são três (três?) os protagonistas) — Aschenbach, o autor da imponente prosa-epopeia da vida de Frederico da Prússia, o artista paciente, o criador da novela “Um Miserável” e de tratados apaixonados como “Espírito e Arte”, que é colocado ao lado de obras como “Raciocínio”, de Schiller. Preocupado em traçar tanto a feição física mas sobretudo a personalidade do protagonista, o narrador pouco discorre sobre o seu passado familiar — contraíra um matrimônio ainda jovem com uma moça de família erudita desfeito pela morte dela, depois de um curto espaço de felicidade. Dessa união, nasce uma filha, sobre a qual nada mais se falará.

Nas páginas iniciais, Aschenbach e a Arte (até porque ele é um artista consagrado), com foco no Belo, são o “leitmotiv” da novela “A Morte em Veneza”. A arte, afinal, é uma vida elevada, que consome mais rapidamente e, contraditoriamente, torna a pessoa mais feliz. Ela sulca no rosto de seu criado, o artista, os rastos de aventuras imaginárias e espirituais e produz, com o decorrer do tempo, um ânimo, uma supersensibilidade, um cansaço e uma curiosidade dos nervos que uma vida cheia de dissolutas paixões e prazeres (verdadeiros) não conseguem produzir.

Após algumas páginas surge, enfim, outro protagonista, pelo menos para Aschenbach: Tadzio, o adolescente, que encarna o Belo, a obra-prima, e pelo qual o literato se apaixonará perdidamente (ou se apaixonará pelo Belo que o jovem encarna?).

“...seus olhos envolveram a nobre figura à beira do azul e, em êxtase entusiasta, ele acreditou, com esse olhar, compreender o belo em si, a forma como pensamento divino, a única e pura perfeição que vive no espírito e da qual uma imagem e alegoria humana aqui estava erguida, leve e graciosa, para adoração.”

A figura de Tadzio, então, passa a ser o modelo do Belo a ser querido pelo artista. Quem dera deixar seu estilo seguir as linhas deste corpo que lhe parecia divino! E nessa obsessão por Tadzio, pela juventude, pelo Belo, o literato e intelectual (por meio do narrador) destila referências à mitologia: Eros, Ceix, Céfalo, Órion, Poseidon, Hiacinto, Xéfiro, Narciso. Nada mais adequado à discussão, não?

Nesse entremeio, como uma história paralela à crescente admiração (paixão?) de Aschenbach por Tadzio, há uma “outra”história, uma história que envolve outro personagem importante à narrativa: Veneza. Como indica o título, Veneza é na novela prenúncio de algo ruim, de morte, de um “mal”. Há, nessa cidade, um detestável estado causado pelo ar marinho, pelo siroco. Há, em Veneza, uma maléfica intervenção da laguna com sua atmosfera de febre.

E é por isso, por essa atmosfera da cidade, que Aschenbach decide ir embora, logo agora que, respirando o ar em fôlegos profundos, já dolorosamente afetuosos, se afeiçoara à estadia. No fundo, porém, reconhecia que por causa de Tadzio a despedida se tornava tão penosa para ele. No entanto, porque sua mala fora despachada para o destino errado, decidiu aqui ficar e tentar recuperá-la. Veneza (ou Tadzio?) era sua sina.

Além desses personagens principais (Aschenbach, Tadzio, Veneza), o sol e o mar podem ser considerados quase como personagens secundários, tantas são as referências a eles e tamanha a sua importância na narrativa.

“...um sol travesso entornava seu brilho prodigamente sobre ele e a sublime e extensa vista do mar profundo era sempre o fundo e o relevo de sua (da de Tadzio) figura.”

E o sol, o mar, Veneza, Tadzio, a paixão por ele e pelo Belo que ele personificava, tudo estava deixando Aschenbach ora desnorteado, cometendo atos que em situações normais não cometeria: perseguia agora, em gôndolas, o adolescente; encostava os ouvidos à porta do quarto de hotel do adolescente, mesmo com o perigo de apanhá-lo em situação tão suspeita; admirava-o explicitamente; perdia-se no interior da cidade doente em sua busca; estava completamente tomado pela ideia de não perder de vista a imagem de Tadzio. E Tadzio, por sua vez, parecia corresponder aos olhares e se satisfazer com as loucuras do outro. Paixão correspondida ou mero prazer fruto de saber amado, admirado?

“A Morte em Veneza” é uma novela sobre a Arte, sobre o Belo, sobre a paixão de Aschenbach por Tadzio, mas não é uma narrativa sobre a homossexualidade. Aos engajados ou partidários do multiculturalismo de plantão, desculpo lhes informar, mas o homossexualismo em “A Morte em Veneza” é o menos importante.

Sinvaldo Júnior é professor e crítico literário.