
Fabiana de Souza Fredrigo
Especial para o Jornal Opção
Sou do tipo de leitora que gosta de trocar experiências; conversar longamente sobre o que li é um dos meus prazeres. Sempre que posso, troco experiências de leitura com os amigos mais próximos, assim como muitos fazem com os filmes a que assistem. Todavia, “O Túnel”, do escritor argentino Ernesto Sábato, provocou-me um desejo de comunicação ainda maior; tive vontade de escrever para muitas pessoas, pois o desejo era o de que a minha experiência de leitura as instigasse a ler esse romance intenso, que me provocou um impacto difícil de mensurar. Dito isso, uma advertência é fundamental para dar sequência a este texto: relato uma experiência de leitura, portanto, não escrevo como crítica literária, longe de mim! Sou apenas uma leitora empolgada. Iniciei e terminei a leitura de “O Túnel” numa tarde chuvosa. A narrativa de Sábato talvez merecesse maior calma e sossego de alma, mas não houve saída. O livro estimulou a ansiedade das boas leituras, aquelas que você tem a certeza de que vai se lembrar pela vida afora — aquelas que, de tão abertas para o leitor, modificam-lhe a existência, a ponto de haver um antes e um depois. Simplesmente, tinha de chegar à última página.
A estória parece simples (e recorrente na literatura, o relato e o tema bem poderiam fazer parte do universo dostoievskiano): um homem mata uma mulher e resolve escrever sobre a história de seu crime. Conduzida já nas páginas iniciais, a confissão deixa o leitor intrigado com o narrador criminoso, tamanha sua amargura e ressentimento. O enredo conduz o leitor a pensar em um crime passional. De imediato, lembro-me, confusamente, dos que defendem que não se mata por amor, mas por paixão — amor e paixão, para esses, estão em direções opostas. Apesar disso, a afirmação e as perguntas subsequentes à confissão permanecem intrigando o leitor: Juan Pablo Castel, o pintor, teria matado María Iribarne porque a amava, todavia, mata-se por amor? O que leva um ser humano a dar fim à vida de outro? Entre tantos motivos que poderíamos aventar, o romance nos leva a refletir sobre a miséria daqueles que não sabem amar, não porque não querem, mas porque não podem: para a desgraça de ambos os personagens, o amor foi a experiência que lhes escapou. Ocupam o centro da narrativa um homem e uma mulher aturdidos pela confusão do mundo moderno. Ao introduzir a sua historia, Juan Pablo anuncia: “Existiu uma pessoa que poderia me entender. Mas foi, justamente, a pessoa que matei.”
A leitura de “O Túnel” convida a olhar para os túneis que construímos. Provocou-me uma tristeza silenciosa pelos Juan Pablos e pelas Marías que existem por aí; confesso acreditar que eles sejam muitos. Entretanto, o livro concedeu-me, sobretudo, conforto. Ao expor com maestria as contradições, as melancolias, os desejos, próprios dos homens e das mulheres contemporâneos, “O Túnel”, aos poucos e muito sutilmente, instiga no leitor a compaixão pelos personagens, mas, ao mesmo tempo, permite que, para além da compaixão, ele decida pela identificação ou não. A narrativa exige isso; afinal, trata-se de um narrador resoluto a expor as razões de seu crime. Conforme avançava na leitura, sentia compaixão e abandonava qualquer identificação pessoal para além do aturdimento com o mundo de Juan Pablo e María — o mesmo mundo que me cerca. Faltava a María e a Juan Pablo o poder de comunicação e entendimento.
Quando, pela primeira vez, Juan Pablo observou María, essa que, por sua vez, observava um quadro dele, o nosso narrador constatou ter se deparado com a única mulher capaz de entendê-lo. María tinha decifrado a pintura de Juan Pablo e, para ele, esse fato era sinal de que deveria partir numa busca desesperada por aquele ser especial, único na multidão. Eles passaram a dividir a ilusão de que se entendiam porque sofriam de “males parecidos”; mas, se não se comunicavam, como era possível o entendimento? Essa é uma das perguntas que persegue o leitor durante toda a viagem em “O Túnel”. María e Juan Pablo estavam sempre falando línguas diferentes, línguas que não alcançavam os ouvidos do par. Juan Pablo Castel, mais do que um homem solitário, era isolado. O isolamento criou nele uma gigantesca insegurança em virtude de seu radical estranhamento do mundo. Ele não gostava de nada ao seu redor e não encontrava a saída do buraco em que estava metido. Quando, finalmente, ocorre o milagre de um portal se abrir, ele se assusta, tem medo, sente-se completamente exposto. Nessa circunstância, não podendo contar com ninguém, Juan Pablo usa a conjectura como último recurso para encontrar vestígios que comprovassem que María não o amava, alimentando, assim, a gigantesca insegurança que tomava todo o seu ser.
Talvez esse mundo que chamamos de moderno instigue isso nas pessoas. Todos estão tão sós que resta a ânsia de encontrar alguém que preencha a solidão. Essa é uma péssima determinação. Sendo verdadeira a nossa carência do outro, também é verdadeiro que, para o encontro, é necessário estar cheio, transbordando. María e Juan Pablo estavam consumidos por sua solidão absoluta e incompreensão, primeiro, de si mesmos. E, aí, o encontro vira tormenta. De algum modo, de um modo um tanto perturbador, o final parecia escrito — e estava. Da previsão sentida e anunciada de que ambos esperavam pelo mesmo e poderiam olhar na mesma direção (a metáfora da janela que não combinava com nada, pintada no canto esquerdo do quadro de Juan Pablo Castel), nasceu a posse, em vez do amor. O amor, caso tivesse nascido, poderia representar a libertação. Juan Pablo não conseguiu sair do túnel — e ele desejava sair! María o chamou, mas, também, tinha lá o seu túnel, infelizmente, paralelo. De María não falo muito porque sei pouco, sei apenas o que nos conta o solitário e amargurado Castel. Há um trecho em que o pintor confessa: “[...] talvez eu a buscasse em meu desejo desesperado de comunicar-me mais firmemente com María. Tinha certeza de que, em certas ocasiões, conseguíamos comunicar-nos, mas de forma tão sutil, tão passageira, tão tênue, que depois eu ficava mais desesperadamente só do que antes, com essa imprecisa insatisfação que experimentamos ao tentar reconstruir certos amores de sonho.”
Nesse trecho, Sábato nos concede uma possibilidade escorregadia de mensurar o aturdimento de Juan Pablo: a necessidade do encontro com María transformou o sexo em urgência e, ao invés de se aproximarem, afastaram-se porque, afinal de contas, o sexo não foi nem plenitude e nem comunhão, foi posse. Ambos buscavam o sexo por desespero e equívoco e, mais uma vez, perderam a chance de se comunicar. Vazios de si, como poderiam experimentar a plenitude com o outro? De María, Juan Pablo parecia querer subtrair um “elo com o mundo”, elo que ele tinha perdido e, utopicamente, pensava resgatar por meio daquela surreal e alucinada busca: “Ficamos de nos ver logo. Tenho vergonha de dizer-lhe que desejava vê-la no dia seguinte ou que desejava continuar vendo-a ali mesmo e que ela não deveria nunca mais se afastar de mim. Embora minha memória seja espantosa, tenho, de repente, lapsos inexplicáveis. Não sei agora o que lhe disse naquele momento, mas lembro que ela respondeu que tinha de ir embora.”
O amor depende de comunicação e de entendimento, mas, no caso de Juan Pablo, faltava um terceiro elemento. A falta desse terceiro elemento, combinada à ausência dos outros dois, gerou uma química explosiva que só poderia resultar em catástrofe. Amor depende de fé também. É preciso acreditar, confiar, conceder o benefício da dúvida. É preciso apostar e esse foi o pior erro de nosso pintor. Castel quis a segurança de um relacionamento perfeito, geométrico, garantido. Sua lógica implacável foi aplicada a um setor em que a contingência, a insegurança e a surpresa são fatores comuns. E como ele insistiu em aplicar essa lógica a um contexto totalmente estranho a ela, paradoxalmente, o homem racional enlouqueceu. Castel ensina ao leitor, por meio de uma pedagogia amarga, que a vida tem certa margem de risco, e é essa margem de risco que nos concede humildade e, portanto, aprimora nossa humanidade.
Ao contrário do que diz a nossa cultura, entender não é “suportar estoicamente”. María Iribarne, sem saber o que fazer com as dúvidas de Castel, simplesmente o suportava. Por esse motivo, não podia ficar com ele o tempo todo. O egoísmo de ambos estava no fato de nenhum deles ter a capacidade de se abrir para perceber o outro. Amor é abertura para o entendimento e tal abertura exige a abdicação de si, pois a compreensão pede atenção constante. Talvez, eles não pudessem dar a um o que o outro necessitava. A carência era tão grande que lhes restava consumir as energias um do outro, em uma simbiose macabra. Dessa equação resultaria apenas a morte — para um, a morte física; para o outro, a morte lenta e em vida, marcada pelo mais cruel isolamento e pelo mais terrível sentimento de perda e culpa. Esse homem e essa mulher não podiam admitir os riscos, as incertezas, os caminhos tortuosos. Era-lhes difícil a entrega. Na impossibilidade de admitir o inesperado, o irreconhecível para um universo metódico e cartesiano, Juan Pablo criou uma armadilha para si mesmo e, geometrizando a vida, perdeu a chance de enchê-la de alegria.
Enfim e não menos importante, Ernesto Sábato apresenta ao leitor uma situação extrema e que, justamente por ser extrema, permite visualizar o cotidiano. Essa transposição é o que concede valor universal à literatura. O autor nos mostra que, no fundo, a sociedade moderna criou um gigantesco pântano de carência (sobretudo, mas não só, quando resolveu abençoar as regras do amor romântico). O outro, qualquer que seja ele, não pode e não deve ser usado para resolver carências primárias, muitas vezes, sem solução. Aprendemos tão profundamente a organizar cartesianamente o nosso mundo que nos esquecemos da impossibilidade de ordenar todos os problemas — com eles, convive-se, convive-se bem ou mal. A beleza do texto de Sábato está na chance de avaliar os nossos próprios túneis, cimentados com o temor da entrega.
Indo e voltando na leitura do romance, o leitor (aceite ou não) tem a maravilhosa chance de atribuir significado à morte de María. O que a sua vida não fez, sua morte concedeu: Juan Pablo estava, finalmente, disposto a compreender porque motivo fora “se acostumando com a ideia de matá-la”. Conforme o pintor narrava, sem vaidade e sem a expectativa de ser compreendido pelos outros (“nem uma assembleia de cem mil russos seria capaz”), deixava, assim mesmo, compreender-se, surgindo, aos olhos do leitor, como a metáfora triste de nossos dias.
Talvez, seja necessário aplicar ao texto de Sábato a conclusão (possível) que Silviano Santiago aplicou à “obra” de Clarice Lispector: “Na ficção, Clarice buscou representar determinada situação negativa da experiência humana para nela, através de um acontecimento banal, introjetar o valor positivo da vida e para dela, num movimento posterior, extraí-lo como a um híbrido prenhe, enriquecido, explosivo e aberto à utopia. Como nos ensinou Ernest Bloch, Clarice sabia que ‘o horror e as emoções negativas são infinitamente preciosos na medida em que também constituem modalidades daquele espanto ontológico elementar, que é a nossa forma mais concreta de consciência do futuro latente em nós e nas coisas’.” Quem já leu Clarice sabe o quanto a avaliação é certeira: na exposição da desesperança, intrínseca está a força do seu contrário.
Analogias à parte, de qualquer modo, não se termina o romance de Sábato como se começou; Juan Pablo Castel e María Iribarne transformam o leitor. Transformado, ele pode fazer algo melhor de seus dias, inserindo neles a utopia de, uma vez entregue e transbordado, encontrar-se com o amor e a compreensão. Como lembra Clarice, a carência é constitutiva: “Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pelo menos eu pertencia um pouco a mim mesma.” Não há receita, há apenas o desejo de encontrar a forma de se preencher, sem exigir do outro tal tarefa. Aceitar por fim outro “mandamento da modernidade”: no lugar da geometrização da vida, a tarefa cotidiana devia ser a de apropriar-se de si, antes de receber o outro. Isso porque receber o outro vai exigir a incorporação da verdade alheia.
Fabiana de Souza Fredrigo é doutora em História Contemporânea.
“É que os seres de carne e osso não podem jamais representar as angústias metafísicas sob o estado de ideias puras: fazem-no sempre encarnando essas ideias, obscurecendo-as com sentimentos e paixões. Os seres carnais são essencialmente misteriosos e se movem em impulsos imprevisíveis, mesmo para o próprio escritor que serve de intermediário entre esse estranho mundo da ficção, irreal mas verdadeiro, e o leitor, que acompanha seus dramas”
(Ernesto Sábato)