
Ronaldo Cagiano
Especial para o Jornal Opção
Desde que estreou na literatura no final dos anos 1960 com “Tremor de Terra” (vencedor do Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal), a prosa de Luiz Vilela destaca-se por duas características fundamentais: o resgate das histórias comuns, que transcorre numa atmosfera narrativa que busca a simplicidade e a clareza, sem perder a densidade; e a contenção formal, particularizada pelo do diálogo, que poucos como ele conseguem manusear, sem cair na obviedade, na simplificação ou na fadiga.
Em “Perdição”, que marca seu retorno triunfal ao romance, esses aspectos tornam-se ainda mais evidentes, porque trabalhados com mais rigor e estilo adensam o enredo. A trama se passa numa fictícia Flor do Campo, microcosmo do interior mineiro, a partir do qual descortina-se um cenário de mazelas e conflitos.
Leo é o personagem culminante, âncora de uma bem humorada história sobre os descaminhos de um jovem perdido e a inviabilidade da vida interiorana. Aliás, o humor em Vilela é a crítica e a reflexão em estado de sutileza e refinamento e funcionam em todo o conjunto como uma espécie de amálgama, equilibrando forma e conteúdo.
Pelas mãos de Ramon, jornalista de uma pequena tribuna local, seu amigo de infância e narrador onisciente, conhecemos o percurso, às vezes sem sal, às vezes atilado, de um vendedor de peixes na feira. Entediado com a vida que leva e com a falta de perspectiva de sua atividade, repentinamente afetada pela chegada da empresa de Diske-Peixe, que veio explorar o ramo na cidade, ele decide tentar outra sorte. Só que sua esperança vai bater em outras águas, cooptado por um pregador evangélico, cuja cantilena o seduz a ir para o Rio com a missão de salvar os homens do pecado, a partir do que traveste-se no Pastor Pedro, numa alusão ao pescador de almas da bíblia.
Ao entrar num mundo completamente desconhecido, atraído pela promessa de vida nova e de salvação, na verdade Leo (Pedro) encontra a própria perdição ao perceber que foi manipulado pelo vezo maniqueísta e comercial de um tal Mister Jones, figura que muito bem metaforiza essa onda protestante avassaladora e hipócrita que vem tomando conta do nosso país com seu impune estelionato espiritual.

Leo, como milhões de fieis que acabam caindo no conto do vigário das pregações massificantes e histriônicas, acaba migrando para esse despudorado mercado da fé. Hipnotizado por uma promessa irrealizável, a engrenagem o aprisiona e ele afunda cada vez mais nesse terreno pantanoso, babélico e ilusório. Por fim percebe a canoa furada em que se meteu, sendo forçado a abandonar aquela máscara e a retornar à sua terra natal, voltando à vidinha sem ênfase de sempre e enfrentando o julgamento e a execração dos que o viram partir.
Durante toda a história, Vilela desloca sua narrativa para outros pequenos focos, ao apresentar fatos e ocorrências que mobilizam a vida do pequeno lugar, mas que têm, no fundo, a função de revelar esse caldeirão de tipos e situações, muitas vezes bizarras, expondo todo um universo povoado pelas crendices, pelo misticismo, pela politicagem e pelo vazio da falta de horizontes.
Em “Perdição” está em jogo essa luta entre o bem e o mal, entre a mentira e as falsas verdades das instituições, entre o sagrado e o profano das relações, bem como a guerra entre a carne e o espírito, algo que vem sendo apropriado — indevidamente e com todo fanatismo e fervor farisaico — pelas seitas protestantes que procriam por aí, principalmente com a exposição frequente de falsos milagres na tevê, o que na obra de Vilela é sutilmente denunciado, quando a história do acidente da filha de Leo vem à tona e mostra a incapacidade da fé e da religião de curá-la, não há graça possível, só a desgraça real no mundo de verdades e caminhos perecíveis.
Vale ressaltar a força dos diálogos em toda a obra vileliana e que nesse caudaloso romance funcionam como um grande rio por onde escoam as perplexidades, as dúvidas, as angústias e críticas dos personagens. No espaço das conversas corriqueiras alimentam o dia a dia dessa gente, verdadeiras pérolas garimpadas na prosa dos observadores da vida quotidiana, discutem-se valores e inquietações, tudo carregado de uma ironia ferina, compondo um painel psicológico, moral e profundamente humano de Flor do Campo.
No romance, personagens secundários — como sua mulher, Gislaine; Nenzinha, a dona da pensão; além Mosquito, reles vendedor de pimentas — constituem um caleidoscópio de hipocrisia, pequenez, preconceito e cinismo de uma sociedadezinha refratária e sem rumo. E a pescaria simboliza o mergulho de Leo em águas profundas, nas quais ele enfrentará a escuridão e o lodo e conhecerá uma outra verdade — a do engodo das crenças — que verdadeiramente o libertará, trazendo-o de novo à tona, à claridade de suas raízes, ainda que doloroso o retorno sem a pretendida salvação ou redenção.
Ao tocar em temas tão profundos que habitam a alma e a consciência das pessoas, mas encontradiço em qualquer lugar do mundo, Vilela aponta para o universalismo de sua prosa, sem necessidade de contorcionismos de linguagem nem afetações estilísticas. O que é essencial e profundo na condição humana é o ponto central em toda a obra do autor e em “Perdição” é captado com maior liberdade e tensão crítica. Vilela expõe senso agudo senso de objetividade e clareza, calcado na sua experiência com a cultura oral, com o imaginário rural e com a coloquialidade, cujas verdades e sentimentos não requerem nenhuma invencionice formal ou técnica, tão somente a reconstrução da realidade a partir de sua atmosfera mais elementar, para o que a linguagem concorre com sua carga de realismo e espontaneidade e aqui, o diálogo, repita-se, como forma de recontar esse mundo, empresta autenticidade, leveza, crueldade e poesia.
Vilela é um desses estuários que formam o oceano de uma grande literatura. Assim como um Graciliano Ramos e um Tchekhov, sua ficção é virtuosa, sem subterfúgios, porque a palavra não é usada para enfeite, mas para comunicar, dizendo sempre mais com o mínimo de recursos. E no bojo de seu projeto criativo, incorpora uma visão estética da arte e do homem, sua literatura tem um compromisso ético com a verdade e com os destinos do mundo.
Ronaldo Cagiano é escritor e crítico literário.