34 anos
Livros
Um escritor sem subterfúgios
A ficção de Luiz Vilela é virtuosa porque a palavra não é usada para enfeite, mas para comunicar, dizendo sempre mais com o mínimo de recursos
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Luiz Vilela

Ronaldo Cagiano
Especial para o Jornal Opção

Desde que estreou na literatura no final dos anos 1960 com “Tremor de Terra” (vencedor do Prêmio da Fun­dação Cultural do Distrito Fe­deral), a prosa de Luiz Vilela destaca-se por duas características fundamentais: o resgate das histórias comuns, que transcorre numa atmosfera narrativa que busca a simplicidade e a clareza, sem perder a densidade; e a contenção formal, particularizada pelo do diálogo, que poucos co­mo ele conseguem manusear, sem cair na obviedade, na simplificação ou na fadiga.

Em “Perdição”, que marca seu retorno triunfal ao romance, esses aspectos tornam-se ainda mais evidentes, porque trabalhados com mais rigor e estilo adensam o enredo. A trama se passa numa fictícia Flor do Campo, mi­crocosmo do interior mineiro, a partir do qual descortina-se um cenário de mazelas e conflitos.

Leo é o personagem culminante, âncora de uma bem hu­morada história sobre os descaminhos de um jovem perdido e a inviabilidade da vida interiorana. Aliás, o humor em Vilela é a crítica e a reflexão em estado de su­tileza e refinamento e funcionam em todo o conjunto como uma espécie de amálgama, equilibrando forma e conteúdo.

Pelas mãos de Ramon, jornalista de uma pequena tribuna local, seu amigo de infância e nar­rador onisciente, conhecemos o percurso, às vezes sem sal, às vezes atilado, de um vendedor de peixes na feira. Entediado com a vida que leva e com a falta de per­spectiva de sua atividade, repentinamente afetada pela chegada da empresa de Diske-Peixe, que veio explorar o ramo na ci­dade, ele decide tentar outra sor­te. Só que sua esperança vai bater em outras águas, cooptado por um pregador evangélico, cuja cantilena o seduz a ir para o Rio com a missão de salvar os homens do pecado, a partir do que traveste-se no Pastor Pedro, numa alusão ao pescador de almas da bíblia.

Ao entrar num mundo completamente desconhecido, atraído pela promessa de vida nova e de salvação, na verdade Leo (Pe­dro) encontra a própria perdição ao perceber que foi manipulado pelo vezo maniqueísta e comercial de um tal Mister Jo­nes, figura que muito bem metaforiza essa onda protestante avassaladora e hipócrita que vem tomando conta do nosso país com seu impune estelionato espiritual.

Leo, como milhões de fieis que acabam caindo no conto do vigário das pregações massificantes e histriônicas, acaba mi­grando para esse despudorado mercado da fé. Hipnotizado por uma promessa irrealizável, a engrenagem o aprisiona e ele afunda cada vez mais nesse terreno pantanoso, babélico e ilusório. Por fim percebe a canoa furada em que se meteu, sendo forçado a abandonar aquela máscara e a retornar à sua terra na­tal, voltando à vidinha sem ênfase de sempre e enfrentando o julgamento e a execração dos que o viram partir.

Durante toda a história, Vilela desloca sua narrativa para outros pequenos focos, ao apresentar fatos e ocorrências que mobilizam a vida do pequeno lugar, mas que têm, no fundo, a função de revelar esse caldeirão de tipos e situações, muitas vezes bizarras, expondo todo um universo povoado pelas crendices, pelo misticismo, pela politicagem e pelo vazio da falta de horizontes.

Em “Perdição” está em jogo essa luta entre o bem e o mal, en­­tre a mentira e as falsas verdades das instituições, entre o sa­grado e o profano das relações, bem como a guerra entre a carne e o espírito, algo que vem sendo apropriado — indevidamente e com todo fanatismo e fervor farisaico — pelas seitas protestantes que procriam por aí, principalmente com a exposição frequente de falsos milagres na tevê, o que na obra de Vilela é sutilmente denunciado, quando a história do acidente da filha de Leo vem à tona e mostra a incapacidade da fé e da religião de curá-la, não há graça possível, só a desgraça real no mundo de verdades e caminhos perecíveis.

Vale ressaltar a força dos diálogos em toda a obra vileliana e que nesse caudaloso romance funcionam como um grande rio por onde escoam as perplexidades, as dúvidas, as angústias e críticas dos personagens. No espaço das conversas corriqueiras alimentam o dia a dia dessa gente, verdadeiras pérolas garimpadas na prosa dos observadores da vida quotidiana, discutem-se valores e inquietações,  tudo carregado de uma ironia ferina, compondo um painel psicológico, moral e profundamente humano de Flor do Campo.

No romance, personagens secundários — como sua mu­lher, Gislaine; Nenzinha, a dona da pensão; além Mos­quito, reles vendedor de pimentas — constituem um caleidoscópio de hipocrisia, pequenez, preconceito e cinismo de uma sociedadezinha refratária e sem rumo. E a pescaria simboliza o mergulho de Leo em águas profundas, nas quais ele enfrentará a escuridão e o lodo e conhecerá uma outra verdade — a do engodo das crenças — que verdadeiramente o libertará, trazendo-o de novo à tona, à claridade de suas raízes, ainda que doloroso o retorno sem a pretendida salvação ou redenção.

Ao tocar em temas tão profundos que habitam a alma e a consciência das pessoas, mas encontradiço em qualquer lugar do mundo, Vilela aponta para o universalismo de sua prosa, sem necessidade de contorcionismos de linguagem nem afetações estilísticas. O que é essencial e profundo na condição humana é o ponto central em toda a obra do autor e em “Perdição” é captado com maior liberdade e tensão crítica. Vilela expõe senso agudo senso de objetividade e clareza, calcado na sua experiência com a cultura oral, com o imaginário rural e com a coloquialidade, cujas verdades e sentimentos não requerem ne­nhuma invencionice formal ou técnica, tão somente a reconstrução da realidade a partir de sua atmosfera mais elementar, para o que a linguagem concorre com sua carga de realismo e espontaneidade e aqui, o diálogo, repita-se, como forma de recontar esse mundo, empresta autenticidade, leveza, crueldade e poesia.

Vilela é um desses estuários que formam o oceano de uma grande literatura. Assim como um Graciliano Ramos e um Tchekhov, sua ficção é virtuosa, sem subterfúgios, porque a palavra não é usada para enfeite, mas para comunicar, dizendo sempre mais com o mínimo de recursos. E no bojo de seu projeto criativo, incorpora uma visão estética da arte e do homem, sua literatura tem um compromisso ético com a verdade e com os destinos do mundo.

Ronaldo Cagiano é escritor e crítico literário.