Edição 1869 de 1° a 7 de maio de 2011
Entrevista | Edgar Franco
Um artista pós-humano
Edgar Franco, quadrinista, músico e professor, doutor em artes pela Universidade de São Paulo, fala sobre sua produção e tece duras críticas à comunidade acadêmica que, para ele, teoriza sem viver

Ademir Luiz e Ligia Carvalho
Especial para o Jornal Opção

É muito fácil sentir-se um caipira conservador perto do Edgar Franco. A figura física é incomum, a figura intelectual ainda mais. Roupas escuras, cartola, cabelos longos, barba ao estilo de Abraham Lincoln, vegetariano, líder de uma banda performática com CD gravado por selo internacional, arquiteto de formação, versado em alta tecnologia, criador de um vasto universo ficcional, cosmopolita, culto e com senso de humor afiado. Não fosse o reconhecido autor de considerável produção acadêmica, tivesse RG, emprego e endereço fixo, poderia ser confundido com um personagem de Tim Burton. Mas Edgar Franco existe, e muito. É professor da Faculdade de Artes Visuais (FAV) e do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás, e atualmente cursa pós-doutorado no Laboratório de Pesquisa em Arte e Tecnociência (Lart), Gama/UnB. Nessa entrevista ele falou sobre seus múltiplos interesses, sua produção artística e acadêmica, e, principalmente, sobre essa nossa humanidade desumana e o pós-humano.

Ademir Luiz: O sr. se formou em Arquitetura e Urbanismo na UnB, fez mestrado em Multimeios, estudando Histórias em Quadrinhos, na Unicamp, e doutorado em Artes Plásticas na USP. Paralelamente, desenvolveu um reconhecido trabalho nos campos da música performática e da produção de HQ's conceituais. Em suma, para além de pesquisador, produz, e é referência, em sua área. O sr. considera importante essa experiência da práxis entre os acadêmicos que pesquisam os fenômenos da contemporaneidade, época marcada pela interatividade? Em outras palavras: é fundamental para o acadêmico colocar a mão na massa e ser também um criador?

Essa questão é instigante e vou ser sincero contigo: sem prática a teoria é somente ficção! Vou mais longe, eu acredito que o mundo ocidental foi contaminado por uma verborragia sem fim, a linguagem escrita evoluiu de maneira sórdida por esses lados do globo, pois numa certa medida ela tornou-se mais importante do que aquilo que tenta representar ou explicar! Um exemplo é a religião. Por aqui a religião tornou-se mais um universo da verborragia.

A filosofia oriental é a da ação, a filosofia ocidental a dos tratados verborrágicos. A coisa é tão ridícula que um diretor de uma faculdade de filosofia de uma grande universidade brasileira disse que tudo que já podia ser escrito sobre o homem já foi escrito pelos grandes filósofos e agora o papel da universidade é analisar esses discursos! Isso é deprimente, dezenas de teóricos engessados que passam anos de sua vida interpretando, como engajados hermetistas, o que outros disseram sobre o homem e a vida e com isso esquecem de viver, ou seja, de terem suas próprias vidas e chegarem às suas conclusões sobre o que é o viver. Eu não digo que devemos nos isolar, de forma alguma, temos que nos contaminar de todas as reflexões, conhecermos o que pensam nossos pares pelo mundo afora, mas daí a ficar replicando a experiência dos outros, isso não! Para você conhecer todo e qualquer fenômeno você precisa experienciá-lo, pois todo o resto será pura ficção! Eu vejo que a falta de experiência e o mergulho das pessoas na teoria pura as embrutece, produz dogmas, as entristece, as enfeia, por isso os acadêmicos, principalmente os das ciências humanas, amam as teorias mais desesperançosas e niilistas, elas refletem o vazio de suas vidas, vidas não vividas.

Ademir Luiz: Seu traço é bastante particular e marcante, basta olhar uma obra sua para reconhecer a autoria. Ao mesmo tempo, é possível identificar traços de influência de artistas como Salvador Dalí, H. R. Giger, Francis Bacon e até algo de Moebius. Trata-se, claro, da primeira impressão. Quais foram os artistas responsáveis por sua formação? Quem o influenciou?

Primeiro fico feliz em saber que meu traço tem essa marca autoral, no entanto tomo muito cuidado com isso pra que eu não crie uma armadilha que irá me aprisionar, ou seja, que eu passe a acreditar que cheguei na fórmula perfeita, meu traço peculiar, pois o que acontece com os artistas que chegam a esse tipo de conclusão é a morte completa de seu trabalho, começam simplesmente a repetir essa fórmula e sua arte morre com esse veneno enebriante do ego chamado estilo!  Devido a isso tenho experimentado criar em outras mídias, suportes e até reinventar o meu desenho experimentando com novas possibilidades gráficas. Na verdade essa identidade de meu traço começou cedo, aos 17 anos já lia pessoas dizendo isso sobre as HQs que eu publicava em fanzines.

O motivo principal é que nunca copiei desenhos. Sempre fui resistente à cópia, meus amigos que desenhavam amavam copiar os desenhos dos artistas que gostavam e eu resistia, queria desenhar do meu jeito. Isso fez com que meu traço demorasse mais para se desenvolver, mas logo já apresentava essa autoralidade. Eu usava fotos em revistas como base pra estudar desenho, mas copiar outros artistas, nunca. Obviamente, minha mente subconsciente foi contaminada pelos artistas que amo, entre eles grandes surrealistas como Dali e Giger, também pintores medievais como Bruegel e Bosch, pintores magos como William Blake e Austin Osman Spare, bem a lista é enorme.

Nos quadrinhos a linha clara francesa sempre foi sedutora pra mim, e os meus artistas preferidos são os franceses Phillipe Druillet e Caza que curiosamente só conheci aos 19 anos de idade porque reconheceram semelhanças entre seus trabalhos e os meus, ou seja, eu já fazia um trabalho de fantasia filosófica antes de conhecê-los.  No Brasil tenho dois amigos quadrinistas dos mais criativos gênios do mundo em minha opinião, que são uma fonte de inspiração: Gazy Andraus e Antônio Amaral. Mas meu trabalho com os quadrinhos e como artista multimídia sofre contaminações de outros meios e mídias, como o cinema. O universo literário também é um rico manancial, comecei a ler muito cedo, influenciado por meu pai. No início gostava de romances de horror e aos 12 anos já tinha lido a obra completa de Edgar Alan Poe. Posteriormente passei a me interessar por múltiplos assuntos, de filosofia a esoterismo, passando por FC e antropologia, também futurismo, tecnologia e transcendentalismo.

Ademir Luiz: Em sua produção quadrinística, destacadamente na série de álbuns ilustrados “Artlectos e Pós-Humanos”, a composição dos ambientes é bastante elaborada. Encontramos desde arranha-céus ultratecnológicos até torres medievais. Enquanto artista com formação em arquitetura e urbanismo, qual a importância do cenário para a construção do sentido da narrativa? Ele o define ou é uma moldura?

Bem, ultimamente a arquitetura dos corpos pós-humanos de meu universo ficcional tem sido muito mais instigadora de minhas criações do que o espaço da urbe pós-humana! O fato é que todo o espaço projetado pelo homem e para o homem tem como estruturador o corpo humano, ele tem sido a base de tudo, inclusive das medidas como palmos, pés, o sistema decimal baseado nos 10 dedos das mãos, enfim o corpo humano é a base para a criação de tudo que nos envolve, o “Homem Vitruviano” de Da Vinci, o “Modulor” de Corbusier.

Existe até uma disciplina dedicada a esse estudo: a ergonomia. Agora imagine que com a mudança drástica desse corpo, se, de repente, como propõe o artista e provocador australiano Stelarc, nós tivermos uma terceira orelha em um braço, como será essa nova arquitetura? O que mudará? Em meu mundo pós-humano procuro sempre criar arquiteturas inusitadas, uma arquitetura que tenha a organicidade das criaturas de meu mundo, que dialogue esteticamente com os seres que o habitam.

Isso vai na contramão do pensamento modernista da arquitetura e urbanismo que praticamente apartou a arquitetura dos homens, objetificou-a, aliou-se ao projeto da indústria e do capital, simplificou tudo, vulgarizou, tomou como modelo básico de espaço o cubo branco, enquanto na época das construções das catedrais góticas os construtores queriam tocar Deus! Mas voltando para as HQs, a arquitetura é sempre um elemento presente e a dinamicidade de sua importância vai depender dos interesses narrativos do artista, em certos casos ela ganha uma importância chave, como no álbum “Ronin” de Frank Miller em que a bioarquitetura auto replicante e autônoma reconfigura todos os ambientes, ou ainda no célebre álbum de Will Eisner, “O Edifício”, em que toda a ação narrativa tem como eixo o edifício do título. Acredito que os jovens arquitetos em formação deveriam lançar um pouco mais o olhar para os mundos fantásticos dos quadrinhos, buscar inspiração na fantasia, ousar mais.

A contaminação tardia do modernismo permanece e a arquitetura contemporânea me parece tão sem graça, sem vida, sem sonho, utilitarista, chata, cansativa. Com a tecnologia que temos hoje poderíamos viver em espaços como os dos mundos do quadrinista francês Druillet, mas continuamos em cubos brancos (que incluem alguns arabescos pra disfarçar a falta de inspiração).

Ademir Luiz: Umberto Eco defende que a construção de um romance é um fato cosmológico. Quem escreve um livro cria um universo. Essa observação pode se estender tranquilamente para a produção de HQ's. É o que o sr. está fazendo. Seu mundo pós-humano possui história, geografia, fauna e flora próprias. Como surgiu esse projeto? Desde o início a pretensão era criar um universo ou suas fronteiras foram se dilatando mais e mais, quase que espontaneamente, a cada obra que produzia?

Sim, Eco está certo, e eu tenho uma teoria sobre a criação de mundos ficcionais: muito dificilmente um criador de mundos ficcionais irá promover a guerra! Quando você cria um mundo, uma cosmogonia, você tem que usar empatia, tem que colocar-se no lugar do outro, pensar como ele poderia estar pensando naquela situação, e isso nos torna menos dogmáticos, mais receptivos à visão de mundo dos outros, mais solidários, menos autocentrados e egocêntricos. Imagine você que na trilogia em quadrinhos “BioCyberDrama”, roteirizada por mim e desenhada por Mozart Couto, eu criei cerca de 100 personagens, e eu tive que imaginar cada um deles, a visão deles dentro da situação que experienciavam, como se portariam segundo seu histórico de vida, suas personalidades, sua forma física, eu tive que vivenciar esses quase 100 papéis, fui um pouco de todos eles, desdobrei-me!

A cada nova criação assim me sinto mais tolerante para com as pessoas em geral, me vejo mais doce, menos presunçoso, a minha empatia cresce no mundo real na medida em que surgem novas personagens em meu mundo ficcional! Eu sugiro aos educadores uma disciplina obrigatória chamada “Criação de Mundos Ficcionais” que deve ser ensinada em todas as séries dos ensinos fundamental e médio, considero uma disciplina como essa tão importante quanto matemática e português.

Ademir Luiz: Em seu livro “HQtrônicas — do Suporte Papel à rede Internet”, o sr. problematiza a questão da leitura em mídias virtuais. Qual sua perspectiva sobre a polêmica questão acerca da sobrevivência ou não do livro tradicional?

Na perspectiva de McLuhan, o visionário comunicólogo canadense, uma mídia não supera a outra ou a substitui, concordo com ele, pois quando o cinema surgiu decretaram o fim do teatro, já a TV seria a morte do cinema e assim por diante, de certa forma muitos suportes midiáticos também não substituem os seus antecessores. O livro, como o conhecemos, tem uma tradição histórica milenar e sua resistência ao tempo é muito grande, é um formato que não depende de um aparelho decodificador ou fonte de energia para alimentá-lo, portanto ainda apresenta muitas vantagens em relação aos formatos digitais.

Vamos brincar um pouco: seu navio naufraga e você consegue ir até uma ilha deserta, seu e-book com 3000 livros se molhou e pifou, mas a maré trouxe alguns livros encharcados de outros tripulantes do navio que não sobreviveram, eram 11 livros, eles secaram ao sol e foram sua companhia por um ano até te encontrarem! É uma situação hipotética, utilizo-a para reforçar como o livro ainda é um objeto “robusto” em muitos sentidos.

Dito isso, esclareço minha empolgação com as possibilidades dos formatos digitais, pela dinâmica da convergência midiática, pela sinestesia e envolvimento que essas formas híbridas de leitura envolvem. As HQtrônicas — histórias em quadrinhos eletrônicas, neologismo criado por mim,  são uma das novas linguagens intermídia emergentes, hibridizam características dos quadrinhos tradicionais em suporte papel com as possibilidades abertas pela hipermídia, tenho investigado esse fenômeno midiático convergente desde a metade da década de 1990. 

Ademir Luiz: Assisti uma apresentação musical-performática de sua banda, a Posthuman Tantra, numa universidade. As reações foram as mais diversas. Enquanto algumas pessoas aplaudiam em cena aberta, outras se retiraram indignadas com as insinuações sexuais e de violência. Ao que o sr. atribui esse tipo de atitude conservadora por parte de membros da comunidade acadêmica?

Pra responder essa questão resgato o pensamento de um dos maiores artistas contemporâneos, o quadrinista inglês Alan Moore, que, como eu, se declarou mago: um manipulador de símbolos visando a mudança da percepção de mundo! Moore ressalta que o verdadeiro artista dá às pessoas “o que elas precisam” e não “o que elas desejam”! A arte foi engolida pelo entretenimento no século 20, e o senso comum passou a considerar o entretenimento vazio produzido pelo mundo da mídia de massa como arte.

Veja que até as nulidades que participam de reality shows são consideradas “artistas”. A publicidade, um mundo repleto de “magos negros”, atua no status quo manipulando símbolos simplesmente para induzir ao consumo. A publicidade é limpa, polida, bela, com rostos jovens, famílias bem nutridas, tudo é asséptico, quase hospitalar, nesse mundo idealizado da indução ao consumo. As pessoas que saíram da sala de espetáculo durante a nossa apresentação me deixam orgulhoso, pois tenho certeza de que meu objetivo artístico está alcançando resultados. Não existe arte verdadeira que não provoque e não incomode!

Além disso, as insinuações sexuais de nossa performance não são nem um pouco mais agressivas do que dançarinas praticamente nuas insinuando sexo anal em danças grotescas nas TVs aos domingos, no entanto a embalagem que envolve essas dançarinas é a da assepsia publicitária, então isso é aceito e louvado pelas mentes subjugadas pelo controle mágico das multinacionais. Nossa performance nega essa assepsia e recontextualiza a manipulação simbólica e conceitual desses elementos, no caso da insinuação sexual fazemos uma reflexão sobre o tecnofetichismo emergente. Também temos muito de doce e sutil em nossa narrativa multimidiática, se você abrir sua percepção sem preconceitos poderá perceber isso ao assistir nossa apresentação. Para concluir, é importante observar que a academia ainda é um espaço de dinossauros morais. Na minha modesta opinião, certos setores da academia são tão arcaicos, estéreis e autocentrados que simplesmente esqueceram que existe um mundo em ebulição à sua volta.

A cultura está vivendo uma das revoluções mais dramáticas, para o bem ou para o mal, nesse exato momento e eles não conseguem enxergar além de seus pés ou de suas teorias herméticas importadas. É da academia, local que pretensamente agrega as grandes mentes de nossa época, que deveria vir a revolução, ali deveriam surgir as ideias criativas que poderiam mudar o mundo, transformá-lo, mas de modo geral a academia é um espaço estanque, salvo raras exceções o que temos é um espaço de elevação de egos intelectuais pequeno burgueses! Eu amo estar na academia pelo contato com as mentes jovens, em ebulição, conviver com elas antes de serem envenenadas pelos “túneis de realidade teórica” desses acadêmicos acorrentados é uma dádiva. É claro que tenho alguns colegas acadêmicos admiráveis que fogem a esse estereótipo e que lutam de mãos dadas comigo por uma mudança basal naquilo que entendemos por academia.

Ademir Luiz: Um dos cernes de sua produção é a questão da imagem. Qual sua opinião acerca da tese que Giovanni Sartori expôs no livro “Homo Videns — Televisão e Pós-pensamento”, onde ele afirma que a era da imagem, centrada na TV, está transformando o ser humano de homo sapiens, o homem sábio, um animal simbólico, em homo videns, um animal vidente, que simplesmente olha, sem problematizar o que vê?

Eu não conheço o livro, portanto não poderei comentar mais detidamente a argumentação do autor, mas tentarei tratar de maneira geral a questão. A mim me parece mais um temor milenarista desse teórico que continua muito arraigado à cultura da língua escrita como a forma basal “de cultura verdadeira”. Pois esses detratores da imagem, defensores milenaristas da linguagem escrita estão se sentindo muito ameaçados com o avanço da produção imagética na sociedade e cultura contemporânea, eles não têm ferramentas para analisar as novas formas de percepção da informação e cognição das imagens.

Os processos de navegação hipermidiáticos, baseados na multilinearidade, simulam nosso processo de pensamento e são muito sedutores! Mas eu discordo da teoria de que os jovens não problematizam, recebo alunos muito inteligentes na universidade todos os dias, só que a forma de absorção da informação — suas relações cognitivas com o mundo — são muito diferentes das de seus professores ainda baseadas na linguagem escrita. Vejo muitos colegas furiosos por seus alunos não conseguirem ler um livro completo, eles os acusam de vazios e perdidos simplesmente porque o paradigma de construção do conhecimento desses jovens é diferente do deles, ou seja, a grande maioria dos professores é totalmente inapta a lidar com essa nova geração “hipermidiatizada”.

Ligia Carvalho: Abstraindo um pouco mais, no “Artlectos e Pós-humanos” observamos um profundo pessimismo quanto ao futuro da humanidade. Isto é tão marcante que a própria verticalidade dos traços cria pontos de fuga que fazem o olhar do leitor “escorregar”, constantemente, para o vazio, ou seja, induz sua percepção ao nada representado pela ausência de requadro. Embora ficcional, esse universo do futuro, fala do presente, alertando para o fato de que as  possibilidades ilimitadas originam um “nada” existencial, uma vez que vida e morte se perdem, pois a única coisa que conta é a satisfação de si mesmo, do prazer a qualquer custo. Em suma, o sr. acredita que o “apocalipse humano” é inevitável?

A série de revistas em quadrinhos “Artlectos e Pós-humanos” terá seu quinto número publicado pela editora Marca de Fantasia em breve. Já são mais de 150 páginas de quadrinhos, HQs curtas que questionam assuntos seminais envolvendo o homem atual e sua relação com os processos tecnológicos. Para realizar essas reflexões criei um mundo ficcional, onde realizo um deslocamento conceitual, situando o planeta Terra num futuro em que todas as proposições prospectivas da biotecnologia, telemática, robótica e nanoengenharia tornaram-se realidade e o mundo vive agora sob a égide de três espécies, os tecnogenéticos — fruto da hibridização entre humano, animal e vegetal; os extropianos —organismos abiológicos, seres humanos que transplantaram sua consciência para chips de silício; e os resistentes, humanos tradicionais que resistem a essas mudanças e estão em processo de extinção.

No entanto, existem muitas HQs da série que apontam para uma possibilidade de revertermos essa tendência entrópica de falência total de nossa espécie, na realidade eu ainda acredito que o aspecto luminoso do ser humano prevalecerá, eu acredito na força do amor incondicional e na capacidade dele revigorar-se no seio da cultura humana e fazer-nos voltar a compreendermos nossa dimensão cósmica, nossa ligação simbiótica com a natureza e com o grande organismo vivo chamado Gaia, a mãe Terra.

Ademir Luiz: O sr. propõe um mundo futurista onde homens se amalgamam com animais e máquinas. Toda grande ficção científica é um comentário acerca do presente. É possível identificar hoje aspectos pós-humanos na humanidade?

Venho recolhendo reportagens em sites de divulgação científica e tecnológica há cerca de dez anos, são descobertas e invenções impressionantes que denotam claramente esse momento de transição em que vivemos. Infelizmente poucas dessas notícias chegam aos grandes veículos de imprensa que continuam interessados em discutir as nulidades ligadas às pseudo personalidades e mostrar a miséria humana em catástrofes que dão audiência para que continuem despejando toneladas de publicidade vagabunda das grandes corporações.

Trustes globais interessados em vender seus produtos tecnologicamente obsoletos - como 90% dos carros que ainda utilizam combustível fóssil apesar do evidente aquecimento global e da existência de muitas tecnologias limpas! Essas notícias tornam-se notas de rodapé curiosas ou são ignoradas pelas mídias massivas, no entanto, na Internet podemos nos assustar com a divulgação desses feitos que desestruturam nossas concepções éticas.

Vejamos alguns exemplos: Em 2007 nos Estados Unidos foi produzida uma ovelha com 15% de genética humana, também em 2007 a empresa de biotecnologia norte americana Allerca começou a comercializar gatos e cães transgênicos e antialérgicos, em 2008 eles colocaram no mercado um novo animal de estimação transgênico, o Ashera Cat, cruzamento biotecnológico de um leopardo asiático com gato doméstico. Em 2009 cientistas japoneses conseguiram fazer crescer dentes em ratos adultos, em 2010 pesquisadores canadenses criaram uma córnea artificial que substitui a córnea humana e não apresentou rejeições. O meu mundo ficcional da “Aurora Pós-humana” é a ambientação fantástica que uso para refletir sobre essas questões.

Ademir Luiz: Sua produção quadrinhística é autoral, vanguardista. Porém, no livro "HQtrônicas" o sr. comenta em diversos momentos personagens do mainstream como Super-Homem, Batman e Homem de Ferro. Qual sua relação com esse tipo de produção? É um leitor? Já foi?

Sinceramente, nunca tive grande interesse pela produção mainstream. Quando comecei a ler quadrinhos, no final da infância,  saltei do gênero infantil para as HQs de horror, eu até tentei ler os super-heróis mas aquilo me soava meio falso, chato. Meus colegas que liam quadrinhos à época não entendiam nada, pois eu gostava de gibis em preto e branco como as revistas de autores brasileiros “Mestres do Terror” e “Calafrio”, eu me recusava a ler os super-heróis. E resisti a eles por muitos anos, com exceção de um que era um na verdade “herói”, o Conan, pois suas histórias envolviam um mundo ficcional que inclua aspectos de espada, magia, horror e aventura que me interessavam muito, além de algumas artes em preto e branco que me marcaram, como a arte final de Alfredo Alcala. Só fui voltar a ler super-heróis no período áureo das “graphic novels” da década de 1980. HQs autorais onde o nome do artista tinha a mesma importância que o da personagem, trabalhos de Frank Miller, Alan Moore e Grant Morrison.

Ademir Luiz: De modo geral, o que acha das adaptações cinematográficas de HQ's?

É muito importante ressaltar que as histórias em quadrinhos são uma forma de expressão única, com características específicas e inexistentes em nenhuma outra forma de expressão artística! Uma dessas características eu batizei de “percepção visual global”, trata-se da convivência, em um mesmo golpe de vista, dos tempos: passado, presente e futuro da narrativa; pois quando você está lendo o texto em um quadrinho sua visão periférica continua vislumbrando os quadrinhos do passado da narrativa e os do futuro da narrativa. Mas não sou contra essas adaptações, até gosto muito de algumas delas, o importante é termos a percepção clara de que uma adaptação nunca conseguirá trazer todas as características de uma HQ, simplesmente porque isso é impossível!

Ademir Luiz é doutor em História.
Ligia Carvalho é mestre em História.