Edição 1952 de 2 a 8 de dezembro de 2012
Poesia
Três traduções inéditas de Carlos Pellicer
Retrato de Carlos Pellicer, de autoria de
Diego Rivera, 1942

Nina Rizzi
Especial para o Jornal Opção

Carlos Pellicer (1897-1977) pertenceu a uma geração de intelectuais mexicanos que adotaram o nome de “Os Contemporâneos” e que introduziram a vanguarda na América Latina, o que se torna ainda mais importante se levamos em conta que o México adotava com facilidade influências estrangeiras. Nesse sentido, Pellicer foi não somente um grande poeta, mas também um inovador. 

Quando muitos d’Os Contemporâneos exploravam os desertos da consciência, Pellicer redescobre a beleza do mundo. Suas palavras querem reordenar a criação. E nesse trópico cativante os elementos se conciliam: a terra, o ar, a água, o fogo lhe permitem olhar “em carne viva a beleza de Deus”. Pellicer vê o mundo com outros olhos e ao fazê-lo modifica a poesia mexicana. Sua obra, toda uma poesia com pluralidade de gêneros, se resolve em uma luminosa metáfora, em um interminável louvor do mundo: Pellicer é o mesmo, do início ao fim.





UMA PAISAGEM FEITO POEMA
 
(Sinto que se aglomeram meus desejos
como o povo às portas de um casamento)
O rio ali é um menino e aqui um homem
que negras folhas juntam em um remanso.
Todo mundo chama por seu nome
e ele passa a mão como a um cachorro manso.
Em que estação hão de querer meus hóspedes descender? Em outono ou primavera?
Ou esperavam que em tons gramados
seja o anjo que anuncie a maça primeva.
De todas as janelas, que uma só
seja fiel e se abra sem que nada lhe abra.
Que se deixe cortar como papoula
entre tantas espigas, a palavra.
E quando os convidados
estiverem aqui — em mim — , a cortesia
única e simples pelos quatro cantos,
será deixá-los sozinhos, e em sinal de alegria
ensinar os dez dedos que foram trocados
senão
pela
única
poesia.


EU ACARICIO A PAISAGEM...
 
Eu acaricio a paisagem,
ó adorada pessoa
que ouviu meus poemas e agora
tua cabeça reclina em meu braço.
[...] Detrás de uma grande colina
Vai estalando uma nuvem lentamente.
Surpreendente
é como nossa felicidade: tão primeira!
O inaugural que em nosso amor é chave
de toda plenitude.
O ar treme a nossos pés. Eu tenho
tua cabeça e meu peito. Tudo coagula
a transparência enorme de um silêncio
panorâmico, suave
apoiado no pálido delírio
de beijar tuas bochechas em silêncio.


HORAS DE JUNHO
 
Volto a ti, solidão, água vazia,
água de minhas imagens, tão morta,
nuvem de minhas palavras, tão deserta,
noite da indizível poesia.
Por ti o mesmo sangue — teu e meu — 
corre na alma do nada sempre aberta.
Por ti a angústia é sombra da porta
que não se abre de noite nem de dia.
Sigo a infância em tua prisão, e o jogo
que alterna mortes e ressurreições
de uma imagem a outra vive cego.
Clamam o vento, o sol e o mar de viagem.
Eu devoro meus próprios corações
e jogo com os olhos da paisagem.
Junho deu-me a voz, a silenciosa
música de calar um sentimento.
Junho vai-se agora como o vento
e a alma inutilmente foi alegre.
Ao ano de morrer todos os dias
os frutos de minha voz disseram tanto
e tão caladamente, que uns dias
viveram à sombra daquele canto.
(Aqui a voz quebra-se e o espanto
de tanta solidão enche os dias.)
Hoje faz um ano, Junho, que nos vimos,
desconhecidos, juntos, um instante.
Leve-me a este momento de diamante
que tu em um ano tornas-te pérola triste.
Alça-me até a nuvem que já existe,
Livra-me das nuvens, adiante.
Até que a nuvem seja o bom instante
que hoje marca um ano, Junho, que me deste.
Eu passarei a noite junto ao céu
para escolher a nuvem, a primeira
nuvem que salta do sonho, do céu,
do mar, do pensamento, da hora,
da única hora que me espera
Nuvem de minhas palavras, protetora!
 
Nina Rizzi é escritora, historiadora e educadora.