Edição 1880 de 17 a 23 de julho de 2011
Livros
Satã rouba a cena
A partir da leitura de “Noite na Taverna” e “Macário”, percebe-se que Álvares de Azevedo era um gênio literário que não teve tempo, morreu cedo demais, antes de completar 21 anos

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

Se a história de “Noite na Taverna”, de Álvares de Azevedo, acontecesse hoje em dia, seria mais ou menos assim: alguns amigos em um boteco bebendo e filosofando sobre a vida, destilando sua erudição, com direito à citação de Hoffmann, Spinoza, Hume, Schelling, Homero, Platão, Schiller. É assim que se inicia o livro, mas em uma taverna, nos meados do século XIX, com muito vinho e mulheres ébrias e macilentas deitadas ao chão.

Nesse ambiente de taverna, noite, bebedeira, filosofia, mulheres macilentas, exclamações, fumaça, brindes (“Senhores, em nome de todas as nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperanças que desbotaram, uma última saúde! (...) Ao vinho! Ao vinho!”), alguém sugere uma contação de história, daquelas sanguinolentas, fantásticas, até absurdas (no bom sentido do termo), como as de Hoffmann, medonhas. Solfieri então começou.

Era em Roma, a cidade do fanatismo e da perdição. A noite estava bela. Solfieri encontra uma mulher pálida. Segue-a até o cemitério. Ali adormece, espreitando-a. Um ano depois, de volta a Roma, após uma orgia, ao entrar na igreja de um cemitério sem perceber (estava bêbado), Solfieri se depara com a mesma jovem, mas agora morta. Tomou o cadáver nos braços. Mil beijos nos lábios sudário rasgado despida do véu gozo fervoroso. Àquele calor do peito de Solfieri, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos embaçados. Catalepsia? Mas ao acordar desmaiara. Solfieri carrega então o “cadáver” pelas ruas. Chega ao seu aposento. A mulher desadormece. Riso convulso. Insanidade. Dois dias e duas noites levou ela de febre. Morre. Após tudo isso, ela merecia uma estátua — foi o que Solfieri mandou fazer em sua homenagem.

De volta à taverna... Outro conviva se levantou: Bertram. Começou então a contar sua história com Ângela, a donzela espanhola e morena. Amava muito essa moça, mas quando estava decidido a casar-se com ela, precisou partir da Espanha para Dinamarca, onde seu pai o chamava. Soluços, lágrimas de esperança, beijos, promessas de amor, de voluptuosidade no presente e de sonhos no futuro. Partiu, enfim. Dois anos depois voltou. Mas Ângela já estava casada e tinha um filho. Então, como viver aquele amor que não morrera, nem por parte dele nem por parte dela? Enquanto o marido não soubesse, tudo poderia ser feito nas sombras de um jardim, mas um dia o marido soube de tudo. E marido traído é igual a Otelo. Ora, havia uma maneira de viver esse amor: Ângela mata o marido degolado e o filho. Por amor. Amor? Tudo resolvido, viveram uma vida insana, num viajar sem fim, aventuras, em noites belas. Porém, um dia ela partiu. Partiu, mas sua lembrança ficou como o fantasma de um mau anjo perto do leito de Bertram.

A história de Bertram é longa; não acaba aí não. Uma noite, ao cair bêbado às portas de um palácio, ele foi pisado por uns cavalos e por uma carruagem. O povo desse palácio o acudiu — um nobre viúvo e uma beleza peregrina de dezoito anos. Bertram a desonrou. Roubou-a do fidalgo que lhe dera abrigo e fugiu. Após enjoar, vendeu-a para um pirata, que logo na primeira noite foi morto por ela, que, por sua vez, afogou-se. Um dia, na Itália, Bertram tentou suicidar-se; alguém o salvou, mas esse alguém morreu afogado por tentar salvá-lo. Ô sina! Quando recobrou os sentidos, estava num escaler de marinheiros. O comandante gostara dele. Mas trazia a bordo uma bela moça, sua mulher. O leitor certamente imagina o que aconteceu. Amaram-se! Em alto-mar, após um combate sangrento entre navios, sobraram cinco: Bertram, a mulher do comandante, o comandante e dois marinheiros. Dias se passaram, a parca comida acabara. Os dois marinheiros morreram. Restaram, então, Bertram, a mulher/amante e o comandante. É aí que entra a antropofagia. Mas não falo, caro leitor, da antropofagia literário-artística da Semana de 22 não! Falo da outra: Bertram e a amada comem o comandante. Após toda essa aventura e sofrimento, de repente o nosso protagonista sentiu-se só, porque a amada não resistira: “Uma onda me arrebatara o cadáver. Eu o vi boiar pálido como suas roupas brancas, seminu, com os cabelos banhados de água; eu vi-o erguer-se na escuma das vagas, desaparecer e boiar de novo; depois não o distingui mais: era como a escuma das vagas, como um lençol lançado nas águas...”

Agora é a vez da história de Genaro. Aprendiz de pintor em casa de Godofredo Walsh, Genaro desonra a sua filha de 15 anos, Laura, mesmo apaixonado por Nauza, a esposa de Godofredo. Laura diz ter engravidado. Adoece — “cada dia torna-se mais pálida, mas a gravidez não crescia.” Em seu leito de morte, ela chama Genaro: murmura que matara o filho deles antes de nascer. Laura enfim morre. Genaro, enquanto o velho chora a morte da filha, se declara a Nauza, que também o ama: “E as noites que o mestre passava soluçando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos braços de Nauza.” Um dia, após um surto do velho, Genaro lhe confessa sobre a filha, o “namoro”, o aborto, a morte dela — tudo. O mestre então, depois, finge esquecer tudo. Uma noite, após a ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma lanterna e chama Genaro para acompanhá-lo. Em frente a um despenhadeiro o velho lhe propõe o suicídio, uma forma de se desculpar por tudo que fizera. Genaro se joga ou Walsh o empurra? Mas não morre. É resgatado. Volta à casa do velho — se humilhar, mostrar-se arrependido ou se vingar? Nem um nem outro. Uma surpresa trágica o espera.

Chegou a vez de Claudius Hermann, que inicia sua história se gabando: “em Londres, ninguém ostentava mais dispendiosas devassidões, nenhum nababo numa noite esperdiçava (sic) somas como eu. O suor de três gerações, derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias...” Numa corrida de cavalos, conhece uma mulher. Apaixona-se. Essa mulher era a duquesa Eleonora. Claudius, então, começa a segui-la até o palácio. Ao encontrá-la dava-lhe narcótico a fim de, uma vez ela em sono profundíssimo, amá-la. Decidiu raptá-la, o que fez após lhe dar um narcótico fortíssimo. Eleonora enfim acorda. Desespera-se: está com um estranho, num lugar estranho. Depois de muitos choros, dramas, relutância, tentativa de convencimento, a duquesa decidiu ficar com Claudius. Aqui parou a história de Claudius Hermann.

“__ E a história, a história? — bradou Solfieri.
__ E a duquesa Eleonora? — perguntou Archibald.
(...)
__ E a duquesa?”

Claudius soltou uma gargalhada. Caiu ao chão. Estava ébrio como o defunto patriarca Noé, o primeiro amante da vinha.

Johann é o próximo, dos amigos na taverna, a contar sua história. Era em Paris. Jogava bilhar com Artur, que venceu o jogo. Mas que encostara, voluntariamente ou não, na bola. Johann olha para ele com raiva, ao que o outro responde com um riso de escárnio. Johann dá-lhe uma bofetada. O moço saca de um punhal. A turma do “deixa-disso” impede o avanço do esbofeteado, que “rasgou nos dentes uma luva e atirou-me à cara. Era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue.” Exagero? Mas é o que acontece. Antes do acontecimento fatídico, do duelo de morte, muitas peripécias, com direito a carta, lágrimas, anel, brindes, bebida — tudo a criar um mistério extra. Enfim, “as pistolas se encostaram nos peitos. As espoletas estalaram, um tiro só estrondou...” Depois de tudo isso, o autor ainda colocou muito incesto na história. Ô Álvares!

Enfim chegamos ao capítulo final de “Noite na Taverna”, de Álvares de Azevedo: “Um beijo de amor”. Surpresas. Surpresas inverossímeis? Mais tragédias, mas essas acontecidas ali, na taverna, entre os amigos contadores (inventadores?) de histórias. Contarei mais não. Leiam. É uma leitura deliciosa, inclusive para os jovens da atualidade, alguns dos quais com suas vidas parecidas com as dos personagens do livro, embora em outro contexto, completamente diferente daquele. É certo que, apesar de escrito por um autor brasileiro, nada possui de literatura brasileira, uma vez que nada ali espelha a história, o espaço, o clima, a vegetação, os costumes brasileiros. No entanto, esse fato não diminui o valor da obra, que é universal, tendo em vista que hoje vários leitores se identificariam (identificarão) com as suas discussões, as tragédias e desventuras ali narradas. Leiam e verão.

Sobre “Macário”

O prefácio de “Macário” é um pequeno tratado de Álvares de Azevedo sobre o drama (o gênero dramático): “Haveria enredo, mas não a complicação exagerada da comédia espanhola. Haveria paixões, porque o peito da tragédia deve bater, deve sentir-se ardente; mas não requintaria o horrível, e não faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar corações cadavéricos, como a pilha galvânica as fibras nervosas do morto! Nessas obras dramáticas, a vida e só a vida! Mas a vida tumultuosa, férvida, anelante, às vezes sangrenta — eis o drama.” Mas esse drama (“Macário”) que aí vai, diz o autor, não é exatamente o espelho de sua teoria, o seu tipo ideal, a sua utopia dramática. É um rascunho.

Mas é um ótimo rascunho, leitor. Nessa espécie de esboço de “obras que seriam mas que não foram escritas”, Álvares de Azevedo cria personagens interessantíssimos, os principais dos quais Macário, Satã e Penseroso. No entanto, embora não dê título à obra, é Satã que rouba a cena, porque é o personagem mais inteligente, mais sagaz, mais irônico. E, pelo menos como pintou Álvares de Azevedo, o mais sensato e racional, que destila sua verdade crua mas verdade. Há, ora nas palavras de Satã, ora nas palavras de Macário, ora nas palavras de Penseroso, tanta verdade e tanta reflexão, dos tipos universais porque hoje ainda elas soam familiares. Vejam:

“É uma coisa singular esta vida. Sabes que às vezes eu quereria ser uma daquelas estrelas para ver de camarote essa comédia que se chama o universo? Essa comédia onde tudo que há mais estúpido é o homem que se crê um espertalhão? (...) A filosofia humana é uma vaidade.” (Macário)

“Quem sabe onde está a verdade? Nos sonhos de poeta, nas visões do monge, nas canções obscenas do marinheiro, na cabeça do doido, na palidez do cadáver, ou no vinho ardente da orgia?" (Macário)

"A vida está na garrafa de conhaque, na fumaça de um charuto de Havana, nos seios voluptuosos da morena. Tirai isso da vida — o que resta?” (Macário)

Bastaria citar vários trechos da obra, diálogos entre Macário e Satã sobretudo, para o leitor ter uma ideia da profundidade e complexidade de “Macário”. A primeira parte da obra (nomeado de “Primeiro episódio — Numa estalagem de estrada”) é simplesmente genial. A segunda parte (“Segundo episódio — Na Itália”) é menos bom, mas quando Satã reaparece em cena, os momentos de reflexão sobre a vida mais deliciosos voltam, e tudo volta a ser genial e prazeroso. Em “Macário” a descrição e a ação são o menos importante; o mais importante são a reflexão e os diálogos entre os personagens: Macário x Satã; Macário x Penseroso. São páginas de filosofia da boa, daquelas despretensiosas mas profundas - sobre a poesia, sobre a esperança, sobre os mistérios das mulheres, sobre a vida.

A partir da leitura de “Noite na Taverna” e de “Macário”, percebe-se que Álvares de Azevedo era um gênio que não aproveitou toda a potência de sua genialidade, pois morreu cedo demais, antes de completar 21 anos de idade. É impossível não tentar pensar no que ele poderia ter escrito, se tivesse vivido mais alguns (ou muitos) anos. Seria ele uma espécie de Edgar Allan Poe, o nosso Poe, com seu veio ultra-imaginativo e suas histórias de amor e morte? Não estaria ele no rol dos maiores gênios da literatura brasileira? São questões que não serão respondidas, mas que instigam os leitores de Álvares de Azevedo e da nossa literatura.

Sobre o autor

Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 1831. Entre as suas obras estão “Lira dos Vinte Anos”, “Pedro Ivo”, “Macário”, “Noite na Taverna” e “O Conde Lopo”. Morreu em 1852. Em seu túmulo, o epitáfio famosíssimo: “Foi poeta, sonhou e amou na vida”.

Lembranças de morrer
Álvares de Azevedo

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde o fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas ...
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta destes flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar dos teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo ...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta — sonhou — e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos.
Deixai a lua pratear-me a lousa!

Sinvaldo Jr. é escritor e crítico literário.