Edição 1845 de 14 a 20 de novembro de 2010
Memória | Tagore Biram
Prólogo
Chegou a hora de incendiar as palavras 
e atiçar fogo na noite escura. 
Ah, erga-se o facho das estrelas 
nesta noite de puro abril: 
eu quero a luz derramada 
sobre a chaga do meu peito 
e a sangria de minhas mãos à mostra. 
E não me venham dizer que não é tempo 
de falar de flores e que 
passou-se o tempo de falar de amores. 
Eu, do meu lado, não me cansei ainda 
de amar com o meu amor desesperado 
(mesmo não havendo intervalo 
no calendário de minhas dores).
Mesmo que me digam: 
“Não é tempo de falar de amores”, 
eu viro as costas e não me importo 
e abro as portas dos meus tumores.
 
Tudo que habita na retina do meu olhar
são os passos largos do barco fundo
no mar imenso do procurar.
Esta noite, sob o manto das estrelas,
erguerei o incêndio das palavras!
Venham todos assistir o grande espetáculo.
Não vês, na vidraça dos meus olhos,
uma colmeia de abelhas? Uma centelha
desesperada, debulhando raios de luz?
Eis o prenúncio de um grande acontecimento.
(Não haverá gozo nem sofrimento, 
mas a explosão da lucidez de um louco).
Venham todos! Vou incendiar o mundo 
com um só dos meus olhares. 
(Eu mesmo sou uma aldeia 
e o meu coração pode matar a sede
de todos os mares).
 
Ah, eu peço pelo amor de Deus ou do demônio: 
Abram as comportas do mundo. 
Façam silêncio por um segundo: 
aqui existe um homem incendiado 
de amor e um coração que vai saltar 
pela janela do peito!