Edição 1870 de 8 a 14 de maio de 2011
Livros
Para leitores diferenciados
Thierry
Gustave Flaubert, autor de “Madame Bovary” e “A Educação Sentimental”,
retratado pelo cartunista francês Thierry: para leitores pacientes

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

Um leitor do século XXI, do ano de 2011, talvez achará difícil a leitura de “A Educação Sentimental”, de Gustave Flaubert. Linguagem muito rebuscada? Palavras difíceis? Orações truncadas? Exageros experimentalistas? Não, não. Simples: o leitor de hoje está acostumado com uma linguagem rápida, com textos em que predominam o enredo e, às vezes, a superficialidade. Por conta de nossa vida corrida, agitadíssima, o leitor de hoje não tem tempo para leituras que demandam mais do que alguns minutinhos. Não é por nada que o leitor de hoje prefere os textos breves. O leitor de hoje não está acostumado às descrições fotográficas dos romances naturalistas e realistas. O leitor de hoje está mais acostumado aos textos caóticos, fragmentados. Será que o leitor de hoje é mais preguiçoso ou apenas fruto de um contexto com suas peculiaridades?

A cena inicial do romance “A Educação Sentimental”, de Flaubert, é a seguinte: em 1840, no cais, um navio prestes a partir sobre as águas do rio Sena. Mas essa seria a descrição de um autor contemporâneo. Como não é o caso, Flaubert descreve a cena de forma a forçar o leitor a enxergar aquele espaço, aquele ambiente, aquele tempo — tudo em seus detalhes. Frederico Moreau, um rapaz de dezoito anos, é um dos passageiros. Na viagem, ele trava amizade com Jacques Arnoux, rapagão dos seus quarenta anos e proprietário da “Arte Industrial”. Entre as passageiras, Frederico se interessa — coincidentemente — pela senhora Arnoux. Eis o ponto de partida, a cena inicial, a introdução do romance.

No capítulo II (os capítulos não são curtos), entra em cena Carlos Deslauriers, jovem de vinte e dois anos, amigo de Frederico desde os doze. No capítulo III, entra em cena — mas logo desaparece, e depois volta novamente — o Sr. Dambreuse, um rico industrial francês. No capítulo IV, entra em cena o boêmio Hossonet, que ambicionava a glória e os lucros do teatro. Num entrar e sair de cena de vários personagens, surgem: Pellerin, um pintor de esboços, apesar dos seus cinquenta anos; Regimbart, que ia de botequim em botequim beber, comer e jogar bilhar; entre outros, importantes ou não para a narrativa.

Após todos os personagens em cena, o que prevalece no romance são o retrato da sociedade e das cidades francesas do século XIX, a narração — com certa ironia — das relações (sempre de interesse?) humanas e as descrições dos personagens. Todos os personagens são razoavelmente ou bem descritos, tanto fisicamente como em seus traços de personalidade. Um dos mais bem desenhados por Flaubert é Jacques Arnoux:

“Com seu furor de lisonjear a opinião pública, desviou de suas vocações os artistas de talento, corrompeu os fortes, esgotou os fracos e deu glória aos medíocres; tudo isso podia fazer graças às suas relações e à sua revista. (...) Recebia dos confins da Alemanha e da Itália uma tela comprada em Paris por mil e quinhentos francos e, exibindo uma fatura que a elevava a quatro mil, revendia-a por três mil e quinhentos, para obsequiar.”

Jacques Arnoux, um fanfarrão (poderíamos dizer), provoca ódio e ao mesmo tempo admiração em Frederico, o protagonista. Ódio porque além de imoral e cara-dura, ele é esposo e ama — o que é pior — a Sra. Arnoux, por quem Frederico se apaixona. Admira Jacques Arnoux exatamente porque ele ama, verdadeiramente, sua esposa, apesar de traí-la viciosamente. Além do mais, Arnoux é um boa-praça. É uma boa alma. É um burguês. É um capitalista. É alguém que acumula e, pouco tempo depois, perde sua fortuna. É um tipo comum em meados do século XIX em Paris. Mas, apesar de complexo, Arnoux é coadjuvante em “A Educação Sentimental”.

Quase toda narrativa gira em torno de Frederico e seus dramas, o principal dos quais sua ânsia por enriquecer e querer frequentar uma sociedade que, sem dinheiro, não frequentaria. Entremeio a esses dramas burgueses, após algum tempo em Paris, ele volta à província, sua cidade, onde estava sua mãe. Por lá ficou alguns anos e conheceu a menina Luisa, filha do Sr. Roque, homem rico que desperta o interesse da mãe de Frederico e, mais tarde, do próprio. Mas enjoa da província e dos provincianos e volta, então, à capital, a Paris. Em Paris, Frederico acumula, faz questão de esbanjar com seus requintes e, então, é assediado, financeiramente falando. É vítima de muitos interesses. Todos, direta ou indiretamente, pedem dinheiro para ele.

Embora apaixonado pela Sra. Arnoux, mulher mais velha e casada, muitas vezes Frederico se vê desestimulado em suas investidas. De raiva, às vezes promete a si mesmo nunca mais voltar à casa dos Arnoux, o que acontece em alguns momentos. A fim de tentar desviar seu pensamento da Sra. Arnoux, Frederico se interessa por outras, essas mais fáceis. O fim do primeiro volume é exemplar. Frederico, após algumas tentativas e indiretas inúteis, se desilude da Sra. Arnoux. Chega em casa e se depara com uma carta de Marechala (amante de muitos) lhe sugerindo novas esperanças e uma boa oportunidade de instigar ciúmes na Sra. Arnoux. Será sua vingança. Será mesmo sua vingança?

No romance, as cenas e as reviravoltas proliferam, os personagens vão e voltam, e tudo parece dar no mesmo — em nada. Inclusive o amor de Frederico. Amor inútil, infértil. Frederico parece não se sentir totalmente satisfeito com nada. Sua falta de confiança o embaraça. O receio de cair no desagrado dos outros o apavora. Ele é como as mulheres honestas, que têm medo de serem descobertas e passam a vida de olhos baixos. Num momento do romance, apesar de Frederico estar numa condição confortável, financeira e socialmente, ele reflete:

“...lembrou-se dos dias já longe no passado em que invejava a felicidade indizível de se achar numa carruagem ao lado de uma daquelas mulheres. Estava de posse daquela felicidade, e nem por isso se sentia mais alegre.”

É a eterna insatisfação humana. Há pessoas, e Frederico parece ser um bom exemplo, que faz de tudo (desde que sem muito suor do seu esforço) para se satisfazer e cumprir os seus objetivos, a maioria dos quais satisfariam a visão da sociedade sobre elas, e não exatamente elas. Não é uma luta para si e por si mesmo; é uma luta por outrem. Flaubert parece, em alguns momentos, querer nos dizer: no final, independente do que fazemos, tudo se direciona para o mesmo lugar - para o vazio -, e continuamos da mesma forma de antes: vazios.

Não pense o leitor que tudo é dito assim de forma explícita, como os narradores contemporâneos o fazem. Não. Os narradores do século XIX não gostam de aparecer tanto. São mais sutis (o que não quer dizer que são melhores). Na maioria das vezes é nas entrelinhas que o leitor percebe (ou não) os significados da obra, as suas críticas, a sua ironia, a perspicácia do narrador. É preciso de atenção. É preciso de tempo. Porém, são coisas simplicíssimas como essas que o leitor contemporâneo não possui. Pela falta de tempo e de paciência não lê obras fundamentais da literatura. Não lê os clássicos. Não lê os monumentos literários. Conforma-se com o supra-sumo da superficialidade literária, que é auto-ajuda travestida de literatura. É a vida.

Há momentos saborosos em “A Educação Sentimental”, como no capítulo I da Segunda Parte, em que há uma narração/descrição, detalhadíssima, de uma festa de pessoas influentes, ou que se consideram importantes e/ou ricas. Das vestimentas até as bebidas, dos tiques até os bigodes, dos assuntos até alguns pensamentos, das paredes até os móveis — quase nada passa despercebido pelo narrador, que quer-porque-quer fotografar o ambiente e lugar, de forma a facilitar (ou dificultar) para o leitor. Outra cena interessante é a narração, em mais de quatro páginas, de um duelo, que não aconteceu. Final — da cena — divertidíssimo.

“A Educação Sentimental” é local de burgueses, arrivistas, socialistas fracassados, boêmios, senhoras de família, moças de pouca virtude, operários, pequenos burgueses, senhores ricos e pedantes. As relações de interesse são, no romance, escancaradas. Ideias — dos personagens — pululam, a maioria das quais não passam de ideias. As revoluções fracassam. O sistema é — sempre — mais forte do que ideias revoltosas, infelizmente (ou não). Alguns personagens se veem, no final, falidos e humilhados.  É a vida. Mas é a vida em seu mínimo detalhe. Não é a vida contemporânea, rápida e superficial. Caótica e fragmentada. As mais de quatrocentas páginas de “A Educação Sentimental” são para leitores pacientes, que estejam dispostos a viajar.

Enfim, Flaubert, com seu romance, entre outras coisas, cria um belíssimo (mas ora irônico, ora maldoso) e detalhista retrato da sociedade, das relações humanas, das paisagens, dos costumes e das cidades francesas do século XIX. É começar a lê-lo e automaticamente se deparar na França de meados do século XIX. É uma viagem. Boa literatura normalmente é uma viagem, mas uma viagem de corpo e alma, e não uma viagenzinha que nem marcas deixa. “A Educação Sentimental” não é para leitores/pessoas que passam pela vida de olhos baixos, com medo de se aprofundarem em si mesmo, nas coisas, na vida. É para os outros, para aqueles que trocariam a leitura de dez obras contemporâneas ruins, superficiais, rápidas (que passam despercebidas) por esse romance lento, bom, complexo em suas tramas, longo. Longo.

Sinvaldo Júnior é professor e crítico literário.