Edição 1928 de 17 a 23 de junho de 2012
Acervo do Estadão
Para a nossa história, para a nossa alegria e para o azar deles
O jornal “O Estado de S. Paulo” disponibilizou todo o seu acervo para consulta on-line. São 137 anos de história. De Dom Pedro II a Dilma Rousseff. Da ditadura militar às Diretas Já. Dos ataques de José Dirceu pedindo a cassação de Fernando Collor em 1992 aos dias atuais em que Dirceu se une a Collor para caçar jornalistas

Carlos César Higa
Especial para o Jornal Opção

O jornal “O Estado de S. Paulo” fez uma coisa maravilhosa no final de maio deste ano. Dis­ponibilizou na internet todo o seu acervo, desde 1875 até as edições atuais. Está tudo ali, a um clique. De Dom Pedro II a Dilma Rousseff passando pelos períodos obscuros das ditaduras de Getúlio Vargas e dos militares. É um acervo riquíssimo que merece a atenção, a visita e a leitura. É bom ver como a censura agiu no jornal. O acervo mostra a página que seria publicada, que foi censurada e como foi publicada.

É interessante perceber as mudanças. Percorrer o acervo do “Estadão” é ver as mudanças do nosso país, da nossa sociedade, da nossa cultura, da nossa escrita, da nossa propaganda, da nossa imprensa. Deve ter dado um trabalhão digitalizar tantas páginas de jornal. Afinal, são 137 anos de história. É “A Província de S. Paulo” virando “O Estado de S. Paulo”. É o Brasil se libertando da escravidão. É a República sendo proclamada. É Getúlio Vargas chegando e depois voltando com mais força. São as guerras que devastaram o mundo. São os artistas que passaram por esta terra embelezando-a, tornando-a mais inteligente, mais interessante. Vale a pena acessar o acervo. Acesse você também que, como eu, é alérgico a poeira que o tempo deixou nos papéis (eu ia escrever folhas, mas aí já estaria falando da concorrência que também tem um acervo maravilhoso) escritos por tanta gente inteligente, por tanta gente provocadora, por tanta gente que acabou se perdendo pelo tempo. Você não vai espirrar e nem ficar com os olhos inchados (talvez fique, mas pelas lágrimas ao lembrar de um passado que se foi).

Já que estamos falando de imprensa e de história, o nobre leitor me dará a licença para fazer um desabafo. Sim, tem a ver com o acervo do “Estadão”, mas aproveito este empreendimento da família Mesquita para externar minha indignação com certos sujeitos. Como a imprensa está apanhando este ano, não? Há um tempo, a “Rede Globo” era a Geni do momento. Todo progressista atacava a “Globo” porque a emissora do “Dr. Roberto” seria a grande manipuladora do povo, a golpista. Mas, de uns tempos para cá, a “Globo” ganhou uma adversária de peso. A Geni do momento é a revista “Veja”. Os progressistas agora miram seus canhões fétidos para o prédio da Editora Abril. Li certo jornalista escrever que, se não tivesse amigos trabalhando no prédio da editora, torceria para que ele caísse. É, pessoal, tem gente que pensa assim. A internet é maravilhosa porque nos permite ter acesso a todo o acervo do “Estadão”, mas também permite a escrita e a leitura de certas barbaridades.

É ridículo e asqueroso ver ex-funcionário falando mal do patrão. E é isso que está acontecendo. Jornalistas, a maioria demitidos, descem o sarrafo nos antigos patrões. Se a “Veja” publica alguma reportagem, estes incompreendidos (afinal, se falam mal do patrão é porque são tão gênios que o chefe não conseguiu compreender ta­manha genialidade) logo começam a escrever suas barbaridades. Não questionam a matéria em si. Não apontam discordâncias ou erros nas reportagens ou nos artigos que saem na revista. Dis­cordar desta ou daquela re­portagem é natural, faz parte do jogo. O que teve de jornal e revista que debochou (e ainda debocha) do Papa Bento XVI não está escrito. Eu como católico vou fazer o quê? Mas fazer acusações sem pé nem cabeça aí é passar dos limites. Acrescentar zeros à direita na quantidade de telefonemas que o chefe de redação da “Veja” fez para o bicheiro Carlos Cachoeira (que um dia foi tão afagado pelos colunistas sociais) e acusar a revista de estar ligada à rede do bicheiro é de uma safadeza sem limites. E não é só ex-jornalista que trabalhou na revista dos Civita que fala mal dela. Até o ex-editor que adora bater no peito e dizer que foi ele quem fundou a revista desce o sarrafo nela.

Estamos desaprendendo a discordar e aceitar críticas. Aqueles que se dizem “críticos da sociedade” ou defendem uma “sociedade crítica” são os primeiros a subir nas tamancas quando alguém discorda de suas ideias. Estamos perdendo o espaço para o debate, a troca de ideias, a discursão está virando um ringue. E o pior de tudo é que tem gente que apoia esta campanha sórdida contra a imprensa. An­tigamente era o Orkut, com suas comunidades, o canal de desabafo da rebeldia. Hoje é o Facebook (e daqui alguns anos será outra rede social). Com­partilham e curtem este ódio contra a imprensa. Mui­tas vezes nem leem a reportagem que o jornalista progressista tal criticou e já compartilham.

Ao criticar o ódio à imprensa, esta campanha suja e sórdida financiada com dinheiro de estatais, não estou querendo dizer que a imprensa sempre foi, sempre é e sempre será a verdade. Muito pelo contrário. A imprensa erra sim, às vezes erra feio. Mas não quero que um bando de jornalistas frustrados, cuja genialidade ne­nhum ex-patrão captou, dite o que o leitor deve ler ou não. Protesto contra esta gente que se arvora no direito de escolher qual revista é boa e qual é a ruim. Deploro este bando que não sabe debater ideias, que não sabe contestar com argumentos uma reportagem que sai na imprensa. Condeno aqueles que forjam documentos e declarações só para mostrar que a concorrente é ligada ao bandido do momento. Em 2008 disseram que a “Veja” estava a serviço de Daniel Dantas. Quatro anos depois falam que a mesma revista está a serviço de Carlinhos Cachoeira.

Quem deve vigiar a imprensa é o seu leitor. É aquele que assina a revista que deve ser o grande fiscalizador. Se você é assinante da “Veja” e não está gostando da conduta dela no caso Cachoeira, cancele a assinatura ou escreva uma carta à revista. Em 2002 conheci a “CartaCapital”. Achava uma maravilha os editoriais do Mino Carta atacando Fer­nando Henrique Cardoso e elogiando Lula. Tenho num armário um bocado de edições da revista. Parei de ler em 2005 quando vi que Mino estava defendendo o PT na época do mensalão. Ele não queria a penalização de todos os mensaleiros. Ele queria que só os tucanos que se envolveram com Marcos Valério fossem punidos. Foi aí que parei de comprar a revista. E pelo que li, Mino Carta puxa aquilo-roxo de quem está no poder desde a época em que os militares ditavam as ordens no Brasil. Jor­nalismo de aluguel, que aceita qualquer pagamento do governo para tecer elogios e atacar adversários.

O que esta gente má intencionada não quer é a existência de uma oposição. O que eles não querem é que uma revista ou um jornal divirja do governo, ou aponte as irregularidades que ministros sem nenhum tipo de escrúpulos estão cometendo na Esplanada. Se depender deste bando de jornalistas rancorosos, o mal não está na corrupção (porque, segundo eles, isso existe desde Cabral, o primeiro, porque o segundo descobriu Paris) e sim na revista ou no jornal que de­nuncia.

Eu já fui blogueiro. Tinha consciência da inutilidade da minha página tanto que meu lema era um trecho de uma música dos Beatles, “Now­here Man”: “Making all his nowhere plans for nobody”. Ali eu criticava políticos, dava minha opinião, comemorava as vitórias do São Paulo. Aí, certo dia, me descobriram. Co­meçaram a me xingar. Ques­tionar o que escrevi? Nada! Eu só era imbecil porque discordei de alguma coisa. Por falar em blogs, José Dirceu, o guerrilheiro de festim (apelido criado pelo ácido Augusto Nu­nes), escreveu um artigo publicado no jornal “Diário da Manhã” sobre a blogosfera. Destaco um trecho: “O fato é que a blogosfera incomoda, e muito, aqueles contrários à formação de espaços plurais de informação, capazes de favorecer a cidadania. Não só no Brasil, mas em países como EUA, Espanha e Argentina os blogs surgiram para romper o silêncio, muitas vezes cínico, imposto pela grande mídia”. Diferentemente do Roberto Jefferson, José Dirceu não desperta em mim os instintos mais primitivos, mas me divirto muito lendo seus textos. Ele reconhece que os blogs são importantes para a cidadania, não é? Citou até outros países onde a blogosfera rompe o silêncio da grande mídia. E Cuba, meu rei? O que o Zé tem a nos dizer sobre a blogueira cubana Yoaní Sánchez? O blog dela não serviria para romper o silêncio imposto pela mídia oficial dos irmãos Castro? Blog cidadão é só o blog que aplaude José Dirceu, é lógico, e o Brasil que nasceu depois de 2003. Eu não queria ser cidadão no país do Zé.

Fernando Collor de Mello é outro que tomou gosto em bater na imprensa. Vinte anos depois do impeachment, ele é aliado do partido que ajudou a botá-lo para fora do Palácio do Planalto. Dia desses Collor queria que Policarpo Júnior, redator-chefe da “Veja”, comparecesse à CPI do Cachoeira para explicar suas possíveis ligações com o bicheiro. Por mais que o delegado da Polícia Federal tenha confirmado duas ligações do jornalista com o bicheiro, a conversa foi de jornalista para fonte. Mas Collor estava com “aquilo-roxo” e queria até Roberto Civita na CPI. E não é que, semanas depois, José Dirceu escreveu um artigo exigindo explicações da “Veja”? Quem diria, vinte anos depois, Fernando Collor de Mello e José Dirceu entrando num acordo. Não vou estranhar se o Zé disser que o impeachment de Collor foi um golpe da imprensa.

Mas, para a nossa história, para a nossa alegria e para o azar dessa gente que só sabe expelir ódio contra a imprensa, o acervo do “Estadão” está no ar. Navego todos os dias. Navegue você também. Verá que muita gente esperta continua negociando cargos públicos, que os éticos do passado são os que hoje pregam que a corrupção sempre existiu, que sempre foi assim. Reveja as acusações contra Fernando Collor de Mello. Relembre a atuação de José Dirceu na CPI do PC Farias. Faça esta viagem no tempo. Confira a forma como o “Estadão” cobriu tal acontecimento, pense, reflita por si mesmo e não seja influenciado por pessoas que não sabem contra-argumentar, mas sabem adulterar documentos para acusar a concorrência. Que a imprensa seja livre! Que o leitor escolha o melhor jornal ou a melhor revista para ler. Que o telespectador escolha qual canal é melhor para ele e sua família. Que o internauta escolha os sites que considerar adequados. Aqueles que querem ditar normas para a imprensa no Brasil são os mesmos que alisam as barbas de Fidel Castro, o homem que passou 50 anos censurando a imprensa do seu país.

Para fechar este artigo, uso um trecho de um texto que um certo José Dirceu de Oliveira e Silva escreveu na orelha do livro “Todos os Homens do Presidente”, de Gustavo Krieger, Luiz Antônio Novaes e Tales Faria. O livro fala sobre o caso PC Farias e Collor. Dirceu era deputado federal na época e integrante da CPI que investigou as farras do tesoureiro do caçador de marajás. “Pela primeira vez na história do Brasil esse sentimento de revolta contra a impunidade encontrou eco no parlamento e cresceu até tomar conta de todo o país. A CPI só saiu do papel graças à pressão da sociedade organizada e as denúncias da imprensa, que deram sustentação a luta quase quixotesca que parlamentares travavam contra a corrupção no governo federal.” O texto foi escrito em 1992. Vinte anos depois, “as denúncias da imprensa” são tratadas agora pelo governista José Dirceu como calúnias e tentativas de golpe. E o que é mais engraçado (porque no Brasil nada é estranho e sim bisonho), Dirceu se une a Collor para caçar jornalistas. Como Lula e Dirceu querem melar o julgamento do mensalão tentando impor à sociedade que os trambiques dos petistas e aliados foram armações da imprensa, não vai demorar muito para que José Dirceu, que agora é amiguinho de Collor, escreva um artigo dizendo que o impeachment também foi um golpe da imprensa. Por isso, leitor amigo, acesse o acervo do “Estadão”. Quando chegar à crise política de 1992, veja de que lado estavam Collor e Dirceu. Que bom que o grupo “Estado” teve esta iniciativa. Para a nossa história, para a nossa alegria e para o azar deles.

Carlos César Higa, historiador, é mestrando em história pela Universidade Federal de Goiás