Edição 1865 de 3 a 9 de abril de 2011
Notas musicais
Paêbirú — parte de uma sinfonia chamada “Lula Côrtes”
Diego de Moraes, músico
Acervo MIS

“Vocês que fazem parte dessa massa que passa nos projetos do futuro” talvez não saibam que o Zé Ramalho — aquele mesmo que, vira e mexe, bate o ponto na Atlanta Music Hall e que importunou muita gente, juntamente com Chitãozinho e Xororó, com o péssimo verso: “o sinônimo de amor é amar”, difundido numa novela global - é coautor do venerado “Paêbirú” (1975), um dos vinis mais caros da música brasileira. Sim, o autor de “Garoto de aluguel” tem uma obra interessantíssima a ser descoberta pelos aficionados em música que não dizem “amém” para a premiação do Faustão. Então. O raro “Paêbirú” é uma das obras primas do trovador Zé Ramalho e de outro pernambucano genial: Lula Côrtes, um dos maiores espíritos do rock'n'roll brasileiro. Poizé. Comecei falando do Zé pra isso: chegar no Lula, que “nunca antes na história desse país”, foi tão comentado como nos últimos dias — chegando ao topo do twitter, no sábado “retrasado” (26/03), quando se propagou a triste notícia... “Lula Côrtes (cantor, compositor, escritor, pintor, mito) faleceu em decorrência de um maldito câncer na garganta”. Como diz o Márcio Júnior (Mechanics): “quem tá rock é pra se foder”. Mais um gênio se vai, deixando suas “considerações extemporâneas”.

Rock psicodélico, jazz e música pernambucana, ingredientes presentes em “Paêbirú”, disco que merece destaque pra quem sabe, assim como Johnny Alf sabia, que “música é som”. Independente das besteiras que eu diga, a experiência de ouvir o misterioso “Paêbirú” traz a sensação de estranhamento, que toda grande obra de arte incita. Cheio de nuances, loucuras sonoras, mas com uma ideia geral bem amarrada — imagina: um disco duplo em que cada lado tem um conceito (terra, ar, fogo, água) — se notabiliza como um dos grandes discos experimentais do Brasil. Já no lado A (“terra”), repleto de climas: por exemplo, após um batuque tribal, entra, próximo aos 9 minutos, um piano singelo proseando com um flauta que prossegue o papo com uns violões de aço e um baixo setentista. Esse baixão encorpado do rock dos anos 70 se mesclará com o canto dos repentistas, na canção “Pedra Tempo Animal”, do “lado água”, o último lado deste LP. Permeado por temas instrumentais (como o dedilhado de “Harpa dos Ares” — viagem de Geraldo Azevedo com a dupla Côrtes & Ramalho, que me traz uma paz de espírito, tão em falta no mercado, hoje) e por letras místicas que tocam em temáticas religiosas, o disco tem a áurea de mistério. Se você, assim como eu, não tá podendo pagar R$ 2.500, no mercado livre, pela edição original de “Paêbirú”: podemos encontrá-lo disponível para download logo ali na bendita internet. Recomendo escutá-lo no foninho de ouvido, pra sentir o “estéreo” — os sons passando de um fone para o outro, ok?

Bom. Já que “não se pode entender sabendo pouco”, Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim iniciaram uma saga para registrar a mitologia por traz de “Paêbirú”, antes que um gringo, à la David Byrne, se apropriasse dessa história brasileira. Esses dois camaradas são responsáveis por grande parte da divulgação e do reconhecimento desse disco clássico, nos últimos anos. O filme “Nas Paredes da Pedra Encantada”, iniciado em 2009 (após Cristiano Bastos fazer uma matéria para a “Rolling Stone Barsil” e perceber que aquela história dava mais pano pra manga), estreará no próximo dia 30 de abril, no Festival Internacional do Documentário Musical In-Edit Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Esse filme redimensiona o gênio de Lula Côrtes na história da música brasileira. Segundo Cristiano Bastos ( @cristianobastos ) a presença de Lula Côrtes estava confirmada na estreia, em São Paulo. Leonardo Bomfim observou em seu twitter ( @freakium ): “Até sábado (26), era o disco de Zé Ramalho e Lula Côrtes. Agora é o disco de Lula Côrtes e Zé Ramalho”.

O inquieto Lula Côrtes, que não procurava apoio em leis de incentivo, era um questionador bem humorado da política cultural de Pernambuco, da ação da Omb e, entre idas e vindas, vendia seus quadros e livros, dizendo “A alternativa sou eu mesmo”, mantendo o espírito independente. Polêmico, arrematava: “o trabalho que eu fiz com Zé foi ele trabalhando comigo”. Produzia freneticamente e deixou vários discos inéditos. Entre seus vários livros de prosa e poesia, tem um chamado “Bom Era Meu Irmão, Ele Morreu, Eu Não”. Fico aqui, aguardando a publicação da obra póstuma desse cara que dizia: “Eu resolvi fazer da minha vida inteira uma peça musical... uma sinfonia”.