Edição 1872 de 22 a 28 de maio de 2011
Livros
Os ensinamentos de Poe
“Filosofia da Composição” traz um ensaio onde Edgar Allan Poe, analisa o poema “O corvo”, se deslocado do papel de autor para o de crítico. Além da versão original em inglês, o livro traz duas traduções do poema para a língua portuguesa, uma de autoria de Fernando Pessoa e a outra de Machado de Assis
Flickr

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

Embora teoricamente as lições de Poe em sua “A Filosofia da Composição” não tenham sido escritas tendo em vista a análise de um texto nem a escrita de uma resenha, mas sim a escrita de um texto literário, façamos das suas palavras as nossas - comecemos por lá, por trás, pelo final, pela análise do final do livro: pela tradução de “O corvo” de Machado de Assis.

Conheci o poema de Allan Poe por meio da tradução de Machado de Assis. E gostei bastante. Gostei muito exatamente pelo efeito que me causou. Lembro que fiquei extático e estático ao fim da minha leitura. Ou seja, tanto Poe, com seu poema, quanto Machado de Assis, com sua tradução, conseguiram a proeza de me emocionar.

Segundo o próprio Poe em “A Filosofia da Composição”, “não é preciso demonstrar que um poema só é um poema se ele conseguir nos afetar intensamente, elevando a alma”. Ponto para o poema, para Poe e para Machado de Assis - por sua tradução —, porque todos cumprem, creio eu, o objetivo primeiro: emocionar o leitor.

Tudo leva a crer que Machado de Assis, ao traduzir “O corvo” de Poe, objetivava maiormente reconstruir o poema de tal forma que o prazer da leitura permanecesse em sua transposição para a língua portuguesa. Assim, a tradução de Machado compromete — provavelmente de maneira consciente — a estrutura original do poema, e muito, em detrimento dessa “excitação ou elevação”, desse “grau de efeito realmente poético”, dessa “intensidade”, sobre os quais Poe discorre tanto.

Mas que “efeito imensamente importante que deriva da unidade de impressão” é esse? O que significa, para Poe, emocionar o leitor? E unidade de impressão, o que é?

De acordo com ele, esse “prazer que é, ao mesmo tempo, o mais intenso, o mais elevado e o mais puro é (...) encontrado na contemplação do belo”. E beleza, para Poe, não é uma qualidade, mas um efeito (aquela intensa e pura elevação da alma). Assim, a emoção ao se ler um poema advém desse efeito conseguido por meios que melhor se adaptem à sua consecução. Esses meios utilizados devem necessariamente, se muito bem pensados e elaborados, resultar nessa unidade de impressão.

Uma vez que o inglês e o português são línguas bem distintas, “as combinações de eventos, ou de tom”, ou seja, os meios usados por Machado de Assis a fim de obter essa emoção no poema são um pouco diferentes das usadas por Poe. O trocaico, o octâmetro acatalético, o heptâmetro catalético e o tetrâmetro catalético são trocados por Machado de Assis por outros “aicos” “éticos” e “âmetros”. A estrofe de seis versos do poema original, em inglês, se transforma em estrofe de dez versos na tradução de Machado. O esquema inconstante de rimas do poema original se transforma num constante AABBCCDEDE na versão de Machado.

No entanto, o mais importante é que ao término da leitura da tradução de “O corvo” por Machado de Assis, ficamos assim meio enlevados, impressionados, excitados, certos de que acabamos de ler uma obra-prima.

O corvo de Fernando Pessoa

Devo confessar que gosto muito mais da tradução de Machado do que a de Fernando Pessoa, e não tem nada de ufanista nessa escolha. A razão é aquela discutida antes: a capacidade de um poema, ou de uma obra literária qualquer, emocionar o leitor.

É certo que a estrutura da tradução de Fernando Pessoa condiz muito mais com a sua versão original. Assim como “The raven” no original, todas as estrofes de “O corvo” de Pessoa possuem seis versos. Em Pessoa, há a repetição da mesma palavra no final do quarto e do quinto versos em todas as estrofes, o que acontece na versão de Poe. No entanto, Fernando Pessoa é menos empolgante que Machado de Assis. Fernando Pessoa, a meu ver, subestima em sua tradução aquele “enredo”, aquele “espaço”, o próprio “narrador” e a “protagonista” (Lenore) dos quais Poe tanto falou em sua “A Filosofia da Composição”.

Um detalhe que mais me incomoda na tradução de Pessoa é a ausência do nome da amada do “narrador” do poema/história. No poema de Poe, “Lenore” aparece oito vezes; na versão de Fernando Pessoa, nenhuma. Ou seja, o que é de suma importância para o entendimento do “enredo” do poema — a “personagem” “Lenore” — desaparece por completo na tradução do poeta português. O nome dela é substituído por pronomes e expressões obscuras. Restam assim, em Fernando Pessoa, apenas algumas sugestões da “Lenore”.

“A amada”, “essa cujo nome sabem as hostes celestiais”, “sem nome aqui”, “o nome dela”, “ela” (em itálico), “o nome da que não esqueces” são as expressões e termos que substituem, na tradução de Pessoa, o nome “Lenore” (Lenora, na tradução de Machado de Assis). Me escapa a razão desse artifício usado por ele. Freud deve explicar.

É óbvio que Poe conta uma história em versos. Usa de recursos líricos (versos, estrofes, ritmo, rimas etc.) a fim de contar uma belíssima história de amor, de saudade e de sofrimento. Minha impressão final é a de que Machado de Assis entende melhor as razões e o objetivo de Poe (emocionar) e, em consequência, valoriza mais o conteúdo, a impressão a causar, o efeito, a construção da emoção. Fernando Pessoa, ao contrário, valoriza mais a estrutura do poema e, assim, constrói um poema esteticamente mais perfeito, mais semelhante ao original em sua forma, mas menos arrebatador.

Clímax do poema “The raven”

“Prophet! said I, “thing of evil - prophet still, if bird or devil!

By that Heaven that bends above us - by that God we both adore

Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,

It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore —

Clasp a rare and radiant maiden whom the angels named Lenore?”

Quoth the raven, “Nevermore”.

Autoajuda,
por Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe inicia seu ensaio sobre seu próprio poema “The raven” discorrendo sobre a vantagem de se começar uma obra literária pelo final. Porém, o final criado por Poe não condiz exatamente com a última estrofe do poema (o epílogo, o desfecho), mas sim com o clímax, o seu ponto máximo, o momento mais dramático: a antepenúltima estrofe.

De acordo com ele, uma vez pronto o final, tudo o que virá a ser escrito deve contribuir para a ideia de consequência, de causalidade. O final é o objetivo a ser alcançado, mas como esse objetivo já foi alcançado resta agora criar os incidentes, as intrigas, o enredo que explicará de forma verossímil aquele ponto culminante da obra, aquele momento em que o leitor mais se enleva.

Outra coisa importantíssima para Poe é a originalidade. Os escritores jamais devem subestimar aspecto tão importante numa obra literária. Para ele, a originalidade não é fruto de um impulso, de uma intuição, mas de um trabalho árduo, e para alcançá-la é necessário mais negação do que invenção. Ou seja, não é preciso reinventar a roda, mas é possível encontrar novas funções para ela além daquela mais óbvia — rodar.

Em “A Filosofia da Composição”, Poe nos faz crer que cada detalhe do seu poema foi pensado e repensado. Escrito o final e crente da importância da originalidade, Poe explica em seu ensaio outros aspectos escolhidos de antemão: a extensão do poema (não muito longo, de forma que seja possível lê-lo em apenas uma assentada); o efeito a causar (conseguido por aquela unidade de impressão, que por sua vez é facilitado pela brevidade do texto literário); o tom do poema (no caso de “The raven”, o da tristeza, a melancolia, algo que “leva, invariavelmente, a alma sensível às lágrimas”).

Mais à frente, com a continuação da leitura do ensaio de Poe, percebemos que insights aparentemente espontâneos lhe surgem em relação à escolha do que usar ou não usar em seu poema. Quais efeitos artísticos empregar? Desponta-lhe espontaneamente (será?), ao pensar na palavra que seria o seu refrão, o uso do “o”, a mais sonora vogal, e o “r”, a consoante mais aproveitável. Em consequência, também lhe surge “espontaneamente” a palavra “nevermore”.

Feitas as escolhas anteriores, o corvo lhe parece a ave mais adequada ao tom pretendido do poema, além do que é um bicho capaz de falar, de forma que poderia repetir, por algum motivo, a palavra “nevermore” em cada final de estrofe. Outra conclusão evidente a que Poe chegou é a escolha da Morte como temática principal e, a fim de ser mais poético, a morte de uma bela mulher. Depois, com a finalidade de juntar o corvo e o amante no mesmo local, ele conclui que um local fechado seria o mais apropriado para o efeito aspirado.

Assim, “um corvo, tendo aprendido por repetição as palavras “nunca mais” (nevermore) e tendo escapado da custódia do seu dono, é levado à meia-noite, pela violência de uma tempestade, a entrar por uma janela onde uma luz ainda brilha — a janela do quarto de um estudante, debruçado sobre um livro, sonhando com a amante morta”. O resto da história do poema quase todos conhecem. Para os que não conhecem, leiam.

É mais do que certo que “A Filosofia da Composição”, de Poe, além da sua função óbvia - explicar a elaboração da própria obra, o poema “The raven” —, serve como uma espécie de texto de auto-ajuda para os novos escritores. Em resumo, os seus preceitos gerais são algo como: “Comece seu texto literário pelo final; não subestime a importância da originalidade; emocione o leitor; tenha consciência do efeito pretendido com seu texto; escolha a extensão, o tom, a linguagem, a temática do seu texto literário a partir do efeito aspirado; tenha total domínio dos recursos artísticos existentes.”

Muitos escritores, se lessem e aplicassem os preceitos de Poe, não escreveriam textos literários tão insossos. No entanto, embora essas prescrições gerais possam ser úteis, é preciso não se esquecer que a originalidade é que caracteriza um escritor, o seu estilo, diferenciando um do outro, o gênio do medíocre. Por outro lado, talento mal moldado/usado é inútil. Outra: só há texto quando há leitor; assim, é a impressão dele a mais importante para legitimar o texto. Há leitura mais vã do que a de uma literatura que não emociona, não enleva, não incomoda, não proporciona reflexões — que de alguma forma não entretém?

Mas eis a questão

No entanto/enfim, eis que surge uma dúvida em relação ao ensaio “A Filosofia da Composição”, de Poe — será ele de fato fruto de uma necessidade (ou extravagância) de explicar o surgimento e, detalhe por detalhe, a minuciosa elaboração da própria obra? Sendo assim, esse texto serve como desmistificação da tão super(sub)estimada inspiração ou espontaneidade? Nada pode, na obra analisada pelo ensaio, ser atribuído a acidente ou intuição?

Ou, ao contrário e ironicamente, é um exercício de humor (extravagância...) do autor que, uma vez com sua obra escrita-revisada-trevisada-e-pronta, decide criar um texto (outro) explicitando o pseudo-árduo-trabalho necessário para criá-la? Será, de fato, o poema “The raven” fruto de uma pré-elaboração, de uma precisão e de uma rígida construção matemática?

Mas aí voltamos àquela grande questão que perpassa todas as épocas da humanidade, sempre curiosa por descobrir quem surgiu primeiro — o ovo ou galinha?

Sinvaldo Júnior é professor e crítico literário.

Compare trechos de duas traduções do poema "O corvo", de Edgar Allan Poe

Tradução de Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu queria a madrugada, toda a noite aos livros dada
Pra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
“É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.