34 anos
Filmes
O vale-tudo dos bastidores da política
Em “Tudo Pelo Poder”, o democrata George Clooney usa a política para falar de moralidade, a linha tênue entre fazer o certo ou o melhor para si mesmo
movieweb.com

Tacilda Aquino
Especial para o Jornal Opção

Este ano não haverá primárias do Partido Democrata para as eleições americanas. O circo das primárias ficará por conta do Partido Re­publicano na busca de um nome forte para disputar a presidência com Barack Obama, candidato à reeleição pelos democratas. Ao todo são 50 primárias a serem realizadas até agosto, quando uma convenção do partido define oficialmente o nome de quem enfrentará Obama.

Mas quem quiser conhecer um pouco dos bastidores de uma campanha política dos democratas americanos pode conferir “Tudo pelo Poder”, de George Clooney. Adaptando peça de Beau Willimon, também corroteirista, o filme retrata os bastidores da campanha política de um governador democrata, Mike Morris (Clooney), tentando conseguir a indicação de seu partido para concorrer à presidência.

Esta é a quarta vez que Clooney incursiona por trás das câmaras. Ele comandou as produções “Confissões de uma Mente Perigosa” (2002), “Boa Noite e Boa Sorte” (2005) e “O Amor Não Tem Regras” (2008). Forte candidato neste ano ao Oscar de melhor ator por “Os Descendentes”, longa ainda inédito de Alexander Payne, George Clooney também reafirma em “Tudo pelo Poder” seu talento por trás das câmeras — a produção foi indicada a quatro Globos de Ouro: melhor filme (drama), ator, direção e roteiro.

O mais interessante do filme é que Clooney, um democrata declarado que contribuiu e deverá contribuir financeiramente para a campanha de Barack Obama, centrou os ataques de “Tudo Pelo Poder” em seu próprio partido, poupando os adversários republicanos. Com uma crítica sobre os limites do possível para o idealismo no mundo da política, o filme coloca o canadense Ryan Gosling como protagonista. Ele é Stephen Meyers, integrante da equipe de comunicação, liderada pelo ardiloso Paul (Phillip Seymour Hoffman), do governador Mike Morris (George Clooney), um político relativamente novato com grandes chances de ser o escolhido, graças ao seu estilo liberal. Seu concorrente, o senador Pullman (Henry Mantell), apesar de experiente, é visto como conservador e tem menos apelo junto aos eleitores mais jovens. Novato e idealista, Meyers veste a camisa do candidato, que vem seduzindo as massas por seu discurso igualitário e liberal.

Carneiro entre leões, Meyers resiste bravamente, até porque acredita estar do lado certo, ou seja, do candidato mais honesto e dotado de qualidades. Nada como um choque de realidade para por à prova tudo em que acredita, inclusive sobre si mesmo. Este choque acontece na concorrida prévia no Estado de Ohio, considerada decisiva: quem vencê-la tem fortes chances de disputar a eleição presidencial pelos democratas.  Meyers, articulador cheio de promessa cai em uma armadilha, que desencadeia uma sucessão de imprevistos desastrosos que, eventualmente, chegam à vida pessoal de Morris, podendo custar o futuro político do governador.

Economia, sobriedade e elegância estética marcam a forma com que Clooney constrói um painel perturbador do jogo de forças na política norte-americana, no qual nem sempre bastam propostas sólidas e bem-intencionadas, se houver o risco de o candidato contrariar o que se espera de um líder. Com esses ingredientes, Clooney fala de moralidade, a linha tênue entre fazer o certo ou o melhor para si. Uma série de embates feitos com diálogos cortantes, roteiro esculpido com cuidado. As situações vividas pelo político passeiam entre ficção e realidade, aproximando-se de algumas vividas pelos ex-presidentes John F. Kennedy, Bill Clinton e até o atual, Barack Obama.

Com um elenco extremamente talentoso, que mescla veteranos e jovens promissores de Hollywood, Clooney conduz a narrativa com segurança e clima cético, não deixando de pé muitas ilusões. Ryan Gosling interpreta com segurança um personagem que faz a transição mais dramática de todos e consegue brilhar, apesar de cercado por veteranos do porte de Philip Seymour Hoffman — Oscar de me­lhor ator por “Capote” — e Paul Gia­mat­ti — indicado ao Glo­bo de Ouro de Melhor Ator por “Side­ways — Entre Umas e Outras” (2004) e ao Os­car de Melhor Ator coa­djuvante por “A Luta pela Esperança” (2005).  E é claro, o próprio Clo­oney. O elenco tem ainda Marisa Tomei (Oscar de Coadjuvante por “Meu Primo Vin­ny”) como uma re­pór­­ter do “New York Times”. E tem, de quebra, o talento e beleza de Rachel E­van­ Wood em um papel decisivo para a história do filme.

Tacilda Aquino é jornalista com especialização em Cinema e Educação.