34 anos
Entrevista|Edival Lourenço
“O texto como metáfora”
Quase duas décadas depois de lançar “Centopeia de Neon”, o escritor Edival Lourenço faz nova incursão pelo romance com “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, que sai por um selo nacional
Nelson Santos
Edilval Lourenço, autor de “Naqueles Morros, Depois da Chuva”

Carlos Willian Leite

Escritor e advogado, Edival Lourenço talvez seja o maior nome da literatura goiana atual. Na terça-feira, 31, lança pela Editora Hedra, de São Paulo, seu segundo romance: “Naqueles Morros Depois da Chuva — Jogo do Diabolô”, que narra um importante período da História de Goiás. O bandeirante Anhanguera, descobridor do ouro, tornara-se intendente das minas. Por se achar muito velho e sem tropas que lhe dessem suporte, a desordem e o contrabando imperaram na região. O rei de Portugal mandou um novo governador para restabelecer a ordem e implementar a mineração. Esse é pano de fundo da obra. Edival Lourenço afirma que encontrar o tom da linguagem foi mais difícil do que a pesquisa histórica, e que acredita ter conseguido contar a história de uma forma criativa, de modo não convencional, dando verossimilhança aos fatos do século XVIII.

Depois de quase três décadas, prêmios importantes, e certo reconhecimento como escritor, “Naqueles Morros Depois da Chuva”, é o seu primeiro livro que sai por uma grande editora, por que foram necessários quase 30 anos para que isto acontecesse?
Não sei que nome daria a esse fenômeno, mas são vários fatores que levam um escritor de província a não ultrapassar as fronteiras de seu rincão. Talvez seja timidez. Mas há teses de que existe certo determinismo geográfico, uma supremacia dos maiores centros sobre os menores. Um escritor de São Paulo que escreva uma obra com qualidades semelhantes a de um outro de Nova York está fadado a não ter a mesma repercussão do americano. O mesmo acontece com um escritor goiano em relação a um paulista ou carioca. Um escritor de Goiás para repercutir no eixo Rio-São Paulo terá de  fazer um esforço extraordinário. É um caminho de mão única: a obra deles chega até nós como que por gravidade; a nossa não chega a eles nem por açoite de atiradeira. Nos tempos de comunicação global e redes sociais era para esse determinismo já ter desaparecido, pois alguém residindo em Iporá ou na Ilha de Manhattan tem acesso ao mesmo tipo de informação, com vantagem para quem mora em Iporá, que terá mais tempo disponível em razão das facilidades dos meios de transporte.  De qualquer forma realmente existe uma barreira intangível, que Gabriel García Márquez chama de “sombras da província”. Me parece que para superar essas sombras é preciso deixar sua cidade, seu Estado e às vezes até seu país, tornar-se um cidadão do mundo (um conceito já superado) para que sua obra chegue ao eixo Rio-São Paulo, onde estão as grandes editoras, como que voltando da Europa ou dos Estados Unidos. Só aí é que sua obra terá uma distribuição nacional. Como isso não combina muito com meu temperamento, nunca saí de Goiás nem fiz grandes gestões lá fora. Assim minha obra foi ficando nos limites da província, embora tenha conquistado prêmios em outras regiões. Como costuma dizer Bariani Ortêncio, é muito difícil para um goiano saltar o Paranaíba. Com este romance, com a ajuda de amigos que têm relacionamentos na Hedra Editora, consegui que meu livro fosse visto e lido pelo editor Bruno Costa e, como parece que foi amor à primeira vista, só agora estou dando um passo importante para saltar o Paranaíba. Mas outro fator que me deu disposição para procurar uma editora de porte foi o patrocínio da Petrobrás e da Caixa-Seguros, via Lei Rouanet. Sem isso talvez eu não tivesse me animado. Pensando bem, essa demora foi até providencial, porque pude passar 30 anos lendo, refletindo e desenvolvendo o meu estilo, o meu jeito de escrever, sem alguém me cobrando o término da obra ou exigindo que eu abrisse concessão para atender esse ou aquele público-alvo da editora.          

“Naqueles Morros, Depois da Chuva” mistura elementos históricos e ficção. Qual foi o seu limite como criador, entre a realidade e a invenção e qual foi a base histórica do romance?

A base histórica do romance é o período que vai de 1739 a 1743, quando o governador de São Paulo (Dom Luís de Assis Mascarenhas) administrou a província residindo em Vila-Boa de Goiás. Vale lembrar que aqui era São Paulo. A ordem do Rei de Portugal era fazer o ouro jorrar em grande quantia para honrar os compromissos da Coroa com a Igreja e com a Inglaterra. Compulsei inúmeras obras e documentos relativos ao período. Comecei pela “História das Bandeiras Paulistas”, de Afonso D. Taunay. Passei por Silva e Sousa, Pereira de Alencastre, Paulo Bertran, Laura de Melo e Sousa (“Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa”) e vários outros. Na verdade devorei pilhas e pilhas de livros na tentativa de entender o comportamento dos meus personagens. Vasculhei documentos trasladados da Torre do Tombo e do Conselho Ultramarino para a Sociedade Goiana de Cultura (mantenedora da PUC-Goiás). Além das pesquisas a livros e documentos, fui aos locais dos antigos garimpos em Vila-Boa, Crixás, Niquelândia, Traíras (onde o governador anterior morreu de febre). Vi também antigos garimpos na Bahia e em Minas Gerais. Em muitos locais ainda existem garimpos de ouro à moda antiga. Ouvi velhas histórias, conservadas oralmente, já virando lenda. Fui a Portugal e fiz uma peregrinação por onde passou Dom Luís, que tinha sido padre em Porto e capitão de cavalos no Além-Tejo. Juntei ainda minhas experiências de infância, quando meu pai trabalhou para uns garimpeiros em Rio Claro, hoje na região de Jaupaci, Goiás. Todo o enredo é baseado em fatos reais. A maioria dos personagens é real. Quando derivo para a ficção é dentro dos parâmetros da plausibilidade. O narrador, por exemplo, é um filho bastardo do Anhanguera. Não há registro nem batistério desse filho. Mas filho bastardo naquela época era fato corriqueiro aos homens de bem. Há um feiticeiro que deixa a comitiva do governador assombrada em Meia Ponte (hoje Pirenópolis).  Lembra um pouco o Pantagruel de Rabelais. Mas na realidade aquela figura é parte de minhas lembranças de infância, na época do garimpo. Por lá andava um preto velho com uns trambolhos nas costas e fazia mágicas, feitiços e praguejos. Não o vi fazer coisas como voar ou chegar antes de ter partido, como é narrado no livro, mas vi pessoas contarem que ele fazia tudo aquilo e muito mais.  Os reinóis de primeira viagem viam o novo mundo como um lugar relegado ao demônio, que gostava de fazer suas aparições. Qualquer manifestação de pessoa ou fenômeno meteorológico poderia se tornar uma encenação insofismável do coisa ruim. Daí o clima algo mágico do romance.     

“Naqueles Morros, Depois da Chuva” tem um ritmo pausado e poético que destoa da linguagem contemporânea, e, embora flerte com conotações de época, também não é exatamente um romance regionalista. Qual foi o caminho percorrido e qual sua definição para o tom encontrado?

Na verdade, encontrar o tom da linguagem foi o que mais me consumiu, até mais do que a pesquisa histórica. Desde o início eu não queria fazer um romance histórico com uma linguagem que oscilasse entre o jornalístico e o coloquial, muito menos uma linguagem regionalista, do jeito que ainda se fala em algum rincão distraído do progresso. Eu queria uma linguagem artística, num tom e num ritmo que conotassem a época. Uma linguagem de época é o que eu queria. Li muito coisa do século XVIII, sobretudo os textos dos cronistas viajantes. Mas também me inspirei em coisas mais antigas, como a “Carta de Pero Vaz de Caminha”,  Luís de Camões e Padre Antônio Vieira. Quis fazer um texto que trouxesse o zinabre da época, meio barroco, tanto nos termos quanto no ritmo, que pudesse dar verossimilhança à narrativa e que ao mesmo tempo pudesse ser lido nos dias de hoje por leitores minimamente familiarizados com o vernáculo. O texto como metáfora da época. 

“Naqueles Morros, Depois da Chuva” terá uma continuação?

Pensei escrevê-lo em três volumes. Cada qual com escopo próprio, podendo ser lido com independência. Este primeiro conta as peripécias da vinda e da chegada do capitão-general (o título que se dava ao governador). O segundo narrará as ações empreendidas pelo governador, como a guerra aos caiapós, novas descobertas de veios de ouro e diamante, suas aventuras amorosas, suas jogadas de mestre, suas espertezas de funcionário público ambicioso. Já o terceiro narrará seu retorno a São Paulo, transportando em lombo de mulas a enorme riqueza que amealhou por baixo dos panos, a ponto de comprar um navio para levar à Europa sua fortuna em pedras preciosas e fichá-lo depois na Companhia das Índias. Seria hoje como um governador retirar do Estado recurso bastante para comprar um Boing 747 e algumas cositas mas, como casa em Miami e dinheiro em conta cifrada em ilhas fiscais. Pretendo ainda escrever os outros dois volumes. Se não me ocorrer uma síndrome de Bartleby (quando o autor perde a embocadura da escrita) como teria ocorrido com Márcio Souza, que escreveu o primeiro volume de “Mad Maria”, em 1980, para ser uma trilogia e ficou só mesmo no primeiro, até agora.   

Carlos Willian Leite é jornalista e editor do Opção Cultural.