37 anos
Edição 1899 de 27 de novembro a 3 de dezembro de 2011
Filmes
O que nos torna humanos?
Almodóvar, de uma maneira bela e trágica, narra histórias que vemos diariamente em notícias de jornais e televisão, mas que também, muitas vezes, estão bem próximas de nossas vidas
Wikipédia

Candice Marques de Lima
Especial para o Jornal Opção

O que nos torna humanos? Seria o fato de nascermos de pai e mãe humanos? Dessa forma a herança genética que recebemos e que nos transmite a cor dos olhos, da pele e dos cabelos, formato das mãos, dos pés e do corpo também nos transmitiria a forma como amamos, odiamos, falamos, pensamos e nos comportamos. Ou somos resultado de nossas relações no mundo e com o mundo? São algumas perguntas que o último filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, “A Pele Que Habito”, suscita no espectador.

O personagem Vicente, uma pessoa aparentemente andrógina fisicamente e também em seu comportamento, é um rapaz aventureiro, interessado em sexo, moda e com uma mãe dominadora. Por uma dessas fatalidades do destino, ou talvez o destino não exista e apenas por um segundo uma ação desencadeie outras diversas ações e acontecimentos, se envolve fugazmente com Norma, a atormentada filha do não menos atormentado e apaixonado médico vivido por Antonio Banderas.

Num ziguezague, Almodóvar nos conta as histórias desses personagens de uma maneira bela e trágica, e tenta explicar, mas não justificar, seus atos. Como a filha que enlouquece ao ver a mãe se jogar da janela e depois comete o mesmo ato da mãe. O homem apaixonado que se vê traído e mesmo assim é capaz de cuidar da mulher que fica disforme após acidente de carro com o amante. A mãe que, num ato de fraqueza com o filho marginal, desencadeia uma situação trágica e a morte do próprio filho.

Todas são histórias que vemos acontecer diariamente em notícias de jornais, televisão e também muitas vezes bem próximas de nossas vidas. No filme, a história vista de forma completa, com início, meio e fim pode parecer, como apontaram alguns críticos, um thriller com cenas mórbidas e fantasiosas.

Há, sim, elementos que beiram a ficção científica, como o fato de Robert (Antonio Banderas) criar uma pele muito resistente e manter uma pessoa como cobaia para seus experimentos. O que nos leva a pensar quantas pesquisas científicas são realizadas para além do conhecimento dos comitês de ética científica.

Por outro lado, na última década tivemos notícia de pelo menos duas situações de sequestro prolongado, como a história de Natasha Kampusch, que viveu mais de oito anos de sua vida em um porão no subúrbio de Viena com o sequestrador Wolfgang Priklopil. Natasha garante, em seu livro “3096 dias”, que não desenvolveu a síndrome de Estocolmo por seu sequestrador e que só ficou tanto tempo ao seu lado, com possíveis situações de fuga, por medo de suas ameaças.

Há também o caso de Josef Fritzl, conhecido como o “monstro de Amstetten”, na Áustria, por ter mantido sua filha Elizabeth durante vinte e quatro anos refém no porão de sua própria casa e ter sete filhos com ela.

As duas histórias são demasiadamente humanas. Nesse sentido, o filme de Almodóvar não é uma situação longe de nossas vidas e talvez por isso “A Pele Que Habito” tenha sido tão bem aceito, com elogios da crítica e prêmios. Embora essa mesma crítica tente colocá-lo num patamar de sobre-humano, talvez num processo de negação, para não pensarmos em nossa própria condição.

Casos como os de Natasha Kampusch e de Elizabeth, embora tenham acontecido, são exceções. A história do filme também é fantástica em alguns elementos, mas, se pensarmos em como as relações humanas têm se constituído, talvez possamos vê-lo como uma metáfora dessas relações, especialmente as amorosas.

Na nossa sociedade, a liberdade de expressão, de ir e vir, de ser o que quiser e de amar quem quiser, tem sido um valor importante. Apesar dessa liberdade tão propalada, muitos relacionamentos, entre namorados, nos casamentos e também entre pais e filhos, têm apresentado um grau interessante de controle e certa obsessão.

“A Pele Que Habito” mostra um homem de meia idade que, depois de duas grandes tragédias em sua vida, tenta vingar-se do suposto agente de uma dessas tragédias. A vingança, cruel e meticulosa, transforma-se numa situação de paixão. O encarceramento de Vicente e a mudança de sexo a que é submetido involuntariamente podem ser vistos, metaforicamente, nos relacionamentos atuais, não em todos, como uma tentativa de completude de cada sujeito. Amar plenamente e ser amado da mesma forma, ser considerado o indivíduo no mundo e o melhor de todos é uma fantasia humana própria do nosso narcisismo.

Afinal, o que nos torna humanos? Não somos necessariamente humanos quando nascemos, embora descendemos da espécie humana. Vai ser o olhar da mãe para o bebê, enquanto ainda é filhote, que vai transformá-lo numa figura completa, não mais despedaçada, em filho. Esse mesmo bebê terá como “alimento” ser o único que basta à sua mãe, até que esta demonstre outros interesses e rompa essa relação aparentemente completa e perfeita. Esse primeiro corte vai fazer com que o bebê, ao crescer, procure outras pessoas ou objetos para tentar restaurar a sensação de completude, que nunca mais será restaurada. É aí que nos fundamos humanos, desejantes.

Embora toda esta situação seja necessária à condição humana, sempre tentaremos escapar da falta que foi instaurada. É aí que algumas pessoas recorrem à fantasia para tentar lidar com isso e outras vão para o ato. É comum escutar as pessoas dizerem que não conseguem viver sozinhas, que precisam do outro para sobreviver e isso de fato faz parte da condição humana. Apesar disso, muitos relacionamentos são baseados no encarceramento do outro, não necessariamente em um porão, em um quarto ou uma cela, mas no controle que se exerce sobre a outra pessoa.

A tecnologia nos proporciona várias formas de controle e de sermos controlados — celulares, câmeras, GPS são objetos que, para além da segurança e de “conectar pessoas”, tornam-se preciosas formas de saber o que o outro está a fazer, com quem, onde e por quê. Vasculhar e-mails e mensagens em celulares tem sido a nova forma de rastrear os passos da outra pessoa. Antes vasculhava-se a bolsa ou carteira ou cheirava-se a roupa do(a) amado(a).

Junto a isso, vêm os pedidos de que a pessoa mude, torne-se mais dócil, ou mais amorosa, ou modifique o corpo, use outros tipos de roupa ou perfume e a imposição de que com isso ela será merecedora de um amor total e absoluto. A submissão de fato acontece, por que a outra pessoa é fraca? Não, mas porque queremos o olhar da nossa mãe a nos contemplar, como outrora.

Assim, o comportamento do apaixonado, atormentado e culpado Robert em relação a Vice­n­te/Vera pode ser visto como a tentativa de controle do outro e submissão que pode-se observar nas relações atuais. O ser humano parece estar sempre em busca de liberdade e na verdade está cada vez mais em uma situação de aprisionamento, de si e do outro.

Mas, enfim, “A Pele Que Habito” mostra o que sou e/ou me faz ser como sou?

A resposta a esta pergunta, segundo Almodóvar, está na forma como Vicente / Vera reage a toda a situação trágica e apaixonada que compõe sua vida.

Candice Marques de Lima é psicóloga clínica e professora da Universidade Federal de Goiás.