Edição 1985 de 21 a 27 de julho de 2013
Ensaio
O mito da tradução/traição
Pode-se afirmar que a traição ocorrerá a partir do instante em que as ideias do autor do texto original forem distorcidas ou contrariadas no texto traduzido, ou seja, se ao comparar o nível e compreensão dos leitores das duas línguas for observado que há divergência quanto à compreensão da mensagem

Cristina Patriota
Especial para o Jornal Opção

Muitas vezes quando se fala em tradução o senso comum tende a repugnar esse tipo de texto, tanto que surgiu a máxima: “tradução é traição”. Surge, então a curiosidade de saber o porquê de tal repulsa. É certo que para traduzir não basta simplesmente a transferência das palavras de uma língua para outra, há implícito nesse processo a cultura dos dois povos que utilizam as línguas em questão. Talvez o fator chave da tradução seja essas culturas. Portanto, não basta transferir significantes de uma língua a outra, tem que transferir todo o significado cultural latente na expressão escrita em questão.

Mas como o referido fator cultural pode se fazer presente em um texto? Por meio das expressões idiomáticas e estruturas textuais! Se em língua portuguesa, para mostrar indignação com algo, utiliza-se a expressão “isso é uma droga!”, em língua inglesa uma das expressões correspondentes é “it’s a le­mon!”. Se o significado literal das duas ex­pressões fosse mantido a força referencial delas seria perdida — sem falar na possibilidade da incompreensão.

Eis que surge um dos grandes desafios do tradutor: manter forma e sentido concomitantemente, mas quando não se pode fazer essa manutenção, qual priorizar? Ora, se a forma é priorizada o sentido do texto traduzido pode se fazer divergente do original e há a possibilidade da incompreensão (parcial ou total) de tal texto; se o sentido é priorizado há prejuízo na manutenção da forma original e a percepção do público leitor ao comparar os dois textos torna-se mais aguçada, o que acaba por gerar o pensamento do senso comum de que a tradução é traição.

Não é difícil encontrar exemplos de manutenção do conteúdo em detrimento da forma, ou vice-versa, em circunstâncias em que a tradução se faz presente. No caso do filme intitulado em língua inglesa como “Jaws” (1975, roteiro de Carl Gottlieb, baseado em livro de Peter Benchley, direção de Steven Spielberg) é traduzido para língua portuguesa como “Tubarão”. Ora, se jaws, em uma tradução literal, significa “mandíbulas”, por que foi traduzido como tubarão? Nesse caso haveria uma traição tradutológica, segundo muitos que veem a  tradução como sinônimo de literalidade.

Nesse caso houve a priorização do conteúdo, pois, de acordo com a questão cultural que está implícita no contexto, para os falantes da língua inglesa, quando é feita referência a palavra jaws, o significado latente remete a mandíbulas de tubarões, e não a qualquer mandíbula. Já para os falantes de língua portuguesa não ocorre a mesma referência a tubarões quando a palavra mandíbulas é utilizada. Talvez, por isso, o tradutor optou em utilizar a palavra tubarão, palavra essa que expressa explicitamente o impacto que o autor do filme americano quis causar com esse título.

Em recortes de revistas e jornais encontra-se observações quanto à “obediência” do tradutor à forma e/ou ao conteúdo do texto original. Na “Tam nas Nuvens” (n° 16), uma revista bilíngue, distribuída em voos nacionais pela TAM — companhia de linhas aéreas — e que trata dos mais variados temas (desde culinária até economia), pode-se encontrar exemplos em que foi respeitado o conteúdo em relação à forma. O artigo “A question of numbers” foi intitulado em língua portuguesa como “Fazendo as contas”. Entretanto, esse é um caso em que o tradutor poderia encontrar um equilíbrio entre conteúdo e forma, já que a tradução literal é possível, adotando o título “Uma questão de números”, e não seriam causados problemas de compreensão aos leitores do texto traduzido, já que a mesma expressão, nas duas línguas, remete ao mesmo significado: de pôr valores financeiros em questão.

Também, ao observar textos de grande circulação, como os livros: “E. T.: The Extra-Terrestrial in his Adventure on Earth” (William Kotzwinkle, 1982), “Harry Potter And The Chamber of Secrets” (J. K. Rowling, 1999) e “The Curious Case of Benjamin Button” (F. Scott Fitzgerald, 1929) e suas respectivas traduções: “E. T.: O Extraterrestre” (traduzido por Raquel Martins, 1982), “Harry Potter e o Segredo da Câmara Secreta” (traduzido por Lia Wyler, 2000) e “O Curioso Caso de Benjamin Button” (traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues, 2009) apontando a questão da manutenção (ou não) da forma e do sentido do texto original para o texto traduzido. Em uma primeira leitura dos textos traduzidos e dos textos originais identifica-se que Raquel Martins, provavelmente, em sua tradução não distancia estruturas semânticas ou morfossintáticas das duas línguas tanto quanto Lia Wyler e Fernanda Pinto Rodrigues. Há expressões que poderiam ter sido modificadas por Martins com o intuito de tornar mais próximo a tradução da realidade de seu leitor, mas que a tradutora não as modifica, como é o caso da expressão “navegational error” (William Kotzwinkle, 1982) que foi traduzida como “erro navegacional” (Raquel Martins, 1982), mas que a tradutora poderia ter optado por traduzir como “erro técnico”, ou qualquer outra expressão que remetesse ao mesmo significado, mas que fosse mais próxima do cotidiano do público a quem o texto traduzido é destinado, facilitando, com isso, a compreensão.

Já na tradução de Lia Wyler, logo no início do texto, é notável a divergência do texto original no que se refere ao nome de alguns personagens. Dois personagens de Rowling recebem os nomes de “Vernon” e “Dudley”, entretanto Wyler os nomeia de “Valter” e “Duda”, respectivamente. Pode ser que a tradutora tenha feito essa opção para mostrar que os nomes de língua inglesa possuem o mesmo nível de popularidade que aqueles escolhidos por ela em língua portuguesa, aproximando mais o livro do seu público alvo.

Na tradução produzida por Fernanda Pinto Rodrigues ocorre frequentemente a manutenção de recursos tradutológicos como o empréstimo, no qual o pronome de tratamento utilizado para um dos personagens, Mr., é mantido em língua inglesa, tendo em todo o texto traduzido a referência de Roger Button sendo feita como Mr. Button. Esse recurso tradutológico pode ter sido utilizado para manter o aspecto cultural da língua original na tradução, aspecto cultural esse que ao invocar o pronome Mr. faz com que o leitor não esqueça a posição social do personagem.

Há uma espécie de mistificação referente à tradução que adota como fidelidade apenas as traduções literais, que são feitas palavra a palavra. Na utilização de alguns recursos tradutológicos, um leitor que não está a par de tal teoria pode — ao comparar original e tradução — inferir que houve traição ao texto original por verificar que algumas expressões estão divergentes das adotadas em língua estrangeira. Entretanto, é raro que se observe que o sentido, nesses casos, é a prioridade.

Pode-se afirmar que a traição ocorrerá a partir do instante em que as ideias do autor do texto original forem distorcidas ou contrariadas no texto traduzido, ou seja, se ao comparar o nível e compreensão dos leitores das duas línguas for observado que há divergência quanto à compreensão da mensagem (quando se fala mesmo nível e compreensão, tem-se por base leitores de línguas diferentes, mas que possuem particularidades linguísticas e sociais equivalentes).

Existem vários recursos que um tradutor lança mão no instante de transferir um texto de um língua a outra, mas acima de qualquer um desses recursos o público alvo é o que deve ser posto em primeiro plano. O objetivo principal de qualquer língua é a compreensão, o fazer-se compreender. Se o tradutor não faz com que seu texto traga sentido ao seu leitor, de que lhe valeu o trabalho?

Portanto, tradução nem sempre é sinônimo de literalidade, desmitifica-se, com isso,  a crença popular de que a utilização de recursos tradutológicos, que não o literal, acarreta em traição ao original. A colaboração dos outros recursos para com a tradução só tem a acrescentar na qualidade do texto traduzido. Um bom texto, seja original ou traduzido, é aquele que se faz compreender em sua totalidade, sem deixar lacunas à interpretação de seu leitor.

Cristina Patriota é tradutora. Especialista em Língua Portuguesa e Literatura.