37 anos
Edição 1885 de 21 a 27 de agosto de 2011
Economia
O livro do etanol
Para o economista Fernando Netto Safatle a pulverização na produção do etanol é vantajosa para pequenos e médios proprietários rurais e adequada para resguardo do meio ambiente
Fernando Safatle

Luís Estevam
Especial para o Jornal Opção

Sob o sugestivo título “A Economia Política do Etanol” (Alameda Casa Editorial), Fernando Safatle publicou livro recentemente abordando a democratização da agroenergia e o impacto na mudança do modelo econômico da produção de etanol no Brasil. Trata-se de uma proposta inovadora de criação de microdestilarias e de projeções sobre os possíveis impactos econômicos e sociais do modelo apresentado.

Aparentemente seria mais um texto que aborda as vantagens de produção de agroenergia no Brasil, as potencialidades de exploração do etanol em termos de resguardo ambiental e as possibilidades de expansão do setor no contexto energético mundial. Todavia, o autor foi muito além na sua abordagem dessas questões, inovando em termos de metodologia, de conteúdo e de proposta.

De início, o livro aborda os danos que o crescimento econômico desordenado tem causado no meio ambiente global, provocando efeitos devastadores na natureza. Revisita os termos do Protocolo de Kyoto e a necessidade de um novo paradigma na matriz energética mundial. Aponta, com pesquisa bem fundamentada, o fim da era do petróleo e a viabilidade alternativa de exploração do etanol.

Em seguida, o autor se debruça na questão específica da produção de etanol — a partir da cana de açúcar — evidenciando as potencialidades das diferentes regiões brasileiras, apontando os zoneamentos agroecológicos existentes e o não comprometimento da cadeia produtiva alimentar. Evidencia a concentração regional da produção de etanol e faz uma fundamentada revisita ao Proálcool avaliando os avanços e recuos desde sua implantação, bem como ressaltando o caráter excludente do programa criado pelo ex-presidente Geisel.

Finalmente, no que seria a terceira parte do livro, o autor apresenta sua proposta de inclusão do pequeno e médio produtor rural na cadeia produtiva do etanol — pulverizando microdestilarias pelo território brasileiro — em um programa que chamou de “democratização do programa do etanol”. Mas, ressalte-se, o autor não ficou somente no discurso. Apresentou - com dados convincentes - projeções de exportação e consumo do etanol no mundo, formas de controle de qualidade e estudo de viabilidade de tributação no setor produtivo, apontou impactos benéficos que o novo modelo poderá acarretar com a desconcentração na produção do etanol, alinhou vantagens no desenvolvimento local/regional brasileiro, assim como traçou alternativas para sustentação econômica dos assentamentos rurais com a implantação de microdestilarias.

Todos os argumentos utilizados encontram-se muito bem fundamentados em pesquisas e estudos técnicos apropriados, levando a crer que o livro poderá tornar-se, pelo menos regionalmente, um clássico no assunto, podendo já ser caracterizado, pela sua abrangência, como “o livro do etanol”. Aliás, o conteúdo e a argumentação do trabalho estão de acordo com quaisquer exigências de caráter científico ou mesmo acadêmico. Consequentemente trata-se de um argumento e de uma proposta altamente persuasivos. Como escreveu Roberto Campos, não basta ao economista ser clarividente — tem que apresentar alta dose de persuasão em seus argumentos.

Evidentemente que, um livro com o título de “A Economia Política do Etanol” não poderia restringir-se à técnica ou somente ao argumento puramente econômico. E, neste aspecto, Fernando Safatle saiu do lugar-comum. Conseguiu abordar o concreto e o abstrato, o particular e o universal em um único voo de pensamento.

Analisou a estrutura de mercado do etanol revisitando as leis de concorrência oligopolista e evidenciou a fragilidade do comportamento da oferta e da procura no setor. Ao abordar as fontes alternativas de energia, revisitou Marx e as contradições do capitalismo onde o “novo surge das entranhas do velho” ressaltando a necessidade de uma nova lógica sócio-ambiental. Ao expor a possibilidade de os postos comprarem diretamente etanol dos produtores, analisou tecnicamente o choque de oferta, a transformação da estrutura de mercado “criando mais concorrência e competição” e rompendo com o cerco estabelecido dos oligopólios.

No alinhamento dos benefícios do programa, baseou-se nas leis microeconômicas nunca perdendo de vista os benefícios macroregionais, as possibilidades de redistribuição de renda, revertendo, ou pelo menos amenizando, a lógica do grande capital no setor alcooleiro. Os argumentos do autor caminham claramente contra a concepção neoliberal de governo, endossam a necessidade de planeaparidades regionais e de ordenação nas relações capitalistas na expansão demográfica e territorial brasileira.       

Fernando Safatle abordou teorias e fatos concretos em um único texto. A proposta de criação de microdestilarias — já apontada anteriormente por Bautista Vidal — ganhou nova roupagem e abrangência. Pelo conteúdo e profundidade, o livro será, sem dúvida, clássico, de referência obrigatória e definitiva sobre a questão.

Pode ser que o programa de democratização da agroenergia jamais seja implantado. Entretanto, os benefícios que traria estão clara e convincentemente alinhados no livro de Fernando Safatle. O que lembra as palavras de Keynes, ao brindar os economistas em seu leito de morte: “Aos economistas, não como guardiões da civilização, mas como guardiões das possibilidades de civilização”.

Luís Estevam é escritor e economista.