37 anos
Edição 1874 de 5 a 11 de junho de 2011
Entrevista | Clara Averbuck
“Não faço as coisas para aparecer, eu apareço porque fiz as coisas”
Polêmica, autora de quatro livros, Clara Averbuck é um dos casos raros de sucesso que migrou do boom dos blogs para a literatura

Carlos Willian Leite

Escritora, letrista, vocalista, blogueira, iconoclasta e polemista, Clara Averbuck é uma espécie de anti-heroína da internet brasileira. Começou a escrever em 1998, para o lendário “CardosOnline”, o primeiro mailzine brasileiro. Tornou-se autora de quatro livros: “Máquina de Pinball”, “Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante”, “Vida de Gato” e “Nossa Senhora da Pequena Morte”. Em 2003, “Máquina de Pinball” ganhou uma adaptação para o teatro e em 2007 Murilo Salles dirigiu o filme “Nome Próprio”, inspirado em sua vida e obra. Em entrevista ao Jornal Opção, Clara Averbuck não poupa palavras ou pessoas: fala sobre carreira, livros, preferências e idiossincrasias. Sobre o fato de ser vista mais como celebridade de internet do que como escritora que se tornou célebre, tem uma resposta precisa: “Só queria que uma galera aí entendesse que eu não faço as coisas para aparecer, eu apareço porque fiz as coisas”. Atualmente, é redatora do Portal R7 e faz um programa diário com Alessandra Siedschlag, do blog “Te Dou Um Dado?”. Participam da entrevista o escritor e doutor em História Ademir Luiz, o escritor e pós-doutor em literatura Ewerton Freitas e o poeta e jornalista Carlos Willian Leite.

Carlos Willian Leite — À moda de Nietzsche, onde começa sua genealogia?

Averbuck na Ucrânia, Chirivino Gomes na Itália e eu não sei muito mais do que isso. Só sei que ser mãe judia e italiana não deve ser uma coisa muito boa. Ainda bem que eu não tenho filho homem. Ainda.

Ademir Luiz — A imprensa noticiou sua participação em “A Fazenda 4”, da Rede Record. Seria seu segundo reality show. Considerando sua imagem pública de blogueira iconoclasta, você aceita participar desses programas por que acredita que pode torná-los mais inteligentes, para promover seu trabalho de escritora, para destruir o sistema por dentro ou simplesmente pelo dinheiro?

Só gostaria de pontuar que esse boato da Fazenda surgiu na época da veiculação do troca de família. Depois ressurgiu em uma lista falsa de primeiro de abril. Então o jornalista Alberto Pereira Jr., que escreve a coluna Zapping do jornal “Agora”, me perguntou no meio de uma festa se eu ia mesmo pra Fazenda. Como eu já estava de saco cheio daquela história floodando minhas mentions no Twitter e de pessoas me olhando estranho na firma onde trabalho há cinco meses achando que eu estou lá para assinar contrato pra Fazenda, disse: “Vou, vou sim. Mas não pode espalhar”. Ele publicou. Não sei como a pessoa achou que eu passaria uma informação sigilosa a um jornalista de fofoca desconhecido no meio de uma festa, mas enfim. Parabéns a todos os envolvidos na barriga. Não me apego a esse negócio de imagem de blogueira iconoclasta. Aliás, é essa minha imagem? Não saberia dizer. Reality show não serve para divulgar trabalho. A última coisa que interessa ao público é a profissão do participante. Descobri isso na prática. Ou você entra já tendo uma carreira e sai com um item a mais na legenda do seu nome ou perde a profissão de vez e vira “ex-participante de reality show”. Não sei se posso tornar algo mais inteligente, tenho notado que inteligência é a última coisa que importa na televisão. Mas se eu não for, vai outra pessoa no meu lugar, talvez um idiota, talvez alguém que cause um estrago, talvez uma pessoa nula. Prefiro então que seja eu — um pouco para dar uma trolladinha no mundo e, respondendo enfim a pergunta, pela grana, que é sim o principal motivo de eu topar essas coisas. Esclarecendo: ninguém me chamou pra Fazenda. Eu adoraria ir. Pelo dinheiro, que não é pouco, e também pela exposição que isso poderia gerar, já que eu tenho um programa diário no R7 com a Lelê Siedschlag que poderia crescer indefinidamente até a total dominação mundial, nosso plano desde o início.

Carlos Willian Leite — Cinema, literatura ou música?

Música influencia literatura que influencia cinema que influencia música ad infinutum.

Carlos Willian Leite — Você é da ala das inspiradas ou das construtoras?

Já fui só inspirada. Agora sou uma construtora inspirada.

Ademir Luiz — Você teve alguma participação direta na produção do filme “Nome Próprio”, baseado em sua obra e trajetória? Opinou ou aprovou o roteiro? Foi consultora? Conversou com a Leandra Leal?

Esse filme tem uma história enorme. Murilo (Murilo Salles, diretor cinematográfico) comprou o “Máquina de Pinball”. Ficou travado um tempão. Aí quis comprar uns textos do blog. Me mostrou um primeiro tratamento de roteiro, escrito pela Elena Soarez. Gostei — foi o que mais gostei. Mas Murilo continuou em crise, quis mais textos, quis o vida de gato, fez milhões de roteiros, pediu milhões de opiniões, mudou de diretor-assistente, cortou personagens, mudou texto, mudou o filme até depois que passou no Festival do Rio. Eu não apitei em nada. Murilo me pedia socorro às vezes, me pedia para mexer no roteiro, mexer nos GCs, reescrever os offs… foi realmente caótico. No fim ficou uma massa escrita por todo mundo, finalizada por uma galera e com identidade de ninguém. Eu não podia nem chegar perto do set. Murilo tinha inclusive proibido a Leandra de me conhecer, mas ela ignorou a “ordem” e foi me procurar. Ficamos amigas de cara. Ainda somos. Leandra era minha agente infiltrada e tem vários objetos pessoais meus lá, entre discos, pôsteres, livros, roupas… tem um texto bastante esclarecedor a respeito que escrevi para a “Bravo” (http://bit.ly/lq2k0h).

Ademir Luiz — Você já declarou que gosta de “Nome Próprio” enquanto filme, não enquanto adaptação de sua obra. Independentemente da construção dramática do filme como um todo, o que achou da interpretação da Leandra Leal? Deu para se reconhecer na tela em algum momento?

A Leandra é uma grande atriz e fez o papel da Camila que o Murilo criou. A Camila dele não tem exatamente a ver com a dos livros. Esse excesso de drama é muito pesado, deixa tudo muito negro. Eu achei a interpretação dramática demais em determinados momentos, mas a Leandra estava sendo dirigida para isso, era o que estava no roteiro. Eu não sou a minha personagem, menos ainda a personagem do Murilo. Mas me reconheci um pouco sim, principalmente no jeito e no físico. Talvez por isso Murilo tenha tentado impedir que Leandra me conhecesse, ficou com medo que ficasse influenciada, e, de fato, ficou. Algumas pessoas ficaram até assustadas, diziam que era eu aos 22 anos. Eu consegui sacar alguns trejeitos sim, mas daí a me reconhecer, né? Não é bem assim. O filme está longe de ser uma biografia minha, assim como meus livros. Apesar de ter parte da minha vida como matéria-prima, não são meus diários. Faz tempo que não vejo o filme, me incomoda demais ver frases que não são minhas na boca da tal personagem encarnada. Preciso rever. Depois digo o quanto eu me identifiquei agora que já se passaram quatro anos.

Ademir Luiz — Como lida com a questão do orgulho intelectual? Não estou falando de dinheiro, mas de realização pessoal. Afinal, você é blogueira conhecida, autora publicada por grande editora, teve um filme baseado em sua vida, foi interpretada por uma grande atriz... A maior parte de seus “colegas de profissão” são bêbados fracassados ou nerds virgens. A verdade é que, em seu universo, você é uma vencedora. Ficou metida? É humilde? Ostenta o próprio sucesso?


O filme não é baseado na minha vida, por favor. Não tem nada da minha vida ali. Nos livros tem alguma coisa. No filme não tem absolutamente nada. E é aí que eu me fodo. Quando não creditam os textos da tela à minha pessoa, dizem que é minha biografia precoce. Não é. Essa história de que eu faço sucesso é uma ilusão. Nenhum livro meu teve segunda edição. O “Máquina de Pinball” está esgotado e ninguém me diz se vai ser reimpresso, já tentei entrar em contato com a Editora Conrad e ninguém me responde. O “Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante” teve uma prensagem de uns 800 exemplares e é raro de encontrar. O “Vida de Gato” foi esnobado pela Editora Planeta, que queria inclusive mandar guilhotinar os exemplares que tinham sobrado no estoque (cerca de 400). Impedi e “comprei” os livros (não paguei, no caso, só peguei de volta o que era meu e seria destruído). Quer dizer, em que mundo isso é sucesso? Todo mundo “fala” muito do que eu escrevo mas pouca gente realmente leu. A galera é muito preguiçosa, não gosta mesmo de ler. Alguns leem meus blogs e formam opinião. Outros veem o filme e decidem que amam ou odeiam (aparentemente não há outra opção) a partir de textos que nem meus são. Eu fico puta, não com críticas, mas com a falta de embasamento pra isso. Ninguém é obrigado a gostar do que eu escrevo. Mas, se querem falar, que leiam, ao menos. E acho que isso responde o resto da pergunta. Não teria nem motivo pra ficar metida.

Ewerton Freitas — Você afirma que a geração que vem por aí é abobada e mal informada. Não seria essa mesma geração a responsável pelo sucesso dos seus livros?

De novo: que sucesso?

Ademir Luiz — Gostaria de saber sua opinião sobre outros fenômenos da internet? Vou citar alguns nomes e gostaria que comentasse brevemente sobre cada um deles: Felipe Neto, PC Siqueira, o chorão Maurício Saldanha e a dupla dinâmica Azaghâl e Alottoni, do site “Jovem Nerd”. Para incluir pelo menos uma menina, a Tessália.

Felipe Neto: nunca tive paciência pra terminar de ver nenhum vídeo, ele grita demais. PC Siqueira: boring. Será o segredo do sucesso o fracasso? Agora parece que é bonito ser loser. Mas só pra menino. Menina continua tendo que ser perfeita. Mau Saldanha: nunca vi também. Dei uma entrevista a ele na época do filme, é tudo que sei. Dupla dinâmica: ganharam melhor videocast no Youpix de mim e da @alesie e parecem cabeças-de-batata. Mas nunca vi os vídeos. Tessália: eu não sei quem ela é assim: não estou desmerecendo o trabalho de ninguém. Eu só realmente não me interesso. Sabe quando você abre um livro, lê duas páginas e não se interessa pelo resto? É isso.

Ademir Luiz — Em seu blog, você é uma comentadora ácida do mundo contemporâneo. Considerando que, provavelmente, não vai dar uma resposta moralista padrão, qual sua opinião sobre a moda atual de celebridades, ou semicelebridades, entrarem para o ramo da pornografia? Apostaria em um nome como o próximo da lista?

Cada um se vira como pode. Sei lá, não julgo. Não curto pornografia, não consumo, não assisto. Acho engraçado, não consigo ficar com tesão, começo a resenhar mentalmente cada movimento dos “atores”. Dá não. Sobre os próximos, sei lá, ex-mulher do ex-goleiro Bruno? Alguma ex-bbb que não teve sobrevida? Geisy Arruda? Realmente não sei. Mas se saísse um pornô da Susana Vieira eu juro que via.

Ademir Luiz — Você sentaria no sofá da Hebe? Aliás, daria um selinho na Hebe?

Sentaria no colo da Hebe. E daria selinho sim. Fui no Clodovil, inclusive. Queria ver essa entrevista. Foi a primeira que dei na TV depois do lançamento do livro, ele ficou bravo que eu não me incomodava com as perguntas, me chamou de blasé e disse que minha bunda era grande demais. “Você cuida da sua bunda e eu cuido da minha”, foi minha resposta. Acho.

Ademir Luiz — Apesar de ser uma figura que ganhou popularidade na internet, aparentemente, você sempre desejou escrever um livro e publicá-lo no formato tradicional. “Nome Próprio” enfoca isso. Você acredita que, apesar das especulações sobre o fim do objeto livro, ele ainda é glamoroso, sedutor, mesmo para a Geração Y?

Tenho um fetiche enorme pelo objeto livro. E por discos de vinil também. Essa geração tem fetiche por gadgets, devem achar livro um negócio que ataca a rinite e junta traça. Mas eu realmente não faço as coisas pensando em agradar, eu faço porque é o que eu quero fazer, o que acho importante.

Ademir Luiz — Um leitor de “Crepúsculo” pode ser um leitor de Clara Averbuck?

Pode, ué. Eu lia Michael Ende na adolescência. Por que não?

Carlos Willian Leite — Por falar em “Crepúsculo”, qual a distância entre intertextualidade e o plágio?

A intenção.

Ademir Luiz — Em “Máquina de Pinball” você escreveu: “Planeta: Terra. Cidade: São Paulo. Como todas as metrópoles, São Paulo encontra-se hoje em desvantagem na sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição”. Citação da abertura do seriado japonês “Spectreman”. Logo depois colocou referências aos “Simpsons”, bandas de rock... Você utilizou a cultura pop como Borges usava a cultura erudita. Como fazer essa ponte, tornar o pop a base cultural de um texto literário, sem correr o risco de torná-lo perecível pela própria natureza efêmera de seus fenômenos? Existem clássicos pop ou eles são específicos de gerações? Enfim, alguém com menos de 25 anos entendeu sua referência ao Spectreman?

Não me preocupei em absoluto com o “perigo” das referências ficarem datadas. O Stanislaw Ponte Preta tinha essa questão também, pra entender alguns textos dele eu precisei recorrer à sabedoria da avó, já que ainda não tinha Google na época em que li. Mas não acho que o texto fique comprometido, pois são apenas referências, não a base. O texto não está escorado em referências sobrevive sem elas. Percebi isso quando o Antônio Abujamra, que tem 79 anos, adorou o livro antes mesmo de sair (ele estava filmando com meu pai e pegou no trailer dele).

Ewerton Freitas — São de “Máquina de Pinball” estas considerações: “Caralho, que cidade suja. Minha pele está podre. Não tive espinhas nem durante a adolescência, salvo uma ou outra no período maldito do mês, sempre nas extremidades do rosto. Agora tem três bem no meio da bochecha. Mas não pense que descobri no espelho, porque aqui simplesmente não existe luz suficiente para isso. Meu cabelo também está um horror por causa desta água ridícula”. A Clara Averbuck existiria se não tivesse saído de Porto Alegre em direção a esta São Paulo tão suja?

A Clara Averbuck sempre existiu. Eu seria diferente apenas, mas existiria de qualquer maneira. Não existo por causa da minha localização geográfica.

Ademir Luiz — Você tem fama de ser meio-hippie, algo mística... Qual sua relação com a religião? Possui um lado cético?

Eu não tenho religião. Não gosto de rituais, de cultos, de igrejas, de aglomerações de gente acreditando. Prefiro ficar longe disso e me entender com Deus, ou D'us, do meu jeitinho. Possuo um lado cético sim. Mas não quero me encaixar em nenhuma categoria hippie-mística-judia-sem-fé. Eu acredito em algumas coisas e prefiro guardá-las para mim.

Carlos Willian Leite — Além da geração beat, quais outros autores lhe influenciaram?

João Antônio, Carmen da Silva, Caio Fernando Abreu, Luis Fernando Verissimo (oh! que surpresa! pois é, gosto muito, desde adolescente), Aparício Torelly (o Barão de Itararé), Oscar Wilde, olha, tenho uma lista quilométrica...

Ademir Luiz — Você já declarou que John Fante, Paulo Leminski e Charles Bukowski são seus ídolos. Três escritores que transitaram pelo universo marginal. Qual o fascínio que esse mundo, ou submundo, possui? Como as experiências vividas nele podem se transmutar em matéria-prima literária relevante para geração-apartamento, para geração internet?

Não é exatamente fascínio. É identificação. Para que alguma arte me sensibilize é preciso que desperte alguma coisa em mim. A geração-apartamento e a geração-internet podiam conviver um pouquinho com a geração-lambe-sarjeta. Acho que seria um belo encontro. Todos aprenderiam um pouco.

Carlos Willian Leite — Quem é o maior escritor brasileiro vivo?

Xico Sá.

Carlos Willian Leite — E a grande farsa midiática?

CQC. Custe o que custar? Claro, não são eles que pagam. O prêmio máximo pode ser dividido entre Marcelo Tas, que promove aquele circo, e Rafinha Bastos, palhaço politicamente incorretão sem graça que poderia fazer um zepelim com o próprio ego.

Carlos Willian Leite — A crítica literária é necessária?

É necessária aos críticos e aos leitores. Os escritores se entendem consigo mesmos e com os outros escritores.

Carlos Willian Leite — Paulo Coelho é literatura?

Ué, claro. “Gotas de Sabedoria” também. Aliás, meus sinceros parabéns a todos os tradutores do Paulo Coelho. Vocês devem estar fazendo um fantástico trabalho.

Carlos Willian Leite — Qual sua opinião sobre "Finnegans Wake", de James Joyce, e "Catatau", de Paulo Leminski?

Nunca li “Finnegans Wake”. O “Catatau” é, bem, um catatau mesmo, o nome já me poupa de ter que pagar de intelectualzona. Às vezes eu abro em uma página qualquer como que consultando um oráculo. Eu não sou crítica literária e nem gosto de exercer esse papel, desculpe. Não sou dessas pessoas que têm opinião sobre tudo.

Carlos Willian Leite — Qual sua opinião sobre a literatura da Fernanda Young e qual sua avaliação da literatura feminina no Brasil nas últimas três décadas?

Eu nunca li Fernanda Young, logo, não tenho opinião a respeito. Sobre literatura feminina, olha, eu realmente não sou conhecedora. Eu gosto muito, muito mesmo da Carmen da Silva, uma grande escritora e jornalista que introduziu o feminismo no Brasil lá pelos anos 1960. Mas é só. Desculpe, mas é verdade. Não é preconceito. É só falta daquela identificação que eu citei antes.

Ademir Luiz — Fiz certa pesquisa para realizar essa entrevista. Percebi que costumam enfocar mais sua vida pessoal do que sua obra. Perguntam sobre seu estilo de vida, seus casamentos, hábitos sexuais, seu parto em casa, sua personalidade declaradamente bipolar... Você sente que é vista mais como celebridade de internet do que como escritora que se tornou célebre? Isso incomoda?

Incomoda pra caralho. Minha obra é praticamente irrelevante perto das “polêmicas” que causo. Fazer o quê, eu sou quase um midas da polêmica. Sempre foi assim, já me conformei. Só queria que uma galera aí entendesse que eu não faço as coisas para aparecer, eu apareço porque fiz as coisas. (Bipolaridade não é personalidade. É transtorno psiquiátrico. Personalidade é outra coisa.)

Ademir Luiz — Quem seriam os equivalentes na música de Fante, Leminski e Bukowski? Quem te inspira a cantar e compor?

Nina Simone, Lou Reed, Cole Porter, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Etta James, Sam Cooke, Fiona Apple, Rolling Stones, Ike and Tina, John Frusciante e um monte de bluesman com gaitinha no canto da boca.

Ademir Luiz — Você sofre de angústia da influência, conforme definiu o crítico Harold Bloom, sente necessidade de superar seus ídolos?

Nenhuma. Sinto necessidade de escrever. E só. Não tenho esse gene da competitividade imaginária com ídolos mortos. Ou vivos. Não tem nenhum vivo, mas enfim. Se tivesse eu ia querer aprender com ele, não superá-lo.