Edição 1866 de 10 a 16 de abril de 2011
Livros
Muito mais do que uma literatura acadêmica
Considerado um dos maiores nomes da literatura latino-americana, Ricardo Piglia, em "Respiração Artificial", constrói uma trama em que várias histórias e tempos se cruzam, mesclando tradição literária e reflexões sobre o regime militar argentino
Guardian
Ricardo Piglia: considerado um dos
grandes nomes da literatura argentina

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

Ricardo Piglia é um dos mais renomados escritores contemporâneos argentinos. Considerado por muitos um dos maiores autores do país, o seu romance “Respiração Artificial” é um dos mais estudados de toda sua obra. Numa pesquisa feita entre cinquenta escritores argentinos, o livro de Piglia ficou entre os dez melhores romances da história da literatura argentina. A partir de apenas uma (ou até mesmo duas) leitura(s), para nós brasileiros não muito conhecedores dos nossos vizinhos próximos, é difícil entender tamanha “bajulação”.

“Respiração Artificial”, de Ricardo Piglia, começa assim — um dos personagens-narradores (são vários, no decorrer do enredo), Emílio Renzi, decide contar uma história sobre a única “tragédia” de sua família: o seu tio, Marcelo Maggi (o Professor), irmão de sua mãe, abandona a esposa (Esperancita) e foge com Coca, roubando o dinheiro daquela. Esse é o mote para esse romance que discute, fundamentalmente, a história da Argentina, da literatura e, mais especificamente, da literatura argentina.

Essa parte — histórica — do enredo do romance surge por meio da troca de cartas entre Marcelo Maggi (tio) e Emílio Renzi (sobrinho). Além da “tragédia” da família, sobre a qual pairam muitas dúvidas, o assunto preferido deles é Enrique Ossorio, bisavô de Esperancita, um homem controverso, por alguns considerado um traidor, por outros e por si mesmo, um herói. Além da troca de cartas, o enredo se configura também a partir de relatos, datados de meados do século XIX, do próprio Enrique Ossorio. Fica a dúvida: afinal, esses relatos são destinados a quem?

Entra em cena, então, dom Luciano Ossorio, um homem quase centenário, pai de Esperancita e neto de Enrique. E ele, Luciano, com sua memória implacável, ajuda a complementar a história de sua família - o pai morrera num duelo por honra a um pai (Enrique Ossorio) que nem mesmo chegara a conhecer, porque o avô, Enrique, havia se matado antes mesmo do filho conhecê-lo. Essas são as histórias e os principais personagens da primeira parte do romance.

Há, por parte do autor (por meio dos seus narradores), o objetivo de recontar (construir?) momentos históricos aparentemente desimportantes da Argentina de forma a acentuar a relevância dos seus anti-heróis, dos seus fracassos, das traições. Nem só de heróis é construída a história de um povo, de um país - parece querer nos dizer às vezes a obra, sobretudo em sua primeira parte. A par desse teor histórico e ora policial do romance, eis que se inicia a segunda parte. Nela, a literatura — tanto a mundial quanto a argentina — se torna a protagonista, para o deleite e gozo dos acadêmicos e demais especialistas.

Na segunda parte (Descartes), após um breve “sumiço”, voltam à narrativa os personagens Emílio Renzi e Marcelo Maggi (o Professor). E é na busca por mais conhecimentos e documentos do projeto do tio, que Renzi conhece o filósofo Vladmir Tardewsi, polonês radicado na Argentina, sujeito sem raiz, pessoa anacrônica, último sobrevivente de uma estirpe em dissolução, e o próximo narrador. É aí, a partir do diálogo e das reflexões de Renzi e Tardewski, com a entrada às vezes de outros personagens, que a literatura se torna a grande protagonista de “Respiração Artificial”.

Em vários momentos o romance se assemelha a um ensaio que discorre sobre: a literatura argentina; o europeísmo na literatura argentina; o texto fundador da literatura argentina (“Facundo”, de Sarmiento, cujo início é uma frase escrita em francês que é, inclusive, uma citação falsa, equivocada); Borges e Arlt; a autonomia da literatura; o estilo; os escritores argentinos Lugones, Sarmiento e Hernández. Enfim, em alguns momentos é praticamente um romance argentino para deleite dos bem pensantes (acadêmicos) argentinos.

Não é de se estranhar, portanto, o motivo de Piglia ser tão celebrado nas academias, inclusive no Brasil. Piglia, em vários momentos de sua literatura, abusa das intertextualidades, das referências, das citações, do uso de escritores como personagens. Seguidor de outro escritor celebrado nas academias, Borges? E por isso, talvez, as faculdades de letras e literatura, egocêntricas ao extremo, têm orgasmos múltiplos quando surgem literaturas - como grande parte da de Piglia - que discorrem sobre a literatura que discorre sobre a literatura e assim "ad infinitum".

Nas próximas páginas do romance o que se verá são as reflexões dos personagens (quase doutores, escritores iniciantes...) sobre James Joyce, Wittgenstein (do qual o personagem Tardewski foi discípulo), a arte da escrita, a motivação para a escrita literária, Kafka. E nessa mesma literatura (“Respiração Artificial”) ora “acadêmica” há espaço, entretanto, para a crítica à academia, a esse ambiente muitas vezes hipócrita:
“...em vez de ser respeitoso fui me arrastando cada vez mais para a franqueza, delito imperdoável entre acadêmicos. Comecei a expressar com clareza cada vez maior o que realmente pensava. Eu, o polonês, bem tratado por aqueles cavalheiros, deixei-me levar pela crua expressão dos meus próprios pensamentos.”

De fato, maldito aquele que possui opinião própria e não se rende às teorias e aos autores sagrados desse ambiente, pois estará cometendo um pecado mortal. Afinal, o mais comum é a seguinte prática:
“...tudo o mais que circulava em meu curriculum vitae não passava de comentários ou paráfrases de ideias de outros, exercícios melancólicos de pseudo erudição filosófica (...) editados em revistas especializadas.”

São palavras saídas da boca do personagem Tardewski, ex-discípulo de Wittgenstein, jovem promissor que, no entanto, na velhice não passava de um fracassado (professor particular de filosofia para alunos do ginásio), segundo sua própria teoria e consciência. Sim, ele elabora uma complexa teoria sobre o fracasso e confessa que, desde sempre, buscava esse modo de vida, a do fracasso, ou melhor, a da renúncia, a do desprendimento. Embora “fracassado”, é ele o responsável pelo melhor do romance: sua vida, seus relatos, sua situação de radicado na Argentina por conta da invasão nazista em seu país, a Polônia, e sua “descoberta”.

E nessa “descoberta” (ou na tentativa de elucidá-la) entram em cena (não como personagens atuantes, mas secundários, sobre os quais Tardewski discorre) Kafka e Hitler. O que há em comum entre o escritor tcheco e o maior vilão da história da humanidade? Essa é a pergunta retórica usada pelo polonês a todo o momento. Houve algum tipo de relação entre ambos? Em algum dia já se encontraram, conversaram, trocaram ideias? Afinal, qual é essa “coisa” tão importante descoberta por Tardewski?

De acordo com ele, Hitler, “o exaltado defensor do militarismo prussiano, o sinistro construtor de uma abominável sociedade militarizada, fora um desertor. Delito máximo a que um alemão podia aspirar, segundo as leis nazistas”. Porém, essa não é a “coisa” descoberta por Tardewski, para o qual, inclusive, o livro “Minha Luta”, do ditador, era a realização da filosofia burguesa, a razão burguesa elevada ao seu limite mais extremo e coerente. Entre essas e outras reflexões, o polonês enreda não só seu interlocutor (Emílio Renzi), mas também os próprios leitores, uma vez que demora a apresentar sua tão falada descoberta.

Até o real motivo que fizera Renzi estar ali naquela província, a saber, o encontro com o seu tio Maggi (o Professor) a fim de saber mais acerca de Enrique Ossorio (homem de confiança do presidente Rosas em meados do século XIX), fica em segundo plano quando Tardewski, esse personagem tão convincente, abre a boca para falar. E fala, fala, fala. E ao falar, esperam, ele e Renzi, a chegada de Maggi. Por onde ele andará? É uma pergunta para a qual Renzi, seu sobrinho, não obterá respostas. Nem Renzi, nem os leitores. Ao final do romance, após a explanação enfim da grande descoberta de Tardewski, confirma-se justamente o desaparecimento do Professor, uma vez que - pelo menos na narrativa - ele não aparece, senão como uma sombra, mas uma sombra marcante, especialmente para Renzi.

E como o professor e historiador Maggi não vai ao encontro, sob os cuidados do seu sobrinho deixa muitos documentos históricos e cartas, entre as quais o bilhete de suicídio de Enrique Ossorio, o vilão, o traidor, o herói.

Sinvaldo Júnior é professor e crítico literário.

 

Leia um trecho de Respiração Artificial

Se eu mesmo fosse o inverno sombrio

Dá uma história? Se dá, começa há três anos. Em abril de 1976, quando é publicado meu primeiro livro, ele me manda uma carta. Com a carta vem uma foto, eu no colo dele: nu, estou sorrindo, tenho três meses e pareço um sapinho. Ele, em compensação, está muito bem na fotografia: paletó cruzado, chapéu de aba fina, o sorriso franco — um homem de trinta anos que olha o mundo de frente. Ao fundo, apagada e quase fora de foco, aparece minha mãe, tão jovem que no início quase não a reconheci.

A foto é de 1941; atrás ele escrevera a data e depois, como se quisesse me orientar, copiou as duas linhas do poema inglês que agora serve de epígrafe a este relato.

Não houve nenhuma outra tragédia na história de minha família; nenhum outro herói digno de ser lembrado. Várias versões circulavam secretamente, confusas, conjecturais. Casado com uma mulher de posses, uma mulher com o nome incrível de Esperancita e a respeito de quem se dizia que tinha um coração frágil e que sempre dormia de luz acesa e que nas horas de melancolia rezava em voz alta para que Deus pudesse ouvi-la, o irmão de minha mãe desaparecera seis meses depois do casamento, levando todo o dinheiro da senhora sua esposa, para se juntar com uma bailarina de cabaré conhecida pelo nome de Coca. Com perfeita calma, sem perder a cortesia gélida, Esperancita denunciou o roubo e moveu influências até conseguir que a polícia o encontrasse, alguns meses depois, vivendo luxuosamente, sob nome falso, num hotel de Río Hondo.

Lembro-me dos recortes de jornal em que se falava do caso, escondidos numa gaveta mais ou menos secreta do roupeiro, a mesma onde meu pai guardava a “Fisiologia das paixões e mecânica sexual”, do professor T. E. Van de Velde, autor de “O casamento perfeito”, e o livro de Engels sobre a “Origem da família, da propriedade privada e do Estado”, juntamente com cartas, papéis e documentos diversos, entre os quais minha própria certidão de nascimento. Depois de complicadas operações que ocupavam as sestas de minha infância, eu abria a gaveta e espiava em segredo os segredos daquele homem de quem todos na casa falavam em voz baixa. “Convicto e confesso”, dizia (lembro-me) uma das manchetes, e esse título sempre me emocionava, como se aludisse a ações heroicas e um pouco desesperadas. “Convicto e confesso”: eu repetia e me exaltava, porque não entendia bem o significado das palavras e achava que convicto queria dizer invencível.

O irmão de minha mãe ficou quase três anos preso. A partir daí pouco se sabe sobre ele; nesse momento começam as conjecturas, as histórias imaginadas e tristes sobre seu destino e sua vida extravagante; parece que não quis mais saber da família, que não quis ver ninguém, como se estivesse se vingando de uma ofensa sofrida. Uma tarde, porém, Coca fora a nossa casa.

Orgulhosa e distante, levava parte do dinheiro e a promessa de que tudo seria devolvido. Conheço as interpretações, os relatos do encontro, e sei que Esperancita chamava de minha filha aquela mulher que quase tinha idade para ser sua mãe, e que Coca usava um perfume que minha mãe jamais conseguiu esquecer. “Vocês”, dizem que ela disse antes de ir-se, “nunca vão saber que tipo de homem é Marcelo”, e quando o relato chegava a esse ponto, fatalmente e quase sem perceber, eu me lembrava da frase histórica de Hipólito Yrigoyen sobre Alvear depois do golpe de 1930, estranha associação, motivada também pelo fato de que Esperancita era meio parente do general Uriburu.

A partir daí e durante três anos Esperancita recebeu um cheque a cada dois meses, até saldar-se a dívida. São dessa época minhas primeiras lembranças dela, ou melhor, uma imagem que sempre pensei ser minha primeira lembrança dela: uma mulher belíssima, frágil, com uma expressão de arrogância e fastio no rosto, que se inclina para mim enquanto minha mãe me diz: “E então, Emilio, o que é que se diz para a tia Esperancita?”. Eu dizia: “Obrigado”, a ela mais do que a qualquer outra pessoa. Símbolo do remorso familiar, ela era uma espécie de objeto raro e excessivamente fino que fazia com que todos nos sentíssemos sem graça, desajeitados. Lembro-me de que sempre que ela nos visitava minha mãe usava a louça de porcelana e umas toalhas engomadas que rangiam como se fossem de papel. E ela nunca deixou de ir a nossa casa visitar--nos uma ou duas vezes por mês, em geral aos domingos ou às quintas-feiras, até morrer.

O irmão de minha mãe não chegou a tomar conhecimento de sua morte. Sumido, sem deixar vestígios, em determinadas versões dizia-se que continuava preso e em outras que estava vivendo na Colômbia, sempre com Coca. O que se sabe é que ele jamais ficou sabendo que ela morrera, jamais ficou sabendo que quando Esperancita morreu encontraram uma carta dirigida a ele onde ela confessava que era tudo mentira, que nunca fora roubada, e falava da justiça e do castigo mas também do amor, coisa esquisita sendo ela quem era.

O ar faulkneriano dessa história não podia deixar de me atrair: o jovem de futuro brilhante, recém-formado em direito, que larga tudo e desaparece; o ódio da mulher, que inventa um desfalque e o manda para a cadeia sem que ele se defenda ou se dê ao trabalho de esclarecer o engano. No fim, eu escrevera um romance com a história, usando o tom de “As palmeiras selvagens”, ou melhor: usando os tons que Faulkner adquire quando traduzido por Borges, com o quê, sem querer, o relato ficou parecendo uma versão mais ou menos paródica de Onetti. “Nenhum de nós, que lá estivéramos na noite em que finalmente se entreviu, na penumbra entristecida que sucedeu a tarde do enterro, o segredo daquela vingança cultivada durante anos, nenhum de nós pôde deixar de pensar que assistia à forma mais perfeita de amor que um homem pode dedicar a uma mulher; pacto piedoso do qual parece difícil prever o caráter ou as consequências dos ferimentos infligidos, mas não a intenção e a desejada bem-aventurança.”