Edição 1861 de 6 a 12 de março de 2011
Literatura
Heleno Godoy: a precisão poética
A poesia de Heleno Godoy é um estudo da linguagem, um precioso referencial para quem se aventura no árduo trabalho de recuperar o âmago da vida por via de construções metafóricas
Arquivo Pessoal
Helano Godoy: o artista literário mais sólido da literatura
feita em Goiás em todos os tempos

Carlos Augusto Silva
Especial para o Jornal Opção

Pela segunda vez um dos maiores críticos literários do País, Luiz Costa Lima, faz referência ao poeta, professor e ensaísta Heleno Godoy. Desta vez foi no livro de entrevistas “Uma Obra em Questão”, organizado por Dau Bastos, publicado pela Garamond, que reúne 28 entrevistas com grandes nomes nacionais e internacionais. Na primeira vez em que isso aconteceu foi em artigo publicado no maior jornal do Brasil no que diz respeito ao seu número de leitores, a “Folha de S. Paulo”, no suplemento cultural “Mais!”, em abril de 2006. Tanto no artigo da “Folha” quanto no livro em que é entrevistado, o crítico ressalta o valor da poesia de Heleno Godoy, falando também do desfavorecimento geográfico no que diz respeito ao conhecimento do público brasileiro fora dos limites do nosso Estado.

Heleno Godoy é o artista literário mais constante, inteiro e sólido da literatura feita em Goiás em todos os tempos. Toda a sua obra possui o mesmo rigor linguístico, a mesma precisão sistêmica que deve reger a obra de um poeta de fôlego, e uma coerência quanto ao projeto literário e as convicções estéticas que programa. Quem conhece a poesia de Heleno Godoy, ao ler um poema seu, mesmo se jogado estiver em meio a uma porção de outros poemas de qualidade, reconhecerá como sendo um poema de Godoy mesmo na ausência de uma assinatura. Seus versos são econômicos, trazem uma dicção muito particular, mesmo estando em sintonia profunda com suas duas maiores influências: Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Do primeiro, trouxe as temáticas do coração, da memória, da visão ampla e negativa da realidade, mas não de uma negatividade estagnada, chorosa ou melancólica, mas sim audaz, reflexiva, profunda; do outro, herdou a economia na linguagem, a inexistência de verborragia, de derramamento, e o mergulho nas particularidades das coisas, dos substantivos próprios, vendo-os por ângulos vários, dando ao que é comum status de grandeza, interpretando, reinventando e descobrindo no mundo banal uma realidade instigante e ampliada pela arte; se em Cabral temos o rio, a faca, em Godoy temos a casa, a caneta, e tantas outras coisas. Junto a essas influências acrescentou sua marca intelectual, erudita e — sem fazer uma poesia tediosamente enciclopédica, com citações e nomes de figuras míticas da tradição cultural — teceu, ao longo dos seus mais de 40 anos de carreira, uma poesia em constante diálogo com a tradição da lírica e da cultura ocidentais. Em seus versos, cada palavra tem razão de ali estar. Não há, em nenhum traço da obra de Heleno Godoy, qualquer vestígio do imponderável, do amadorismo fruto do descuido que, vez ou outra, pode aparecer até mesmo na obra de autores consagrados pelo tempo, pelas arquiteturas poéticas, pela história.

Falo da poesia de Heleno Godoy com intimidade porque tive o privilégio de ter feito a organização e o prefácio de sua antologia comemorativa dos 40 anos de carreira, o volume “A Ordenação dos Dias”, cujo posfácio é de autoria do poeta e professor-doutor Jamesson Buarque, da Faculdade de Letras da UFG. Jamesson Buarque é voz de autoridade no que diz respeito à arte da poesia, não só por ser um pesquisador, um acadêmico, tendo feito Mestrado e Doutorado a respeito de poetas totêmicos da literatura brasileira, mas também por ser poeta de densa qualidade já provada em livros como “Outra Tróia” e “Novíssimo Testamento”. Diz Jamesson em seu posfácio de a “Ordenação dos Dias”: “Precisa, a poesia de Heleno Godoy, como uma janela, lança nossa vista para o horizonte, e a paisagem mais larga que há é sempre horizontal, pois quanto mais lançamos a vista à frente do horizonte, mais o horizonte se move adiante.” Depois, falando especificamente a respeito de “Sob a Pele”, situa-o na poesia brasileira, buscando, em panorama, do século 19 ao 21, o lugar de Heleno na tradição poética brasileira: “Pode-se, sem risco de erro, garantir-se que “Sob a Pele” (2007), este livro mais recente, é sem dúvida um dos melhores poemas-livro da poesia brasileira, a exemplo de “Susana — 3 — Elegia e Inventário”, de Gerardo Melo Mourão, “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar, “O Cão Sem Plumas”, de João Cabral de Melo Neto, “Cantares”, de Hilda Hilst, “O Observador e o Nada”, de Micheliny Verunschk, e “Taxi”, de Adriano Espínola, para citar os mais próximos, e “I - Juca Pirama”, de Gonçalves Dias, e “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga, para citar os mais antigos.”

Há, especificamente em Goiás, quem veja em sua poesia de alto valor técnico um exercício frio, antiartístico, “poesia práxis que ninguém aguenta”, uma expressão não-poética porque demasiado pensada, reboando ainda os primeiros anos das experiências radicais do movimento Práxis em Goiás, do qual Heleno Godoy e Carlos Fernando Magalhães são os maiores representantes. Mas afirmar que a presença de técnica e trabalho consciente da linguagem exclui a transcendência artística é amadorismo de quem não sabe fazer o que a arte exige, como bem disse Camões no início de “Os Lusíadas”: o casamento do engenho (o saber fazer) e arte (inspiração para fazer). Sem um ou sem o outro a arte não se dá. Quem prima só pelo primeiro, constrói frios edifícios de linguagem, quem preza só pelo segundo, faz diários e delírios que nada de novo nos revelam sobre o mundo, já quem une os dois consegue romper o tecido do conceitual, do banal, reinventando a realidade: faz afrescos, composições amplas que precisam de seguro e elevado teto para se fazerem fixar no tempo. Para mim, o poema que mais responde a essas aventadas de que sua obra seria fria, desprovida de emoção (acusação que usualmente também era feita a João Cabral de Melo Neto), é “Fábula Fingida”, no qual o tema do acaso e milagroso encontro de duas almas que se desejam é trabalhado com requintes de linguagem que em nada nos afastam do ‘plaisir du texte’, como, por exemplo, nesses versos que escolhi para ilustrar a força de sua obra-prima em meu ensaio de apresentação da antologia “A Ordenação dos Dias” (o comentário que se segue é também parte integrante da apresentação desse livro-antologia): “ ‘Um descuido brota no percurso / uma presença equivale a uma ausência / atmosfera de fumaça, a ameaça / de uma volta, um resvalar / que vale à breve cidade voltar / uma ausência amplia outra carência / um tapa, queimar de folhas secas / verão de reticências, o desvelo / revela a falta, um resguardar / qual a claridade desta vertente vera / a pousar carência em ambos e cada / um, um só, essência’ ”.

O poema de Heleno Godoy acima citado coloca-nos diante de imagens que recorrem aos sons para nos dar a dimensão exata do universo que o mundo poético aberto pelo texto quer nos mostrar. A verdade de que, estando próximos, estamos ao mesmo tempo ausentes, lembra-me uma história irlandesa. É como se esses versos fossem a confirmação dessa história. Ensina-nos James Joyce em seu conto “Os mortos”, de “Dublinenses”, que a ausência é a mais elevada forma de presença, já que ela se revela por via de uma negação, de nunca sabermos o que temos ao nosso lado, o que guarda de segredos essa alma que nos rodeia. Ela é também a negação natural silogística, pois a presença de algo nos leva de chofre à não-presença de muitas outras coisas, e esse nada que existe em função do vazio, como o vazio desprovido de conteúdo, existe enquanto vazio que recebe algo, chama-nos quando temos a presença de outrem: ela nos revela a ausência do restante, aquilo que ignoramos (como no caso de Gabriel Conroy, no referido conto), que nos pode ser revelado como uma ‘atmosfera de fumaça’ ou uma ‘visão turva’.

Por outro lado, na estrofe seguinte do poema, o sujeito lírico nos diz que ‘uma ausência amplia outra carência’. Estamos diante de duas máximas. Uma: ‘uma presença equivale a uma ausência’, ou seja, a presença, pela negação, nos leva à ausência. Dois: ‘ausência nos leva à carência’, ou seja, a ausência, o vazio, nos leva à necessidade do preenchimento do vazio. Como presença traz a ausência e essa, a carência, estamos sempre à procura, nunca felizes, nunca preenchidos, sempre incompletos, imperfeitos, áridos com um ‘tapa’ ou como o ‘estalar de folhas secas’ que se queimam e estalam, como tapas (essa a imagem sonora é linda), conduzindo-nos a um verão de incertezas. Em consequência, o desvelo, antes símbolo de cuidado e afeto, revela-nos a falta, a carência, já que, se o recebemos, notamos que precisamos dele mais do que pensávamos antes de recebê-lo; e se o doamos, resguardamo-nos, protegemo-nos, pois amarramos com as carências alheias quem nos é caro com nosso desvelo: ‘carência em ambos e cada / um, um só, essência’.”

A poesia de Heleno Godoy, “arte pura e gêmea da verdade”, como diria Olavo Bilac (poeta que, juntamente com todos os outros parnasianos, são extremamente injustiçados por professores de literatura, leitores amadores “modernoides” — não modernistas — e poetas que gostam de bater ao peito para demonstrar uma valentia da linguagem que nada tem de artística), é um estudo da linguagem, obedece a um sistema que garante unidade ao seu projeto artístico, e só por isso já coloca o poeta como um patrimônio de nossas letras, e como um precioso referencial para quem se aventura no árduo trabalho de recuperar o âmago da vida por via de construções metafóricas, pois, como diria Paul Ricoeur, a metáfora é o que preserva e extrai das coisas sua essência, por via da comparação de coisas aparentemente distintas, assim, talvez se possa dizer que a obra poética do erudito, racional e acadêmico Heleno Godoy, sendo helênica por amar o logos da poesia, é, em seu todo, literatura.

Carlos Augusto Silva é professor e crítico literário.