Edição 1845 de 14 a 20 de novembro de 2010
Entrevista exclusiva | Luís Augusto Fischer
“Ferreira Gullar é o maior ex-poeta vivo do Brasil”
Professor de literatura e ficcionista gaúcho afirma que faz falta a crítica literária de rodapé nos jornais brasileiros
Fernando Leite/Jornal Opção
Cezar Santos
 
O norte-americano Paul Auster é o escritor que abriu as fronteiras do romance atual; o inglês Ian McEwan não é tudo isso que dizem; Rubem Fonseca é craque no conto e fraco no romance; os concretistas são muito ruins como poetas e relativos como críticos. Essas são algumas das opiniões do professor, crítico e ficcionista Luís Augusto Fischer.
 
Mestre e doutor em literatura, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor de vários livros, dono de sólida cultura literária, Fischer é acadêmico rigoroso, mas não se esconde na cátedra e gosta de dividir seu saber com os leigos em artigos e resenhas nos jornais e revistas e no rádio. Ele considera o compositor Noel Rosa gênio.
 
E, como se verá, não se furta a emitir opiniões polêmicas, num meio que normalmente se resguarda de provocações. A entrevista — na verdade, mais um bate-papo descontraído sobre livros e autores com o editor Cezar Santos — foi concedida no mezanino do Papillon Hotel, em Goiânia, no dia 18 de outubro, véspera de sua participação no 7º Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão (Conpeex), da Universidade Federal de Goiás (UFG), quando proferiu iluminadora palestra sobre regionalismo e modernismo. Fischer é um crítico contundente do “modernismo paulista” — que avalia que tudo o que não é modernismo não é bom.
 
A crítica literária no jornal praticamente acabou. Eventualmente leem-se críticas suas, de Alcir Pécora, Silviano Santiago, Luiz Costa Lima, Roberto Schwarz, Davi Arrigucci Júnior e poucos outros. O rodapé crítico está fazendo falta?
Faz. Primeiro porque era um intermediário entre autor e o público mais amplo. Fazia a mediação, filtrava as informações, a massa de livros novos que iam aparecendo. E tinha pelo menos mais duas funções importantes. Uma de dizer como a época estava lendo aqueles livros. Aconteceu muito, ao longo da história do jornalismo, que os livros clássicos eram reeditados e recebiam resenhas novas, isso renovava o debate. E outro aspecto — e usando uma imagem que alguém já usou —, essa crítica de jornal era uma espécie de porosidade na parede que há entre o mundo da criação artística na literatura e o mundo do leitor. Era comum ter um crítico titular importante ao lado de um jovem que dava sua sugestão numa resenha. Muitos desses jovens se tornaram críticos importantes. Então é uma perda e corresponde um pouco à profissionalização da tarefa crítica na universidade e essa crise do jornalismo impresso.
 
A morte do Wilson Martins (30 de janeiro passado, aos 88 anos) reacendeu polêmica que o cercava. Alcir Pécora realçou a importância dele como crítico, já Flora Sussekind disse que Martins estava ultrapassado. Como o sr. avalia o trabalho crítico de Wilson Martins?
Era muito interessante. Até o fim da vida ele continuou lendo coisas novas, tinha disposição de leitura muito rara. Foi um sujeito que fez vida universitária. Ele podia ter se isolado como pesquisador e tal, o que de fato ele também foi. Do ponto de vista do mérito, eu tinha restrições ao trabalho dele, porque era um tanto opiniático, de lua. Se ele gostava, não via defeito. Ou, se detestava, só via defeito. Mesmo dentro dessa loucura, ele foi um tipo interessante, tomando-se o panorama do Brasil como um todo. É legal ter um sujeito assim, mal humorado, com preferências. Uma vez escrevi um artiguinho — e ele acusou o recebimento —, e essa era minha questão com ele, porque Martins não parecia ter um marco teórico muito sólido, sendo ele acadêmico. De um crítico de jornal que fizesse críticas de varejo, isso nem seria tão importante, aí de fato o gosto seria o critério. Acho que faltava um pouco isso nele. Às vezes Martins fazia elogios desmedidos. Há pouco tempo, eu estava preparando uma pequena publicação sobre Viana Moog (1906-1988, romancista e ensaísta gaúcho), que pertenceu à Academia Brasileira de Letras. A ABL está fazendo série de perfis de acadêmicos falecidos. Fui atrás de comentários de Wilson Martins sobre dois romances do Viana Moog (“Um Rio Imita o Reno”, 1938, e “Tóia”, 1962), e ele faz elogios completamente descabidos, porque Viana não é tão bom. Se o escritor combinava com o temperamento dele, Martins perdia a medida. Mas era figura saudável, valia a pena ter um cara como ele.
Sobre o Pécora, eu também discordo de muitos pontos de vista dele. Mas é um crítico que gosto muito de ler, porque é muito agudo. Ele faz uma leitura formal muito interessante. Pécora, quando aparece, também ilumina a cena. Sempre vale a pena lê-lo.
 
Hoje, qual o grande crítico, ou grandes, no Brasil? E no exterior?
A figura mais importante do Brasil é Antonio Candido. Ele não escreve em jornal há muito tempo, mas escreveu muito. Ele é o guia, conseguiu fazer um obra relevante sendo apenas crítico. Internacionalmente, gosto muito do italiano Franco Moretti [professor de Literatura Comparada na Universidade Stanford (EUA), onde fundou o Centro de Estudos do Romance]. O professor doutor Anselmo Pessoa Neto, da UFG, fez uma recente tradução de um livro dele (“A Literatura Vista de Longe”, Editora Arquipélago). É um crítico de altíssima qualidade, teórico de perspicácia enorme. Ele conseguiu revalorizar a função da geografia no romance. E tem mais uns dois ou três críticos que, quando publicam artigos, são muito bons. Um deles é o argentino Ricardo Piglia, [“O Último Leitor”, Editora Companhia das Letras] crítico iluminador. Frequentemente discordo de observações dele, mas sempre é um texto instigante. 
 
Piglia tem uma conceituação do conto muito interessante, de que todo conto, no fundo, conta duas histórias, uma aparente e outra na entrelinha, ou no subtexto. 
Sim. E agora foi feito uma nova tradução do “Facundo” [do argentino Domingos Faustino Sarmiento (1811-1888), Editora Cosac Naify, tradução e notas de Sérgio Alcides] para o português, com magnífica apresentação do Piglia.
 
Como o sr. avalia os concretistas como poetas e críticos?
Em sentido amplo, acho fraca a poesia deles, não me comove. Um pouco de brincadeira, costumo dizer como se considera poeta quem não tem um poema de amor? Não existe. Isso é uma espécie de piada, mas ao mesmo tempo não é, porque a poesia é o território do lírico, não tem como fugir. Há um poema do Décio Pignatari, chamado “Fame”, que é infame... terrível, um trocadilho em francês. Do ponto de vista teórico, eles tiveram papel interessante, com a obsessão de estar na ponta da ponta da ponta da vanguarda, deram uma sacudida em vários momentos, trazendo à tona debates interessantes. Mas para avaliá-los, eu sigo muito a observação do Schwarz, na polêmica que ele teve com Augusto de Campos na década de 80, que diz mais ou menos assim: os concretistas parecem sempre empenhados em armar a história da literatura ocidental de maneira a confluir na obra deles. Eles falam “os precursores nossos”, (Stéphane) Mallarmé (1842-1898), (Guillaume), Apollinaire (1880-1918), etc. (risos...)
 
E como críticos?
Tem de fazer uma divisão. Se avaliar nos termos deles, como vanguarda, eles cumpriram papel interessante, mesmo como poetas. Propuseram um debate, a integração da poesia com as artes plásticas, etc. Acho que é relevante. Mas do meu ponto de vista, eu que sou muito mais candidiano e schwarziano, portanto mais ligado à visão histórica, com a dialética, tenho a sensação de que eles acabam sendo fracos, em questões que para mim são chaves, digo adornianamente falando, na relação entre a forma e a sociedade. Se coar tudo o que eles disseram, por exemplo, em termos do Brasil, da identidade nacional, a visão é meio caipira. Eles são meio José de Alencar, não são Machado de Assis. Os méritos deles é do ângulo da vanguarda. Do ângulo do debate mais sistemático não vejo muita validade. 
 
Ferreira Gullar é o maior poeta vivo do Brasil?
É o maior ex-poeta vivo (risos). Não li o livro novo dele (“Em Alguma Parte Alguma”, Editora Jose Olympio), do qual estão falando bem. Mas acho que Gullar não é mais poeta. Ele tem um grande livro, “Poema Sujo”, e uma trajetória como poeta que é muito legal, aquela inquietação, ir e voltar para o poema popular. Mas a obra dele não é do primeiro plano da língua portuguesa. 
 
Sobre a produção brasileira atual, quem o sr. considera de destaque? Tem quem diga que o manauara Milton Hatoum é o maior escritor brasileiro hoje. O que o sr. acha?
É difícil isso de maior escritor, depende do autor ter uma obra bem constituída, larga. Onde vamos colocar o Carlos Heitor Cony, por exemplo, que tem uma obra muito apreciada. Hatoum está pintando como um grande autor do nosso tempo, com uma média de produção muito boa. Ele acertou a mão no “Dois irmãos” (Editora Cia. das Letras, 2000), um livro excelente, de exceção. 
Mas um cara bom mesmo é Cristovão Tezza, a quem acompanhei bastante. Se não li tudo, foi quase tudo dele. Ele é interessante, porque pratica uma narrativa bastante convencional, romances de tamanho clássico, embora até tenha alguma experimentação de pontos de vista e tal. Mas em “O Filho Eterno” (Editora Record, 2007) fez uma ousadia enorme, para ele, nesse gesto de borrar as fronteiras entre a verdade da vida do autor e a ficção. Gosto de ver como ele aceita os desafios da vida cotidiana, não tem medo de meter a mão em temas aparentemente banais ou secundários. Curitiba, assim como Porto Alegre e como Goiânia, eu imagino, sofre dessa condição de ser cidade grande fora do centro, se sente assim irmão menor. É difícil um escritor provincial, como é o caso dele, não ter medo de tocar em assuntos sem estatuto de excelência no repertório que está dado. E ele se sai disso excelentemente. Não se afunda nessa pouca água. 
 
Dalton Trevisan?
É, tem o Trevisan também. Ele escreve pouquinho, é o menor escritor brasileiro (risos...). É outro que é muito bom.
 
Tem recebido boas críticas o Bernardo Carvalho, de São Paulo. Tem qualidade ou é coleguismo da imprensa por ser ele bem relacionado no meio jornalístico?
Não sei se é coleguismo, mas eu o acho superestimado. Não li tudo dele. Gostei de “Nove Noites”, mas “Mongólia” eu comecei e não consegui ir adiante. Tem o russo, não me lembro o nome [“O Filho da Mãe”, Editora Cia. das Letras, 2009, escrito a partir de viagem do autor à Rússia], também desisti. Ele é superestimado, mas isso faz parte, porque há confrarias de gosto, de tendências, de estilo, modo de vida, etc. Tem um escritor da minha terra, o João Gilberto Noll, a quem também acho superestimado. Ele é bom, evidentemente, mas é superestimado em alguns contextos. A sensação é de que está sempre escrevendo a mesma história, para mim já não comunica nada. Até acho importante o artista ser encarniçado e ir atrás do que ele acha importante, o que não quer dizer que isso garanta qualidade. Olhando de fora, acho legal que artistas tenham esse tipo de engajamento. Mas é literatura muito específica, que seleciona um leitor muito antecipadamente. Não é comigo que ele está falando. Bernardo Carvalho é um pouco isso, por mais que tenha amplidão, e ele bota o dedo em tudo que é parte, numa aldeia de índio, na Mongólia, não sei mais onde, me parece bala de festim.
 
“Machado escreveu coisas ruins também”
 
Um escritor goiano, Valdivino Braz, diz que Bernardo repete um mesmo truque narrativo nos romances. E o que o sr. diz do velho Rubem Fonseca? Perdeu a energia ou ainda instiga?
Nunca fui muito fã dele. Gosto de lê-lo, gosto dos contos. Os romances não funcionam. No varejo funcionam, ele sabe manejar, tem ritmo, etc. Um falecido amigo dizia que o problema do Fonseca é que ele olha para a história humana com desprezo. Tudo para ele vira variedade. Há um exibicionismo de conhecimentos sobre um assuntinho, armas brancas, veneno. É um truque aborrecido. Mas nos contos ele tem um manejo soberano. Mas tirando os livros do início da carreira, “Feliz Ano Novo”, “O Cobrador”, livro recente dele que realmente me seduziu é um de memórias e crônicas, chama “O Romance Morreu”. Tem um texto de memórias lá, em algum lugar ele diz envergonhadamente que é a história dele, é muito bom. Um texto com força. E é um livro meio caça-níquel de textos já publicados num site. 
 
O sr. gosta do paulista Marçal Aquino?
Não muito. Também tem ritmo, bom manejo de diálogo, mas nunca li nada que me enchesse os olhos. Ele tem crença excessiva na forma.
 
O sr. acompanha a literatura goiana?
Só conheço os clássicos goianos. Aliás, estive há alguns dias com o professor Rogério Santana, da UFG, num evento literário em Natal (RN), e ele fez uma exposição valiosa sobre a história da literatura em Goiás. Conheço Hugo de Carvalho Ramos, José J. Veiga. Mário Palmério é goiano?
 
Não, Palmério é mineiro. E dos contemporâneos goianos?
Tem o Flávio Carneiro [escritor, crítico literário e professor de literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ], a quem conheço pessoalmente. Estive com ele num debate, em São Francisco Xavier (SP) numa mesa sobre literatura policial, ele gosta do tema. Flávio é bom crítico também, interessante. Gostei de um livro recente dele, sobre livros contemporâneos, em que ele se propôs fazer uma leitura sistemática de literatura contemporânea (“O Leitor Fingido”, Editora Rocco). É outro que não tem uma marca teórica muito forte, mas faz bom trabalho crítico.
 
Tem um livro dele, “O Campeonato”, que é um absoluto subpastiche de policial americano, uma coisa assim. Houve elogios em jornais principalmente do Rio. 
Eu não li esse. Li uma novelinha, tipo policial, sobre um cara meio torturado.
 
“A Confissão”
Isso.
 
Há algum escritor brasileiro com pelos menos 50% do talento de Machado de Assis (1839-1908) ou de Guimarães Rosa?
Difícil avaliar 50%. Entendo o sentido da pergunta, são dois gigantes. Fixando só em Machado de Assis, que escreveu ao longo de 50 e tantos anos, nunca parou de escrever. Ele não escreveu só coisas geniais, fez coisas fracas também. Mas é um cara que se adestrou produzindo, não parou nunca de melhorar. Quem tem desse tamanho? Vivo, acho que ninguém produziu como ele, no sentido de fazer uma obra impactante. O último talvez tenha sido João Cabral de Melo Neto, que nem é do tamanho do Machado, é juvenil dele (risos).
 
Em 2008, o sr. publicou livro sobre Machado e Jorge Luis Borges (1899-1986), “Machado e Borges” (Editora Arquipélago). Em rápida pincelada, o que eles têm em comum?
Achei que iria escrever um ensaiozinho de 20 páginas e acabou saindo 100 páginas. Sou leitor dos dois há muito tempo e nunca tinha escrito nada aproximando eles, aliás, nunca tinha escrito nem resenha dos dois. Usando mais uma vez a lente de Antonio Candido, tentei mostrar que os dois — por mais diferenças que tenham, de história pessoal, de gênero que praticaram, de época, etc. — representam papéis muito semelhantes para suas literaturas nacionais. Esse foi o ponto de aproximação que busquei, mostrar que Machado tanto quanto Borges, cada um no seu tempo e lugar, são pontos de chegada na literatura do Brasil e da Argentina, respectivamente. E isso por motivos que dá para enunciar. Cada um leu a tradição, tinha ponto de vista cosmopolita, não era antipopular nem antilocalista. Conseguiram fazer um balanço interessante entre a necessidade do tema local e da visão mais ampla. Em geral essa é uma equação em que os escritores mais fracos se perdem. Guimarães Rosa é outro exemplo, não se perdeu aí. Foi marcantemente localista, e quando a gente começa a ler vê que ali dentro tem um planeta inteiro. 
E Machado e Borges têm semelhanças que me interessou marcar. Por exemplo, ambos têm temperamento clássico, isto é, antirromântico, antivanguardista, em homenagem à pergunta anterior sobre os concretistas. Nenhum dos dois tem a menor entusiasmo pela vanguarda. Borges até teve um pouco no começo da vida, uma fantasia ultraísta [Ultraísmo foi um movimento literário nascido na Espanha em 1918, de oposição ao modernismo], e tal, que logo abandonou e virou um escritor clássico. Outra semelhança: os dois foram anglófilos num tempo francófono. Eles tiveram coerência impressionante, escreveram muito, o que pode parecer menor. Mas um gênio escrever muito é algo importante. Há gênios de um livro só, são marcantes, mas não fazem uma história. Machado e Borges fizeram história. 
 
Dos autores brasileiros na faixa dos 30 anos, quem o sr. destaca?
Daniel Galera, casualmente um gaúcho, é interessante. Além da forma, ele tem bom controle dos meios expressivos da narrativa tanto curta quanto longa. O cara tem pulso, a história conta mais do que aquilo que conta. Mesmo em histórias mais simples, em que exala pouca maturidade no sentido existencial, mostra coragem. Por exemplo, ele não tem medo do tema da morte. É algo importante para um escritor jovem. 
 
Leio dois escritores gaúchos não tão jovens, ambos professores universitários, Verônica Stigger e Altair Martins, um autor já com prêmios importantes. O que o sr. acha deles?
Conheço bem os dois. Acho que Altair está sendo superestimado. A busca dele faz sentido e é muito possível que venha a escrever um grande livro. Mas há um preciosismo formal na obra dele que mais atrapalha que ajuda. O que é legal é que ele tem um gosto para falar de gente de baixo, gente sem projeção social e por isso quase sempre sem perspectiva. 
 
Lembra João Antônio (1937-1996) em certos momentos?
Exatamente, tem algo do João Antônio, mas, ao contrário do João, é  acadêmico no mau sentido. Aquilo de inverter a frase, colocar palavra que escorrega semanticamente um pouco mais para lá, um pouco mais para cá. A sensação é que a cada frase ele quer marcar o novo. A obsessão formal atrapalha. Altair está meio abarrocado no mau sentido.
 
Achei extremamente irregular o “Como Se Moesse Ferro”, um livro com passagens fortes, muito interessantes, e outras muito fracas.
É isso aí. A gente enxerga lá dentro um grande personagem, uma grande cena, mas ele sucumbe ao formalismo.
 
E Verônica Stigger?
Verônica eu conheço mais ainda, foi minha aluna. É interessante a disposição dela em inventar coisas. Ela tem uma formação cosmopolita legal, passou um tempo na Itália estudando, o que lhe abriu a cabeça. São fatores importantes no cenário. Mas eu não me convenci ainda, não acho que tenha produzido um livro que marcou. Estou com o último dela (“Os Anões”, Editora Cosac Naify) para ler. A minha restrição com Verônica é de outra ordem, não é como com o Altair, que é de ordem formal. A sensação que tenho com a literatura dela é que há um comprazimento vazio. Tem vibração, tem forma girando, tem novidade, tem sarcasmo e tal, mas como leitor me sinto meio no desolamento. Ao final da leitura, me pergunto por que eu acompanhei isso? Por que, como leitor, emprestei minha atenção e minha alma para esse texto? Não sei se tenho razão, mas é a minha sensação.
 
E de literatura estrangeira, quem o sr. destaca? O inglês Ian McEwan é realmente esse portento? Já se disse que “Reparação” é o primeiro clássico do século 21.
Não acho isso tudo. Mas também não li muito, só dois romances. “Reparação” não me seduziu. Aquilo que as pessoas dizem que encontram nele, aquele encantamento, eu não acho. Uma amiga minha, jornalista, diz que tem uma sensação de levitar com McEwan, diz que não sabia se aquilo era no plano da realidade ou da ficção, se ensaio ou narrativa. Não senti isso. Gosto do inglês Jonathan Coe, [“A Chuva Antes de Cair”, Editora Record] que tem uma gana narrativa impressionante, consegue botar mundos inteiros de pé.
 
E o americano Paul Auster, que já esteve em alta no Brasil e hoje é meio desdenhado?
O encantamento que não tenho com McEwan eu tenho com o Paul Auster. Não sei se é por afinidade psicológica e tal.
 
Auster é o autor atual cuja leitura mais me dá prazer. A metaliteratura dele é contida, inteligente e sem exagero formalista, embora às vezes caia o nível, como em “Homem no Escuro” (Cia. das Letras, 2008, tradução de Rubens Figueiredo), livro que dá a impressão de ser mal acabado. Mas temos Auster de novo no auge com “Invisível” (Cia. das Letras, 2010, tradução de Rubens Figueiredo). 
Paul Auster é o cara hoje em dia, o grande cara. Não é o [francês] Michel Houellebecq. Foi Auster que conseguiu avançar no debate. Escrevi um ensaiozinho dizendo que ele conseguiu incorporar estruturalmente o que o nosso tempo está vivendo, que é a força do acaso na vida das pessoas. Quer dizer, para gente como nós, integrada, de classe média, que não passa fome, que tem informação, com acesso à internet, que somos cosmopolitas em qualquer parte do mundo, para nós a força do acaso tem presença enorme. Auster bota o acaso para funcionar estruturalmente. O sujeito está andando e cai alguma coisa, por causa disso ele olha para o lado e vê algo que vai ser fundamental na história dele e que ele não teria visto se aquilo não tivesse caído naquele momento.
 
Não por acaso ele tem um livro chamado “A Música do Acaso”...
Pois é. Para mim, é o autor que expandiu as fronteiras do romance hoje em dia.
 
O sr. conhece o japonês Haruki Murakami?
Nunca o li, tenho um amigo que gosta muito dele.
 
Gosto muito também. Murakami é um pouco meio Auster, há certa aproximação. O mesmo jogo do acaso, um quê de realismo mágico dentro do cotidiano, a mesma marcação da cultura pop, embora mais acentuada. Consta que ele estava cotado para receber o Nobel neste ano.
Veja só, vou dar uma olhada nesse japonês.
 
Como leitor leigo e um pouquinho acima da média, me parece que a melhor literatura na América Latina está sendo feito na Argentina. O sr. concorda? Quem destaca de lá?
A literatura argentina é muito boa. Gosto dos de carreira consolidada, Ricardo Piglia, Mempo Giardinelli, que há tempo não publica. Gosto do César Aira, que tem novelas encantadoras. É muito criativo, envolvente. Li um livrinho do Alan Pauls, mistura memória com ensaio e ficção, escrito a partir de meia dúzia de fotos que ele tinha na praia [“História do Pranto”, Editora Cosac Naify, tradução de Josely Vianna Baptista]. Um livro despretensioso, adorável. É um autor que vale a pena. 
 
Surgiu com uma fulguração o chileno Roberto Bolaño. 
É muito inventivo, engraçado. Tem uma coletânea de contos chamada “El Gaúcho Insufrible” maravilhosa, uma parte é um pastiche de literatura gauchesca, excelente. Bolaño é irreverente, muito legal. A literatura do mundo hispano-americano do sul da América está muito bem. 
 
A impressão é que Bolaño se divertia muito ao engendrar suas histórias, colocando biografia, imaginação e provocação sem se preocupar com a medida de cada um desses ingredientes. E o espanhol Enrique Vila-Matas, o sr. gosta?
Acho-o excessivo, me perco um pouco naqueles labirintos. Estava fazendo uma resenha do último livro dele e desisti no meio, uma história de um cara que vai viajar, que pensa que vai escrever uma conferência, e vai entrando num fundo falso de um fundo falso... Achei excessivo, não me seduziu.
 
Por falar em Nobel, o que o sr. achou do prêmio para Mario Vargas Llosa?
Achei legal. Escrevi uma nota no jornal “Zero Hora”, em Porto Alegre, dizendo que ele realmente é a última bolachinha do pacote dele. Não há mais romancista como Llosa. Mal comparando, ele é o romance de 30 brasileiro. A língua espanhola aqui na América aconteceu na geração dele, que é a geração do Cony, do [Moacyr] Scliar, caras que tiveram a oportunidade explicar toda uma formação histórica por dentro do romance. 
 
Há um jogo comparativo entre Llosa e García Márquez, como se fossem excludentes. Como o sr. se situa aí? Qual vai sobreviver? Se fosse para levar um só livro de um dos dois para a tal ilha deserta, qual seria?
Vargas Llosa vai sobreviver como conjunto mais do que García Márquez. Mas Márquez tem um romance superior, “Cem Anos de Solidão”, com muita coisa muito ruim no resto de sua obra. Coisas chatíssimas. “O Outono do Patriarca” é uma choradeira insuportável, não tem cabimento. Não li tudo do Llosa, mas, do que li, tem mais livros de excelente nível. Para a ilha talvez levasse “Cem Anos...”, tem um mundo ali.
 
Llosa crítico lhe agrada? “A Orgia Perpétua” (sobre Flaubert) é uma festa, não? 
É boa leitura crítica. “A Orgia...” não é tanto da minha preferência. Talvez pelo vício acadêmico, gosto de crítico com formulação teórica mais exigente. Ele é excelente crítico que se deixa levar por um objeto, faz comentários inteligentes e iluminadores. Mas gosto de coisa com mais consequência científica, se dá para dizer isso. 
 
Adaptação de livro para cinema, tem alguma, de qualquer época, a que o sr. tira o chapéu, digamos assim?
Me vem à cabeça de imediato o “Lavoura Arcaica” [de 2001, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, roteiro baseado no romance homônimo de Raduan Nassar, publicado em 1975 pela Editora José Olympio]. Fernando Carvalho fez um filme muito bom em paralelo ao livro. Ele se comunica com o romance, mas tem autonomia como imagem. Se vê que tem uma concepção. Talvez ele se perca um pouco na coisa incestuosa, que no livro é mais insinuado. O livro é magnífico.