37 anos
Edição 1878 de 3 a 9 de julho de 2011
Ensaio
Eterna meia-noite em Paris
Este não é apenas um texto sobre o novo filme de Woody Allen. É um texto sobre Paris. Um guia literário de uma época. Um grande passeio pela Paris dos intelectuais, das histórias, dos escritores e artistas que ficaram gravados no inconsciente coletivo do mundo
Don Julien/Photography

Marcelo Franco
Especial para o Jornal Opção

Todos os que escreveram sobre o último filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”, captaram bem a sua essência (e o próprio Dr. Flávio Paranhos, woody-allenista da linha de frente, já deu o seu aval ao filme). Agradeçamos aos santos padroeiros do cinema por Woody Allen não ser adepto do hermetismo cinematográfico, esse mal que lota cineclubes e esvazia cinemas: em “Meia-noite em Paris” claramente entendemos que ele questiona se haveria uma idade de ouro melhor do que os tempos atuais em que vivemos. O protagonista do filme volta, por conta de uma mágica qualquer, à Paris dos anos 1920 e passa a conviver com Scott e Zelda Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Dalí, Buñuel, Man Ray, Cole Porter. Vê Josephine Baker se exibindo no Bricktop's e dança com Djuna Barnes numa festa, o que lhe permite uma ótima piada: “Aquela era Djuna Barnes? Não me impressiona que ela quisesse liderar” (outras boas piadas acontecem quando ele antecipa o roteiro de “O Anjo Exterminador” para Luis Buñuel, que não o entende — “Por que as pessoas ficam presas na casa?” —, e quando cita uma frase do próprio Hemingway para o escritor, “Acredito que toda a literatura americana nasce com ‘As Aventuras de Huckleberry Finn’”, mas Hemingway, em resposta, apenas lhe pergunta se ele gosta de boxe). Contudo, a mulher por quem Gil Pender, o personagem interpretado por Owen Wilson, se apaixona naqueles roaring twenties, prefere a belle époque, e de novo, por causa de uma espécie de magia, eles recuam ainda mais no tempo e sentam-se a uma mesa no Moulin Rouge com Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Woody Allen parece concluir que não há uma época de ouro e que é preciso viver da melhor maneira possível o presente; o filme é assim uma apologia do “ubi sunt?” e do “carpe diem”.

O filme, é também imperdível: Woody Allen nos reconcilia com a parte boa da vida, sempre escondida por nossas agruras habituais. E tudo isso com humor e leveza — como já disse um crítico sobre outra pessoa, não há no filme profundidade, apenas uma infinidade de superfícies, o que em cinema não é defeito, mas sim uma grande qualidade (não me recordo do nome do crítico e tampouco da pessoa sobre quem a frase foi escrita: à medida que envelheço a passos largos, a capacidade de lembrar nomes vai dolorosamente diminuindo: sei agora que o terror da meia-idade é um rosto conhecido que pergunta “lembra-se de mim?”). Quem está no mundo para reclamar poderia dizer que Gertrude Stein parece mais esfuziante do que rabugenta, que Hemingway, que não bebia tanto em 1920, está mais beberrão do que disciplinado, como realmente era então, ou que Picasso não parece tão imponente quanto deveria ser (Gertrude Stein dizia que ele dominava tanto um ambiente que, quando saía, parecia deixá-lo pouco a pouco: “Peu a peu il quitte la pièce”). Não importa: o filme é mesmo muito bom.

Sinto-me, porém, espoliado. Há anos venho lendo livros sobre Paris, especialmente sobre os anos 20, com uma vaga intenção de escrever sobre a cidade. Só que há tantos livros sobre Paris que uma vida inteira não basta para lê-los. O livro de Hemingway, “Paris É Uma Festa”, é o mais conhecido, mas todos os integrantes da chamada Geração Perdida parecem ter escrito as suas lembranças da época. E há as biografias, os romances à clef, os estudos acadêmicos e os livros do tipo “A Paris de Hemingway”, “Paris Boêmia” e “Escritores em Paris”. Paris é não só uma festa, mas também uma estante cheia de livros para serem lidos.

Mas por que a cidade encanta? Fiquemos, por falta de espaço e tempo (e de engenho e arte), com a turma que lá foi morar entre 1900 e 1930. Os anos 20, auge da criatividade e da loucura daqueles artistas, foram os que ficaram no inconsciente coletivo (a linguagem psicanalítica é uma espécie de praga da qual não se consegue fugir), apesar de muitos estrangeiros terem deixado a cidade depois do crash de Wall Street em 1929 e a despeito do fato de que haveria outras ondas de expatriados depois da Segunda Guerra — por exemplo, Richard Wright, James Baldwin e Chester Himes —, assim como houvera antes, pois os norte-americanos começaram a chegar a partir da Guerra de Independência para pedir ajuda aos franceses, para lá tendo ido Benjamin Franklin, John Adams e Thomas Jefferson, seguidos mais tarde por James Fenimore Cooper, Samuel Morse, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne, Mark Twain, Henry James, Harriet Beecher Stower, Mary Cassatt, John Singer Sargent e muitos outros (não é à toa que Oliver Wendell Holmes — o pai, não o filho jurista — disse que “Bons americanos, quando morrem, vão para Paris”). (Aliás, por falar em John Adams, David McCullough, autor de uma magnífica biografia de Adams, acaba de publicar “The Greater Journey: Americans in Paris”.)

Portanto, voltemos à Paris do início do século passado (e, antes que os meus seis leitores reclamem, aviso — o que deveria ter feito logo no primeiro parágrafo — que este texto não tem um propósito muito bem definido. Ou antes: o meu propósito é apenas escrever sem muito critério sobre Paris).

Picasso & Gertrude

Para o escritor norte-americano William Wiser (“Os Anos Loucos: Paris na Década de 20”), a morte de Modigliani e as loucuras do presidente Paul Deschanel são marcos do início dos malucos anos 20 que se seguiriam. Modigliani morreu em janeiro de 1920, levando a sua amante de 19 anos, Jeanne Hébuterne, a pular, em desespero, da janela do apartamento dos seus pais na Rue Amyot — sua família, de início relutante, permitiria mais tarde que Jeanne fosse sepultada ao lado de Modigliani no Père Lachaise. E Deschanel acabou internado numa clínica em Malmaison, isso depois de folclóricas bizarrices, como abraçar árvores, entrar vestido em lagos, cair do trem presidencial e ser visto de pijama andando sobre os dormentes.

Já para a jornalista e escritora Suzanne Rodriguez-Hunter (“Achados da Geração Perdida: Receitas e Anedotas da Paris dos Anos 20”), o início da festança ocorreu bem antes, no jantar que Picasso ofereceu, em 1908, ao pintor Henri Rousseau, que, mesmo com 64 anos, era admirado pela geração mais jovem. Dele participaram várias pessoas, dentre elas os pintores Georges Braque e Marie Laurencin, os escritores André Salmon e Guillaume Apollinaire, os americanos Gertrude Stein, seu irmão Leo e sua nova amiga (e futura amante) Alice B. Toklas. Planejaram que se reuniriam aos pés de Montmartre para aperitivos no bar Fauvet e depois subiriam a ladeira até o estúdio de Picasso, onde comeriam arroz à valenciana. Mas a coisa desandou: no bar, Laurencin embriagou-se e ficou inconveniente; a namorada de Picasso, Fernande Olivier, ficou desconsolada porque alguns produtos encomendados não foram entregues, saindo então com Alice Toklas para encontrar alguma mercearia aberta, o que não conseguiram; na subida de Montmartre, Gertrude e Leo tiveram de carregar Laurencin, que não conseguia andar; Fernande barrou a entrada de Laurencin no ateliê, e Gertrude Stein disse então que, depois de carregá-la, ela teria que ser aceita; Picasso concordou, e Laurencin, já dentro do ateliê, caiu sobre uma bandeja; Apollinaire, que era amante de Laurencin, levou-a para fora e, ao que tudo indica, deu-lhe uns tabefes, o que a fez recuperar um pouco da sobriedade; vizinhos esfomeados roubaram comida; um frequentador do Lapin Agile passeou dentro do estúdio com seu burro; o burro bebeu bastante e comeu o chapéu de Alice Toklas; cantores de rua italianos juntaram-se à bagunça e foram expulsos por Fernande; André Salmon, também embriagado, começou a brigar com todo mundo e então estátuas começaram a ser derrubadas, para desespero de Braque, que inutilmente tentava segurá-las; um dos pintores dançou músicas religiosas espanholas e estendeu-se no chão como um Cristo crucificado; uma convidada não identificada rolou ladeira abaixo e caiu dentro de um esgoto; Rousseau adormeceu debaixo de uma vela que pingava cera derretida sobre a sua cabeça e depois acordou e passou a tocar violino. Festa estranha, com gente esquisita. (Penso agora que é uma pena que Guillaume Apollinaire, que havia sido o maior expoente da vanguarda literária a partir de 1913, ano em publicou “Álcoois”, não tenha chegado à década de 20 com o seu gênio modernista, pois morreu em 1918, dois dias antes do fim da guerra. Sucumbiu à gripe espanhola e não aos estilhaços de bomba que carregava na cabeça e por conta dos quais havia sofrido uma trepanação, o que também o levou a andar pelos cafés com a cabeça envolta em panos — foi até mesmo desenhado assim por Picasso.)

A Geração Perdida começou a chegar a Paris por volta de 1920. Alguns expatriados já estavam lá há algum tempo, como Natalie Barney (desde 1902), Gertrude Stein (1903), Edith Wharton (1909) e Sylvia Beach (1917); outros tinham tido rápidas passagens pela cidade, durante a Primeira Guerra, como voluntários ou mesmo recrutados — Ernest Hemingway, e.e. cummings, John Dos Passos, Dashiell Hammett. A expressão “geração perdida” foi ouvida de um mecânico francês por Gertrude Stein — o mecânico cuidava do carro de Stein, que ela apelidara de Godiva porque o recebera sem acessórios, tão nu quanto Lady Godiva sobre o seu cavalo. Depois, Stein, magoada com Hemingway, disse a ele que “todos vocês jovens que fizeram a guerra são uma geração perdida”. A propósito e sem propósito: já em 1926, Hemingway percebeu, no seu esplêndido “O Sol Também se Levanta”, a falta de rumo de alguns integrantes da sua turma: o título do livro, que remete ao “Eclesiastes”, e a impotência física do personagem, que serve de metáfora para a impotência de alma de toda uma geração, mostram a sua, por assim dizer, desilusão. O livro causou sensação à época, baseado que fora em algumas das pessoas que frequentavam Montparnasse; Jimmie, um famoso barman de então, diria depois que havia “seis personagens à procura de um autor... com um revólver”. No livro há um almoço — jantar? — no Rendezvous-des-Mariniers, restaurante que ficava na Île Saint-Louis, ao lado da sede da revista “transatlantic review” (com letras minúsculas, como se escrevia então para demonstrar modernidade). Jake Barnes e Bill Gorton, personagens do livro, fazem uma refeição no restaurante e depois caminham da ilha até Montparnasse, passeio que até hoje é imitado por leitores de Hemingway e que deve ser feito por quem quer que se encontre em Paris e se importe com esse tipo de “faits divers”: nas viagens ao exterior, deixa-se a vergonha em casa.

Natalie Barney estava em Paris há muito tempo. Era muito rica, homossexual assumida e escrevia livros sobre temas variados. A partir de 1909, passou a receber às sextas-feiras no número 20 da Rue Jacob, e seu salão funcionaria pelos próximos sessenta anos. Lá Mata Hari cavalgou nua um cavalo branco (revivendo Lady Godiva?); dançarinos de Java apresentaram-se também nus; Colette e o costureiro Paul Poiret interpretaram os papéis principais de “La Vagabonde”, da própria Colette; Gertrude Stein leu em voz alta trechos de “A Construção da América”. Barney nos deixou retratos de pessoas que frequentavam o seu salão em “Aventures de l’Esprit”.

Stein chegou em 1903 e logo se juntou ao seu irmão Leo no agora famoso número 27 da Rue de Fleurus. Passaram a comprar quadros de artistas quase desconhecidos e que iriam depois fazer muito sucesso, como Cézanne e Gauguin. Mas suas maiores descobertas foram Matisse e Picasso: o seu primeiro Matisse foi “Mulher de Chapéu”, e o primeiro Picasso foi “"Jovem com Flores”, que Leo comprou e que não agradou a Gertrude. Gertrude logo conheceu Picasso e posou para o famoso “Retrato de Gertrude Stein” (conhecera Picasso em 1905, apresentada por Henri-Pierre Roché, autor de “Jules et Jim”, livro que, décadas depois, viraria um grande filme nas mãos de François Truffaut). Achou que o retrato não se parecia consigo, mas Picasso lhe disse que um dia acabaria parecendo, o que de fato aconteceu. Stein era vaidosa ao extremo: por exemplo, não suportou Ezra Pound, que, em seu début no salão da Rue de Fleurus, falou mais do que ela e ainda quebrou a sua cadeira favorita (e ela também não parecia gostar que o nome de Joyce fosse pronunciado: aqueles que o diziam mais de uma vez não eram convidados novamente). As experiências literárias de Stein não agradavam a todos; Suzanne Rodrigues-Hunter conta que Margaret Anderson, editora da revista literária “Little Review”, dizia: “Eu, por exemplo, ainda tenho dificuldade, uma dificuldade muitas vezes não recompensada pela compreensão. E minha compreensão é muitas vezes não recompensada pelo interesse”. Mas Gertrude era uma publicitária avant la lettre, como mostra ao se descrever pela voz de Alice no seu “A Autobiografia de Alice B. Toklas”: “Posso dizer que só três vezes na vida encontrei gênios e a cada vez um sino tocou dentro de mim e eu não estava errada, e posso dizer que em cada caso foi antes do reconhecimento geral da qualidade de gênio neles. Os três gênios de que quero falar são Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred Whitehead”. Alice Toklas, aliás, foi morar na Rue de Fleurus em 1908; enciumado, Leo mudou-se em 1913. Para quem gosta de Paris, “A Autobiografia de Alice B. Toklas” e “Autobiografia de Todo Mundo” são livros indispensáveis da velha Gertrude (e ainda há “Paris França”). Já Alice, dona de um famoso bigode que nunca raspou, publicou um livro de receitas culinárias mescladas com lembranças, “O Livro de Receitas de Alice B. Toklas”, que ficou célebre por incluir, parece que inadvertidamente, uma receita cedida por Brion Gysin de um “fudge de haxixe” (“Obter a Cannabis pode apresentar algumas dificuldades...”, escreveu a inocente Alice no início da receita). Mencionei os bigodes de Alice, o que me fez lembrar que Hemingway dizia que Gertrude Stein arrumada para sair se parecia com um general da Guerra de Secessão — e essas mulheres feias e improváveis permaneceram juntas desde que se conheceram até a morte de Gertrude em 1946, Gertrude escrevendo e Alice cozinhando.   

Edith Wharton

Edith Wharton chegou a Paris em 1909, mas, aristocrática, preferia a margem direita. Posso estar enganado (quase sempre estou enganado, dizem meus inimigos), mas creio que Wharton, apesar de ter escrito livros de viagem, não nos deixou suas lembranças de Paris. Já Sylvia Beach, que chegara à Europa em 1916, ficou amiga de Adrienne Monnier (seriam amantes depois), proprietária de uma livraria muito popular; Beach, então, decidiu abrir a sua própria livraria, só que para leitores de língua inglesa. Assim, em 1919 inaugurou a Shakespeare and Company, que faria história como ponto de encontro de escritores. Depois de uma passagem pela Rue Dupuytren, 8, Sylvia estabeleceu a livraria na Rue de l’Odeón, 12. James Joyce, nessa época já morando em Paris, precisava de um editor para “Ulisses” (a “Little Review” havia sido multada nos Estados Unidos por ter publicado “Ulisses” em fascículos). Beach então se ofereceu para publicar o livro, um ato de coragem, pois o clima a respeito do livro até levara o senador Reed Smoot a falar, no Senado dos Estados Unidos, que Joyce era “um homem de mente doentia e uma alma tão negra que seria capaz de obscurecer a escuridão do Inferno”. Joyce, depois da publicação de “Ulisses” em 1922 (ano em que a loucura do modernismo se condensou: além de “Ulisses”, houve “The Waste Land”, de T.S. Eliot, outro que andou passeando em Paris), passou a explorar Sylvia Beach: apesar de relativamente disciplinado, ele também era dado a bebedeiras com vinho branco e a gastos extravagantes, e sempre mandava as contas para a pobre Beach. Joyce chegara em 1920 a Paris, vindo de Trieste e Zurique — fora fazer uma visita de duas semanas e acabou ficando 20 anos. Para a alegria dos amantes de Paris, Sylvia Beach escreveu um delicioso livro de memórias que leva o nome da sua livraria. (Aviso aos meus quatro leitores: a “Shakespeare and Company” atual, famosa por causa do livro “Um Livro Por Dia”, de Jeremy Mercer, não é a mesma livraria de Sylvia Beach e é dirigida por outro expatriado, o centenário George Whitman.)

Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de La Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, nascido em 1881, havia ido à cidade pela primeira vez, em 1900, para a Exposição Universal; depois de mais algumas visitas, estabeleceu-se definitivamente em 1904, fez jus ao nome — um passaporte para o sucesso, sem dúvida — e revolucionou as artes plásticas nos intervalos de vários casamentos, ficando na França até a sua morte em 1973.

Um tipo estranho, Robert McAlmon, apesar do seu pouco interesse sexual pelas mulheres, casou-se com uma poetisa inglesa chamada Winifred Ellerman, que usava o pseudônimo Bryher e que, por sua vez, era amante da também poetisa H.D. (Hilda Doolittle), e partiu para a França em 1921. Ela era muito rica, e o casamento foi de conveniência, apenas para que pudessem levar a vida que queriam. Robert foi por isso apelidado de McAlimony (trocadilho em inglês com "pensão alimentícia"). No início, McAlmon talvez tenha sido o homem mais popular da margem esquerda: fazia amigos com facilidade, esbanjava o dinheiro do sogro, um magnata britânico, e era até mesmo seguido quando mudava de café. Entre 1922 e 1931, ele publicou livros de autores modernos na sua Contact Éditions, como Hemingway e Djuna Barnes. Mas McAlmon foi ficando amargurado com sua falta de sucesso como escritor e passou a beber e a desancar os amigos. Suas bebedeiras eram lendárias, e, como lhe sobraram poucos amigos, ele voltou aos Estados Unidos na década de 30, onde morreu esquecido em 1956. Escreveu “Being Geniuses Together”, publicado pela primeira vez em 1938, e no livro narra as suas memórias da década de 20, conseguindo a proeza de não ser amável com ninguém.
Man Ray era pintor autodidata, foi a Paris em 1921, envolveu-se com os dadaístas, virou fotógrafo — um dos grandes do século — e cineasta. Morou com Alice Pris, que, ao deixar a Borgonha, onde nascera, viveu no mundo da prostituição e das drogas e depois se tornou Kiki de Montparnasse e virou modelo de pintores e fotógrafos — era muito bonita e considerada uma espécie de rainha de Montparnasse. Kiki mais tarde escreveu um livro escandaloso de memórias, “The Education of a French Model”. Já Ray, que deixou Paris por causa da Segunda Guerra, acabou morrendo lá, em 1976, e está enterrado no Cemitério de Montparnasse. Publicou alguns livros, dentre eles um Self Portrait (e não sei se é uma autobiografia ou uma coletânea de fotografias de si mesmo).

Fitzgerald e Hemingway

Francis Scott Fitzgerald, já casado com Zelda e famoso por conta da publicação, em 1920, de “Este Lado do Paraíso”, foi a Paris dar uma olhada, mas ele e Zelda não gostaram muito do que viram e logo retornaram aos Estados Unidos, onde ele era cultuado. Mais tarde, de volta à cidade, Scott e Zelda alugam um apartamento no número 14 da Rue de Tilsitt, endereço no qual o nosso Guilherme Figueiredo, que escreveu um livro com esse título, também morou. Scott teve um primeiro encontro com Hemingway, no Dingo Bar, em 1925, tendo ficado muito bêbado. Alguns dias depois, os dois se encontraram na Closerie des Lilas e combinaram buscar um carro que Fitzgerald havia deixado em Lyon. Ele não apareceu na Gare de Lyon, e Hemingway embarcou só; no outro dia, Fitzgerald surgiu em Lyon um tanto bêbado. O carro não tinha capota, começou a chover e os dois escritores pararam então na estrada, e logo Fitzgerald ficou bêbado de novo. Alugaram um quarto de hotel, Fitzgerald convenceu-se de que estava morrendo e contou detalhes das traições de Zelda, o que enojou o durão Hemingway. Já em Paris, Hemingway leu “O Grande Gatsby”, e a leitura do livro o fez perdoar as maluquices de Fitzgerald (James Joyce também achou Fitzgerald um tanto maluco, pois o americano ameaçou pular de uma janela para comprovar a sua devoção pelo gênio irlandês). Zelda escreveu o semiautobiográfico “Save Me The Waltz”, e reflexões sobre os anos de loucura em Paris podem ser lidas no conto “Babilônia Revisitada” de Scott. Scott seguiu firme na vereda da biritagem profissional e morreu, em 1940, com 44 anos; Zelda morreu em 1948 num incêndio na clínica psiquiátrica na qual estava internada. (Outra curiosidade: o grande crítico Edmundo Wilson, colega de Fitzgerald em Princeton, esteve em Paris correndo atrás dos olhos violeta da escritora Edna St. Vincent Millay, mas, rejeitado, abandonou a cidade para sempre.)

Hemingway havia estado em Paris durante a Primeira Guerra, antes de seguir para a Itália para dirigir ambulâncias da Cruz Vermelha. Gravemente ferido, foi parar num hospital em Milão e lá se apaixonou pela enfermeira Agnes Hannah von Kurowski, mas ela, que de início correspondera ao amor, deixou-o por um duque italiano, com quem também acabou não se casando (história que está mais ou menos contada em “Adeus às Armas”). Assim, Hemingway e sua mulher Elizabeth Hadley também chegaram a Paris em 1921 (mesmo ano em que se casaram), recomendados por Sherwood Anderson, e se hospedaram inicialmente no famoso Hôtel Jacob et d’Angleterre (44 da Rue Jacob), e depois foram morar na Rue Cardinal Lemoine, 74, nas proximidades da Rue Mouffetard e da place de la Constrescarpe, onde o Café des Amateurs atraía clochards e beberrões. Para escrever, ele alugou um quarto na Rue Descartes, 39 (onde Verlaine morrera em 1896). Retornaram aos Estados Unidos para o nascimento do primeiro filho e logo voltaram a Paris, morando então na Rue Notre-Dame-des-Champs, 113, época em que Hemingway passou a escrever no La Closerie des Lilas. Quando não escrevia, lutava boxe com Ezra Pound e via corridas de bicicleta no Vélodrome d’Hiver (aquele que serviu de prisão para judeus durante a Segunda Guerra). Em 1923, McAlmon editou o primeiro livro de Hemingway, “Três Contos e Dez Poemas”, e em 1925 Hemingway foi à Espanha, daí nascendo “O Sol Também se Levanta”, no ano seguinte. Trocou Paris por Key West, já casado com Pauline Pfeiffer, em 1931, e passou a dedicar-se à literatura, às touradas, ao álcool e aos casamentos em série (na libertação de Paris dos nazistas, em 1944, Hemingway correu para salvar a adega do Ritz, o que conseguiu).

Em 1921, Djuna Barnes também apareceu por lá e logo foi morar num apartamento no boulevard Saint-Germain com a sua amante Thelma Wood, gravadora em metal que era alcoólatra e devassa — essa história inspirou de certo modo o seu livro “Nightwood”.

1922: entram em cena Harry e Caresse Crosby, que bebiam tanto que até o alcoólatra Robert McAlmon os desprezava por achá-los decadentes. Harry era sobrinho do magnata J.P. Morgan. Residiam na Île Saint-Louis e fundaram a Black Sun Press, na qual publicavam autores modernos. Posteriormente, passaram a residir num velho moinho nos arredores de Paris, onde Jean-Jacques Rousseau já havia morado, e lá faziam festas memoráveis: certa vez Caresse desfilou, com os seios à mostra, em cima de um elefante pelas ruas da cidade. Já de volta aos Estados Unidos, Harry, obcecado pela morte, matou-se em 1929. Caresse, que teve uma vida prolífica depois da morte de Harry, deixou uma autobiografia, “The Passionate Years”.

Josephine Baker, em 1925, dançou o espetáculo “La Revue Nègre” no Théâtre des Champs-Élysées: cobria-se apenas com plumas de flamingo e teve sucesso imediato. A turma da Revue seguiu viagem, mas ela foi para o Folies-Bergères. Pintava as unhas de ouro, passeava com uma cobra no pescoço ou com seu leopardo chamado Chiquita. Em 1975, comemorou seu Jubileu de Ouro no Bobino, também em Paris, e na plateia estavam Sophia Loren, Alain Delon e Grace Kelly. Foi um sucesso, mas seu coração não aguentou e ela entrou em coma no dia seguinte, morrendo dois dias depois. Sua canção de maior sucesso é um hino a Paris: “J’ai deux amours:/ Mon pays et Paris”.

A.J. Liebling

Em 1926, A.J. Liebling foi a Paris para estudar, mas parece que não se envolveu muito com os escritores da margem esquerda. Liebling fora mandado à cidade, por seu pai, para que estudasse na Sorbonne por um ano. Para forçar o pai a mandá-lo para lá, forjou uma história de que estaria envolvido com uma mulher dez anos mais velha e que seria mantida por um comerciante de algodão; o pai não pensou duas vezes e, rico que era, despachou o filho para Paris. Já na França, o futuro jornalista abandonou em duas semanas os estudos e gastou, nesse período, mais da metade de sua bolsa paterna anual; disse então ao pai que a coisa honrada a fazer seria voltar e casar-se com a mulher que provocava calafrios nele — e que, claro, não existia. Solução: o pai deu-lhe outra bolsa de duzentos dólares mensais, numa época em que um dólar valia 26 francos. Liebling, então, passou seu ano sabático instruindo-se em como comer do melhor modo possível, tornado-se um dos maiores glutões do século 20. Apaixonou-se pela cidade e voltaria muitas vezes depois (sua estada durou somente até 1927). Na “The New Yorker” ficou famoso, uma espécie de jornalista icônico: escreveu excelentes artigos sobre boxe e comida. Seus textos sobre Paris estão em “Fome de Paris”.
Também em 1926, a dançarina Isadora Duncan chegou a Paris. Duncan morreria na Riviera, quando experimentava um Bugatti de corrida; sentada no carro, disse “Adieu, mes amis, je vais à la gloirie”, o motorista ligou o motor, a écharpe prendeu-se nos raios da roda e quebrou o seu pescoço.

Kay Boyle

Kay Boyle, que havia desembarcado na França em 1922, finalmente chegou a Paris em 1928, entrando para a colônia de Raymond Duncan, irmão de Isadora, que vestia túnicas e dirigia uma comunidade supostamente inspirada nos ideais gregos, mas que servia apenas para a sua promoção pessoal (a contradição entre a aparência e as verdadeiras intenções ficava clara quando se percebia que, logo acima da mão de Raymond que segurava um cajado de pastor, havia um relógio Cartier). Quando Kay tentou ir embora, sua filha ainda bebê ficou de refém e teve de ser sequestrada por Robert McAlmon. Boyle escreveu inúmeros romances e livros de contos e morreu somente em 1992, provavelmente a última sobrevivente da Geração Perdida. E a belíssima Boyle também nos deixou as suas lembranças: ela intercalou capítulos seus nas memórias de Robert McAlmon, “Being Geniuses Together”.

Vê-se que Paris era realmente o destino dos norte-americanos de talento, e, como todo mundo que importava andou por lá, lembro aos meus três leitores outros nomes: Virgil Thompson, Harold Loeb, Ezra Pound, Sherwood Anderson, Gerald e Sara Murphy (Gerald, impressionado com Picasso e Braque, decidiu tornar-se pintor e foi uma espécie de antecipador da Pop Art; depois, ele e Sara foram para a Riviera, onde estabeleceram uma villa na qual gostavam de receber amigos — Fitzgerald inspirou-se nessa situação em ‘Suave é a Noite”), Ford Madox Ford, George Antheil (o seu “Ballet Mécanique”, obra para oito pianos, xilofones, sinos e diferentes percussões — e também motores de avião na versão completa —, teve a primeira audição em 1926, no Théâtre des Champs-Élysées, e foi um escândalo), William Carlos Williams, Langston Hughes, Alexander Calder (que chegou usando um terno xadrez laranja e amarelo), Henry Miller (que preferia a região de Clichy à Rive Gauche), John Dos Passos, Malcolm Cowley (também autor de um belíssimo livro de lembranças de Paris, “Exile’s Return”), Thornton Wilder, Janet Flanner (Flanner escreveu uma coluna sobre Paris durante cinquenta anos na “The New Yorker”, hoje reunida em diversos livros), William Shirer, Hart Crane, Archibald MacLeish e muitos outros.

Evidentemente, não havia somente americanos. Tristan Tzara também foi à grande festa parisiense e levou o movimento dadaísta. Os dadás se apresentaram pela primeira vez em Paris no Palais des Fêtes em 23 de janeiro de 1920, quando Tzara leu uma matéria jornalística como se fosse um poema e acompanhando-se com chocalhos e castanholas. Recebeu vaias e insultos —tudo o que queria. A partir daí, cada apresentação dos dadás passou a gerar balbúrdia, como aquela em que Tzara executou a “Symphonie Vaseline”. Os surrealistas, mais organizados, são filhos dos dadaístas.

Joan Miró

O espanhol Miró, após uma passagem anterior, estabeleceu-se novamente na cidade em 1921 em um estúdio na Rue Blomet. Lá se reuniam Miró, Picabia, Tzara, Michel Leiris, Jacques Prévert e Antonin Artaud — Tzara berrando que o cubismo era “uma catedral de merda.” Já em 1921, Miró mostrava alguns quadros na Galeria “Licorne, na Rue La Boétie — só que não vendeu nenhum.

E mais estrangeiros (não somente americanos, repito): Sergei Diaghilev (criador do Balé Russo), Stravinski (“A Sagração da Primavera” estreou em Paris, debaixo de vaias, em 1913, com coreografia até hoje imbatível de Nijinsky, e essa primeira audição foi recriada belamente no filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky”), Prokofiev, Katherine Mansfield, Chagall, Fujita, Samuel Beckett (começou a vida secretariando James Joyce), a pintora Nina Hamnett (que gostava de dançar nua em festas), Le Corbusier, o escultor romeno Constantin Brancusi (a Justiça americana teve de decidir, por causa de questões tributárias, se a sua escultura “Pássaro no Espaço” era ou não uma obra de arte). E os próprios franceses, também muitos, como, apenas para citar alguns, André Breton (que daria ao mundo, em 1924, o “Manifeste du Surréalisme”), Coco Chanel, Braque, Jean Cocteau, Colette, Antonin Artaud, Marcel Duchamp, Erik Satie, Radiguet.

A turma se embriagava, mas produzia. Havia as revistas: “Gargoyle”, “Broom”, “The Boulevadier”, “Tambour”, “transition”. O advogado americano John Quinn fundou “the transatlantic review”, que era editada por Ford Madox Ford, com a ajuda de Hemingway, e funcionava no Quai d’Anjou. Quinn esporadicamente financiou Pound e Joyce e foi o advogado que atuou na defesa da publicação de “Ulisses” nos Estados Unidos. Acabou perdendo a causa: imagino que fosse melhor mecenas do que advogado.

Cocteau e Radiguet

A farra acontecia em bares e restaurantes hoje cultuados (os artistas já tinham trocado Montmartre por Montparnasse). Havia o Bricktop’s, de Ada Smith, conhecida como Bricktop, que chegara a Paris em 1924 e fora cantar no Le Grand-Duc, onde Langston Hughes lavava pratos, e depois acabou abrindo a sua própria boate, frequentada por Cole Porter, Noël Coward, o príncipe de Gales, Fred Astaire, Aga Khan, Duke Ellington e gente desse tipo (Bricktop é outra que escreveu suas memórias). O inglês James Charters (“Jimmie, o Barman” — mais um que colocou no papel as suas lembranças) trabalhava no Dingo Bar, onde preparava um coquetel a base de conhaque, The Jimmie Special, que fazia com que algumas mulheres quisessem ficar nuas nos bares. O Le Sélect, de propriedade de Madame Sélect, sempre agressiva e pronta para uma briga, ficava aberto durante toda a noite. Jean Cocteau colocou o boi no telhado quando abriu a sua boate Le Boeuf sur le Toit (Cocteau era apaixonado por Raymond Radiguet, que publicara o seu “Com o Diabo no Corpo” com apenas 20 anos; quando Radiguet morreu, Cocteau passou a ser chamado de le veuf — viúvo — sur le toit). E, claro, os eternamente famosos — ainda estão lá — La Closerie de Lilas, Café du Dôme, La Rotonde (frequentado por Trotski e Lênin) e La Coupole (o Deux Magots e o Café de Flore só ganhariam fama, com Sartre e Simone de Beauvoir, na década de cinquenta). Também resiste o Polidor, onde o personagem de “Meia-noite em Paris” conhece Hemingway — era no Polidor que Alfred Jarry, no início do século, gostava de discutir Patafísica, “ciência das soluções imaginárias”. E ainda a Brasserie Lipp, onde Hemingway comeu pommes à l’huile acompanhadas de cerveja, famosa refeição que descreve em “Paris É uma Festa”. Por fim, depois dos excessos etílicos, os perdidos tentavam se encontrar sorvendo as famosas sopas de cebola de Les Halles enquanto assitiam aos trabalhadores do grande mercado parisiense descarregando carroças de alimentos.

Mas tudo o que é bom acaba: sic transit é a regra do jogo. Em 20 de fevereiro de 1931, houve um baile que foi uma espécie de fim dos anos 20. A editora de Georges Simenon (que fora amante de Josephine Baker) resolveu fazer uma festa para promover alguns livros seus: a farra chamou-se Bal Antropométrique e teve 400 convidados e o dobro de penetras. Acabada a festa, os anos 20 eram então passado e ainda não tinham se transformado em futuro. “Era uma vida sem sentido e boba”, escreveu Harold Stearns sobre os seus anos em Paris, “e sinto desde então sua falta todos os dias”. Eu também sinto, mesmo não tendo vivido entre literati em Paris.

Com a certeza de que cansei os meus dois leitores, cesso estas digressões. Mas não antes de dizer que estive em Paris algumas vezes, bem acompanhado, comme il fault, por uma mulher sensível e inteligente (e bonita, muito bonita), a maneira correta de ir à cidade. Havia eu, havia a mulher, havia o casal que formávamos, mas havia também a cidade: Paris está lá, com seus mais de dois mil anos de história, com a arte que gerou e que abriga, com a sua invenção dos restaurantes e museus, com o seu heroísmo durante a ocupação alemã, com as revoltas de maio de 68, com a sua festa móvel, com a sua eterna resistência (corram, corram para assistir no YouTube ao discurso de André Malraux recebendo o corpo do líder da Resistência no Panthéon: “Entre ici, Jean Moulin, avec ton terrible cortège...”, e corram também para ler a história de Dietrich von Choltitz, o general alemão que desobedeceu à ordem de Hitler para destruir Paris).

É hora de encerrar, pois encontrei um motivo para este texto e para todo esse name dropping ao estilo do pedante Paul Bates de “Meia-noite em Paris” (citei tantos estrangeiros que me dou conta de que há um livro a ser escrito sobre Paris e os brasileiros, como Villa-Lobos, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral). Este é o motivo: na verdade, há, sim, épocas melhores do que a nossa, como a Paris dos anos 20. Toda aquela bagunça gerou livros, filmes e pinturas (e também alcoolismo e suicídios, é claro), tudo o que parecia só uma farra resultou na arte que dominou o século 20, e Paris inspirou a todos que lá viveram. Mas não podemos reviver essas épocas douradas e por isso devemos iluminar a nossa com épocas anteriores. É isso que Woody Allen mostra, o seu carpe diem é um chamado para a vida presente, mas é também engrandecido pelo passado, tão esquecido nestes tempos em que o novo de hoje é o velho de amanhã: afinal, como disse Rick Blaine, sempre teremos Paris.

Marcelo Franco é promotor de Justiça.

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