Edição 2008 de 29 de dezembro de 2013 a 4 de janeiro de 2014
Conto
Divisa
“Acostumou-se desde sempre a encarar os jagunços nos olhos e foi assim quando o capitão desamarrou a corda que lhe prendia as pernas e mandou que corresse”
Artchive

Marcos Vinícius Almeida

Armados com punhais maiores que braços, as duas dúzias de jagunços sob o comando do Ba­rão de Abaité — com chumbo à farta e piedade de menos — iam empurrando a divisa da propriedade até onde o olhar fosse engolido pelo horizonte.

Açoitavam os escravos de olhos mais cansados, estupravam as mulheres de fracos maridos e bebiam e comiam sem pagar nas vendas e tavernas daquelas bandas. Era um horror. Mas ainda havia uma coisa que faria qualquer escravo bater os joelhos e urinar nas próprias vestes, uma única coisa que — pudesse intervir sobre a própria vida — o levaria a desejar o castigo mais cruel de um jagunço.

O filho mais velho do Barão havia mandado buscar três cães em Sevilha, depois de saber da fama de um mouro mestiço, organizador de rinhas, que desandou a cruzar muitas raças, até chegar a um tipo de cão que, como nenhum outro, equilibrava a fidelidade ao dono, sede de sangue e a força de um torniquete nas mandíbulas. Tratados a filé mignon e leite de cabra, era comum ouvir pelos corredores da Casa Grande que os animais dormiam sob os lençóis de Dom Albertino.

Uma vez por mês, sob a tutela do Barão, Dom Albertino escolhia um escravo que não prestasse mais ao serviço para participar de um jogo já tradicional naquelas terras. Após a missa, acompanhado do padre Elizeu e das carolas, tomava uma xícara de café enquanto o comandante dos jagunços buscava dois ou três escravos para o filho do barão escolher.

Enquanto os cães rosnavam sob as focinheiras, Dom Albertino fazia questão de encarar cada um e questionar ao capitão os defeitos dos escravos. O primeiro entre os três tinha as munhecas largas e as canelas finas, além de boa aparência. E o defeito só veio à tona quando, ao disparar um tiro às costas do escravo que, ao contrário da grande parte daquela gente, nem se moveu, o capitão fez questão de esclarecer: é surdo. Já o segundo, tratava-se de um preto velho que havia perdido as canelas em um acidente nas minas, ainda quando era jovem, e nos últimos tempos, adquiriu uma catarata cinzenta ao ponto de quase lhe impedir de fechar as pálpebras. Embora o capitão tentasse argumentar sobre a impossibilidade de utilizar o velho na lida, a Dom Albertino, e a maioria das pessoas ali reunidas, era evidente que o ar profético daquele velho escravo despertava certo receio no capitão, temeroso da reza e feitiços dos negros. Mas foi o terceiro escravo, de aparência saudável e músculos luminosos, a despertar grande interesse no filho do Barão. Parecia um dos melhores, desses homens prontos a erguer uma árvore nas costas e matar um boi aos murros.

Esse é refugado, disse o capitão. Acha que tem sangue de rei.

Dom Albertino deu sinal para que levassem os outros dois escravos e demorou-se a encarar o escolhido.

Pois não me parece — ergueu as mãos do sujeito ao ar, presas pelas grossas correntes — não há reis dessa cor.

Quando os risos cessaram, o escravo estava de costas para a fileira que havia se formado do lado de fora da casa. E mesmo que fosse lhe dada a chance, não precisaria olhar para trás e constatar as focinheiras caídas no chão para reconhecer seu destino. Ele conhecia o latido de lobos e havia ouvido o rangido de uma onça suçuarana quando perde um filhote e muitas histórias de seus antepassados em batalhas de mãos nuas contra feras e contra homens dos mais sanguinários. Mas a força de seus ancestrais — evocada e celebrada ao redor de fogueiras e as escondidas nas senzalas — esvanecia-se diante daquele som bestial agora à suas costas. Seu peito era empurrado para trás, como que pressionado por uma pedra que queimasse de tão fria, uma pedra resgatada de uma caverna onde a luz do sol nunca houvesse alcançado. E as estocadas cada vez mais violentas do seu coração, contra as costelas, lembravam a agonia de um passarinho que ele prendeu dentro das mãos, quando era menino, prendeu e segurou, segurou e apertou até o passarinho não mais se mexer. E os novilhos com as pernas amarradas e se debatendo com olhos virados em um lajeado tingindo de vermelho.

Acostumou-se desde sempre a encarar os jagunços nos olhos e foi assim quando o capitão desamarrou a corda que lhe prendia as pernas e mandou que corresse.

Enquanto as patas dos cães tentando escapar e as lambadas das cordas que os prendiam elevavam uma pequena nuvem de pó, Dom Albertino contemplava impassível o escravo avançar numa velocidade impressionante e abrindo caminho no peito através da plantação de mandioca que se estendia até à beira do rio. E a despeito da insistência do capitão, só quando o homem tornou-se apenas um vulto quase imperceptível no meio das plantas, Dom Albertino soltou os cães.

Partiram em debandada e levaram menos que a metade do tempo que o escravo levou para chegar à plantação. Iam arrastando com violência tudo que encontravam pela frente. A cadência daqueles latidos diminuiu aos poucos e os pés de mandioca não mais se mexeram exceto por aquele movimento natural do vento.

Dom Albertino deu sinal ao capitão que pegou três jagunços e vasculhou aquela terra toda e voltou com um riso amarelo e de mãos abanando. Já era noite, quando o bando todo e dessa vez liderado pelo próprio filho do barão e munidos com tochas e punhais e armas de fogo bem carregadas, cavalos e cachorros aptos e sedentos a caçar escravos fujões, esquadrinhou todo o terreno a exaustão e nada encontrou. E no dia seguinte ninguém trabalhou porque usaram também os escravos e outra vez vasculharam de uma ponta a outra e subiram o rio até a cachoeira e olharam em buracos e tocas de bichos e no alto de árvores. Dom Albertino pegou uns jagunços e foi às propriedades vizinhas e vistoriou ele mesmo cada metro quadro de cada senzala e encarou o branco dos olhos de escravo por escravo e nada encontrou.

E naquela noite, já consolado, Dom Albertino tomou um longo banho e foi se deitar. Mas então algo se mexeu debaixo dos lençóis. Ele tentou se virar quando sentiu uma picada e um ardor nas costas e ele gritou muitas vezes o nome do seu pai. O capitão foi o primeiro a entrar e passou a ponta da espingarda no lençol. Era um dos melhores atiradores do bando e eram sete as cobras escondidas no leito. Mas da senzala — o velho escravo cego, um dos únicos que sabia contar — contou oito, os tiros.

Marcos Vinícius Almeida é escritor.