37 anos
Edição 1862 de 13 a 19 de março de 2011
Cinema
Cisne branco versus cisne negro
“Cisne Negro” não é uma obra-prima, mas está longe de ser descartável
Fox Film Corporation

Herondes Cezar
Especial para o Jornal Opção

Intelectuais costumam torcer o nariz diante de filmes que simplifiquem questões complexas. Como se certos assuntos não pudessem ser tratados em linguagem cinematográfica acessível ao grande público. O filme “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky, aborda um tema próprio de consultório psiquiátrico, mas traduzido dramaticamente para o entendimento de gente comum. Embora venha encantando o público, o filme tem suscitado da crítica opiniões contraditórias.

É a história de Nina (Natalie Portman), uma bailarina delicada, meiga e imatura. Ela é assim por ter sido mimada pela mãe controladora e repressiva, uma ex-bailarina frustrada. Nina está em vias de interpretar, em um teatro de Nova York, o principal papel do balé “O Lago dos Cisnes”, que se divide em duas metades opostas: o cisne negro e o cisne branco.

Leroy (Vincent Cassel), coreógrafo do espetáculo, entende que Nina encarnará à perfeição o cisne branco. Mas tem dúvida se ela será capaz de interpretar o cisne negro, que requer a exteriorização do seu lado sensual, ou selvagem, reprimido pela educação materna.

A ingênua bailarina, que vislumbra no balé a realização de um sonho, acaba envolvida num terrível pesadelo. Às dificuldades do papel somam-se os ataques desencadeados por sua nova e invejável posição. A veterana primeira bailarina (Winona Ryder), afastada da companhia em razão da idade e substituída por Nina, agride-a verbalmente com a crueldade dos derrotados. Lily, uma bailarina novata mas safa, parece ter as qualidades que lhe faltam e, ainda, não disfarça que também quer interpretar os cisnes. Para completar, Leroy atinge-a no seu ponto mais vulnerável, assediando-a sexualmente.

A concorrente que tira o sossego de Nina, Lily, é uma garota avançadinha proveniente de São Francisco. O nome da sua cidade de origem é dito e repetido, de modo a chamar atenção para alguma particularidade que o público americano deve conhecer muito bem. A julgar pelo comportamento da personagem, admiravelmente interpretada por Mila Kunis, tudo indica que São Francisco é uma versão moderna das cidades bíblicas Sodoma e Gomorra. É pela ação dela que o erotismo penetra na história, e de forma escancarada.

O clima de competição, conflito e pressão desestabiliza o frágil equilíbrio emocional de Nina e, progressivamente, deteriora sua estrutura psíquica. Ela mergulha num processo delirante irreversível. O seu lado sombrio se manifesta, porém, sem que ela consiga manter o autocontrole, a energia maligna se volta contra a energia benéfica. O cisne negro acaba devorando o cisne branco.

Coerentemente com a dualidade temática, recorreu-se em vários momentos do filme às cores branco e preto para sinalizar o positivo ou o negativo. Isso, ao que parece, tem desagradado a muita gente. No entanto, é um recurso visual tão velho quanto o próprio cinema, que por décadas só podia contar mesmo com o bom e velho preto-e-branco. Esse recurso estético, aliás, é ainda mais antigo, como se observa na história da pintura. Não se trata, portanto, de aspecto em si condenável, que se possa alegar para definir a qualidade de um filme.

Dizem que Natalie Portman se preparou longa e exaustivamente para o papel e, para ter o físico de bailarina, emagreceu quase dez quilos. Também foi dublada, em várias cenas, pela bailarina Sarah Lane. Mesmo assim, quando teve de aparecer diante de uma bailarina de verdade, seus movimentos não são muito convincentes. Mas isso importa pouco, afinal de contas, porque certamente não existe no mundo uma bailarina capaz de interpretar tão bem quanto ela.

O filme não é, como se poderia pensar, sobre o balé “O Lago dos Cisnes”. Não é nem mesmo sobre balé. Este apenas fornece o contexto para o drama de uma personalidade débil que se dilacera entre as forças do bem e do mal da sua própria alma. Mesmo a música da dança não é a que Tchaikovsky compôs, mas uma variação dela, e bastante modificada. Mas, em última análise, fica demonstrado que a leveza e a graça do balé são construídas à custa de muito empenho, angústia e dor.

Um diálogo entre Leroy e Nina traz à baila um debate crucial para artistas ambiciosos. A bailarina pretende alcançar a perfeição mediante submissão à técnica e controle absoluto dos movimentos. Para o coreógrafo, isso não basta. Ele quer que ela se solte e ouse para atingir a transcendência. Neste particular, é bem possível que Leroy esteja sendo porta-voz de Darren Aronofsky, que, sem dúvida, comete seu tanto de ousadia. “Cisne Negro” não é uma obra-prima, mas está longe de ser descartável.

Herondes Cezar é crítico de cinema.