Edição 1873 de 29 de maio a 3 de junho 2011
Minicontos | Marcos Vinícius Almeida
Amor

Feito a escova de dentes que caísse, abandonada atrás da pia do banheiro, onde duas semanas depois, ele a encontraria com as cerdas esturricadas; primeiro surpreso, você esteve aí esse tempo todo, e depois, sem culpa, enfiaria no lixo, porque outra escova, nova e de melhor qualidade, estava guardada no armário.

Assimetria

Deixou o emprego de anos, sem avisá-la, entrou no ônibus e partiu para a cidade. Enquanto ele não conseguia dormir no ônibus, por causa dessa estranha mulher que não parava de falar sobre a reforma da casa, ela (na cidade, sem esperá-lo), sorria de consciência limpa, sentindo os pelos da barba de um outro homem entre suas pernas suadas.

Azul cobalto

Abaixou as calças até os joelhos, sem tirar os sapatos ou a blusa, deitado de lado na cama, e o sangue escorria do vazio dela para o ventre dele. Ele tirou, sujo de sangue e colocou atrás, devagar, e ela consentiu. Mas eram os olhos dela que ele queria ver, então puxou o cabelo, e reparou que eram os mesmos, iguais aos olhos do filho dela, pequeno, do qual ele era professor.
De volta à sua casa, e o marido não perguntou porque os cabelos dela estavam molhados, sentada no vaso enquanto o sangue ainda escorria, ela ouviu o marido tomar a lição do filho; o espelho a encarou e um arrepio frio subiu pelo corpo, mas ela não sabia explicar porque.

Cidade

Biscoito era bolacha, ou o contrário, e pegando o ônibus ao contrário seus olhos não reconheceram nem um palmo de chão. Estava com fome e enfiou-se na primeira lanchonete onde o mendigo, sujo, disse, que se pagasse um pastel, ele o ajudava a voltar. Os dois, perdidos, sentaram-se à mesa enquanto o cheiro de gordura velha enchia o ar.

Marcos Vinícius Almeida é escritor.