
Gabriel Innocentini
Especial para o Jornal Opção
Jorge Luis Borges: “Em todas as partes do mundo há devotos de Marcel Schwob, que constituem pequenas sociedades secretas”. Um dos mais dedicados é o catalão Enrique Vila-Matas, que transforma devoção em conspiração.
“História Abreviada da Literatura Portátil” (Cosac Naify, 2011) paga tributo ao influente, embora pouco conhecido do grande público, “Vidas Imaginárias” (1896, relançado pela editora Hedra também em 2011), no qual Schwob especulava fatos alternativos para personagens reais.
É deste método da invenção circunstancial que surge a ideia da literatura portátil, uma divertida trajetória de personagens célebres e esquecidos da vanguarda europeia do início do século 20.
Para Vila-Matas, contudo, não basta apenas inventar fatos insólitos em biografias históricas, é preciso organizá-las em sistema — a conspiração da sociedade portátil. Supostamente capitaneada por Marcel Duchamp, Walter Benjamin e Francis Picabia, entre outros, seu ideal é a criação de uma literatura que possa ser transportada em pequenas valises.
A maleta é o símbolo da mobilidade dos shandys, como se autodenominam, num tributo a Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Ela também aponta positivamente para o fragmento, a dispersão e o inútil, que, em combinação ao nomadismo shandy, vão desembocar na celebração “dos pesos leves da literatura”, no apreço ao que é único, irrepetível e à transformação incessante.
Para que a portabilidade seja alcançada exige-se: o exercício do celibato (para que nada distraia os conspiradores de seu projeto), a simpatia pela negritude, o cultivo do “relâmpago da insolência” (o escândalo do Desconcerto como “fonte inesgotável de novas e estimulantes sensações”) e o odradek (duplo sombrio, espécie de doppelgänger demoníaco que fascina e apavora os “alegres, loucos e volúveis” conspiradores).
Vila-Matas elege como uma de suas figuras centrais o vanguardista russo Andrei Biéli, autor dos versos: “Eu/estou nas palavras/ tão morbidamente/ mudo:/ minhas sentenças são/ máscaras”. O disfarce da irreverência cosmopolita não abafa os ruídos de solidão e suicídio presentes no grupo shandiano.
A conclusão indica que os melancólicos são os únicos capazes de ler o mundo, pois estão obcecados com a morte. Vem daí o fetiche shandiano com badulaques e penduricalhos: porque os objetos concretos estão mortos, como o passado, podem ser compreendidos.
Essa predileção por miniaturas está encravada na própria ideia de conspiração: para compreender os pequenos objetos é preciso decifrá-los. Mais importante do que o próprio significado dos códigos é a sua criação. Os conspiradores fazem lembrar o projeto mallarmaico de que “o mundo existe para terminar num livro”. Portátil, de acordo com as “máquinas celibatárias”.
Aos leitores e traidores da sociedade secreta shandiana cabe tentar decifrar seus códigos - não por causa do seu sentido final, se é que existe, mas para divertir-se com a tarefa, se o odradrek permitir enquanto o desenlace fatal não chega.
Um dos pontos de partida para pensar a obra de Vila-Matas pode ser a declaração do poeta Stéphane Mallarmé numa conferência em Oxford, um século e um ano antes da publicação de “História Abreviada da Literatura Portátil” (1985): “Sim, na verdade, a Literatura existe, e se você quiser, só existe Literatura, com a exclusão de tudo o mais”.
Com seu fetiche pela literatura, seu estilo fragmentário, leve e ligeiro, o projeto literário de Enrique Vila-Matas irá se tornar cada vez mais radical a partir deste ideal de literatura portátil: haverá a extinção da escrita (os habitantes do Labirinto do Não em “Bartebly e Companhia”), a histeria ficcional da máquina metaliterária como reação ao silêncio (“O Mal de Montano”) e por fim a extinção do próprio indivíduo (“Doutor Pasavento”).
No site do autor (http://www.enriquevilamatas.com), um dos mais completos e instigantes de um escritor contemporâneo, é possível ler uma “versão dissidente” de “História abreviada da literatura portátil”.
Gabriel Innocentini é jornalista.