34 anos
Livros
A extinção da escrita
“História Abreviada da Literatura Portátil”, de Enrique Vila-Matas, é uma espécie de porta de entrada para a obra do autor catalão. Para o autor não basta apenas inventar fatos insólitos em biografias históricas, é preciso organizá-las em sistema
theguardian

Gabriel Innocentini
Especial para o Jornal Opção

Jorge Luis Borges: “Em todas as partes do mundo há devotos de Marcel Schwob, que constituem pequenas sociedades secretas”. Um dos mais dedicados é o catalão Enrique Vila-Matas, que transforma devoção em conspiração.

“História Abreviada da Literatura Portátil” (Cosac Naify, 2011) paga tributo ao influente, embora pouco conhecido do grande público, “Vidas Ima­ginárias” (1896, relançado pela editora Hedra também em 2011), no qual Schwob especulava fatos alternativos para personagens reais.

É deste método da invenção circunstancial que surge a ideia da literatura portátil, uma divertida trajetória de personagens célebres e esquecidos da vanguarda europeia do início do século 20.

Para Vila-Matas, contudo, não basta apenas inventar fatos insólitos em biografias históricas, é preciso organizá-las em sistema — a conspiração da sociedade portátil. Supostamente capitaneada por Marcel Duchamp, Walter Benjamin e Francis Picabia, entre outros, seu ideal é a criação de uma literatura que possa ser transportada em pequenas valises.

A maleta é o símbolo da mobilidade dos shandys, como se autodenominam, num tributo a Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Ela também aponta positivamente para o fragmento, a dispersão e o inútil, que, em combinação ao nomadismo shandy, vão desembocar na celebração “dos pesos leves da literatura”, no apreço ao que é único, irrepetível e à transformação incessante.

Para que a portabilidade seja alcançada exige-se: o exercício do celibato (para que nada distraia os conspiradores de seu projeto), a simpatia pela negritude, o cultivo do “relâmpago da insolência” (o escândalo do Desconcerto como “fonte inesgotável de novas e estimulantes sensações”) e o odradek (duplo sombrio, espécie de doppelgänger demoníaco que fascina e apavora os “alegres, loucos e volúveis” conspiradores).

Vila-Matas elege como uma de suas figuras centrais o vanguardista russo Andrei Biéli, autor dos versos: “Eu/estou nas palavras/ tão morbidamente/ mudo:/ minhas sentenças são/ máscaras”. O disfarce da irreverência cosmopolita não abafa os ruídos de solidão e suicídio presentes no grupo shandiano.

A conclusão indica que os melancólicos são os únicos capazes de ler o mundo, pois estão obcecados com a morte. Vem daí o fetiche shandiano com badulaques e penduricalhos: porque os objetos concretos estão mortos, como o passado, podem ser compreendidos.

Essa predileção por miniaturas está encravada na própria ideia de conspiração: para compreender os pequenos objetos é preciso decifrá-los. Mais importante do que o próprio significado dos códigos é a sua criação. Os conspiradores fazem lembrar o projeto mallarmaico de que “o mundo existe para terminar num livro”. Portátil, de acordo com as “máquinas celibatárias”.

Aos leitores e traidores da sociedade secreta shandiana cabe tentar decifrar seus códigos - não por causa do seu sentido final, se é que existe, mas para divertir-se com a tarefa, se o odradrek permitir enquanto o desenlace fatal não chega.

Um dos pontos de partida para pensar a obra de Vila-Matas pode ser a declaração do poeta Stéphane Mallarmé numa conferência em Oxford, um século e um ano antes da publicação de “História Abre­viada da Literatura Portátil” (1985): “Sim, na verdade, a Literatura existe, e se você quiser, só existe Literatura, com a exclusão de tudo o mais”.

Com seu fetiche pela literatura, seu estilo fragmentário, leve e ligeiro, o projeto literário de Enrique Vila-Matas irá se tornar cada vez mais radical a partir deste ideal de literatura portátil: haverá a extinção da escrita (os habitantes do Labirinto do Não em “Bartebly e Companhia”), a histeria ficcional da máquina metaliterária como reação ao silêncio (“O Mal de Montano”) e por fim a extinção do próprio indivíduo (“Doutor Pasavento”).

No site do autor (http://www.enriquevilamatas.com), um dos mais completos e instigantes de um escritor contemporâneo, é possível ler uma “versão dissidente” de “História abreviada da literatura portátil”.

Gabriel Innocentini é jornalista.